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October 23, 2011

Curitiba anda de ré, e contra as bicicletas


 
 
Pouco depois do então prefeito de Curitiba Beto Richa (PSDB) inaugurar sua controversa Linha Verde, um leitor do blog, que é também ciclista e participa de movimentos pró-ciclismo, relatou a morte de um amigo por um ônibus articulado. O amigo tomou parte de seu caminho numa das canaletas da Linha Verde, quando então foi atropelado pelo ônibus. Ele morreu - eventualmente poderia ter sido eu ou o prezado leitor.
 
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October 18, 2011

Sob o sol do Brasil


Gravura de Käthe KollwitzPassa mal. Vai ao hospital. O caso é grave e o encaminham à UTI. Ali permanece por algum tempo. Então recebe alta, os médicos dizem que já está bom e pode voltar para casa. Da UTI direto para casa? A família é humilde, pergunta "mas não seria melhor ficar um pouco mais no hospital?" Como de costume, gente humilde não merece explicações técnicas. Os médicos não explicam o caso e, com a costumeira autoridade, dispensam o paciente ("deve ser assim mesmo no hospital", racionalizam os familiares). Chegando em casa ele só faz piorar. Mas se a própria UTI o dispensou… É de noite. A situação se agrava cada vez mais. De manhã volta ao hospital, mas não dá tempo.
 
"É sempre assim", dizem alguns. Entre os que se resignam e os que se revoltam, aquelas notícias soltas de jornal ("pareciam tão distantes…") de repente batem à porta.
 
***
 
E por falar em notícias de jornal…
 
 Bombeiros fazem boca-a-boca em cão após tirá-lo de incêndio nos EUA
 
Caso ocorreu em Wausau, no estado do Wisconsin. Coda, de 7 anos, ganhou beijinho da dona, foi tratado e passa bem.

October 13, 2011

Brasil, Occam


 
 
A enfermeira deixa o vidro de formol na estante de medicamentos. Os vidros são semelhantes. De repente chega um paciente com necessidade de injeção. É medicado, mas tem reações adversas e morre. O que ocorreu? Por sorte, dessa vez houve investigação e dessa vez ela descobre o motivo: foi o formol, ele não deveria estar ali.
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Quem não gosta de grevistas? (2)


 
Alguém colocou a foto ao lado numa rede social, com a legenda "ele não roubou nem matou, apenas luta por uma educação de qualidade!"
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October 12, 2011

Quem não gosta de grevistas?


Os dois cartazes acima trazem consigo incríveis histórias.

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October 11, 2011

Curitiba e seu tráfego de influências


Mais uma para a série: o curitibano, adepto dos governos "tecnocratas" e "saneadores" do PSDB, não gosta de continuidade no governo (apesar de mantê-la há décadas) e de nomeações espúrias.
 
Pois bem, Curitiba foi nomeada "cidade resiliente" em uma recente pesquisa na gringolândia. Cidade "resiliente" é aquela "empenhada em retornar a seu estado de equilíbrio ecológico após passar por intenso processo de urbanização".
 
Por que Curitiba seria "resiliente"? Ora, tudo se deve ao trânsito e ao transporte público. Eles ocasionam o "retorno" da cidade a certo "estado de equilíbrio ecológico", certo?
 
A considerar as palavras do prefeito Luciano Ducci, errado. Curitiba, segundo ele, tem 1140 carros novos por semana nas ruas. Isso (ainda segundo ele) obriga a criação de uma nova secretaria, agora de "trânsito". URBS, Diretran, IPPUC e outras instituições já existentes não dão conta de planejamento e fiscalização, é preciso uma secretaria só para o planejamento.
 
Critérios técnicos para deixar a cidade resiliente (que paradoxalmente obriga, incita, ocasiona a compra de 1140 carros semanais) mais resiliente, certo? Então por que há quem diga que os técnicos serão… políticos indicados do PPS?

October 10, 2011

Arquitetura do desperdício


Não sou profundo conhecedor da obra ou das idéias de Bautista Vidal, mas uma de suas idéias mais básicas poderia ser uma espécie de ultraje jogado contra nós mesmos, se considerarmos o quanto ela é correta e não aplicada: a disponibilidade (e o não aproveitamento) da energia solar no Brasil. 
 
É incrível, fabuloso, ultrajante, inominável vermos tantas cidades Brasil afora com arquitetura e urbanização feitas para desperdiçar energia (hidrelétrica) e água disponível sem aproveitar nada do sol.
 
Pelo contrário, além de não aproveitarmos e desperdiçarmos, retroalimentamos o sistema e agravamos ainda mais o desperdício, do jeito que construímos nossas ruas e casas
 
"Cidade", para muita gente, significa ruas asfaltadas, calçadas praticamente inexistentes, ausência de árvores e plantas, concreto e laje na casa inteira (sem gramado, árvore, jardim etc.), muros altos e - horizonte regulador eterno - ar condicionado ou ventilador pra todo lado. 
 
