March 12, 2009

Konstantinus Kavafis - Termópilas (1903)

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Honra àqueles que Termópilas fixaram
em suas vidas para as defender.
Que, jamais se furtando à obrigação,
foram justos e retos nos seus atos,
mas condoídos, também, e compassivos;
generosos, quando ricos; quando pobres,
generosos ainda com seu pouco,
socorrendo a quem pudessem; proclamando
sempre a verdade, embora sem nutrir
ódio algum por aqueles que mentissem.

E de mais honra serão merecedores
se previram (como tantos o fizeram)
que Efialte finalmente há de surgir,
e que os medas finalmente passarão.

- Constantine Cavafy (tradução de José Paulo Paes - Poemas, ed. Nova Fronteira). Outra tradução, confira aqui

September 18, 2008

Arquivo Kavafis/Cavafy

link

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Último passaporte de Kavafis, com a palavra "poeta" como ocupação

August 10, 2008

Constantine Cavafy - À Espera dos Bárbaros (1904)

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O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

 

- Konstantinus Kavafis -
(tradução de José Paulo Paes. Original aqui, pesquisa de livros aqui

Ressonância com a constatação de Daniel Lopes, de que o livro À Espera dos Barbaros, de J. M. Coetzee (pesquisa de livros), inspirou-se no poema.

Uma outra curiosidade refere-se ao músico Philip Glass. A partir do livro de Coetzee, ele compôs uma ópera

***

Como vêem, estamos com layout novo, modificado "à unha". Não consegui testar em todos os navegadores ainda - existe alguma anomalia?

June 6, 2008

Constantine Cavafy: Os cavalos de Aquiles

Ao verem Pátroclo morrer tão jovem,
em todo o seu vigor e bravura sem par,
os cavalos de Aquiles puseram-se a chorar.
A imortal natureza deles se insurgia
contra o feito de morte a que assistia.
Sacudiam as cabeças, as longas crinas agitavam,
e, pisoteando o chão com os cascos, pranteavam
Pátroclo, a quem ali percebiam inerme, aniquilado -
cadáver ora desprezível - o espírito evolado -
indefeso - sem sopro de vivente -
exilado, da vida, no grande Nada novamente.

O pranto dos seus cavalos imortais
fez pena a Zeus. "No casamento de Peleu",
disse, "irrefletido foi o gesto meu;
inditosos cavalos, melhor fora, creio,
não vos ter dado. Que faríeis lá no meio
da mísera humanidade que é joguete da Sorte?
Vós, a quem velhice não ronda nem espreita morte,
infortúnios fugazes padeceis. Às suas
dores os homens vos prendem". - Mas as lágrimas suas
pelo eterno, sem remissão jamais,
infortúnio da morte vertiam os dois nobres animais.

- Constantine Cavafy (Konstantinos Kavafis) -
Traduzido por José Paulo Paes em "Poemas" (RJ, Nova Fronteira, s/d) [livrarias].

O mesmo poema, na tradução de Joaquim M. Magalhães e N. Pratsinis.

August 5, 2007

Livros em lombo de mula

Uma universidade no interior da Venezuela implementou um projeto inusitado para levar livros e incentivar a leitura em vilarejos remotos do interior: criou bibliotecas itinerantes em mulas, ou “bibliomulas”.

A iniciativa atende comunidades remotas na região do Vale do Momboy, no leste da Venezuela, onde fica a região andina do país.

Pelo menos duas mulas são usadas atualmente no projeto. Elas levam, amarradas ao corpo, porta-livros com títulos diversos, que agradam em cheio principalmente às crianças das cidades nas montanhas.

O projeto tem feito tanto sucesso que a instituição responsável pelo projeto, a Universidade do Vale do Momboy, já está transformando as mulas em “cybermulas”, incorporando elementos eletrônicos como laptops e projetores. [BBC]

Sou meio suspeito ao elogiar projetos desse tipo. Em primeiro grau, são empreendimentos individuais, localizados, fruto de boas vontades. Não refletem melhorias estruturais, que de fato melhorariam a vida dessas pessoas.

Mas há também um componente romântico nisso. Como certos poetas, que largam tudo em busca do sonho de escrever. Kavafis tem uma passagem bem interessante, nas Reflexões sobre Poesia e Ética, a esse respeito. Refere-se a um pobre poeta que em uma ocasião o visitou. Kavafis, burocrata e com boas condições de vida; o poeta, pobre, e poeta:

mas como me custavam caro os meus pequenos luxos. Para garanti-los, eu abandonara meu pendor natural e me tornara um funcionário público (quão ridículo!), que gastava em pura perda horas preciosas do seu dia, às quais as horas de desencorajamento e fadiga que selhes seguiam. Que malbarato? Que malbarato e traição! Já ele, o pobre, não perdia tempo algum; estava sempre a postos, fiel e cumpridor filho da Arte. 

Julgamos que esse tipo de poeta não mais existe. Será que não mais?  

