May 5, 2008

Categorias raciais e sociais, no informe sobre ações afirmativas.

O Marcos chamou a atenção a um recente estudo, divulgado pela revista da FAPESP. Demonstra-se lá a eficácia de políticas afirmativas na inserção de estudantes desprivilegiados, nas universidades.

Consoante um antigo texto ("Raça - entre o argumento biológico e sócio-histórico"), gostaria de chamar a atenção a alguns elementos:

O artigo fala sobre os benefícios fornecidos a "egressos de escolas públicas e grupos étnicos socialmente desfavo­recidos". Isso inclui, portanto, duas questões: a social, e a questão étnica imersa na questão social. É o solo comum das discussões: no Brasil, o desprivilégio racial é, em primeiro lugar, social. Racismos, por aqui, não ocorrem como em outros países, onde a discriminação é sobretudo étnica, e os prejuízos sociais são decorrência disso. No Brasil, não se separa discriminação racial e social.

Portanto, no fundo as duas questões se diluem (ou deveriam se diluir) em uma: a social. "Grupos étnicos socialmente desfavorecidos", no Brasil, inserem-se no grupo mais geral dos "socialmente desfavorecidos".

Logo após, o artigo apresenta outra noção, a de "resiliência educacional". Indivíduos provindos de classes desfavorecidas apresentariam uma maior capacidade de se adaptar às adversidades. Superariam desafios duplos, com a vida difícil, e os estudos. A resiliência dos alunos os levaria inclusive a padrões de desempenho melhores que seus colegas, de classe média e alta.

O que se torna complicado, como observamos no outro texto, é essa justaposição de categorias "raciais" e "sociais", para justificar apenas, ou sobretudo, as práticas raciais. Nesse texto, a noção social de "resiliência educacional" se justapõe às práticas afirmativas, que prioritariamente se focam na raça, e não na condição social. Ou melhor, focam-se na questão social prioritariamente com "lentes" raciais.

Se o argumento se dirige do desprivilégio social ao racial, não se tornaria um constrangimento aludir que os setores contemplados com ações afirmativas detém características psicológicas privilegiadas ("resiliência"), diante dos outros setores? 

É claro que não. Todos sabem que "resiliência educacional" pode ser uma noção social, mas nunca racial. Mas é precisamente isso que mostra todo o desequilíbrio.

Tudo obedece ao fato de que as políticas sociais, no Brasil, fiam-se prioritariamente na raça, e não no socius. Dado que o racismo e o desprivilégio, no Brasil, são sociais, e não uma categoria apenas biológico-étnica, cria-se aqui uma generalização equivocada. Justifica-se um argumento geral para legitimar uma prática parcial, como se a parcialidade por si só resolvesse tudo. Mas seguindo o mesmo raciocínio, se as políticas de incentivo fossem prioritariamente sociais, não atingiriam os mesmos resultados raciais, abarcando inclusive indivíduos que no momento atual ficam à margem das ações afirmativas?

A "generalização equivocada" não se resume a um problema lógico. É social. 

*** 

O artigo da FAPESP se previne, apresentando vantagens de políticas relativas a egressos de escolas públicas, ao invés de apenas cotas. Inclusive apresenta a discussão entre cotistas e outros sistemas, como o de bônus e mérito, em universidades como a USP e a UNICAMP. Mas não se pode deixar de notar o peso ainda conferido à questão da raça, na maior parte das políticas relativas a desprivilegiados.

April 3, 2008

Assessoria Acadêmica para trabalhos universitários (ou como ser incrivelmente burro, e ainda contar vantagem)

http://i176.photobucket.com/albums/w179/impreston/asshole.jpg

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March 12, 2008

Para o vestibular, o “manejo eficiente da língua”

Alguns dias atrás um menino de 8 anos passou em direito:

Segundo a mãe, ele não é superdotado. "É um menino comum. É muito dedicado, gosta de ler e estudar. Mas brinca, se diverte e faz amigos." O objetivo dele agora é ser juiz federal.

A OAB (Ordem do Advogados do Brasil) de Goiás diz que há preocupação com o fato de o garoto de apenas oito anos ter passado no vestibular e diz que irá estabelecer maior rigor na fiscalização. Segundo a entidade, há uma "mercantilização do ensino jurídico".

