September 6, 2011
“Você é a prova viva de que no Brasil político e rico sempre escapam da justiça?”
"Às vezes sim"
- Jaqueline Roriz -
Como se esse tipo de prática nada devesse a casos como o do Alceu.
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- Jaqueline Roriz -
Como se esse tipo de prática nada devesse a casos como o do Alceu.
Um dos princípios básicos da Constituição brasileira (e de toda democracia que se preze) é que todos somos iguais perante a lei. Sem isso, caímos no antigo regime, em que uns tinham direito divino a certos privilégios, enquanto outros estavam condenados a nunca ter certos direitos.
Polícia e justiça são bastante ineficientes. Se um homem pobre comete assassinato e é pego, ele será aprisionado e talvez até levará um tiro; mas se ele é rico e tem amigos, ele pode crer que nenhuma consequência muito severa vai acontecer. (…) Com essa inteira falta de princípio em muitos dos principais homens, com o país repleto de funcionários turbulentos e mal pagos, as pessoas ainda acreditam que uma forma democrática de governo pode ocorrer!
"É coisa de quem sai pouco do próprio bairro"
, afirma Sylvia Colombo na FSP, sobre o infeliz lançamento do "Guia do Politicamente Incorreto da América Latina" (em post anterior, perguntávamos sobre o teor de "discussão" propriamente dito desse livro). Colombo chama os autores à resposta, acusando-os de impostura. Resta ver a reação.
Dias atrás certo pessoal da FUNAI matou uma onça, que invadiu sua base próxima da fronteira com o Peru. A onça matou um cachorro e estava a poucos metros de gente hospedada no lugar.
O Blog da Amazônia, que registrou o caso, publicou também a justificativa do pessoal da FUNAI. Eles responderam às diversas críticas sustentando a necessidade de matar a onça. O sertanista encarregado disse:
(more…)Incrível informe da Agência FAPESP:
a seca de 2010 na Amazônia foi a mais drástica já registrada desde 1902, superando a de 2005, que até então era considerada a maior do século
e
pesquisadores do Inpe apresentaram os resultados de um amplo estudo sobre as inundações na Amazônia e Nordeste do Brasil, ocorridas no período de maio a julho de 2009. O fenômeno provocou mortes e deixou milhares de famílias desabrigadas. O trabalho demonstra que essas chuvas torrenciais foram as mais intensas e duradouras já registradas.
Giuseppe Cocco dá uma bela entrevista ao IHU, explicando um livro que se conserva, segundo ele, bastante atual: MundoBraz: O devir-mundo do Brasil e o devir-Brasil do mundo (livrarias)
A brasilianização do mundo foi um tema muito importante na década de 90, em toda uma literatura crítica da globalização neoliberal e suas consequências nos países centrais, que tinham um forte sistema de proteção social, e que a globalização neoliberal vinha destruindo. Seja na teoria social, econômica ou na filosofia política, vários autores usaram a brasilianização como uma metáfora negativa. O Brasil ia se tornando um pesadelo para aquelas sociedades que tinham um pacto social avançado, com altos salários, sindicatos fortes, proteção social abrangente, que passavam por um processo de fragmentação social e por uma crise civil com o aumento da violência e da exclusão social. Tudo isso era chamado de brasilianização. Para o Brasil, a “brasilianização” se tornou um pesadelo ainda maior. A perspectiva de desenvolvimento, o fato de o Brasil ser, segundo o discurso nacional-desenvolvimentista, o país do futuro, que iria se industrializar, passar da periferia para o centro, através do processo de industrialização com a "brasilianização" ia por agua abaixo. A própria modernização trazida pela globalização, ao invés de diminuir a exclusão, distribuir riquezas e sistemas de proteção, vai aumentar a exclusão (fragmentar o emprego, precarizar o trabalho), privatizar os serviços e criar ainda mais problemas em termos de dinâmica e justiça social..
A proposta em termos de devir-Brasil do mundo é dizer que há uma brasilianização (essa metáfora pode ser, sim, utilizada), mas que há outro lado muito potente do Brasil, o devir-Sul do mundo. Deste devir, o Brasil é o protagonista, não como Estado-nação desenvolvimentista, mas como Brasil dos pobres, desinventado: desinventado porque o devir-Brasil do mundo é necessariamente e ao mesmo tempo um devir-mundo do Brasil. Quando falamos dos pobres, falamos de sujeitos atravessados por questões sociais de classe e também por questões culturais, de raça, de luta contra o racismo e a desigualdade, de reservas indígenas e tudo mais.
