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February 24, 2011

Konstantinus Kavafis: A atenção às palavras



Tenho observado com frequencia a pouca atenção que as pessoas dão às palavras. Explico-me. Um homem simples (com simples não quero dizer parvo, e sim não-eminente) tem uma opinião, critica uma instituição ou crença geral; sabendo que a maioria das pessoas não pensa assim, cala-se, na suposição de que não vale a pena falar, pois o que pudesse dizer não mudaria coisa alguma. Trata-se de um erro grave. Eu ajo de outro modo. Por exemplo, sou contra a pena de morte. Sempre que me aparece uma oportunidade, manifesto-me a respeito, não porque ache que, com isso, o Estado a vá abolir, mas porque estou convencido de que assim contribuo para o triunfo das minhas idéias. Pouco me importa que ninguém concorde comigo. O que eu disse não foi em pura perda. Talvez alguém repita minhas palavras e elas cheguem a ouvidos que as ouçam e as perfilhem. Quem sabe se futuramente algum daqueles que ora discordam de mim não se vai lembrar, numa ocasião propícia, daquilo que eu disse e convencer-se ou pelo menos sentir abalada sua opinião em contrário. - O mesmo vale para diversas outras questões sociais, das que exigem ação. Reconheço que sou tímido e não sei agir. Por isso limito-me a falar. Não acho, porém, que minhas palavras sejam em vão. Outro agirá, mas essas palavras - de mim, o tímido, -  terão facilitado a ação e limpado o terreno.
KAVAFIS, K. Reflexões sobre Poesia e Ética. SP: Ática, 1998

January 27, 2010

Dois Velhos


UM VELHO

No meio do café barulhento, debruçado
sobre a mesa, um velho está sentado;
com um jornal a sua frente, sem companhia

E no desdém de sua velhice mísera de agora
pensa quão pouco aproveitou os anos de outrora
em que tinha fluência, e beleza, e energia.

Percebe que envelheceu muito; sente, conhece.
E contudo o tempo em que era jovem lhe parece
ontem. Como o tempo passa, como o tempo passa!

E pensa em como a Prudência o enganou;
e como - que loucura! - sempre lhe acreditou
quando dizia; "Amanhã. Há tempo." - Que trapaça!

Lembra ímpetos que segurou; felicidade,
quanta sacrificou. Cada oportunidade
perdida de seu saber insensato graceja.

Mas de tanto refletir e recordar
o velho tonteou. E agora dorme a sonhar
no café recostado sobre a mesa.  

Konstantinus Kavafis (1897)

 

AINDA É TEMPO?


Nem uma vida inteira de desculpas
Vai dar graça à tua face, minha cara.
Teus pecados mortais, as mil culpas,
Que te afligem agora, a dor não sara.

Tua beleza se foi, vieram as pústulas
Do tempo e contra elas nada salva,
Nada pode. A dívida são multas
Que a vida cobra à tapa na tua cara.

Cinqüenta anos passaram e não viste
Nada, que não fosse o espelho em tua frente.
E se a imagem que vês hoje te fere,

É porque tua alma, de dedo em riste,
Vê em ti, apenas a sombra indiferente
A tudo que ela amou e sentiu na pele!

Antonio Thadeu Wojciechowski (2006)

 

March 12, 2009

Konstantinus Kavafis - Termópilas (1903)


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Honra àqueles que Termópilas fixaram
em suas vidas para as defender.
Que, jamais se furtando à obrigação,
foram justos e retos nos seus atos,
mas condoídos, também, e compassivos;
generosos, quando ricos; quando pobres,
generosos ainda com seu pouco,
socorrendo a quem pudessem; proclamando
sempre a verdade, embora sem nutrir
ódio algum por aqueles que mentissem.

E de mais honra serão merecedores
se previram (como tantos o fizeram)
que Efialte finalmente há de surgir,
e que os medas finalmente passarão.