Já a Unip diz que "o desempenho do estudante, levando em consideração sua idade e sua escolaridade, foi bom, especialmente na prova de redação, em que revelou boa capacidade de expressão e manejo eficiente da língua".

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February 27, 2008

Do mais novo professor espancado em sala de aula

A professora de português Paula Aparecida Alves, 37, foi agredida na tarde de anteontem com socos e pontapés por um aluno de 14 anos, da 7ª série do ensino fundamental, na escola estadual Professor José Lima Pedreira de Freitas, na Vila Virgínia, em Ribeirão Preto (interior de São Paulo).

De acordo com o relato da professora, o aluno a ofendeu após ser repreendido por atrapalhar a aula. Quando estava sendo retirado da sala por uma inspetora da escola, o estudante se soltou e deu dois socos no rosto da professora. Paula tentou correr, mas foi derrubada e levou chutes no estômago. (…)

Curiosamente esse tipo de relato só muda de endereço. Podemos imaginar, para cada dado formalizado, quantos permanecem sem apuração alguma.

Saltam aos olhos as questões: como a reportagem se concentrou no papel individual do aluno (seus "problemas anteriores com outros professores"); a "suspensão" (medida considerada branda pelos outros professores, que paralisaram a escola); a fácil e quase inocente defesa do agressor, e assim por diante.

No entremeio, uma multidão de outras questões não esclarecidas. Principalmente, a relação professor-aluno.

Diz-se muito nos ambientes pedagógicos que a produtiva relação entre professor e aluno pode mudar uma sociedade. Mas no cotidiano, o papel do professor está em crise: de um lado, o salário baixo e a dúvida sobre seu papel na educação pública; de outro, a confusão entre papel pedagógico e relação cliente x prestador de serviços nas instituições particulares.

Nas duas esferas, o professor é muitas vezes desrespeitado, e destituído de seu lugar. Isso porque a relação pedagógica exige tanto condições mínimas de existência (boa formação, bom salário, bom background institucional), quanto evitar relações de clientela.

Professor não é pau-pra-toda-obra, e nem funcionário. Claro que é os dois, mas no Brasil de um modo não muito produtivo. No país do jeitinho, sempre ocorre um mal começo, quando se deve "dar um jeito" para conseguir ser professor.

***

E certa vez um colega me deu uma receita interessante para não passar por esse tipo de situação. Recomendou que um bom professor deve se "impor" na sala.

Como existem vários tipos de imposição, a que ele se referia era essa mesma: fatores como o tamanho do professor, sua força física, ou modo de lidar impositivamente com os alunos, podem auxiliar no "respeito".

O que mostra no mínimo uma coisa: em muitos lugares, e para muita gente, a relação professor x aluno parte de qualquer coisa, menos de pressupostos pedagógicos. 

January 19, 2008

Sobre os salários dos professores em rede pública e privada

A informação é no mínimo inusitada:

Os professores da educação fundamental das escolas públicas (estadual e municipal) do país ganham, em média, mais do que os da rede particular.

Os docentes de 1ª a 4ª série (o antigo primário) das escolas estaduais têm um rendimento mensal médio de R$ 1.398, ante R$ 1.051 das municipais e R$ 1.048 das particulares.

A constatação está presente em tabulações da Pnad 2006 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE) feitas por Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE e atual presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade. Dados do Ministério do Trabalho confirmam o panorama.

A rede pública paga mais também na 5ª a 8ª (antigo ginásio) e da educação superior.

No antigo ginásio, a média no sistema estadual é de R$ 1.347, contra R$ 1.120 na particular –a municipal paga R$ 1.230.

O sistema particular só oferece salários maiores no ensino médio (antigo colegial) -veja mais em quadro ao lado.

A lógica se mantém mesmo quando se simula que todos os educadores do país tivessem a mesma jornada.

Uma das explicações para que a média na rede particular seja mais baixa é sua heterogeneidade. Na capital paulista, por exemplo, há escolas de regiões mais pobres em que os salários não chegam a R$ 700, enquanto outras escolas de ponta, como o Santa Cruz (em Pinheiros), pagam mais de R$ 8.000.

