September 29, 2007

Terra, escravidão e blogs

Escravidão existe no Brasil? Em um país como esse, em que a informalidade reina em maior ou menor nível até sobre as instituições, aí está um lugar onde a escravidão continua possível, e provável. 

O blogueiro Leonardo Sakamoto foi ameaçado de ser processado pela senadora Katia Abreu (PFL DEM-TO) a respeito de algumas insinuações de que ela apoiaria grandes proprietários de terra, e de quebra, indiretamente algumas práticas de escravidão.

Em uma entrevista com a senadora Abreu, destaco a passagem:

Nunca vi trabalho escravo no Brasil. Tem de diferenciar o que é irregularidade trabalhista e trabalho degradante, coisas erradas, da escravidão.”

Ora, o que isso quer dizer? Para além da opinião da senadora, há a evidência discursiva:  existe sim uma grande confusão entre irregularidade trabalhista e trabalho degradante. Isso para não falar da escravidão. Se a confusão já provém do nível formal "irregularidade trabalhista", o que não dizer dos trabalhos informais?

Deixando a questão acima provisoriamente em suspenso, a discussão atual é: a bancada ruralista do senado afirma ter encontrado "irregularidades" na fiscalização do trabalho escravo. A Comissão Pastoral da Terra, em contrapartida, acusa que tal procedimento do senado busca obstruir a atuação da fiscalização móvel, precisamente pelas ligações de senadores a grandes "empreendimentos" de agronegócio. O affair Sakamoto encontra seu sentido nesse contexto atual, como se vê em sua resposta.

Retornando à questão, as definições devem ser feitas: trabalhar de modo que cada vez mais o "funcionário" seja mais dependente do trabalho, recebendo menos do que gasta, e devendo cada vez mais aos "empregadores", isso é irregularidade trabalhista e trabalho degradante. Mas não deixa de ser trabalho escravo

Para quem quer tirar a dúvida, a CPT publica todo ano um relatório sobre escravidão e violência no campo, no Brasil. Obstruir a fiscalização móvel pelo argumento de que estaria cometendo excessos precisamente por denunciar, isso soa bem estranho.

September 24, 2007

Tropa de Elite, osso duro de roer

img146/4218/posterod6.jpgO atual affair dos supostos livros didáticos "bolcheviques" brasileiros (que "manipulariam" a "alma" de "nossas crianças"), deixou mais uma vez escancarada uma idéia um tanto trivial: de que certas figuras do jornalismo brasileiro são no mínimo precipitadas para julgar o que julgam; que o rigor do julgamento não corresponde ao rigor da apuração dos dados; e que enfim, nada mais fazem do que apoiar sua suposta competência nas posições que ocupam. Escrever com mínimo rigor, que é bom…
 
Tropa de Elite não passou desapercebido por alguns desses pseudo jornalistas, intelectuais, blogueiros e "filósofos" (muitas aspas!). Não passou desapercebido, mas segundo o princípio exposto acima: muitos foram enfáticos em criticar negativamente aquilo que nem chegaram a ver.
 
Afora a violência exacerbada, e toda a montagem que se assemelha muito a filmes "da moda", Tropa de Elite tem uma série de boas idéias desenvolvidas. Se o crítico não conceder que o enredo é bom, não há como negar que o filme é bom nas entrelinhas. Por mais que o espectador possa em alguns momentos recair nos velhos hábitos de enxergar mocinhos e bandidos, o filme escancara aquilo mesmo que ocorre: uma guerra de fato, numa sociedade civil de direito; a "merda com chip´s" (a melhor expressão de Arnaldo Jabor, em toda uma carreira de duvidosas expressões) convivendo em um mesmo regime de relações com "nós, da classe média e média alta" (portanto, "nossos" modos de vida são flagrantemente comprometidos com esses outros, desprivilegiados); a corrupção generalizada e sua tênue fronteira com o "jeitinho brasileiro"; e a crônica confusão entre as esferas pública e privada.
 
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August 4, 2007

Esses não cansaram

Vi esse no Josias, e depois no Hermenauta:


Depois, vi o comentário abaixo, e resolvi postar:

Agora me digam: E se um pedreiro que está passando na hora resolve revidar e jogar um PEDREGULHO na fuça deles? O que aconteceria?

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August 1, 2007

Quando a Globo apóia uma greve

Nos idos de 1998/1999, quando Jaime Lerner era governador do Paraná, uma grande mobilização do MST tomou conta do jardim em frente ao Palácio Iguaçu. Ficaram vários meses por lá, com reivindicações, buscando negociar com o governo. Até, da noite para o dia, o acampamento "sumir".
 