- Constantine Cavafy (tradução de José Paulo Paes - Poemas, ed. Nova Fronteira). Outra tradução, confira aqui

September 18, 2008

Arquivo Kavafis/Cavafy


link

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Último passaporte de Kavafis, com a palavra "poeta" como ocupação

August 10, 2008

Constantine Cavafy - À Espera dos Bárbaros (1904)


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O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

 

- Konstantinus Kavafis -
(tradução de José Paulo Paes. Original aqui, pesquisa de livros aqui

Ressonância com a constatação de Daniel Lopes, de que o livro À Espera dos Barbaros, de J. M. Coetzee (pesquisa de livros), inspirou-se no poema.

Uma outra curiosidade refere-se ao músico Philip Glass. A partir do livro de Coetzee, ele compôs uma ópera

***

Como vêem, estamos com layout novo, modificado "à unha". Não consegui testar em todos os navegadores ainda - existe alguma anomalia?

June 6, 2008

Constantine Cavafy: Os cavalos de Aquiles


Ao verem Pátroclo morrer tão jovem,
em todo o seu vigor e bravura sem par,
os cavalos de Aquiles puseram-se a chorar.
A imortal natureza deles se insurgia
contra o feito de morte a que assistia.
Sacudiam as cabeças, as longas crinas agitavam,
e, pisoteando o chão com os cascos, pranteavam
Pátroclo, a quem ali percebiam inerme, aniquilado -
cadáver ora desprezível - o espírito evolado -
indefeso - sem sopro de vivente -
exilado, da vida, no grande Nada novamente.

O pranto dos seus cavalos imortais
fez pena a Zeus. "No casamento de Peleu",
disse, "irrefletido foi o gesto meu;
inditosos cavalos, melhor fora, creio,
não vos ter dado. Que faríeis lá no meio
da mísera humanidade que é joguete da Sorte?
Vós, a quem velhice não ronda nem espreita morte,
infortúnios fugazes padeceis. Às suas
dores os homens vos prendem". - Mas as lágrimas suas
pelo eterno, sem remissão jamais,
infortúnio da morte vertiam os dois nobres animais.

- Constantine Cavafy (Konstantinos Kavafis) -
Traduzido por José Paulo Paes em "Poemas" (RJ, Nova Fronteira, s/d) [livrarias].

O mesmo poema, na tradução de Joaquim M. Magalhães e N. Pratsinis.

August 5, 2007

Livros em lombo de mula


Uma universidade no interior da Venezuela implementou um projeto inusitado para levar livros e incentivar a leitura em vilarejos remotos do interior: criou bibliotecas itinerantes em mulas, ou “bibliomulas”.

A iniciativa atende comunidades remotas na região do Vale do Momboy, no leste da Venezuela, onde fica a região andina do país.

Pelo menos duas mulas são usadas atualmente no projeto. Elas levam, amarradas ao corpo, porta-livros com títulos diversos, que agradam em cheio principalmente às crianças das cidades nas montanhas.

O projeto tem feito tanto sucesso que a instituição responsável pelo projeto, a Universidade do Vale do Momboy, já está transformando as mulas em “cybermulas”, incorporando elementos eletrônicos como laptops e projetores. [BBC]

Sou meio suspeito ao elogiar projetos desse tipo. Em primeiro grau, são empreendimentos individuais, localizados, fruto de boas vontades. Não refletem melhorias estruturais, que de fato melhorariam a vida dessas pessoas.

Mas há também um componente romântico nisso. Como certos poetas, que largam tudo em busca do sonho de escrever. Kavafis tem uma passagem bem interessante, nas Reflexões sobre Poesia e Ética, a esse respeito. Refere-se a um pobre poeta que em uma ocasião o visitou. Kavafis, burocrata e com boas condições de vida; o poeta, pobre, e poeta:

mas como me custavam caro os meus pequenos luxos. Para garanti-los, eu abandonara meu pendor natural e me tornara um funcionário público (quão ridículo!), que gastava em pura perda horas preciosas do seu dia, às quais as horas de desencorajamento e fadiga que selhes seguiam. Que malbarato? Que malbarato e traição! Já ele, o pobre, não perdia tempo algum; estava sempre a postos, fiel e cumpridor filho da Arte. 

