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February 16, 2007

Kavafis: a atenção às palavras


Estava bolando um post sobre a questão de como a comunicação se relaciona com ausência de ação, hoje em dia, e me deparei com essa pequena anotação feita por Kavafis em 1902. Ela toca também de passagem em outro assunto agora em voga: a pena de morte num país que a permite.
Tenho observado com frequencia a pouca atenção que as pessoas dão às palavras. Explico-me. Um homem simples (com simples não quero dizer parvo, e sim não-eminente) tem uma opinião, critica uma instituição ou crença geral; sabendo que a maioria das pessoas não pensa assim, cala-se, na suposição de que não vale a pena falar, pois o que pudesse dizer não mudaria coisa alguma. Trata-se de um erro grave. Eu ajo de outro modo. Por exemplo, sou contra a pena de morte. Sempre que me aparece uma oportunidade, manifesto-me a respeito, não porque ache que, com isso, o Estado a vá abolir, mas porque estou convencido de que assim contribuo para o triunfo das minhas idéias. Pouco me importa que ninguém concorde comigo. O que eu disse não foi em pura perda. Talvez alguém repita minhas palavras e elas cheguem a ouvidos que as ouçam e as perfilhem. Quem sabe se futuramente algum daqueles que ora discordam de mim não se vai lembrar, numa ocasião propícia, daquilo que eu disse e convencer-se ou pelo menos sentir abalada sua opinião em contrário. - O mesmo vale para diversas outras questões sociais, das que exigem ação. Reconheço que sou tímido e não sei agir. Por isso limito-me a falar. Não acho, porém, que mihas palavras sejam em vão. Outro agirá, mas essas palavras - de mim, o tímido, -  terão facilitado a ação e limpado o terreno.
KAVAFIS, K. Reflexões sobre Poesia e Ética. SP: Ática, 1998 [pesquisa de preços]

January 4, 2007

Don McCullin, Kavafis, e a arte


Tentei já escrever uns 3 posts abrindo o ano de 2007, com balanço de 2006, e expectativas para esse ano. Depois do Firefox ter dado pau algumas vezes, desisti. Mas o assunto que quero tratar já apareceu algumas vezes no Catatau, e se refere às relações entre a vida do artista sua arte. A arte do artista pode ser reduzida à sua vida de artista, à sua individualidade, história pessoal ou características psicológicas? Ou haveria algo mais em jogo, na arte do artista? Seria ela fuga da realidade, ou afirmação da vida?

Há alguns dias tive acesso a um pequeno e belo livro de Konstantinus Kavafis, intitulado Reflexões sobre poesia e ética (pesquisa de preços). O livro, apresentado por José Paulo Paes, reune notas e pensamentos relacionados a vários dos poemas de Kavafis, e mesmo algumas reflexões sobre sua própria arte. O interessante, nesse tema, é quando ele se refere à arte como ‘memória’ de experiências do artista. A poesia de Kavafis contém uma série de elementos que poderiam ser considerados autobiográficos. Mas a própria abertura de Paes acerta na mosca: há algo mais do que meramente a redução da arte à vida, mesmo que seja na vida que a arte se origine. Nas palavras de Paes,

"Só quando purificada pela memória de sua circunstancialidade egocêntrica e investida de forma artística é que a emoção adquire permanência e significatividade, fazendo juz ao ars longa, vita brevis".

Ou em outras palavras, é quando a experiência se destitui da vida do autor enquanto indivíduo e se transfigura ora enquanto singularidade, ora enquanto aspecto universal (escolham os artistas e críticos, dentro de suas querelas), que pode ser chamada de arte. Conforme Kavafis, a "memória" se transforma em "emoção artística.