Dentre os vários eventos, houve uma marcha que reunia pessoas do Paraná inteiro. Boa parte das pessoas vieram de suas cidades andando. Chegando em Curitiba, a multidão se "afunilou", e criou uma longa fila, seguindo até o Palácio.
 
A fila seguia o estilo das Romarias da Terra: são eventos da Igreja Católica que reunem assentados em uma grande procissão.  
 
À noite, veio a manchete, que lembro até hoje: "MST atrapalha o trânsito em Curitiba". Enquanto a multidão passava, os jornalistas entrevistavam os motoristas: "são um bando de vagabundos, que não tem o que fazer, e ficam atrapalhando o trânsito"; "enquanto esses desocupados passam, ficamos aqui, esperando", e coisas do gênero. Na reportagem, nada sobre a marcha, como se o único objetivo dela fosse mesmo atrapalhar. Ou estavam lá para isso - o que é um absurdo -, ou os jornalistas não tinham o mínimo interesse em dar voz ou razão à passeata.
 
Moral da história: estranhos desígnios fazem um jornalista cobrir um fato apenas indiretamente. 
 
É o que lembrei hoje, a partir de outra reportagem do Paraná TV (da Rede Globo). A respeito da greve dos professores de universidades estaduais, o tom foi nitidamente, e de modo incrível, de neutro a favorável! Um pouco diferente de outra greve, mostrada na mesma edição.
 
Mas espere aí, a Globo apoiando uma greve? Não tem algo errado? Ah, sim, mais um episódio da ‘açouguística’ briga entre a RPC e o governador Requião ;)  

July 31, 2007

Etanol, as florestas, e a esfera pública

Formulamos, em vários momentos, uma hipótese: a de que a grande confusão existente no Brasil entre as esferas pública e privada cede lugar, também, a uma certa impossibilidade de mudança de modelos no Brasil. Dado que um sistema de leis, por exemplo, não funciona por aqui, pouco se aproveita caso tais leis sejam mudadas.
 
Isso por um motivo bem simples: o funcionamento das "leis" não é o que está verdadeiramente em questão; o problema não está (ou não está apenas) na coerência das leis, mas em sua aplicação. Desde a legislação ambiental, às questões agrárias, trabalhistas, e tributárias, encontram sempre uma espécie de barreira para serem efetivamente realizadas. Essa barreira, conhecemos bem, e é um misto de malandragem com ausência de fiscalização.
 
Em suma, Lei não fiscalizada, não aplicada, não é Lei. E pouco importa, a partir daí, buscar outros modelos.
 
Nesse tipo de interrogação residem também os problemas da produção do Etanol. É o que veio lá da gringolândia:

Um analista da fundação Conservation International, baseada nos EUA, disse ao jornal [Washington Post] que a taxa de desflorestamento do cerrado é mais alta que da Amazônia, e que se o ritmo for mantido toda a vegetação que caracteriza o centro-oeste do país poderia desaparecer até 2030.

"O governo brasileiro e grandes companhias de agronegócio dizem que a expansão da soja e da cana-de-açúcar não necessariamente significa devastação do cerrado, onde vivem cerca de 160 mil espécies de animais, muitos em perigo de extinção", diz o Post.

"Eles dizem que plantam em terras degradadas e pastos abandonados, melhorando a qualidade e a produtividade do solo."

"Mas grupos ambientais argumentam que, à medida que a soja e a cana-de-açúcar substituem a pecuária e colheitas menos lucrativas, os fazendeiros penetram em áreas virgens do cerrado."

Em outras palavras, o Brasil vive um grande boom da produção de Biocombustíveis, diante de um mercado mundial ainda não definido. Como ocorre também na Reserva do Xingú, essa confusão entre aplicação de novas práticas agrárias, e ausência de fiscalização, resulta em desmatamento e no avanço desenfreado dos gigantescos empreendimentos de agronegócio. Novamente, a questão: uma prática ainda não plenamente desenvolvida esbarra com a legislação ambiental. Mas qualquer Lei ou fiscalização não é efetivamente aplicada.

Como solução, a outra parte do artigo mencionado mostra outro tipo de sugestão:

Em outra reportagem sobre o meio ambiente no Brasil, o The New York Times afirma que o Brasil está "alarmado" com indicadores de que a mudança climática já causa efeitos na Amazônia, e que por isso o governo Lula já demonstra flexibilidade nas negociações internacionais sobre o tema.

