August 30, 2007

Educação superior privada, e novo informe sobre renda

A primeira é do blog do Paulo Ghiraldelli, que no mesmo movimento de várias outras manifestações, também chama a atenção ao "descalabro" do ensino superior particular de boa parte das faculdades brasileiras:
Na maioria das universidades particulares não há pesquisa – há um engodo. Não há professores bem pagos e a carga de aulas deles ou é exagerada ou é pequena a ponto de fazer com que eles tenham que se deslocar de faculdade em faculdade. As universidades que possuem lucro, não investem em si mesmas, enquanto instituições de ensino. Normalmente, a mantenedora tem lá alguém cujo patrimônio cresce de modo desproporcional.
 
O professor Renato Mezan, há alguns anos, na Folha de S. Paulo, denunciou o ensino particular universitário (e não todo o ensino particular superior, o que é diferente), dizendo que todo este tipo de ensino, com raras exceções, é uma grande mentira. Disse também, na época, como que ele via a atuação do governo e da CAPES. Todos nós sabemos que este governo do Lula é igual ao do FHC em relação ao ensino superior: não criou mecanismo para apertar as universidades, exigindo que elas cumpram o que lhes é obrigatório por lei para usufruírem o nome de universidade. [daqui]
Consoante ao artigo antigo (porém atual) de Renato Mezan, não é inútil lembrar a idéia trivial: quanto mais manifestações dos professores, maior a possibilidade do quadro se reverter.
 
A segunda notícia é do Zero Hora, e vincula a desigualdade brasileira à educação e renda:
As famílias brasileiras gastam em torno de 75% de seus rendimentos em apenas três itens: habitação, alimentação e transportes. Se somadas à educação e à assistência à saúde, as despesas chegam a cerca de 85%. Mas os gastos em educação, que poderiam melhorar o salário, representam só 4,08% do orçamento. Esse retrato surge da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base em dados apurados nos anos de 2002 e 2003, divulgada ontem.

A fotografia também mostra o tamanho da desigualdade no país. Enquanto cada pessoa das famílias mais ricas gastou R$ 1.814,61, entre os mais pobres o desembolso individual foi de R$ 179,44. Ou seja, os ricos gastam 10 vezes mais que os pobres.

Investir em educação aumenta muito a renda futura e, conseqüentemente, a capacidade de gastar. Famílias que contam com um integrante com curso superior ganham R$ 3.817,96, em média, mais do que o triplo das famílias que não têm ninguém com esse nível de estudo. [completo]

Ainda, 10% das famílias teriam renda maior ou igual a 3800 reais, enquanto os 40% mais pobres receberiam em torno de 750 reais. Esses dados são um pouco estranhos, dado que as médias não refletem bem a grande estratificação da sociedade brasileira. Por exemplo, desses 10% mais ricos, a maior parte absoluta recebe em torno de 3800.
 
O que gera um panorama interessante, considerar que quase toda a população brasileira recebe faixa menor ou aproximada de 3800 reais. Renda baixíssima, considerando que a grande maioria que recebe em torno dessa quantia figuraria entre os "mais ricos"!

August 14, 2007

Melô do pós-graduando e do bolsista

http://www7.rio.rj.gov.br/cgm/comunicacao/publicacoes/prestandocontas/edicoes/65/img/3.gif

- E aí, o que você faz?
- Faço pós-graduação.
- Sim, mas no quê você trabalha?
- Faço minha pesquisa de pós-graduação.
- Ah, então você é apenas estudante, ainda não trabalha… (com ar de admiração)
- Sim, mas tenho bolsa, e a bolsa…
- A bolsa é para não pagar a mensalidade, né? Tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinho que também ganhava bolsa, conseguiu 50% de desconto.
- Não, não é esse tipo de bo…
- Ele(a) está quase terminando a pós. Depois, vai fazer mestrado. Mas antes, a especialização
- Mas é que eu faço…
- Mas e a pós, é apenas nos finais de semana, não é mesmo? E o quê você faz durante todo o resto do tempo?
- …

***

Chega aquele parente que você não vê há tempos:

- E aí, como vão as coisas?
- Tudo bem. Ufa (ar de alívio), estou quase terminando a pós
- Mas então, você ainda não trabalha?
- Bem… estou fazendo minha pesquisa da pós, super-ocupado agora que estou no final e…
- Mas e o resto do tempo (referindo-se à semana, aos dias úteis), o que você faz?
- …

***

Um amigo liga:

- E aí cara, vamos sair?
- Cara, hoje não posso, estou super-atarefado com a pesquisa
- Ei, mas hoje é sábado
- Sim, mas estou apertado
- Duvido que você esteja apertado e não tenha 2 horas para sair (com ar de indignação)
- Pior é que estou, tenho que terminar uma tarefa para a semana que vem, e já estou há duas semanas fazendo isso, sem folga nem nos fins de…
- Ah, entendo (com ar de ceticismo e desaprovação). Também vivo ocupado.
- Então, que bom que compreende
- Mas todos nós temos os nossos problemas. Os seus não são justificativa para não vir, e (…)
- …

***

E tem aqueles que, pelo simples fato de para eles "não trabalhar" (com muitas aspas), o bolsista só poderia ser um vagabundo:

(…)
- Então você ainda não trabalha?
- É que faço pós, e…
- Tá, mas que pós você faz?
- Faço mestrado/ou/doutorado em…
- Ei, espera aí, você disse que fazia pós
- Sim, faço mestrado/ou/doutorado
- Não, primeiro vem a pós, depois a especialização, depois o mestrado e então o doutorado
- Sim, mas existe uma diferença, a pós stricto sensu, e a lato sensu. "Pós" é tudo isso junto, e faço mestrado/ou/doutorado
- Nunca ouvi falar disso, acho que não é bem assim. Mas então você faz mestrado/ou/doutorado…
- Sim.
- É, mas ainda tem que fazer MBA. É o último nome em negócios, bem melhor do que pós…
- …

Variação I

- Ah, entendi, você faz mestrado/ou/doutorado. Tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinho que fez mais ainda: fez PHD.
- …

Variação II:

- É, tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinhoque também faz pós, e ainda trabalha
- …

 ***

- Ah, então você faz pós? Também fiz pós, mas já terminei
- O que você fez?
- Fiz ASDFPQPIURUIR na Uni-Esquina, e APDOFDUR, na Fa-Cil
- Hmmm
- Os professores de lá são super-renomados. São melhores que os da Federal. O curso é relâmpago, último nome em educação empresarial. E ainda os preços são super-baixos.
- O.o
- Você faz Federal, né? Mas vai nessa, continua se dedicando que um dia você chega lá
- Hum… Obrigado
- Mas e aí, você trabalha?

July 23, 2007

O fabuloso gerador de textos pós-modernos

link: elsewhere.org/pomo

Como já mostrou o blog do Idelber, as primeiras anulações de mestrados por plágio no Brasil já começaram a aparecer. Aliás, qualquer professor universitário (especialmente os de algumas faculdades particulares caça-níquel, ou de alunos inexcrupulosos) atualmente deve se deparar com o cotidiano dos plágios. Aos alunos mais descuidados (que recorrem aos plágios, e ainda fazem isso de um jeito tão ruim que chega a ser engraçado), fica a advertência: atualmente já inventaram até mesmo um Farejador de Plágios.

No outro extremo desse mesmo universo fantástico dos plágios e imposturas, existem os plagiadores (que até recebem uma grana), os enroladores de plantão, e os geradores mecânicos de lero-lero. Dentro dessas possibilidades humanas e mecânicas, o apreciador de uma boa verborragia inútil pode contar com um novo instrumento: o "Gerador de Pós-Modernismo" (link acima). Basta recarregar a página para encontrar, a cada vez, um texto extremamente "douto", mas recheado de referências que não levam a lugar algum.

June 20, 2007

Um problema de geografia e enducação

O vídeo abaixo explora um pré-conceito bastante difundido: o de que cidadãos "livres", norte-americanos, não tem um mínimo conhecimento de geografia.