Essa diferença salarial entre os colégios reflete na qualidade de ensino no setor privado.

As médias no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) entre as dez escolas particulares de São Paulo de melhor salário variam de 68 a 58, numa escala de 0 a 100. Entre as dez com piores salários, a variação é de 47 a 56. O ranking de rendimentos foi feito pelo sindicato dos professores da rede particular no ano passado.

A oscilação salarial não costuma ter tanto impacto nas redes públicas. No sistema estadual de São Paulo, por exemplo, a diferença entre o piso e o teto da 1ª a 4ª séries é de 92,3%.

A grande diferença entre os Estados também ajuda a explicar as baixas médias. O cruzamento dos dados da Pnad 2006 com o Censo dos Profissionais do Magistério da Educação Básica, feito em 2003 pelo MEC, aponta que os salários da rede privada no Nordeste puxam a média nacional para baixo.

Em Sergipe, por exemplo, a rede particular pagava R$ 410, contra R$ 628 da pública.

Naquele ano, as redes privadas do Distrito Federal e de São Paulo pagavam uma média superior a R$ 1.200.

Algumas coisas não estão bem claras. Em primeiro lugar, a própria reportagem mostra: os salários em escolas particulares são heterogêneos, não seguem um padrão. Variando a região e o tipo da escola, variam drasticamente os salários. Isso é decisivo para comprometer uma análise em termos de média.

O mesmo se poderia dizer a respeito dos professores de rede pública: em vários estados os salários diferem significativamente, de município a município, ou comparando as escolas municipais com as estaduais.

Em suma, a pesquisa mostra um caquete frequente: a confiança nas médias diante de dados essencialmente heterogêneos. Caso fossem consideradas as regiões e condições que influem em cada classe salarial, haveria maior utilidade e relevância das informações.

Outra questão controvertida é a de como os salários são baixos. Caso se mostre que predominantemente os salários de rede pública são maiores que os de particular - isto é, considerando todas as estratificações, e não apenas estabelecendo uma média geral -, temos aí algo bem interessante: em primeiro lugar, o tema de que professor particular ganha melhor que o de rede pública deveria ser revisado. Em segundo lugar, saltaria aos olhos como até mesmo nas redes privadas a educação segue em níveis alarmantes… 

***

E no Ensino Superior:

Quarenta e nove cursos de pedagogia e 11 de normal superior (formação de professores) com baixa avaliação no exame da educação superior do Ministério da Educação vão passar por um processo de supervisão pela pasta que pode acarretar desde redução de aluno por sala até a suspensão de novos processos seletivos.

O procedimento é semelhante ao que ocorreu com 80 cursos de direito –até agora, 26 deles terão que cortar 6.323 vagas de vestibular, principalmente para diminuir o número de alunos por sala. Os outros ainda estão sendo examinados.

Pelo jeito, o MEC começa a se mexer. Mas o dado oculta um outro resultado: diante da numerosa aprovação de cursos superiores nos últimos anos, não houve fiscalização para acompanhar práticas que se aproximam da barbárie, especialmente com professores.

Quem já acompanhou a avaliação de novos cursos sabe como tal fiscalização seria simples. Bastariam algumas visitas da mesma comissão avaliadora do MEC, para acompanhar possíveis mudanças. Ora, se um curso é aprovado pelo MEC, teoricamente tem capacidade para seguir em frente sem problemas maiores.

O que se vê hoje prova que tem algo errado. Via de regra, o principal elemento que muda após a aprovação de um curso é o quadro docente. Em diversos cursos, professores qualificados aparecem nos índices apenas por conveniência: em momentos de avaliação, ou sendo contratados em regime horista para ministrar apenas uma ou duas disciplinas. Ou mesmo se utiliza apenas um professor qualificado como pau pra toda obra: ministra cursos das mais diversas competências, inclusive em áreas um tanto quanto distantes de sua formação original. Isso confere ao curso uma suposta qualidade que não existe.

Esperemos a hora dos outros cursos serem também "atingidos" pela avaliação (outro assunto seria considerar também a qualidade dessa avaliação).