Falando em poesia…

O Indigo-Daisy, um blog iraquiano, indicou uma "poetisa" dos dedos, chamada Ivana Yahav. Ela cria imagens sequenciais simplesmente manipulando areia numa tela;)

July 22, 2007

Cuanto Puedas (Konstantinus Kavafis)

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Y si no puedes hacer tu vida como la quieres,
en esto esfuérzate al menos
cuanto puedas: no la envilezcas
en el contacto excesivo con la gente,
en demasiados trajines y conversaciones.

No la envilezcas llevándola,
trayéndola a menudo y exponiéndola
a la torpeza cotidiana
de las compañías y las relaciones,
hasta que llegue a ser pesada como una extraña.

- Konstantinus Kavafis -

Retirado de "Cien Poemas", de Kavafis. Tradução castelhana de Miguel Castillo Didier [pesquisa de preços]
(Atenção a como a tradução conserva as rimas) 

June 3, 2007

De Dimítrios Sotir (162-150 A.C.)

Desnecessário evocar os comentários de José Paulo Paes [pesquisa de livros]: para ele o poeta Kavafis, criando a partir de temas tão longínquos, afeta-nos naquilo que nos é mais próximo ;) .

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Figura atribuída a Xerxes ou Dário

Cada esperança foi frustrada!

Imaginava fazer obras notáveis,
parar a humilhação que do tempo da batalha
de Magnésia oprime sua pátria.
Ser de novo estado poderoso a Síria,
com seus exércitos, com suas frotas,
com grandes castelos, com riquezas.

Sofria, amargurava-se em Roma
quando sentia nas conversas de seus amigos,
da juventude das grandes casas,
em meio a todo o tato e a gentileza
que demonstravam a ele, do rei
Selêucio Filopator o filho –
quando sentia que contudo sempre havia um oculto
desdém pelas dinastias helenizantes;
que decaíram, que para obras sérias não são,
para o comando dos povos muito impróprias.
Afastava-se sozinho, e indignava-se, e jurava
que como crêem de certo não será;
eis que ele tem vontade;
lutará, fará, levantará.

Basta encontrar uma maneira de chegar ao Oriente,
de conseguir fugir da Itália –
e toda esta força que tem
em sua alma, todo este ímpeto
transmitirá ao povo.

Ah só de estar na Síria!
Tão pequeno saiu da pátria
que mal lembrava de sua forma.
Mas em seu pensamento a estudava sempre
como algo sagrado de que prostando-se te aproximas,
como miragem de belo lugar, como visão
de cidades e portos gregos. –

E agora?
             Agora desespero e mágoa.
Tinham razão os rapazes em Roma.
Não é possível perdurarem as dinastias
que produziu a Conquista dos Macedônios.

Indiferente: ele esforçou-se,
o quanto pôde lutou.
E em sua negra decepção,
só uma coisa ainda conta
com orgulho; que, também no seu insucesso,
a mesma bravura invencível mostra ao mundo.

As outras coisas – eram sonhos e esforços vãos.
Esta Síria – quase não parece sua pátria,
esta é a terra de Iraklídis e de Válas.

Konstantinus Kavafis (1919) - Reproduzido do Arquivo Kavafis BR (Tradução: R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, A. T. Nicolacópulos).

Pesquisa de livros sobre Kavafis, Xerxes, Síria, Batalha de Magnésia, Esparta

May 2, 2007

Ítaca, por Sean Connery

O vídeo abaixo vincula uma "famosa" declamação do poema Ítaca, de Konstantinus Kavafis, feita por Sean Connery. O som de fundo é do conjunto Vangelis, e pertence à trilha sonora de um filme (Kavafis, 1996) sobre a vida do poeta grego. A imagem, como se pode perceber, é de outro filme, Baraka.

Pesquisa de preços dos CD´s do Vangelis, dos DVD´s de Kavafis e Baraka, e de livros de Kavafis.

February 16, 2007

Kavafis: a atenção às palavras

Estava bolando um post sobre a questão de como a comunicação se relaciona com ausência de ação, hoje em dia, e me deparei com essa pequena anotação feita por Kavafis em 1902. Ela toca também de passagem em outro assunto agora em voga: a pena de morte num país que a permite.
Tenho observado com frequencia a pouca atenção que as pessoas dão às palavras. Explico-me. Um homem simples (com simples não quero dizer parvo, e sim não-eminente) tem uma opinião, critica uma instituição ou crença geral; sabendo que a maioria das pessoas não pensa assim, cala-se, na suposição de que não vale a pena falar, pois o que pudesse dizer não mudaria coisa alguma. Trata-se de um erro grave. Eu ajo de outro modo. Por exemplo, sou contra a pena de morte. Sempre que me aparece uma oportunidade, manifesto-me a respeito, não porque ache que, com isso, o Estado a vá abolir, mas porque estou convencido de que assim contribuo para o triunfo das minhas idéias. Pouco me importa que ninguém concorde comigo. O que eu disse não foi em pura perda. Talvez alguém repita minhas palavras e elas cheguem a ouvidos que as ouçam e as perfilhem. Quem sabe se futuramente algum daqueles que ora discordam de mim não se vai lembrar, numa ocasião propícia, daquilo que eu disse e convencer-se ou pelo menos sentir abalada sua opinião em contrário. - O mesmo vale para diversas outras questões sociais, das que exigem ação. Reconheço que sou tímido e não sei agir. Por isso limito-me a falar. Não acho, porém, que mihas palavras sejam em vão. Outro agirá, mas essas palavras - de mim, o tímido, -  terão facilitado a ação e limpado o terreno.
KAVAFIS, K. Reflexões sobre Poesia e Ética. SP: Ática, 1998 [pesquisa de preços]