A quadra do ano de que mais gosto é o verão. Os verdadeiros verões, do Egito e da Grécia - com seu sol causticante, seus triunfais pinos do dia, suas extenuantes noites de agosto. não posso no entanto dizer que trabalhe mais - artisticamente - durante o verão. As imagens e sensações estivais me infundem numerosas impressões; todavia, não sei de as ter representado ou traduzido de pronto numa composição literária. Digo "de pronto" porque as impressões artísticas demoram a ser usadas, a gerar outros pensamentos, a transformar-se sob a ação de novas influências, e quando enfim se cristalizam em palavras escritas, é difícil lembrar a ocasião primeira onde nasceram e de onde se originam as palavras escritas. (nota 23, 1909) 

Ou ainda,

Mas, do artista, como a vida se enriquece!
Amanhã, no outro dia, anos depois, serão escritos
os versos fortes que aqui têm a sua origem. (Tradução de Paes)

Sobre esse jogo entre acontecimentos concretos, da vida e da subjetividade, que se convertem em arte, vi também há alguns dias, uma entrevista com o fotógrafo Don McCullin. Se não me engano, o programa chama-se Conexão Roberto D´Ávila. Não conhecia suas fotografias, nem esse nome de autor, mas muito interessantes suas considerações a respeito desse tema. Segundo McCullin, suas fotografias não podem ser consideradas arte, mas fotografias. Haveria um jogo entre 3 elementos: aqueles acontecimentos concretos a serem fotografados, a própria fotografia, e a arte. Esses elementos orbitariam a própria vida do autor, daquele que fotografa. Elementos interessantes sairiam desse jogo: em primeiro lugar, a "criação" não seria do autor, mas envolveria a própria vida do autor. Para si mesmo, McCullin não é um artista que cria e que transforma o mundo ao redor por meio de sua arte; por outro lado, é o artista que se transformaria registrando os acontecimentos que registra, nunca impassível aos acontecimentos.

Por outro lado, a própria fotografia, ao invés de ser arte, seria um instrumento que retira elementos artísticos de composição. Tudo isso, para resguardar os acontecimentos, não retirá-los de seu caráter "real" para transformá-los em obra artística.

Muito legal todo esse jogo, que deixa os elementos em suspenso: o artista torna-se ao mesmo tempo criador e criatura, é afetado, modificado por aquilo que vive e o impressiona; a fotografia não se torna mero registro, nem obra artística (o que seria então?); mas a própria fotografia não poderia deixar de ser vista, considerada, como obra artística. Entre a vida, a obra, e o artista, um jogo de fugas e transmutações. Talvez esse jogo de "fugas" aponte, para McCullin, algo engendrado à arte que nunca deveria deixar de ser considerado: sua esfera política.

Tanto em McCullin quanto em Kavafis, parece haver um jogo entre arte e vida, que não meramente se reduz a uma análise da vida do autor, mas que conserva um papel criador (não de criatura) à própria arte.

 

 

December 21, 2006

Nephelibata


link: nephelibata.com

Acabei encontrando por acaso as Edições Nephelibata, a partir do Arquivo Kavafis BR. Trata-se de um interessante empreendimento editorial, de edições artesanais entregues a pedido. O acerfo oferecido é bom, e inclusive eles oferecem a obra de Kavafis em 3 tomos.

Sobre Kavafis, comprei seu Reflexões sobre poesia e ética [pesquisa de preços]. Trata-se de um compilado de anotações pessoais e reflexões, com idéias muito interessantes a respeito do papel da arte e da poesia para a vida, e sobre as relações entre vida e arte. Contém uma ótima apresentação e comentários de José Paulo Paes, relacionando mesmo poesias que Kavafis imputava como singulares, para "poucos leitores", com os elementos imortais de suas poesias que contém mitologia, como Ítaca.
 

November 4, 2006

Constantine Cavafy - Um Velho (1897)


link: http://cavafis.i8.com

Traduções de R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, A. T. Nicolacópulos [pesquisa de livros de Konstantinos Kavafis]. Sobre esse poema em especial, gostei mais dessa outra tradução (original aqui). Mas notemos abaixo a boa tradução também das rimas.  Pintura acima de Hervé Thibault.

UM VELHO

No meio do café barulhento, debruçado
sobre a mesa, um velho está sentado;
com um jornal a sua frente, sem companhia

E no desdém de sua velhice mísera de agora
pensa quão pouco aproveitou os anos de outrora
em que tinha fluêcia, e beleza, e energia.

Percebe que envelheceu muito; sente, conhece.
E contudo o tempo em que era jovem lhe parece
ontem. Como o tempo passa, como o tempo passa!