August 30, 2007

Educação superior privada, e novo informe sobre renda

A primeira é do blog do Paulo Ghiraldelli, que no mesmo movimento de várias outras manifestações, também chama a atenção ao "descalabro" do ensino superior particular de boa parte das faculdades brasileiras:
Na maioria das universidades particulares não há pesquisa – há um engodo. Não há professores bem pagos e a carga de aulas deles ou é exagerada ou é pequena a ponto de fazer com que eles tenham que se deslocar de faculdade em faculdade. As universidades que possuem lucro, não investem em si mesmas, enquanto instituições de ensino. Normalmente, a mantenedora tem lá alguém cujo patrimônio cresce de modo desproporcional.
 
O professor Renato Mezan, há alguns anos, na Folha de S. Paulo, denunciou o ensino particular universitário (e não todo o ensino particular superior, o que é diferente), dizendo que todo este tipo de ensino, com raras exceções, é uma grande mentira. Disse também, na época, como que ele via a atuação do governo e da CAPES. Todos nós sabemos que este governo do Lula é igual ao do FHC em relação ao ensino superior: não criou mecanismo para apertar as universidades, exigindo que elas cumpram o que lhes é obrigatório por lei para usufruírem o nome de universidade. [daqui]
Consoante ao artigo antigo (porém atual) de Renato Mezan, não é inútil lembrar a idéia trivial: quanto mais manifestações dos professores, maior a possibilidade do quadro se reverter.
 
A segunda notícia é do Zero Hora, e vincula a desigualdade brasileira à educação e renda:
As famílias brasileiras gastam em torno de 75% de seus rendimentos em apenas três itens: habitação, alimentação e transportes. Se somadas à educação e à assistência à saúde, as despesas chegam a cerca de 85%. Mas os gastos em educação, que poderiam melhorar o salário, representam só 4,08% do orçamento. Esse retrato surge da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base em dados apurados nos anos de 2002 e 2003, divulgada ontem.

A fotografia também mostra o tamanho da desigualdade no país. Enquanto cada pessoa das famílias mais ricas gastou R$ 1.814,61, entre os mais pobres o desembolso individual foi de R$ 179,44. Ou seja, os ricos gastam 10 vezes mais que os pobres.

Investir em educação aumenta muito a renda futura e, conseqüentemente, a capacidade de gastar. Famílias que contam com um integrante com curso superior ganham R$ 3.817,96, em média, mais do que o triplo das famílias que não têm ninguém com esse nível de estudo. [completo]

Ainda, 10% das famílias teriam renda maior ou igual a 3800 reais, enquanto os 40% mais pobres receberiam em torno de 750 reais. Esses dados são um pouco estranhos, dado que as médias não refletem bem a grande estratificação da sociedade brasileira. Por exemplo, desses 10% mais ricos, a maior parte absoluta recebe em torno de 3800.
 
O que gera um panorama interessante, considerar que quase toda a população brasileira recebe faixa menor ou aproximada de 3800 reais. Renda baixíssima, considerando que a grande maioria que recebe em torno dessa quantia figuraria entre os "mais ricos"!

August 14, 2007

Melô do pós-graduando e do bolsista

http://www7.rio.rj.gov.br/cgm/comunicacao/publicacoes/prestandocontas/edicoes/65/img/3.gif

- E aí, o que você faz?
- Faço pós-graduação.
- Sim, mas no quê você trabalha?
- Faço minha pesquisa de pós-graduação.
- Ah, então você é apenas estudante, ainda não trabalha… (com ar de admiração)
- Sim, mas tenho bolsa, e a bolsa…
- A bolsa é para não pagar a mensalidade, né? Tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinho que também ganhava bolsa, conseguiu 50% de desconto.
- Não, não é esse tipo de bo…
- Ele(a) está quase terminando a pós. Depois, vai fazer mestrado. Mas antes, a especialização
- Mas é que eu faço…
- Mas e a pós, é apenas nos finais de semana, não é mesmo? E o quê você faz durante todo o resto do tempo?
- …

***

Chega aquele parente que você não vê há tempos:

- E aí, como vão as coisas?
- Tudo bem. Ufa (ar de alívio), estou quase terminando a pós
- Mas então, você ainda não trabalha?
- Bem… estou fazendo minha pesquisa da pós, super-ocupado agora que estou no final e…
- Mas e o resto do tempo (referindo-se à semana, aos dias úteis), o que você faz?
- …

***

Um amigo liga:

- E aí cara, vamos sair?
- Cara, hoje não posso, estou super-atarefado com a pesquisa
- Ei, mas hoje é sábado
- Sim, mas estou apertado
- Duvido que você esteja apertado e não tenha 2 horas para sair (com ar de indignação)
- Pior é que estou, tenho que terminar uma tarefa para a semana que vem, e já estou há duas semanas fazendo isso, sem folga nem nos fins de…
- Ah, entendo (com ar de ceticismo e desaprovação). Também vivo ocupado.
- Então, que bom que compreende
- Mas todos nós temos os nossos problemas. Os seus não são justificativa para não vir, e (…)
- …

***

E tem aqueles que, pelo simples fato de para eles "não trabalhar" (com muitas aspas), o bolsista só poderia ser um vagabundo:

(…)
- Então você ainda não trabalha?
- É que faço pós, e…
- Tá, mas que pós você faz?
- Faço mestrado/ou/doutorado em…
- Ei, espera aí, você disse que fazia pós
- Sim, faço mestrado/ou/doutorado
- Não, primeiro vem a pós, depois a especialização, depois o mestrado e então o doutorado
- Sim, mas existe uma diferença, a pós stricto sensu, e a lato sensu. "Pós" é tudo isso junto, e faço mestrado/ou/doutorado
- Nunca ouvi falar disso, acho que não é bem assim. Mas então você faz mestrado/ou/doutorado…
- Sim.
- É, mas ainda tem que fazer MBA. É o último nome em negócios, bem melhor do que pós…
- …

Variação I

- Ah, entendi, você faz mestrado/ou/doutorado. Tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinho que fez mais ainda: fez PHD.
- …

Variação II:

- É, tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinhoque também faz pós, e ainda trabalha
- …

 ***

- Ah, então você faz pós? Também fiz pós, mas já terminei
- O que você fez?
- Fiz ASDFPQPIURUIR na Uni-Esquina, e APDOFDUR, na Fa-Cil
- Hmmm
- Os professores de lá são super-renomados. São melhores que os da Federal. O curso é relâmpago, último nome em educação empresarial. E ainda os preços são super-baixos.
- O.o
- Você faz Federal, né? Mas vai nessa, continua se dedicando que um dia você chega lá
- Hum… Obrigado
- Mas e aí, você trabalha?

July 23, 2007

O fabuloso gerador de textos pós-modernos

link: elsewhere.org/pomo

Como já mostrou o blog do Idelber, as primeiras anulações de mestrados por plágio no Brasil já começaram a aparecer. Aliás, qualquer professor universitário (especialmente os de algumas faculdades particulares caça-níquel, ou de alunos inexcrupulosos) atualmente deve se deparar com o cotidiano dos plágios. Aos alunos mais descuidados (que recorrem aos plágios, e ainda fazem isso de um jeito tão ruim que chega a ser engraçado), fica a advertência: atualmente já inventaram até mesmo um Farejador de Plágios.

No outro extremo desse mesmo universo fantástico dos plágios e imposturas, existem os plagiadores (que até recebem uma grana), os enroladores de plantão, e os geradores mecânicos de lero-lero. Dentro dessas possibilidades humanas e mecânicas, o apreciador de uma boa verborragia inútil pode contar com um novo instrumento: o "Gerador de Pós-Modernismo" (link acima). Basta recarregar a página para encontrar, a cada vez, um texto extremamente "douto", mas recheado de referências que não levam a lugar algum.

June 20, 2007

Um problema de geografia e enducação

O vídeo abaixo explora um pré-conceito bastante difundido: o de que cidadãos "livres", norte-americanos, não tem um mínimo conhecimento de geografia.