Não precisamos ir tão longe nas leituras para pensar que a liberdade está desde há muito tempo ligada ao saber. Vendo esse vídeo, algo fica indigesto: o saber emancipa? Ou haveria algum problema com a noção de liberdade?

Em todos esses temas, o Brasil não fica atrás. Muito se descute que o segredo todo perpasa a enducação. Talvez seja um problema mesmo é de pisicologia. Ou mesmo de istoria. A história do Brasil talvez não tenha permitido que por aqui aflorasse a entelectualidade, ou manifestações entelequituais.

Mas voltando ao assunto dos norte-americanos, filmes como Control Room, e blogs de soldados no Iraque, também mostram um certo desconforto geográfico - que dirá político. É realmente necessário, para se constituir como o país mais poderoso do mundo, que seus ‘cidadãos’, ao serem perguntados sobre um país que comece com a letra ‘U’, menciom Utah? ;)

March 19, 2007

Os doutores na mira das faculdades particulares

Tomo a liberdade de reproduzir o artigo de Anna Gicelle Garcia Alaniz, na Caros Amigos, que cai como uma luva em dois assuntos já comentados por aqui: a banalização do ensino superior, e o descrédito aos professores universitários, especialmente os de carga horista em faculdades privadas. É urgente aos professores uma reação coletiva. Artigos como o de Anna Gicelle multiplicados em milhares dariam uma boa visibilidade da população sobre tal questão. Ouso dizer: em termos de ensino superior particular, muita gente tem sido literalmente enganada, no Brasil. Não recebem formação adequada, por medidas meramente financeiras, que restringem a qualidade do ensino, e a contratação de profissionais qualificados.
 
Ensino superior signinifica isso: ENSINO, e SUPERIOR. Não é técnico, nem secundário, nem restringe-se meramente a ‘ensino’. Dizer SUPERIOR, envolve não meramente a reprodução de conhecimentos de apostila por professores mal pagos, ou contratados apenas por não terem ainda mestrado e doutorado. Trata-se, absolutamente, de outra coisa…
 
Também, é com urgência que o MEC deve tomar as medidas necessárias…
 
ps: Imperdível também o texto do Fazendo Média: "Professor ou Mercadoria?
ps2: há quem diga ainda que a desvalorização do professor no Brasil é um mito. Dá para acreditar?  
 

Tiro ao Doutor - A mira no professor universitário, por Anna Gicelle Garcia Alaniz

Nos últimos dois anos, a cada fim de semestre, surtos de pânico acometem o corpo docente das instituições particulares de ensino superior. É que esse é o período de “tiro ao doutor”. É o momento em que as instituições demitem o ”excedente” de mão-de-obra em nome da “eficiência” e da redução de custos.

Sabemos que o MEC exige um número determinado de mestres e doutores para aprovar e reconhecer a abertura de cursos superiores nas instituições privadas. A nota que as comissões de reconhecimento atribuem aos novos cursos está diretamente relacionada com o nível de qualificação do corpo docente. O que não sabemos é por que o MEC se omite em relação ao destino desses profissionais após o reconhecimento desses cursos.

Estamos assistindo impotentes ao aviltamento da condição dos professores universitários devido ao excesso de profissionais no mercado e devido à mercantilização do ensino superior. Houve nos últimos anos uma proliferação inconsistente de instituições privadas de grandes redes, cujo único objetivo é o lucro e que se destinam a absorver estudantes de média e baixa renda, sem acesso à universidade pública. Os donos e administradores dessas instituições “desconhecem” os mais básicos princípios da pedagogia e oferecem um tipo de ensino que acreditam “até bom demais para seus alunos de segunda e terceira classe”.

Nesse contexto, os docentes têm seus direitos trabalhistas flagrantemente desrespeitados e sua liberdade de ação tolhida por estúpidas normas internas, que rebaixam a qualidade das aulas e humilham profissionais de primeira linha. E, normalmente, após o reconhecimento do curso por parte do MEC, começa uma ação sistemática de descarte dos docentes com titulação de doutor, para baratear os custos da folha de pagamento. Em seu lugar, mestres e especialistas assumem e se prestam a todo tipo de humilhações para não perder seus empregos.