Tradicionalmente "desconfiado do envolvimento estrangeiro em sua gerência da Amazônia, que enxerga como um problema doméstico", o país passa a encarar com mais simpatia mecanismos de mercado que poderiam evitar o desflorestamento, diz o correspondente do jornal.

Para o governo brasileiro, a alternativa mais palatável para evitar a perda da área de floresta seria um mecanismo em que doações fossem feitas a um fundo administrado em Brasília.

Em suma, o discurso é: deixemos a iniciativas mistas ou privadas aquilo mesmo que a esfera pública não consegue gerir. Mas o interessante, nisso tudo, é interrogar a palavra "consegue". Como assim, a esfera pública não consegue gerir aquilo mesmo que determina sob leis ambientais? Como, então, ela determina? A criação de Leis não é correlata ao desenvolvimento de mecanismos que as aplique?

Não se deixa, diante disso, de ter a impressão: o próprio poder de gerir, em algum momento, opta pela incapacidade de gestão.

tags: biocombustiveis etanol bush lula publico privado alcool soja cana amazonia xingu

July 25, 2007

Como obter um emprego público na mamata

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Diante de recentes denúncias da putaria dos Cargos Comissionados, no Paraná, não custa montar um pequeno roteiro sobre como obter um emprego público de assessor, sem pré-requisitos prévios (nem um cérebro):
 
1) Invista, desde cedo, em contatos políticos, não em competência. "Política", nesse sentido, não quer dizer vida pública. No Brasil, são redes de influência que contam para a obtenção de um emprego. A competência fica sempre em segundo lugar, quando não se pode colocá-la em último.
 
2) Afilie-se em algum partido: Mas lembre-se que não se pode entrar em qualquer partido político. Dê preferência àqueles com grandes empresários, radialistas, comunicadores, enfim, os partidos dos peixes grandes. Partidos que sempre viram a casaca, por exemplo, são os mais propícios.
 
3) Dê preferência ao poder local. Para quê aliar-se a projetos ideológicos, por exemplo, quando se tem um grande fazendeiro ou empresário no comando local? Se foi eleito, e é situação, dinheiro é o que não falta para que seja eleito novamente.
 
4) Saiba localizar a malandragem. Nem todo político é malandro. Mas um bom e fácil emprego público pode ser obtido por bons malandros que comandam o país. Aliás, não é necessário ter contato direto com um parlamentar, por exemplo. Basta ser costa quente de um dos assessores. Sempre há uma cota de cargos comissionados, de salários médios até astronômicos, e um deles pode ser seu.
 
5) Dê provas de fidelidade. Para receber o tão sonhado emprego, seja fiel aos políticos-chave. Tenha a consciência de que, em algum momento, você poderá servir de boi de piranha. Mas esse perigo pode ser evitado, com uma boa dose de puxa-saquismo, misturada com outra de bons serviços prestados ao patrimônio… do político. 
 
6) Pague sempre o "dízimo". Muitos cargos comissionados servem para arrecadar dinheiro para os mais diversos fins (campanhas eleitorais, por exemplo). Você receberá parte do salário, e outra parte ficará com o seu bem-feitor. Mas isso não é problema algum, já que basta não fazer nada, para que todo mês caia um dinheirinho (ou dinheirão).
 
7) Tenha exemplos. Maluf e Clodovil são ótimos exemplos da obtenção de privilégios sem qualquer necessidade de competência. Mas outros políticos são bem mais exemplares: conseguem até mesmo passar um ar de competência, quando na verdade não fazem nada. Pense na quantidade de pessoas, durante tantas décadas, que frequentaram o Planalto. Agora, veja quanto o Brasil evoluiu, nessas mesmas décadas. É isso.

July 24, 2007

Brasileiro, e não desiste nunca

Tenho um amigo, qualificadíssimo, que concorreu a uma vaga de emprego, alguns dias atrás. Correspondia perfeitamente à função, tem qualificações e referências admiráveis (até superiores às dos concorrentes), e se submeteu à seleção. Ficou em… último lugar.

De pronto vem aquela pergunta: o que deu errado? Os outros candidatos eram melhores? Ou faltou alguma competência - subjetiva ou mesmo "objetiva" - ao azarado colega?

Espera aí: "azarado" não é palavra que se utilize em ranking de seleção. Se existe uma seleção, não existe ninguém azarado. Apenas candidatos melhores e piores. É para isso que a seleção serve, certo? 