E pensa em como a Prudência o enganou;
e como - que loucura! - sempre lhe acreditou
quando dizia; "Amanhã. Há tempo." - Que trapaça!

Lembra ímpetos que segurou; felicidade,
quanta sacrificou. Cada oportunidade
perdida de seu saber insensato graceja.

Mas de tanto refletir e recordar
o velho tonteou. E agora dorme a sonhar
no café recostado sobre a mesa.   

October 30, 2006

Constantine Cavafy: A Cidade (1910)


Dizes: "Irei a outra cidade, irei a outro mar.
Outra cidade será encontrada, melhor que essa.
Todo esforço meu é condenado pelo destino;
e meu coração está - como um cadáver - sepultado.
Até quando nesse marasmo permanecerá meu espírito.
Para onde quer que volte meus olhos, para onde posso mirar
Vejo aqui as obscuras ruínas de minha vida,
Onde passei tantos anos, a arruinei e desperdicei"

Novas terras você não irá encontrar, você não encontrará outros mares.
A cidade irá seguir você. Vagarás pelas mesmas
ruas. E nos mesmos bairros te farás idoso,
nessas mesmas casas envelhecerá.
Sempre você chegará nessa cidade. Para outra cidade - não espere -
não há barco, não há caminho.
Assim como você arruinou sua vida aqui
nesse pequeno lugar, no mundo inteiro está destruída.

tradução/traição: a partir das versões de um excelente site, e de: KAVAFIS, C. Cien Poemas. Traducción del griego al castellano: Miguel Castillo Didier (chileno). Selección: Doris Jiménez y Ernesto Carmona. Biblioteca Virtual BEAT 57.

Compare também preços de livros de Kavafis, clicando aqui (via site Buscapé). No mesmo link, há o curioso lançamento de um livro intitulado Reflexões sobre Poesia e Ética. Provavelmente, é outra publicação póstuma, já que Kavafis nada publicou em vida.

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August 27, 2006

Pois Deus abandona a Antônio


Quando de repente, à hora da meia-noite, se ouvir
passar a turba invisível
com músicas requintadas, com vozes –
a tua sorte que já cede, as tuas obras
que falharam, os planos da tua vida
que deram em equívoco, não os deplores em vão.
Como preparado há muito, como corajoso,
despede-te dela, da Alexandria que se vai embora.
Sobretudo não te enganes, não digas que foi
um sonho, que foram defraudados os teus ouvidos;
tais esperanças vãs não te rebaixes a aceitar.
Como preparado há muito, como corajoso,
como convém a ti que mereceste tal cidade,
aproxima-te resoluto da janela,
e ouve com emoção, mas não
com as súplicas e as queixas dos covardes,
qual último deleite, os sons,
os instrumentos requintados da turba oculta,
e despede-te dela, da Alexandria que perdes.

Constantine Cavafy/ Konstantinus Kavafis [pesquise preços das edições impressas]. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis
rebelde, marcola, sanguessuga, rebeldes

July 7, 2006

Kavafis - Cien Poemas


A imagem “http://www.arquitrave.com/imagenes/Konstandinos%20Kavafis.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

Pode ser encontrada na web uma bela edição em Castelhano de Kavafis, intitulada ‘Cien Poemas‘. A seleção e tradução são encarregadas por Miguel Castillo Didier, Doris Jiménez e Ernesto Carmona. Dentre os poemas, vários inéditos (que não constam como os "canônicos" de Kavafis). Uma das versões de Kavafis que utilizo para minhas traições é essa. A edição pode ser encontrada nesse link. Os créditos são da Biblioteca Virtual Beat 57.

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June 2, 2006

Constantine Cavafy - Os Reis de Alexandria (1912)


Reuniram-se os alexandrinos
para verem os filhos de Cleópatra:
Cesarião e seus irmãos mais jovens,
Alexandre e Ptolomeu, que
por vez primeira ao Ginásio levados
reis seriam proclamados,
em parada militar brilhante.