Julgamos que esse tipo de poeta não mais existe. Será que não mais?  

Falando em poesia…

O Indigo-Daisy, um blog iraquiano, indicou uma "poetisa" dos dedos, chamada Ivana Yahav. Ela cria imagens sequenciais simplesmente manipulando areia numa tela;)

July 22, 2007

Cuanto Puedas (Konstantinus Kavafis)


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Y si no puedes hacer tu vida como la quieres,
en esto esfuérzate al menos
cuanto puedas: no la envilezcas
en el contacto excesivo con la gente,
en demasiados trajines y conversaciones.

No la envilezcas llevándola,
trayéndola a menudo y exponiéndola
a la torpeza cotidiana
de las compañías y las relaciones,
hasta que llegue a ser pesada como una extraña.

- Konstantinus Kavafis -

Retirado de "Cien Poemas", de Kavafis. Tradução castelhana de Miguel Castillo Didier [pesquisa de preços]
(Atenção a como a tradução conserva as rimas) 

June 3, 2007

De Dimítrios Sotir (162-150 A.C.)


Desnecessário evocar os comentários de José Paulo Paes [pesquisa de livros]: para ele o poeta Kavafis, criando a partir de temas tão longínquos, afeta-nos naquilo que nos é mais próximo ;) .

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Figura atribuída a Xerxes ou Dário

Cada esperança foi frustrada!

Imaginava fazer obras notáveis,
parar a humilhação que do tempo da batalha
de Magnésia oprime sua pátria.
Ser de novo estado poderoso a Síria,
com seus exércitos, com suas frotas,
com grandes castelos, com riquezas.

Sofria, amargurava-se em Roma
quando sentia nas conversas de seus amigos,
da juventude das grandes casas,
em meio a todo o tato e a gentileza
que demonstravam a ele, do rei
Selêucio Filopator o filho –
quando sentia que contudo sempre havia um oculto
desdém pelas dinastias helenizantes;
que decaíram, que para obras sérias não são,
para o comando dos povos muito impróprias.
Afastava-se sozinho, e indignava-se, e jurava
que como crêem de certo não será;
eis que ele tem vontade;
lutará, fará, levantará.

Basta encontrar uma maneira de chegar ao Oriente,
de conseguir fugir da Itália –
e toda esta força que tem
em sua alma, todo este ímpeto
transmitirá ao povo.

Ah só de estar na Síria!
Tão pequeno saiu da pátria
que mal lembrava de sua forma.
Mas em seu pensamento a estudava sempre
como algo sagrado de que prostando-se te aproximas,
como miragem de belo lugar, como visão
de cidades e portos gregos. –

E agora?
             Agora desespero e mágoa.
Tinham razão os rapazes em Roma.
Não é possível perdurarem as dinastias
que produziu a Conquista dos Macedônios.

Indiferente: ele esforçou-se,
o quanto pôde lutou.
E em sua negra decepção,
só uma coisa ainda conta
com orgulho; que, também no seu insucesso,
a mesma bravura invencível mostra ao mundo.

As outras coisas – eram sonhos e esforços vãos.
Esta Síria – quase não parece sua pátria,
esta é a terra de Iraklídis e de Válas.

Konstantinus Kavafis (1919) - Reproduzido do Arquivo Kavafis BR (Tradução: R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, A. T. Nicolacópulos).

Pesquisa de livros sobre Kavafis, Xerxes, Síria, Batalha de Magnésia, Esparta

May 2, 2007

Ítaca, por Sean Connery


O vídeo abaixo vincula uma "famosa" declamação do poema Ítaca, de Konstantinus Kavafis, feita por Sean Connery. O som de fundo é do conjunto Vangelis, e pertence à trilha sonora de um filme (Kavafis, 1996) sobre a vida do poeta grego. A imagem, como se pode perceber, é de outro filme, Baraka.

Pesquisa de preços dos CD´s do Vangelis, dos DVD´s de Kavafis e Baraka, e de livros de Kavafis.
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