Uma dessas conhecidas redes de ensino, que recentemente se espalhou pela região metropolitana de Campinas e cobriu várias cidades com seus outdoors – que são uma pequena amostra de seu marketing agressivo –, é um exemplo vívido do que estamos enfrentando. Entrando no mercado com pretensões megalômanas, essa instituição mantém um preço competitivo, penalizando seu corpo docente e a qualidade de seus cursos. O período de quatro horas/aula encerra-se às 22 horas para diminuir o adicional noturno dos docentes; a extensão letiva dos cursos diminui a cada ano, e atividades totalmente estapafúrdias são consideradas como horas/atividade para atender aos critérios elásticos do MEC; normas de “qualidade” são desculpas esfarrapadas para a padronização das aulas, retirando toda a capacidade de iniciativa dos docentes e preparando o caminho para a implantação dos sistemas de ensino a distância, que visam a total eliminação dos docentes da folha de pagamento.

Por essas e outras e devido ao seu marketing absolutamente agressivo, essa rede de ensino semeou o pânico em instituições particulares mais tradicionais, com décadas de serviços prestados à comunidade. Para se conservar no mercado, essas instituições mais antigas passaram a diminuir sistematicamente seus custos e têm procedido demissões coletivas de doutores que chegam a números assustadores, que ultrapassam a centena de profissionais por instituição. Essas demissões atingem docentes com muitos anos de serviço e conhecida reputação pedagógica, que estão sendo jogados em um mercado de trabalho quase inexistente, uma vez que os anúncios de jornais solicitando mestres e doutores visam apenas a montagem de cursos para reconhecimento pelo MEC e não uma relação empregatícia honesta e duradoura.

Uma das áreas de ensino que mais prolifera no momento é a da, assim denominada, gestão de negócios. Cursos como administração e ciências contábeis, que no passado eram apenas encontrados em escolas de comércio, adquiriram status de ensino superior apenas ao incorporar conteúdos humanísticos em suas grades curriculares. Hoje, para baratear seus custos, enganam o MEC eliminando essas matérias humanísticas e “ajustando” seu conteúdo de maneira pífia em outras matérias que deveriam ser correlatas. É o caso dos cursos de ciências contábeis que eliminam a disciplina de cultura brasileira, incorporando-a à de economia em nome desses ajustes curriculares.

O aluno oriundo da rede pública de ensino, aqui em São Paulo, já vem prejudicado por ter sido vítima da famigerada “progressão continuada”, que a mídia insiste em ignorar. Os estudantes chegam ao ensino superior com deficiências atrozes de conteúdo básico, quando não completos analfabetos funcionais. Nós, que ministramos as matérias de conteúdo humanístico, fazemos esforços sobre-humanos para suprir suas carências e conseguir que desenvolvam suas potencialidades para poder acompanhar as matérias mais técnicas.

Agora, que estamos sendo demitidos em massa, o que acontecerá com esses alunos? O Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley já chegou e não foi necessário o uso da genética. Bastaram algumas gestões do PSDB para que uma geração inteira de jovens se transforme em profissionais-gama com diplomas de terceira categoria. Assim, os ricos continuarão cada vez mais ricos e os pobres agora têm sua ignorância reconhecida e sustentada por diplomas universitários assinados e reconhecidos pelo MEC.

A prova cabal do descalabro desse sistema é o exame realizado pela OAB para admitir em sua categoria os bacharéis recém-formados. O exame da Ordem reprova a maior parte dos alunos oriundos dessas novas redes de ensino, devido à baixa qualidade dos cursos. Índices de 10 a 17 por cento de aprovação contra os mais de 60 por cento das instituições mais tradicionais falam por si sós. Se houvesse exames isentos para todas as outras categorias profissionais, o quadro grotesco que se desenharia talvez acordasse nossas autoridades.

O que já aconteceu aqui em São Paulo é irreversível. Mas e o futuro? Até quando a mídia, o MEC e os tecnocratas vomitadores de estatísticas vão fingir que está tudo bem? Quem deve ser processado e responsabilizado por toda essa esbórnia? Que país queremos?