Alexandre foi proclamado rei da Armênia, de Média e de Patia.
Ptolomeu, rei da Cecília, Síria e Fenícia.
Cesarião de pé, na frente deles,
vestido com seda cor-de-rosa,
um ramalhete de jacintos nos braços,
na cintura uma dupla fila de ametistas e safiras,
as sandáliaaas atadas com brancas fitas,
com amarelas pétalas bordadas.
A ele coube o maior dos títulos:
proclamaram-nos Rei dos Reis.

Os Alexandrinos certamente compreenderam
que tudo aquilo eram palavras de faz- de- conta.

O dia estava quente, porém, e poético,
com céu de pálido azul.
O Ginásio de Alexandria era uma obra-prima.
As vestes dos cortesãos, esplêndidas,
Cesarião era todo charme e beleza
(filho de Cleópatra, sangue dos Lágids).
Os alexandrinos, em multidões, ao festival acorreram
e entusiasmados saudavam em grego,
em egípcio, em hebraico alguns,
encantados com a beleza do espetáculo,
embora soubessem, naturalmente,
o que tudo aquilo valia,
eram aqueles reinos palavras vazias.

- Constantine Cavafy/Konstantinos Kavafis/Konstandinos Kavafis -
In Babel de Poemas - Antologia Multilíngue (Trad. Carlos Freire). Porto Alegre: Ed. L&PM, 2004. (pesquise preços dessa edição no Buscapé) Contribuição de Virginia Fulber. A versão em grego pode ser lida aqui.  

April 29, 2006

Constantine Cavafy - Círios


Os dias do futuro se erguem à nossa frente
como círios acesos, em fileira -
círios dourados, cálidos e vivos.

Os dias idos ficaram para trás,
triste fila de círios apagados;
os mais próximos ainda fumaceiam,
círios pensos e frios e derretidos.

Não quero vê-los, que me aflige o seu aspecto.
Aflige-me lembrar a sua luz de outrora.
Contemplo, adiante, os meus círios acesos.

Não quero olhar para trás e, trêmulo, notar
como se alonga depressa a fileira sombria,
como crescem depressa os círios apagados.

In Konstantinos Kaváfis - Poemas (Trad. de José Paulo Paes). RJ, Nova Fronteira, 1990.  

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April 24, 2006

Constantine Cavafy: Ítaca (1911)


Quando você começar sua viagem a Ítaca,
deseja que a estrada seja longa,
cheia de aventura, plena de conhecimento.
Os Lestrigonianos e os Ciclopes,
O odioso Poseidon - não os tema:
Você nunca os encontrará em seu caminho,
se seus pensamentos permanecerem elevados, se uma fina
emoção tocar seu espírito e seu corpo.
Os Lestrigonianos e os Ciclopes,
O feroz Poseidon você nunca irá encontrar,
se você não os carregar junto à tua alma,
se tua alma não os dispor acima de ti.

Peça para que a estrada seja longa.
Que as manhãs de verão sejam muitas, quando,
com cada prazer, com cada alegria,
você entrará em portos vistos pela primeira vez;
pare em mercados fenícios,
e adquira fina mercadoria,
âmbares e ébanos, pérolas e corais,
e perfumes voluptuosos de toda espécie
tão voluptuosos quanto você conseguir;
visite muitas cidades Egípcias,
para aprender e aprender com os sábios.

Sempre tenha Ítaca em sua mente.
Chegar lá é seu último destino.
Mas não aprece a viagem, contudo.
É melhor deixá-la perdurar por muitos anos;
e ancorar na ilha quando você estiver velho,
rico com tudo o que ganhou no caminho,
sem esperar que Ítaca lhe ofereça riquezas.

Ítaca deu a você uma linda viagem.
Sem ela você poderia ter nunca saído a caminho.
Nada mais ela tem a lhe dar.

E se você encontrá-la pobre, Ítaca não o decepcionou.
Sábio como há se tornado, com muita experiência,
você já terá compreendido o que Ítaca significa.

tradução/traição: a partir das versões de um excelente site, e de: KAVAFIS, C. Cien Poemas. Traducción del griego al castellano: Miguel Castillo Didier (chileno). Selección: Doris Jiménez y Ernesto Carmona. Biblioteca Virtual BEAT 57.

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