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May 17, 2011

A Globo e a meritocracia na educação


O Jornal Nacional começou uma espécie de "Caravana JN da educação" pelo país. Ela já havia sido anunciada desde a semana passada, com algumas reportagens sobre o "perfil" da educação brasileira.

Junto com a tal "caravana", o JN consulta sempre o famoso "especialista", espécimen acima de qualquer suspeita, oráculo do fato nu.

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May 13, 2011

Nelson Pretto: O Fim da Educação


Reproduzimos abaixo o texto certeiro de Nelson Pretto, sobre a submissão da Universidade a critérios mercadológicos ou certa meritocracia bastante duvidosa.

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March 27, 2011

Veja e a incrível visita de uma reitora


Jornalistas da Veja encontram uma reitora de Harvard

A entrevista de Veja com a reitora de Harvard, Drew Gilpin Faust, é espantosa. Não propriamente pelo conteúdo, mas por aquilo que a maior revista do Brasil julga nos ensinar. 

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January 27, 2011

Seja um Professor


Na TV nacional circula, desde algum tempo, a propaganda acima. Seu enredo: pergunta-se a pessoas de países desenvolvidos dos últimos 30 anos sobre qual é o profissional mais responsável pelo desenvolvimento. A resposta unânime é: o professor.

É o chamariz: para construir um "Brasil mais justo, com oportunidade para todos", "seja um Professor". O fim da propaganda aponta ao site do MEC, para maiores informações.

Qual é a leitura imediata, trivial, de uma propaganda dessas? O Brasil sofre carências na educação, mas está incentivando a contratação de professores. Tanto que criou uma campanha para isso. Alguém que pretende ser professor certamente encontrará incentivos e até mesmo atalhos no site do MEC, para enfim se tornar um.

Chegando ao site do MEC, ele nos conduz a essa página: Seja um Professor.

Se você é um professor interessado em dar aulas, ou mesmo alguém interessado em ser um professor, os milhões gastos em propaganda levam a uma página que ensina: no Brasil os professores geralmente dão aula em uma ou mais escolas, para ser professor é necessário fazer um curso e depois geralmente um concurso e cada cidade possui um site onde se pode encontrar informações. E… o que mais?

Deve haver uma função no site além do pagamento às agências de publicidade e considerações como a abaixo:

A maioria dos professores trabalha em apenas uma escola, de localização urbana, e é responsável por uma turma com 35 alunos em média (sic!)

January 9, 2011

Fuga de cérebros


A Economist publicou um artigo sobre fuga de cérebros na Itália: muitos pesquisadores e profissionais qualificados deixam o país por ausência de oportunidades. E mais: diferente de outros países desenvolvidos, saem mais profissionais especializados do país do que entram.
ALESSANDRO WANDAEL é um fotógrafo. Sua profissão é daquelas em que o sucesso deve depender de talento. Mas não é assim em sua Itália natal. Os créditos de fotos em revistas mostram que os fotógrafos que possuem familiares ou outros laços estreitos com os editores estão trabalhando regularmente, diz ele. "Quem não possui, não está."
Quais seriam os motivos dessa fuga de cérebros? Um deles, diz o artigo, é o baixo investimento nesses profissionais. O outro motivo já consta na citação acima, como se vê também mais abaixo:
"o mais importante e difícil problema da academia na Itália", foi seu "sistema não transparente de recrutamento".
Seria essa situação diferente de outros longínquos países? As vitórias de Lula e Dilma certamente contiveram a ameaça real, ou mesmo a onda efetiva, da fuga de cérebros (pelo menos para quem tinha dinheiro para isso, visto que o escândalo dos doutores é o irmão siamês da fuga de cérebros).
 
Uma entrevista com Miguel Nicolelis publicada também hoje (via @marcospiros), mostra um caminho ainda longo:

Qual é o futuro dos jovens pesquisadores no País?