Anna Gicelle Garcia Alaniz é doutora em história social pela USP.

 

March 13, 2007

Decreto desfavorece professores de nível superior

Em outro post, mostramos a referência ao decreto n. 5786, assinado pelo presidente Lula, que reduz o número exigido de professores mestres e doutores em centros universitários. O decreto 5786 substitui o de número 4914. Vejamos as diferenças:

- No decreto 4914, havia uma previsão para que até 2007 33% dos professores deveriam ser contratados em regime de tempo integral; no decreto 5786, é requerido esse regime a apenas 20% (1/5) dos professores. Em termos práticos, isso significa, por exemplo, que em cursos pequenos, apenas um professor precisa estar integralmente comprometido com a faculdade; todos os outros podem ser contratados em regime horista, e portanto, ser pagos apenas pelo tempo em que a presença é exigida em aula. Isso significa que, via de regra, apenas o coordenador do curso precisa ser contratado (em regime integral), sem que hajam vínculos maiores necessários aos outros professores.

- Na carteira de trabalho do regime horista, é deduzido um pequeno valor sobre o valor total da hora, para atividades "complementares" do professor, como preparação de aula, adicional noturno, etc.. Admitindo que um professor mestre e horista pode receber no total de 18 a 25 reais por hora-aula, o incentivo real, efetivo, que favoreça tanto a produtividade científica (confecção de artigos, apresentação de cursos, e assim por diante), quanto a preparação das aulas, é irrisório, caso comparado com uma contratação em tempo integral. 

- O decreto 4914 exigia que os centros universitários deveriam "comprovar, até 31 de dezembro de 2007, que satisfazem o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão" (consoante ao art. 52 da lei 9394, que rege tais decretos); o n. 5786 apenas enuncia: "excelência do ensino oferecido, pela qualificação do seu corpo docente e pelas condições de trabalho acadêmico oferecidas à comunidade escolar". Não consta nada explícito, portanto, sobre a indissociabilidade entre ensino, pesquisa, e extensão. Cria-se, ainda, um problema de definição: o que seria um "centro universitário", em detrimento a uma "universidade" (consoante à lei 9394)?

- No decreto 5786, consta: 33% dos professores devem ser mestres ou doutores. Desses 33%, não há ligação alguma com a obrigatoriedade da contratação em tempo integral (ou seja, os 20% contratados em tempo integral não precisam ser mestres ou doutores); e o critério de "mestres ou doutores" retira a pertinência dada à contratação a doutores. Instituições que visam a minimização dos gastos, e não necessariamente a qualidade do ensino, tenderão a contratar mais mestres do que doutores (dentro desse índice de 33%); outra opção, cada vez mais encontrada, é a instituição oferecer o mesmo salário para mestres e doutores. Assim, não há diferenciação alguma entre um mestre (que escreve uma dissertação mostrando domínio num determinado assunto) e um doutor (que confecciona uma Tese inédita, num prazo maior de tempo, e recebe formalmente o estatuto de pesquisador). O estatuto de doutor é, portanto, desvalorizado, e relegado a 2º plano por questões orçamentárias.

-  É digno de atenção o artigo de Renato Mezan, intitulado "O Escândalo dos Doutores", que trata da desvalorização de profissionais qualificados no ensino superior brasileiro. Mezan acerta na mosca: para além dos decretos e leis, na prática o tratamento de professores qualificados tem sido cada  vez pior. Abundam os cursos que - na melhor das hipóteses - contratam (quando contratam) professores mestres e doutores apenas até a aprovação do curso, pelo MEC; ou mesmo os cursos que estão buscando homogeneizar o salário de especialistas, mestres, e doutores (não importa quanto você estudou; o que importa é que todos receberão o mesmo pagamento); ou ainda, as contratações estratégicas, de mestres e doutores com regime horista, contratados porém com regime de poucas horas, apenas para fazer número nas estatísticas.