Não precisamos ir tão longe nas leituras para pensar que a liberdade está desde há muito tempo ligada ao saber. Vendo esse vídeo, algo fica indigesto: o saber emancipa? Ou haveria algum problema com a noção de liberdade?

Em todos esses temas, o Brasil não fica atrás. Muito se descute que o segredo todo perpasa a enducação. Talvez seja um problema mesmo é de pisicologia. Ou mesmo de istoria. A história do Brasil talvez não tenha permitido que por aqui aflorasse a entelectualidade, ou manifestações entelequituais.

Mas voltando ao assunto dos norte-americanos, filmes como Control Room, e blogs de soldados no Iraque, também mostram um certo desconforto geográfico - que dirá político. É realmente necessário, para se constituir como o país mais poderoso do mundo, que seus ‘cidadãos’, ao serem perguntados sobre um país que comece com a letra ‘U’, menciom Utah? ;)

March 19, 2007

Os doutores na mira das faculdades particulares

Tomo a liberdade de reproduzir o artigo de Anna Gicelle Garcia Alaniz, na Caros Amigos, que cai como uma luva em dois assuntos já comentados por aqui: a banalização do ensino superior, e o descrédito aos professores universitários, especialmente os de carga horista em faculdades privadas. É urgente aos professores uma reação coletiva. Artigos como o de Anna Gicelle multiplicados em milhares dariam uma boa visibilidade da população sobre tal questão. Ouso dizer: em termos de ensino superior particular, muita gente tem sido literalmente enganada, no Brasil. Não recebem formação adequada, por medidas meramente financeiras, que restringem a qualidade do ensino, e a contratação de profissionais qualificados.
 
Ensino superior signinifica isso: ENSINO, e SUPERIOR. Não é técnico, nem secundário, nem restringe-se meramente a ‘ensino’. Dizer SUPERIOR, envolve não meramente a reprodução de conhecimentos de apostila por professores mal pagos, ou contratados apenas por não terem ainda mestrado e doutorado. Trata-se, absolutamente, de outra coisa…
 
Também, é com urgência que o MEC deve tomar as medidas necessárias…
 
ps: Imperdível também o texto do Fazendo Média: "Professor ou Mercadoria?
ps2: há quem diga ainda que a desvalorização do professor no Brasil é um mito. Dá para acreditar?  
 

Tiro ao Doutor - A mira no professor universitário, por Anna Gicelle Garcia Alaniz

Nos últimos dois anos, a cada fim de semestre, surtos de pânico acometem o corpo docente das instituições particulares de ensino superior. É que esse é o período de “tiro ao doutor”. É o momento em que as instituições demitem o ”excedente” de mão-de-obra em nome da “eficiência” e da redução de custos.

Sabemos que o MEC exige um número determinado de mestres e doutores para aprovar e reconhecer a abertura de cursos superiores nas instituições privadas. A nota que as comissões de reconhecimento atribuem aos novos cursos está diretamente relacionada com o nível de qualificação do corpo docente. O que não sabemos é por que o MEC se omite em relação ao destino desses profissionais após o reconhecimento desses cursos.

Estamos assistindo impotentes ao aviltamento da condição dos professores universitários devido ao excesso de profissionais no mercado e devido à mercantilização do ensino superior. Houve nos últimos anos uma proliferação inconsistente de instituições privadas de grandes redes, cujo único objetivo é o lucro e que se destinam a absorver estudantes de média e baixa renda, sem acesso à universidade pública. Os donos e administradores dessas instituições “desconhecem” os mais básicos princípios da pedagogia e oferecem um tipo de ensino que acreditam “até bom demais para seus alunos de segunda e terceira classe”.

Nesse contexto, os docentes têm seus direitos trabalhistas flagrantemente desrespeitados e sua liberdade de ação tolhida por estúpidas normas internas, que rebaixam a qualidade das aulas e humilham profissionais de primeira linha. E, normalmente, após o reconhecimento do curso por parte do MEC, começa uma ação sistemática de descarte dos docentes com titulação de doutor, para baratear os custos da folha de pagamento. Em seu lugar, mestres e especialistas assumem e se prestam a todo tipo de humilhações para não perder seus empregos.