Atualmente, eles têm uma dificuldade tremenda para conseguir dinheiro, porque não são pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da academia para conseguir dinheiro e sobressair. Cheguei à conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq, porque não preenche todos os pré-requisitos - número de orientandos de mestrado, de doutorado… Se Einstein não poderia estar no topo, há algo errado. Até agora, ninguém teve coragem de enfrentar o establishment da ciência brasileira. Minhas críticas não são pessoais. Quero que o Brasil seja uma potência científica para o bem da humanidade. As pessoas precisam ver que a juventude científica está de mãos atadas. Devemos libertar esse povo. (…)

 

December 28, 2010

Um caso incrível de plágio


Um caso recente da revista Veja ficará para os anais do Plágio de trabalhos acadêmicos. Caso incrível:

(…) Então, qual a probabilidade de frases inteiras aparecerem na edição de Scientific American / Scientific American Brasil em outubro do ano passado e de Veja na edição deste mês como resultado de pura coincidência, como a revista pretende justificar?

Nem mesmo uma loteria com a idade do Universo, com 14 bilhões de anos, seria capaz de apresentar um resultado tão surpreendente. (…) [Ulisses Capozzoli - "Coincidências", gatos e lebres]

 

October 19, 2010

Educação superior pública nos governos Lula e FHC


Aproximando as eleições, mais e mais gente se pronuncia a favor de Dilma por um fator muito importante: as diferenças entre os governos Lula e FHC no tratamento da educação superior pública.

Não é correto dizer que com Serra será "diferente". Seu secretário de educação em SP é Paulo Renato, o mesmo ministro de FHC que fez tantas ações ruins contra a educação brasileira. Em uma infeliz eleição, tal sujeito retornaria. E em São Paulo, as práticas não são muito distantes.

Se o governo FHC preparou o país para o futuro como alguns dizem por aí, ninguém há de duvidar que  o que ele fez na educação superior refuta a base desse argumento. Quem tem alguma ligação com ela viu inclusive a oportunidade de, no governo Lula, muitos pesquisadores retornarem ao Brasil, depois da "fuga de cérebros" do outro governo.

Não por acaso, o governo FHC cortou bolsas  e orçamento destinado às universidades, salários e bolsas restantes não foram reajustados, diminuiram subsídios como moradia e restaurantes universitários para estudantes carentes e o governo cogitava ainda limitar a pesquisa e a extensão nos projetos de "autonomia universitária" e "centros de excelência". Ensino técnico? Era igualmente desprivilegiado.

Alguns textos:

 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL: Governo FHC x Governo

 Como os Governos de FHC e Lula trataram a educação

A revolução no Cefet

 Educação Superior em Lula vs FHC: A prova dos números

Para você, que não votou na Dilma

Reforma do Ensino Superior no Brasil: um olhar a partir da história

Lembranças: vida universitária no governo FHC

May 9, 2010

Renato Mezan: “O fetiche de quantidade”


Artigo perfeito de Renato Mezan (abaixo), sobre o "fetiche" corrente de avaliar produção intelectual sob o primado da quantidade. De algum modo, o problema da quantidade é homólogo ao do "escândalo dos doutores", no qual profissionais com maior formação são descartados por questões meramente salariais.
 
O artigo é também um ataque a certa linha "meritocrática", ciosa de retornar ao Ministério da Educação com a candidatura de José Serra.
 
O autor não descarta a necessidade de avaliações externas (isso é óbvio), mas demonstra como uma (diga-se) "obra" não se reduz a índices numéricos de produtividade, mas possui um movimento, um ritmo próprio. Uma fórmula ou a resolução de um problema não se faz por espécie de irradiação de uma genialidade individual que um dia levanta da cama e "decide" resolvê-la, mas sim por árduo labor, rigor e análise.
 
A "produção" científica e acadêmica não se reduz a iniciativas individuais privadas. Por definição, o "conhecimento" implica caracteres públicos, supra-individuais.
 