- Não se trata, aqui, de dizer que apenas os professores titulados dão boas aulas. Mas a titulação não pode se tornar um problema que impede a própria qualidade do ensino, e isso, por argumentos orçamentários, e não acadêmicos. O ensino superior por excelência é chamado de "superior" por envolver esferas maiores de ‘qualificação’ (digamos assim), para além do ensino técnico, e desenvolvendo questões relativas a pesquisa e extensão. Para isso, a presença de professores pós-graduados, com mestrado e doutorado, tem importância evidente.

Com isso tudo, o aluno que se depara com essas questões deveria se perguntar: quantos professores mestres e doutores atuam no seu curso? Quantos deles possuem formação superior na própria área em que ministram suas aulas? Quantos são contratados em regime integral, e devem dedicar-se exclusivamente ao curso? E nesses termos, que tipo de produção acadêmica é desenvolvida por esses docentes? Pois, se a grande maioria de professores do seu curso são especialistas ou graduados, ou contratados em regime horista, desconfie.

January 24, 2007

Projeto “Universidade Nova”

Sei não… Isso aplicado no Brasil parece mais samba do crioulo doido. Mas seria muito bom, se funcionasse. Aliás, de certo modo também seria muito bom se funcionasse, do jeito que já está ;)
O anteprojeto de lei que estabelece as normas gerais da educação superior, a chamada Lei de Reforma da Educação Superior, está em discussão no Congresso Nacional.
 
Consiste essencialmente em regulamentações e medidas administrativas para o sistema, sem fazer menção à razão de ser das instituições de ensino superior: a formação de pessoal qualificado. (…)
 
Um projeto ambicioso vem sendo chamado de Universidade Nova pelo seu proponente, o reitor da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Naomar de Almeida Filho, e já está em discussão em várias universidades federais.
 
Ele contém pelo menos parte da solução para o problema, formulando uma estrutura acadêmica revolucionária para o Brasil, apesar de muito próxima dos melhores sistemas de ensino superior do mundo.
 
Na Universidade Nova, os estudantes ingressam no que foi chamado de bacharelado interdisciplinar (BI). Com duração de três anos, a formação nos BIs contemplará grandes áreas do conhecimento. Nada de criar ciclos básicos, há muito superados, mas estruturar cursos-tronco que se estenderão ao longo dos três anos sobre assuntos fundamentais. (…)
 
Ao fim dos três anos, o bacharel interdisciplinar poderá continuar sua formação profissional específica por mais um a três anos, dependendo da graduação escolhida. (…) [artigo completo]

August 2, 2006

Pedindo licença

Pedindo licença ao Paulo Bicarato, e ao mesmo tempo divulgando seu excelente Alfarrábio, gostaria de reproduzir a imagem abaixo, fruto desse post:

Não discutirei muito a respeito, além do fato de que muitos desses "mestres" e "doutores" formados por "cursos relâmpago" ou sem rigor algum estão em algumas grandes instituições, muitas de âmbito público. Mesclam posições privilegiadas com uma incompetência notável, e sustentam tais posições meramente por questões políticas e de indicação. E o mais interessante: conseguem desenvolver práticas totalmente contrárias aos seus esboços de crença cristã, com a incrível proeza de persistirem com a consciência ‘limpa’.

July 31, 2006

Trecho de diálogo entre Isaías Pessotti e Bento Prado Junior

Link: crpsp.org.br

O trecho abaixo é extraído de uma entrevista feita a Isaías Pessotti por Bento Prado Junior, Maria Rossetti e Sérgio Ferreira. Destaquei o trecho final da entrevista, que trata sobre os idos da pesquisa universitária brasileira nos anos 60, e como tem sido encarada na atualidade. É muito importante nos reportar a pesquisadores como esses, que no auge da atuação tinham, no limite, perspectivas de participar de algum projeto de constituição de um país, e não meramente atendimento a "mercado de trabalho".