Esse outro lado da "brasilianização" é o devir-Brasil do mundo, em que o país está, efetivamente, na frente, pois está em outro lugar em termos de políticas dos pobres, políticas sociais, de mestiçagem, de um governo que teve, nos últimos oito anos, uma experiência inovadora, extremamente interessante, de radicalização democrática, como nas políticas culturais, nas políticas de ação afirmativa (no Prouni), na distirbuição de renda e na demarcação das reservas indigenas (como no caso da Raposa Serra do Sol). Esse outro lado implica no fato, como propõe Viveiros de Castro, de desinventar o Brasil: o Brasil nacionalista, da homologação da cidadania sob a figura unívoca da modernidade ocidental e do emprego industrial, que não respeita os direitos dos índios, dos quilombolas e que não reconhece a urgência da luta ao racismo.
Durante uma reunião de espectro internacional ocorrida em Curitiba sobre a educação, o economista e auto-intitulado "educador" Gustavo Ioschpe cometeu tais palavras (em flagrante desacordo com certa posição do ministro da educação):
Quando se é ministro você sempre quer aumentar a verba da sua pasta, mas o fato é que não há comprovação empírica de que aumento de gasto por aluno melhore a educação.
Ele ainda disse que a remuneração do professor não afeta em nada a educação e titulações como mestrado ou doutorado são "irrelevantes" para a educação básica. O "educador" do Jornal Nacional e da Veja reitera sua "tese" em diversos outros pronunciamentos, declarando que não há evidências de que um investimento maior por aluno ou por professor indique necessariamente melhorias.
Ele emprega aqui algo muito parecido com a doutrina "meritocrática" tupiniquim do ex-ministro Paulo Renato. Em linhas bem gerais (ver isso), segundo ele não há muito proveito em um sistema educacional propriamente dito (um "sistema" por definição, regras prévias regulando certas práticas em um ambiente que se chamaria "escolar"), mas sim em práticas que regulem sempre a fortiori, por decorrência e não por princípio, a produtividade do ensino.
Uma anedota: no Museu Nacional de História Natural de Paris não é raro ver turminhas de crianças muito pequenas, em fila indiana, quase esbarrando e impondo passagem aqui e ali sobre os transeuntes (mesmo quando o museu está vazio). Essas crianças são, provavelmente, muito menos habilitadas do que um adulto para compreender o que se passa ao redor, em meio a tantos esqueletos e fósseis às vezes com mais de 50 milhões de anos.
Mas as crianças visitam o museu e marcam presença. Elas vivenciam ali experiências e aprendizados que mesmo o tecnocrata mais almofadinha não ignorará terem grande validade e importância para o futuro (com boa fé imagino que até os tecnocratas possuem o hábito de, às vezes, enriquecer sua imaginação criativa com programas artísticos, turísticos, culturais etc.).
No "pacote" do passeio estão uma ampla gama de recursos: o transporte das crianças até o museu, as entradas, as possíveis lembranças (esses museus costumam ter lojas incríveis) e mesmo os recursos materiais e didáticos a trabalhar em sala por alguns dias depois da visita. Em cada um desses elementos, das preparações necessárias de aula pelo professor até o motorista do ônibus ou o lanche, há um custo por criança.
Mas enfim, o fato mesmo é que não há comprovação empírica alguma de que o aumento de gasto por aluno melhore a educação.
Uma operação auto-intitulada “jurídica” extrapolou os limites da razoabilidade. Os defensores de Carli Filho (o ex-deputado paranaense que, dirigindo a 170 Km/h em via pública, com a carteira cassada e alcoolizado, fez o carro levantar vôo e literalmente arrancou a capota de um honda fit matando dois jovens) lançaram uma nova “tese” de defesa: eles agora alegam que os responsáveis pelo ocorrido são as vítimas, pelo fato de não terem visto, ao entrar na rua, que o carro do deputado vinha na preferencial a… 170 Km/h (e numa via cheia de relevos, inclusive o que fez o carro decolar) .
Para Scandelari, culpar o ex-deputado “é como culpar pelo acidente a pessoa que estava no sinal verde e não a que estava no sinal vermelho”.
“Quem é o responsável pelo acidente? Não é quem tinha bebido. Não é quem estava em suposto excesso de velocidade. Não é quem era deputado, quem tinha carro importado. É quem violou a via preferencial”, avalia Dotti
Há mais: apelando ao princípio de igualdade perante a lei, os advogados também protestam contra a “celeridade” (sic) do caso! O leitor leu bem: em argumento no mínimo inusitado, advogados apelam à morosidade da justiça brasileira como trunfo (!), e não revés, para o bom andamento de um julgamento (!).
Sobre isso vale ouvir o comentário de Ricardo Boechat, da Band:
Pouco tempo atrás Roberto DaMatta lançou um livro intitulado Fé em Deus e pé na tábua: como e por que o trânsito enlouquece no Brasil (outras referências aqui). Dentre outros temas, DaMatta analisa precisamente o figurado na fala dos advogados: cabia às vítimas não se colocarem na frente, como se estivéssemos em uma situação normal de trânsito e ponto final.