Mas se uma seleção não pressupõe sortudos e azarados, deve haver um critério que permita delimitar os "bem" e "mal" sucedidos. Inclusive, explicar como alguém mais competente obtém resultados piores que todos os outros. Uma seleção deve ter critérios objetivos, que permitam aos próprios candidatos visualizarem os motivos de eventualmente não serem aprovados.  

Não foi o que ocorreu com o meu colega. O "último lugar" não foi explicado, de forma alguma. Apenas apareceu o resultado, como se os avaliadores não tivessem mais nada a declarar.

Curioso notar que a função "avaliada" era a mesma que exercem os próprios avaliadores. Estavam selecionando candidatos para serem novos colegas de trabalho, sem mediação alguma. E, nesse meio, meu amigo é até melhor gabaritado que alguns dos avaliadores.

Ficou em último. E, por incrível que pareça, ficou em último segundo critérios obscuros, não revelados, não públicos. Critérios que envolveram elementos alheios ao conjunto de competências que realmente interessavam. Outras coisas estavam em jogo, não apenas a competência - e isso explica a última colocação. Mas espera aí, se é uma avaliação de emprego, não é de competências?

O Brasil, definitivamente, tem dessas coisas. Seleções de competências que… não selecionam apenas competências. Mas, como brasileiro, meu colega aprendeu a lição. É, enfim, "brasileiro", e "não desiste nunca" - ou, em outras palavras, descobriu que por aqui são necessárias coisas adicionais para se conseguir qualquer coisa.

July 16, 2007

As vaias ao presidente Lula

Até agora tento compreender o estatuto das vaias ao presidente Lula, na abertura do Pan. Várias "hipóteses" já foram colocadas. Nenhuma, entretanto, satisfatória.
 
Para os "direitistas", trata-se de uma manifestação espontânea, popular. É o pasmo de certos jornalistas contra interpretações contrárias: como César Maia teria levado 90 mil pessoas ao Maracanã? Se isso é impossível, a conclusão implícita é a da manifestação espontânea.
 
Para os "esquerdistas", as hipóteses provém desde a desaprovação dos cariocas pelo presidente, à manipulação dos ingressos pela prefeitura do Rio. No dia anterior, as vaias já estavam lá, no ensaio geral. Porque não dizer que foram também ensaiadas?
 
comentamos sobre a ausência de discussão, e a posição estereotipada que adota a maioria dos partidários desses "lados". De um lado, chega a ser cômica a ousadia de afirmar que, nos gritos do estádio, estava representado o povo brasileiro. De outro, sem investigação alguma, tratam-se apenas de hipóteses.
 
Dos dois lados, pode-se dizer que a formulação de hipóteses tem vantagem sobre a interpretação generalista. Se concluímos que nas vaias estão todos os anseios do Brasil, o assunto termina por aí, como questão de gosto, e não de constatação. Mas, se a manifestação foi anômala - como o foi -, não seria inútil buscar saber mais a respeito. Esquecemos disso, mas não seria a curiosidade o ofício real do jornalista?
 
Pelo andar da carruagem, tudo indica que tanto pelo lado da imprensa, quanto do presidente, o assunto parece encerrado. 
 
*** 

Os "dois lados"

Um leitor tentou argumentar que, meramente enunciando e descrevendo os "dois lados" do affair, mata-se a discussão, e as motivações de cada "lado". Mas esse leitor, em especial, esquece - pois ocupa um desses dois lados, e motivações - de algumas coisas:
 
A primeira é a ausência de discussão efetiva entre esses lados. Há disputa, não discussão.
 
A segunda é a maneira estereotipada, e pouco convincente, que cada "lado" da discussão adota para si mesmo como postura. E isso nós vemos no gigantesco abismo brasileiro entre as idéias e a prática, ou na gravíssima confusão entre as esferas pública e privada: boa parte dos ideais políticos, no Brasil, nunca tenderam a funcionar. O que sempre ocorreu foi um amálgama de projeto, com disposições efetivas. Teorias de um lado, prática de outro. Mas se a idéia é oportuna demais para motivações que nunca pertenceram à própria idéia, dá-se um jeitinho. Basta analisar as ideologias partidárias, e depois as coligações dos últimos anos, para se ter uma noção. As "idéias" são colocadas em prática quando convém. O problema todo é: para quem convém?
 