Pessotti - Nos anos 60, a gente acreditava estar fazendo um país novo e que o mundo dependia do que nós fizéssemos. Senti isso nos 60. O que a gente fizesse ia mudar o país. Acho que infelizmente os jovens não têm isso hoje. O mundo perdeu essa perspectiva, não sei se ilusória ou não. Não sei por que o menino de hoje não consegue se ver com essa importância. Talvez porque custasse mais para a gente fazer as coisas. Por exemplo, a pesquisa era muito artesanal. Hoje é muito mais fácil fazer uma pesquisa, um relatório. Há pouco espaço para a originalidade. Mas há também um desencanto com relação ao futuro, um marasmo geral. Naquela época, achava que a curto prazo já podia interferir. Quando me preparava para ir para Brasília, achava que algumas coisas iam ocorrer dentro de um futuro próximo. Até disse para a Carolina: ‘Vou para Brasília e vou ser ministro da Educação. Vou manobrar, vou achar o jeito’. Eu queria fazer alguma coisa, mudar o ensino primário. Foi no começo de 65. Depois veio o AI-5 e acabou todo o sonho. Agora, tanto estávamos certos, tanto éramos decisivos que nos pararam. A ditadura nos parou, porque se essa turma com idéias e competência tomasse conta do país, seria difícil manter os controles políticos tradicionais.


Bento Prado - É possível prever transformações nas estruturas universitárias, uma direção diferente desta? Ela seria o nosso lugar de intervenção e, no entanto, me parece que é onde as coisas menos acontecem…


Pessotti - Aí é que se apagou de uma vez a chama. A universidade hoje é gerenciada como uma empresa, com critérios de produtividade industrial que nada têm a ver com a evolução do saber nem com o engajamento de alguém num tema, fecundo ou não, amanhã. Você precisa produzir, não importa o quê. Aquela universidade da pesquisa artesanal, gerenciada com critérios de promover o saber e a difusão do saber, acabou. Então, o que você vê é a castração da criatividade em nome da produção, não importa do quê. Hoje, pode ser uma coisa inócua, mas publicada na revista importante vale mais.


Bento Prado - Em última análise, você está dizendo que, se entrasse hoje na universidade, você seria assassinado?


Pessotti - Ah, sim! E você se cuide também (risos).


Pesquise aqui preços de livros de Isaias Pessotti e Bento Prado Junior 

June 28, 2006

Decreto reduz o número de mestres nos centros universitários do Brasil

Depois dessa, fica difícil… Bom, o choque da notícia me deixou sem comentários. O que está acontecendo com a educação superior brasileira?

Um decreto assinado pelo presidente Lula reduz a obrigatoriedade de professores com títulos de mestres ou doutores no quadro de docentes nos Centros Universitários. De acordo com o decreto 5.786, de 24 de maio de 2006, são considerados centros universitários as unidades de ensino que mantém em seus quadros um terço de professores mestres ou doutores. Para o presidente do Sindicato do Professores de Rio Preto, Alfio Bogdan, o decreto vai prejudicar a qualidade do ensino oferecido. "Isso contribui para a degradação do ensino superior", afirma. Bogdan afirma que o Sindicato vai trabalhar para evitar a demissão de mestres e doutores. Apesar de o decreto vigorar desde maio, a assessoria de imprensa da Unirp (Centro Universitário de Rio Preto, afirma que ainda não decidiu se vai alterar o quadro de professores, que atualmente conta com 139 mestres e 55 doutores, ou que representa 55% dos profissionais.

Na Uniceres (União das Escolas do Grupo Ceres de Comunicação), a quantidade de mestres e doutores chega a 80,7% dos professores contratados. O restante, 19,7%, são especialistas. Em nota, a Uniceres afirma que não contrata graduados para ministrar as aulas. Os especialistas representam o maior percentual de professores da Unorp (Centro Universitário do Norte Paulista), 46,1%. A instituição de ensino não divulgou o número de professores com títulos de mestres e doutores. Informou apenas que 33,7% dos profissionais têm mestrado e 8,3% são doutores. De acordo com o chanceler da instituição, César Casseb, a Unorp está cumprindo perfeitamente suas obrigações legais. A Unilago (União das Faculdades do Grandes Lagos) foi procurada pela reportagem, mas, não se manifestou sobre o decreto. Através da assessoria de imprensa, se liminou a dizer que não tinha informações sobre o assunto. (fonte: Universia Brasil)