Multipliquemos o modelo acima por milhões e… resultado: somos capazes de privação de energia elétrica ou abastecimento de água no país mais ensolarado e bem servido de água do mundo. Sem contar o calor quase insuportável das regiões lajeadas.
 
Desse contexto a soluções simples, triviais, quase ridículas como o "watercone", vê-se o caráter ultrajante da idéia acima sobre o aproveitamento do sol.
 
 
 
O watercone é apenas um cone de vidro invertido que, com a luz do sol, direciona a água evaporada e então condensada para um reservatório. No modelo acima, para servir a água basta virar a parte superior do cone do avesso. Conforme os divulgadores, um desses em local ensolarado pode render 3,5 litros diários.
 
Sem muita dificuldade dá para pensar em pequenos mecanismos acoplando três ou quatro cones em telhados ou quintais para produzir e armazenar água potável diariamente e de modo automático. Uma pequena bomba traz a água a ser purificada, um pequeno tanque armazena a água pura, células fotovoltaicas e gravidade fazendo o serviço de transportar a água…
 
Enquanto isso, comenta-se que nesse verão o preço do caminhão-pipa subirá. ;)

September 26, 2011

O Cordel e seus encantamentos


Nos últimos dias a Globo tentou dar alguns lances de cordel nordestino.

O desfecho de "Cordel do Fogo Encantado", última novela da Globo, foi muito interessante. Não propriamente a respeito de algum mérito narrativo ou artístico, mas sim nesse aspecto cotidiano e um pouco monótono da tradição das novelas brasileiras e seus encantamentos enviados ao povo.

A novela é sobre um cordel e encerrou com diversos cordelistas consagrados do nordeste, declamando algo parecido com o enredo dos últimos meses (o que é um belo gesto e quase lembrou da época em que havia algum esforço por adaptação, digamos, mais fiel a obras do que a audiências, como em O tempo e o vento). Mas antes disso, a última cena foi digna de atenção. Os mocinhos da novela - um grupo de amigos e parentes - certamente passou os mesmos últimos meses brigando com um coronel, que desapareceu ou foi morto (provavelmente nos capítulos finais).

O coronel devia ser realmente ruim. Tão ruim que, mesmo depois de morto, conseguiu não deixar os mocinhos em paz. No último lance eles seguem à fazenda desocupada do coronel, quando encontram um mancebo mal encarado. Ele apresenta documentos comprovando a posse da terra e manda todos embora. Então, junto com o personagem de Mateus Nachtergaele, os mocinhos comentam (parafraseio): "vamos embora, não temos o que fazer aqui. O mal sempre retorna, não importa o que se faça. Mas o importante é que somos um grupo e temos um ao outro".

Vale repetir: as injustiças vêm e vão, mas… somos felizes e nossa ação importa na medida e na proporção mesma em que "temos um ao outro".

Não muito longe do assunto, ontem o "Fantástico" apresentou outro tema de cordel: um velho Sr. possui mais de 50 filhos, isso sem considerar os "não contabilizados" espalhados pelo mundão. Como conseguiu? Revezando esposa e cunhada (quando não a sogra). Alguns comentadores então disseram: é a "sociedade coronelista", "machista" etc.. Ele mesmo tinha a resposta na ponta da língua: não fiz com ninguém que não quis.

 

Vale mencionar outro caso, também reduzido ao puro conteúdo individual, passional (candidato a um cordel?): uma amante manda matar a esposa e oferece mil reais. Recordando que era amigo de infância da mulher, o assassino decide simular sua morte, afinal não é sempre que se ganha 1000 reais, certo? Ele tira uma foto da mulher cheia de Ketchup com uma faca junto ao braço. Foto feita, valeu o prêmio. Dias depois a "morta" reaparece ao lado do marido, criando o maior escândalo. O caso renderia prisões ou maiores consequências? Conforme o delegado, não passou de um lance de humor pastelão. Afinal, valeu a sorte: a possível vítima era amiga de infância do assassino - este, o verdadeiro dono do destino da estória. Ufa!

Entre os amigos que enfim "têm um ao outro", as famílias criadas ao bel querer de certos caprichos e o destino individual controlado por assassinos de mil reais, não seria inútil lembrar de Lampião. Mesmo vivendo no mesmo universo acima, outra é a narrativa sobre ele. Cada cordel tem seu "encantamento", mas outro é o poder de simpatia de Virgulino. Os cordéis não contam suas presepadas, mas suas peripécias. O estatuto de seus atos e o próprio raio de ação são diferentes e contam outras virtualidades. Diante de sua peixeira teme o coroné, o policial, o patriarca, o assassino… e até o diabo:

 Lampião disse: vá logo
quem conversa perde hora
vá depressa e volte já
eu quero pouca demora
se não me derem ingresso
eu viro tudo as avesso
toco fogo e vou embora.