January 4, 2007

Don McCullin, Kavafis, e a arte

Tentei já escrever uns 3 posts abrindo o ano de 2007, com balanço de 2006, e expectativas para esse ano. Depois do Firefox ter dado pau algumas vezes, desisti. Mas o assunto que quero tratar já apareceu algumas vezes no Catatau, e se refere às relações entre a vida do artista sua arte. A arte do artista pode ser reduzida à sua vida de artista, à sua individualidade, história pessoal ou características psicológicas? Ou haveria algo mais em jogo, na arte do artista? Seria ela fuga da realidade, ou afirmação da vida?

Há alguns dias tive acesso a um pequeno e belo livro de Konstantinus Kavafis, intitulado Reflexões sobre poesia e ética (pesquisa de preços). O livro, apresentado por José Paulo Paes, reune notas e pensamentos relacionados a vários dos poemas de Kavafis, e mesmo algumas reflexões sobre sua própria arte. O interessante, nesse tema, é quando ele se refere à arte como ‘memória’ de experiências do artista. A poesia de Kavafis contém uma série de elementos que poderiam ser considerados autobiográficos. Mas a própria abertura de Paes acerta na mosca: há algo mais do que meramente a redução da arte à vida, mesmo que seja na vida que a arte se origine. Nas palavras de Paes,

"Só quando purificada pela memória de sua circunstancialidade egocêntrica e investida de forma artística é que a emoção adquire permanência e significatividade, fazendo juz ao ars longa, vita brevis".

Ou em outras palavras, é quando a experiência se destitui da vida do autor enquanto indivíduo e se transfigura ora enquanto singularidade, ora enquanto aspecto universal (escolham os artistas e críticos, dentro de suas querelas), que pode ser chamada de arte. Conforme Kavafis, a "memória" se transforma em "emoção artística.

A quadra do ano de que mais gosto é o verão. Os verdadeiros verões, do Egito e da Grécia - com seu sol causticante, seus triunfais pinos do dia, suas extenuantes noites de agosto. não posso no entanto dizer que trabalhe mais - artisticamente - durante o verão. As imagens e sensações estivais me infundem numerosas impressões; todavia, não sei de as ter representado ou traduzido de pronto numa composição literária. Digo "de pronto" porque as impressões artísticas demoram a ser usadas, a gerar outros pensamentos, a transformar-se sob a ação de novas influências, e quando enfim se cristalizam em palavras escritas, é difícil lembrar a ocasião primeira onde nasceram e de onde se originam as palavras escritas. (nota 23, 1909) 

Ou ainda,

Mas, do artista, como a vida se enriquece!
Amanhã, no outro dia, anos depois, serão escritos
os versos fortes que aqui têm a sua origem. (Tradução de Paes)

Sobre esse jogo entre acontecimentos concretos, da vida e da subjetividade, que se convertem em arte, vi também há alguns dias, uma entrevista com o fotógrafo Don McCullin. Se não me engano, o programa chama-se Conexão Roberto D´Ávila. Não conhecia suas fotografias, nem esse nome de autor, mas muito interessantes suas considerações a respeito desse tema. Segundo McCullin, suas fotografias não podem ser consideradas arte, mas fotografias. Haveria um jogo entre 3 elementos: aqueles acontecimentos concretos a serem fotografados, a própria fotografia, e a arte. Esses elementos orbitariam a própria vida do autor, daquele que fotografa. Elementos interessantes sairiam desse jogo: em primeiro lugar, a "criação" não seria do autor, mas envolveria a própria vida do autor. Para si mesmo, McCullin não é um artista que cria e que transforma o mundo ao redor por meio de sua arte; por outro lado, é o artista que se transformaria registrando os acontecimentos que registra, nunca impassível aos acontecimentos.

Por outro lado, a própria fotografia, ao invés de ser arte, seria um instrumento que retira elementos artísticos de composição. Tudo isso, para resguardar os acontecimentos, não retirá-los de seu caráter "real" para transformá-los em obra artística.

Muito legal todo esse jogo, que deixa os elementos em suspenso: o artista torna-se ao mesmo tempo criador e criatura, é afetado, modificado por aquilo que vive e o impressiona; a fotografia não se torna mero registro, nem obra artística (o que seria então?); mas a própria fotografia não poderia deixar de ser vista, considerada, como obra artística. Entre a vida, a obra, e o artista, um jogo de fugas e transmutações. Talvez esse jogo de "fugas" aponte, para McCullin, algo engendrado à arte que nunca deveria deixar de ser considerado: sua esfera política.

Tanto em McCullin quanto em Kavafis, parece haver um jogo entre arte e vida, que não meramente se reduz a uma análise da vida do autor, mas que conserva um papel criador (não de criatura) à própria arte.