Onde tudo isso se encontra? O primado meritocrático e numérico da "produção" acadêmica é diretamente ligado à lei do mercado (mostrar quantidade como se indicasse, por si mesma, qualidade). Mas como se sabe (por exemplo no texto do "escândalo dos doutores"), a lei do mercado, pelo menos em muitas faculdades brasileiras, não se rege simplesmente por critérios liberais, mas por falta de regulação efetiva das práticas educativas e por privilégios de ordem privada (de várias mantenedoras). Há um "jeitinho" no qual o primado do lucro significa enxugamento nas contratações e/ou preferência por contratações mais baratas. Contratações que prezam muitas vezes menor qualificação ou número baixo de horas-aula, pagando salário de "horista".
 
Resultado: ocorre um estreitamento da pesquisa e da extensão (ou mesmo sua descaracterização), em nome de critérios duvidosos de ensino.
 

O fetiche de quantidade

Renato Mezan

Metas de produtividade e burocracia acadêmica diminuem o potencial de pesquisas científicas

A criação de conhecimento não pode ser medida somente pelo número de trabalhos escritos pelos pesquisadores, como é a tendência atual no Brasil

A cada tanto tempo, volta-se a discutir como deve ser avaliado o trabalho dos professores. O grande número de pessoas envolvidas nos diversos níveis de ensino, assim como o de artigos e livros que materializam resultados de pesquisa, tem determinado uma preferência por medidas quantitativas.

Se estas podem trazer informações úteis como dado parcial para comparar resultados de escolas em vestibulares ou o desempenho médio de alunos em determinada matéria, sua aplicação como único critério de "produtividade" na pós-graduação vem gerando -a meu ver, pelo menos- distorções bastante sérias.

Não é meu intuito recusar, em princípio, a avaliação externa, que considero útil e necessária. Gostaria apenas de lembrar que a criação de conhecimento não pode ser medida somente pelo número de trabalhos escritos pelos pesquisadores, como é a tendência atual no Brasil. Tampouco me parece correta a fetichização da forma "artigo em revista" em detrimento de textos de maior fôlego, para cuja elaboração, às vezes, são necessários anos de trabalho paciente.

A mesma concepção tem conduzido ao encurtamento dos prazos para a defesa de dissertações e teses na área de humanas, com o que se torna difícil que exibam a qualidade de muitas das realizadas com mais vagar, que (também) por isso se tornaram referência nos campos respectivos.

O equívoco desse conjunto de posturas tornou-se, mais uma vez, sensível para mim ao ler dois livros que narram grandes aventuras do intelecto: "O Último Teorema de Fermat", de Simon Singh (ed. Record), e "O Homem Que Amava a China", de Simon Winchester (Companhia das Letras).

O leitor talvez objete que não se podem comparar as realizações de que tratam com o trabalho de pesquisadores iniciantes; lembro, porém, que os autores delas também começaram modestamente e que, se lhes tivessem sido impostas as condições que critico, provavelmente não teriam podido desenvolver as capacidades que lhes permitiram chegar até onde chegaram.

Everest da matemática

O teorema de Fermat desafiou os matemáticos por mais de três séculos, até ser demonstrado em 1994 pelo britânico Andrew Wiles. O livro de Singh narra a história do problema, cujo fascínio consiste em ser compreensível para qualquer ginasiano e, ao mesmo tempo, ter uma solução extremamente complexa. Em resumo, trata-se de uma variante do teorema de Pitágoras: "Em todo triângulo retângulo, a soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa", ou, em linguagem matemática, a2²=b2²+c2².

Lendo sobre esta expressão na "Aritmética" de Diofante (século 3º), o francês Pierre de Fermat (1601-65) -cuja especialidade era a teoria dos números e que, junto com Pascal, determinou as leis da probabilidade- teve a curiosidade de saber se a relação valia para outras potências: x3³= y3³ + z3, x4 = y4 + z4 e assim por diante. Não conseguindo encontrar nenhum trio de números que satisfizesse as condições da equação, formulou o teorema que acabou levando seu nome -"Não existem soluções inteiras para ela, se o valor de n for maior que 2"- e anotou na página do livro: "Encontrei uma demonstração maravilhosa para esta proposição, mas esta margem é estreita demais para que eu a possa escrever aqui".