O terceiro aspecto, finalmente, é a grosseria, ou a tosquice, com que idéias são adotadas no Brasil. Adotam-se grandes temas, em sua generalidade, sem considerar efetivamente as consequências, maquinações, implicações. E ainda mais, sem considerar os detalhes. Essa tosquice é responsável: pelo debate não seguir adiante; pelo "debatentes" não conseguirem produzir efeito algum na realidade; e por suas "motivações" serem totalmente equivocadas. Equivocadas, porque os programas da ação, no Brasil, não seguem o das idéias. Mesmo para quem as defende.
 
É esse sentido de interrogação que se explorou no outro texto. Não se trata de neutralizar motivações, mas essas outras motivações que não servem para nada.

July 11, 2007

Sobre certos “intelectuais” do Brasil

O Brasil está em maus lençois. Não apenas nas práticas públicas, mas também no debate de idéias. Não é necessário observar muito algumas das discussões de "intelectuais" (muitas aspas) desse país para notar que podem ser tudo, menos discussões. Tem aquela metáfora da "briga de foice no escuro". Ou aquela outra da discussão acalorada entre surdos. O resultado é o mesmo: muito barulho para nada.

Mas é curioso notar como, nos últimos anos, o Brasil tem "formado" "intelectuais", independente da posição política adotada. Hoje, ser "intelectual" é como "ser" skatista: basta criar para si alguns trejeitos, comprar certas roupas, falar de certos modos, e frequentar locais específicos. E, como no mundo dos skatistas, o intelectual não precisa nem "subir no skate". Basta ter os trejeitos certos, que diante de todos - e de si mesmo - conseguirá manter as aparências.

Com o engajamento político, ocorre mais ou menos como na escolha das roupas. Não é preciso estudar rigorosamente teorias e posições políticas. Nem mesmo vivê-las, como se fez muito no século XX. Basta ter simpatia por uma ou outra posição. Se na realidade brasileira não existe posição política alguma (no sentido preciso de que, para existir, seriam necessários projetos de nação e fidelidade partidária), pelo menos na esfera intelectual elas são oferecidas com notável estereotipia: o direitista "acredita" na liberdade de escolha, na igualdade de condições, e no mito de um capitalismo de laissez-faire; o intelectual "de esquerda" "crê" na revolução e liberatação do povo alienado.

Os dois tipos têm em comum um mesmo tema: o povo inteiro é deficitário de consciência. Ou porque não percebe que o sistema brasileiro "não é um capitalismo", ou por não tomar consciência de que poderia tomar o poder pelas armas. A imagem do intelectual, a partir desses que se auto-declaram "intelectuais" com tanta facilidade, é a daquele que conduz o rebanho. Pois, diante do déficit geral, certamente devem considerar a si mesmos como seres transbordantes de esclarecimento.

O quadro ainda se complica, caso consideremos que até no Domingão do Faustão abunda consciência. Nas ruas, nas escolas, nas faculdades, são todos conscientes demais (e o descrédito pela figura do professor é uma das provas mais visíveis). O ponto de ônibus é um ótimo lugar para ouvir como, para além dos intelectuais, todo mundo é esclarecido.

Há tanto esclarecimento, tanta consciência, que não seria inútil perguntar: é a falta de consciência o verdadeiro problema

*** 

Para nós, o intelectual teórico deixou de ser um sujeito, uma consciência representante ou representativa. Aqueles que agem e lutam deixaram de ser representados, seja por um partido ou um sindicato que se arrogaria o direito de ser a consciência deles. Quem fala e age? Sempre uma multiplicidade, mesmo que seja na pessoa que fala ou age. Nós somos todos pequenos grupos. Não existe mais representação, só existe ação: ação de teoria, ação de prática em relações de revezamento ou em rede. 

(…) o intelectual era rejeitado, perseguido, no momento mesmo em que as "coisas" apareciam em sua "verdade", no momento em que não se devia dizer que o rei estava nu. O intelectual dizia a verdade àqueles que ainda não a viam e em nome daqueles que não podiam dizê-la: consciência e eloquência. Ora, o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade. Os próprios intelectuais fazem parte deste sistema de poder, a idéia de que eles são agentes da "consciência" e do discurso também faz parte desse sistema. O papel do intelectual não é mais o de se colocar "um pouco na frente ou um pouco de lado" para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do saber, da "verdade", da "consciência", do discurso. (…) Luta contra o poder, luta para fazê-lo aparecer e feri-lo onde ele é mais invisível e mais insidioso. Luta não para uma "tomada de consciência" (há muito tempo que a consciência como saber está adquirida pelas massas e que a consciência como sujeito está adquirida, está ocupada pela burguesia), mas para a destruição progressiva e a tomada do poder ao lado de todos aqueles que lutam por ela, e não na retaguarda, para esclarecê-los. (Michel Foucault e Gilles Deleuze, Os Intelectuais e o Poder)

July 7, 2007

Os Jornais, a Energia, e a atualidade.