Uma dessas conhecidas redes de ensino, que recentemente se espalhou pela região metropolitana de Campinas e cobriu várias cidades com seus outdoors – que são uma pequena amostra de seu marketing agressivo –, é um exemplo vívido do que estamos enfrentando. Entrando no mercado com pretensões megalômanas, essa instituição mantém um preço competitivo, penalizando seu corpo docente e a qualidade de seus cursos. O período de quatro horas/aula encerra-se às 22 horas para diminuir o adicional noturno dos docentes; a extensão letiva dos cursos diminui a cada ano, e atividades totalmente estapafúrdias são consideradas como horas/atividade para atender aos critérios elásticos do MEC; normas de “qualidade” são desculpas esfarrapadas para a padronização das aulas, retirando toda a capacidade de iniciativa dos docentes e preparando o caminho para a implantação dos sistemas de ensino a distância, que visam a total eliminação dos docentes da folha de pagamento.

Por essas e outras e devido ao seu marketing absolutamente agressivo, essa rede de ensino semeou o pânico em instituições particulares mais tradicionais, com décadas de serviços prestados à comunidade. Para se conservar no mercado, essas instituições mais antigas passaram a diminuir sistematicamente seus custos e têm procedido demissões coletivas de doutores que chegam a números assustadores, que ultrapassam a centena de profissionais por instituição. Essas demissões atingem docentes com muitos anos de serviço e conhecida reputação pedagógica, que estão sendo jogados em um mercado de trabalho quase inexistente, uma vez que os anúncios de jornais solicitando mestres e doutores visam apenas a montagem de cursos para reconhecimento pelo MEC e não uma relação empregatícia honesta e duradoura.

Uma das áreas de ensino que mais prolifera no momento é a da, assim denominada, gestão de negócios. Cursos como administração e ciências contábeis, que no passado eram apenas encontrados em escolas de comércio, adquiriram status de ensino superior apenas ao incorporar conteúdos humanísticos em suas grades curriculares. Hoje, para baratear seus custos, enganam o MEC eliminando essas matérias humanísticas e “ajustando” seu conteúdo de maneira pífia em outras matérias que deveriam ser correlatas. É o caso dos cursos de ciências contábeis que eliminam a disciplina de cultura brasileira, incorporando-a à de economia em nome desses ajustes curriculares.

O aluno oriundo da rede pública de ensino, aqui em São Paulo, já vem prejudicado por ter sido vítima da famigerada “progressão continuada”, que a mídia insiste em ignorar. Os estudantes chegam ao ensino superior com deficiências atrozes de conteúdo básico, quando não completos analfabetos funcionais. Nós, que ministramos as matérias de conteúdo humanístico, fazemos esforços sobre-humanos para suprir suas carências e conseguir que desenvolvam suas potencialidades para poder acompanhar as matérias mais técnicas.

Agora, que estamos sendo demitidos em massa, o que acontecerá com esses alunos? O Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley já chegou e não foi necessário o uso da genética. Bastaram algumas gestões do PSDB para que uma geração inteira de jovens se transforme em profissionais-gama com diplomas de terceira categoria. Assim, os ricos continuarão cada vez mais ricos e os pobres agora têm sua ignorância reconhecida e sustentada por diplomas universitários assinados e reconhecidos pelo MEC.

A prova cabal do descalabro desse sistema é o exame realizado pela OAB para admitir em sua categoria os bacharéis recém-formados. O exame da Ordem reprova a maior parte dos alunos oriundos dessas novas redes de ensino, devido à baixa qualidade dos cursos. Índices de 10 a 17 por cento de aprovação contra os mais de 60 por cento das instituições mais tradicionais falam por si sós. Se houvesse exames isentos para todas as outras categorias profissionais, o quadro grotesco que se desenharia talvez acordasse nossas autoridades.

O que já aconteceu aqui em São Paulo é irreversível. Mas e o futuro? Até quando a mídia, o MEC e os tecnocratas vomitadores de estatísticas vão fingir que está tudo bem? Quem deve ser processado e responsabilizado por toda essa esbórnia? Que país queremos?

Anna Gicelle Garcia Alaniz é doutora em história social pela USP.