Após a morte de Fermat, seu filho publicou uma edição da obra grega com as observações do pai. Como o problema parecia simples, os matemáticos lançaram-se à tarefa de o resolver -e descobriram que era muitíssimo complicado.

Singh conta como inúmeros deles fracassaram ao longo dos 300 anos seguintes; os avanços foram lentíssimos, um conseguindo provar que o teorema era válido para a potência 3, outro (cem anos depois) para 5 etc. O enigma resistia a todas as tentativas de demonstração e acabou sendo conhecido como "o monte Everest da matemática". É quase certo que Fermat se equivocou ao pensar que dispunha da prova, que exige conceitos e técnicas muito mais complexos que os disponíveis na sua época.

Quem a descobriu foi Andrew Wiles, e a história de como o fez é um forte argumento a favor da posição que defendo. O professor de Princeton [universidade americana] precisou de sete anos de cálculos e teve de criar pontes entre ramos inteiramente diferentes da disciplina, numa epopeia intelectual que Singh descreve com grande habilidade e clareza. Não é o caso de descrever aqui os passos que o levaram à vitória; quero ressaltar somente que, não tendo de apresentar projetos nem relatórios, publicando pouquíssimo durante sete anos e se retirando do "circuito interminável de reuniões científicas", Wiles pôde concentrar-se com exclusividade no que estava fazendo.

Por exemplo, passou um ano inteiro revisando tudo o que já se tentara desde o século 18 e outro tanto para dominar certas ferramentas matemáticas com as quais tinha pouca familiaridade, mas indispensáveis para a estratégia que decidiu seguir. Questionado por Singh sobre seu método de trabalho, Wiles respondeu: "É necessário ter concentração total. Depois, você para. Então parece ocorrer uma espécie de relaxamento, durante o qual, aparentemente, o inconsciente assume o controle. É aí que surgem as ideias novas".

Este processo é bem conhecido e costumo recomendá-lo a meus orientandos: absorver o máximo de informações e deixá-las "flutuar" até que apareça algum padrão, ou uma ligação entre coisas que aparentemente nada têm a ver uma com a outra. Uma variante da livre associação, em suma.

Ora, se está correndo contra o relógio, como o estudante pode se permitir isso? A chance de ter o "estalo de Vieira" é reduzida; o mais provável é que se conforme com as ideias já estabelecidas, o que obviamente diminui o potencial de inovação do seu trabalho.

Tarefa hercúlea

Outro exemplo de que o tempo de gestação de uma obra precisa ser respeitado é o de Joseph Needham (1900-95), cuja vida extraordinária ficamos conhecendo em "O Homem Que Amava a China".

Bioquímico de formação, apaixonou-se por uma estudante chinesa que fora a Cambridge [no Reino Unido] para se aperfeiçoar; ela lhe ensinou a língua e, à medida que se aprofundava no estudo da cultura chinesa, Needham foi se tomando de admiração pelas suas realizações científicas e tecnológicas.

Em 1943, o Ministério do Exterior britânico o enviou como diplomata à China, então parcialmente ocupada pelos japoneses. Sua missão era ajudar os acadêmicos a manter o ânimo e a prosseguir em suas pesquisas.

Para saber do que precisavam, viajou muito pelo país e entrou em contato com inúmeros cientistas; em seguida, mandava-lhes publicações científicas, reagentes, instrumentos e o que mais pudesse obter.

Nesse périplo, Needham se deu conta de que -longe de terem se mantido à margem do desenvolvimento da civilização, como então se acreditava no Ocidente- os chineses tinham descoberto e inventado muito antes dos europeus uma enorme quantidade de coisas, tanto em áreas teóricas quanto no que se refere à vida prática (uma lista parcial cobre 12 páginas do livro de Winchester).

Formulou então o que se tornou conhecido como "a pergunta de Needham": se aquele povo tinha demonstrado tamanha criatividade, por que não foi entre eles, e sim na Europa, que a ciência moderna se desenvolveu?