Nos últimos dias, o Jornal Nacional tem realizado uma série de reportagens ("Agroenergia") sobre a recente valorização dos biocombustíveis. Por entre frases como "quem tem a energia, tem o poder", as reportagens mostram a iminência (caso se considere que já não ocorre) de uma nova crise energética. Para conter a crise, apresentam-se várias possibilidades de autonomia.
 
As reportagens do JN fazem parte de um grande movimento, contemporâneo, de constatação dessa crise vindoura. Mas é preciso atentarmos bem à "constatação". Pois, se é atual, não ocorre por uma súbita tomada de consciência da importância dos biocombustíveis. Pelo contrário, essa "constatação" faz parte de toda uma rede de outros acontecimentos, que têm conferido cada vez mais importância econômica às outras energias.
 
Por exemplo, podemos considerar a questão do etanol. O Proálcool foi criado ainda nos anos 70, como projeto de solução para qualquer dependência externa ao petróleo. Dependência do petróleo, no século XX, significa, via de regra, dependência econômica. Criar alternativas à dependência implicaria, diretamente, o desenvolvimento de uma nação soberana e autônoma. Pode-se imaginar o efeito de avalanche que a autonomia energética geraria na indústria automobilística, na economia, e no balanço das importações/exportações, apenas para dar alguns exemplos.
 
Se o Proálcool foi criado nos anos 70, como alternativa ao Petróleo, a pergunta é inevitável: se já havia demanda e condições para que os combustíveis alternativos fossem aprimorados e implementados no Brasil, porque o "boom" dos biocombustíveis ocorre apenas agora?
 
A resposta é bastante complexa. Envolve desde caracteres econômicos, a tecnológicos, políticos, e inclusive militares. Não são casuais as novas declarações do presidente dos EUA incentivando energias alternativas, dado o curto tempo de vida das reservas de petróleo, e os constantes conflitos onde a maior parte está localizada. Não é nenhuma novidade que, em grande parte, a hegemonia mundial dos EUA está ligada ao petróleo. Uma mudança no discurso indica, por decorrência, futuras mudanças radicais nas relações entre os países.
 
Outro elemento notável para a dependência persistente do Brasil é a esfera tecnológica. Dependência tecnológica está diretamente ligada a interesses externos. E não há como separar a produção das tecnologias, sejam elas próprias, ou importadas, de caracteres econômicos. Tecnologia própria implica interesses de um país a respeito de sua própria produção e consumo. Importação de pacotes tecnológicos incorre no risco da produção se vincular a interesses externos. Um bom exemplo de como a tecnologia está  ligada à energia é a recente produção de carros "flex". Refere-se, novamente, a tecnologias implementadas apenas agora, sob interesses econômicos fomentados apenas há alguns anos. Estranhamente, poderia-se ter investido nisso desde os anos 70. Mas não foi o que ocorreu.
 
Ainda, para dar conta das novas propostas energéticas, devemos considerar toda uma rede de elementos que perpassam relações de trabalho, ecologia, políticas agrárias, vida no campo, e afins. Uma coisa, por exemplo, é criar uma verdadeira federação de cooperativas de pequenos produtores de matéria-prima, ou de industrialização; outra, quando em sentido oposto, cogitamos sobre grandes corporações produtoras. O impacto da "energia" no "trabalho" já aparece em notícias como as históricas denúncias ao trabalho excessivo dos cortadores de cana paulistas, ou dos recentes escândalos de trabalho escravo no Pará. Na ecologia, os riscos são evidentes.
 
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Gostaria de montar uma boa bibliografia sobre a questão dos biocombustíveis no Brasil. De saída, dispomos das análises de Bautista Vidal (um dos criadores do Proálcool) e Gilberto Vasconcellos [pesquisa de livros], do Instituto do Sol (vários textos no site). São as referências mais visíveis. Anteriormente, publicamos um post sobre Vidal, com algumas referências, inclusive entrevistas do autor. Sabendo que o universo dessas questões é bem mais amplo, fica a pergunta: Algo mais?
 
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Atenção ao texto de hoje do Movv, também sobre energia de biomassa. 
 
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Pesquisa de livros sobre biodiesel, etanol, Proálcool, energias alternativas, e petroleo
tags:  biodiesel biomassa etanol alcool proalcool baudista vidal