O vigia foi e disse
a Satanás no salão:
saiba vossa senhoria
que aí chegou Lampião
dizendo que quer entrar
e eu vim lhe perguntar
se dou-lhe ingresso ou não.

- Não senhor, Satanás disse
vá dizer que vá embora
só me chega gente ruim
eu ando muito caipora!
eu já estou com vontade
de botar mais da metade
dos que tem aqui pra fora.

- Lampião é um bandido
ladrão da honestidade
só vem desmoralizar
a nossa propriedade
e eu não vou procurar
sarna pra me coçar
sem haver necessidade.

September 23, 2011

Curitiba, “cidade resiliente”


 
 
De acordo com o Blog Empresa Verde, fez-se uma pesquisa na gringolândia na qual se delimitou Curitiba como a segunda cidade mais resiliente do mundo. Por cidade "resiliente" entende-se "aquela empenhada em retornar a seu estado de equilíbrio ecológico após passar por intenso processo de urbanização". Segundo o blog, "pesou" muito na decisão a implementação do biarticulados e ligeirinhos, décadas atrás. 
 
Um olhar atento (ou nem tanto, convenhamos) sobre Curitiba mostra como essa decisão é surpreendentemente estranha, a começar pelo "décadas atrás".
 
Em primeiro lugar, todas as medidas predominantes nos últimos tempos (década[s]?) foram, quando muito, paliativas: a qualidade do transporte público decaiu na mesma medida em que Curitiba passou a possuir a maior frota do Brasil por habitante, dois carros para cada três pessoas. Muitas linhas retiraram cobradores e diminuiram o tamanho dos ônibus (quando não a própria frequência). E - o que é importante e decisivo - o crescimento da "malha" não acompanhou a demanda, criando um contra-efeito nocivo e nem um pouco resiliente: a migração, de quem tem condições, aos carros.
 
Vale repetir: a política de transporte de Curitiba, durante os últimos governos, tem feito sistematicamente o usuário migrar para o carro, e não deixá-lo na garagem em virtude de uma evolução do transporte. 
 
 
 
Isso sem contar as novas demarcações nas ruas, convertidas sistematicamente para um sentido único. Ou ainda a conversão de faixas de estacionamento em novas vias. Tudo converge em um nome: carro.
 
Se a pesquisa aponta a cidade mais resiliente, é estranho considerar o que Curitiba não é. Pode ter sido um dia, mas quem vive de passado é museu e as últimas prefeituras nem de longe atualizaram o que um dia foi motivo de elogio (dentro de alguns lampejos cujo olhar de qualquer historiador verá que se articulam com propósitos ainda não bem esclarecidos…).
 
Isso sem contar a largura das principais vias da cidade. Se os prefeitos das primeiras décadas do século passado não pensassem em criar vias largas…

September 14, 2011

Sobre quem constrói o mundo e suas visões


"A visão de mundo mais perigosa é a visão de mundo daqueles que nunca viram o mundo". Alexander von Humboldt (14.9.1769–1859)

Postado por andrevallias

"É coisa de quem sai pouco do próprio bairro"

, afirmou Sylvia Colombo na FSP, sobre o infeliz lançamento do "Guia do Politicamente Incorreto da América Latina"

"What do you expect?" the gardener asked me near the ruins of the old royal winter palace in Jalalabad. "The Taliban came from the refugee camps. They are giving us only what they had." And it dawned on me then that the new laws of Afghanistan - so anachronistic and brutal to us, and to educated Afghans - were less an attempt at religious revival than a continuation of life in the vast dirt camps in which so many millions of Afghans had gathered on the borders of their country when the Soviets invaded 16 years before. 

Essa é de Robert Fisk, em A Grande Guerra pela Civilização/Great War for Civilization (passagem ampliada).

Variações que remontam a… 2500 anos? Durante o governo Bush, um assessor de alto escalão disse a um jornalista do NYT: 

O mundo não funciona mais assim. Somos um império agora, e quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto vocês estudam essa realidade - judiciosamente, como queiram -, agimos novamente, criando outras novas realidades, que vocês podem estudar também, e aí está como as coisas serão. Somos os atores da história… e vocês, todos vocês, apenas ficarão estudando o que nós fazemos. 

Já as versões tupiniquins sempre têm seu coeficiente próprio de arretância. Essa de Nelson Jobim - ainda fresquinha - superou todas as expectativas. Segundo ele, o Código Florestal não precisa tratar do futuro,

"pois estaremos todos mortos" 
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