A resposta envolvia provar que existiam condições para que isso pudesse ter acontecido, e depois elaborar hipóteses sobre por que não ocorreu. Daí a ideia de escrever um livro que mostrasse toda a inventividade dos chineses, tendo como base os textos recolhidos em suas viagens e as práticas que pudera observar.

Embora o projeto fosse ambicioso, a Cambridge University Press o aceitou, considerando que, uma vez realizado, abrilhantaria ainda mais a reputação da universidade.

"Science and Civilization in China" [Ciência e Civilização na China] teria sete volumes, e Needham acreditava que poderia escrevê-lo "num prazo relativamente curto para uma obra acadêmica: dez anos".

Na verdade, tomou quatro vezes mais tempo, e, quando o autor morreu, em 1995, já contava 15 mil páginas. Empreendimento hercúleo, como se vê, que transformou radicalmente a percepção ocidental quanto ao papel da China na história da civilização.

O volume de trabalho envolvido era imenso: de saída, ler e classificar milhares de documentos sobre os mais variados assuntos; em seguida, organizar tudo de modo claro e persuasivo, e por fim apresentar algumas respostas à "pergunta de Needham". Várias pessoas o auxiliaram no percurso (em particular, sua amante chinesa), mas a concepção de base, e boa parte do texto final, se devem exclusivamente a ele.

Monumento

Needham não publicou uma linha de bioquímica durante os últimos 30 anos de sua carreira.

Tampouco tinha formação acadêmica em história das ideias -mas isso não o impediu de, com talento e disciplina, redigir uma das obras mais importantes do século 20.

Se tivesse sido atrapalhado por exigências burocráticas, se tivesse de orientar pós-graduandos, se a editora o pressionasse com prazos ou não o deixasse trabalhar em seu ritmo (o primeiro volume levou seis anos para ficar pronto), teria talvez escrito mais um livro interessante, mas não o monumento que nos legou.

O que estes exemplos nos ensinam é que um trabalho intelectual de grande alcance só pode ser feito em condições adequadas -e uma delas é a confiança dos que decidem (e manejam os cordões da bolsa) em quem se propõe a realizá-lo.

Tal confiança envolve não suspeitar que tempo longo signifique preguiça, admitir que pensar também é trabalho, que a verificação de uma ideia-chave ou de uma referência central pode levar meses -e que nada disso tem importância frente ao resultado final.

Em tempo: um dos motivos encontrados por Needham para o estancamento da criatividade chinesa a partir de 1500 foi justamente a aversão de uma estrutura burocrática acomodada na certeza de sua própria sapiência a tudo que discrepasse dos padrões impostos.

Enquanto isso, na Europa (e depois na América do Norte) a inovação era valorizada, e o talento individual, recompensado. Nas palavras de um sinólogo citado no fim do livro, o resultado da atitude dos mandarins foi que "o incentivo se atrofiou, e a mediocridade tornou-se a norma". Seria uma pena que, em nome da produtividade medida em termos somente quantitativos, caíssemos no mesmo erro.

 (FSP, Caderno Mais!, 9/5/2010)

April 23, 2010

Ler é chato


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Fernando Botero, Woman Reading 

Moça: É, tem que ler, né?

Moça2: Eu tenho uns livros em casa. Um é de hipnose, e o outro de psico-neuro, acho que é neurolinguística, né?

Rapaz: Eu nunca leio, acho que ler é uma chatice, e já basta o que me botam pra ler na faculdade

Moça: Eu também nunca leio, é só começar a ler que já dá sono. Até hoje li só um livro na vida, porque o professor cobrou. Senão… Tenho uma amiga que lê sempre, é a mó filósofa. Sempre quando preciso saber como se escreve uma palavra pergunto pra ela, e ela sempre sabe, quando se deve colocar um ou dois "S"

(pausa)

Rapaz: É, o negócio é o dólar mesmo.

***

Hoje eu separava alguns textos para uma disciplina eventual, quando lembrei de certa experiência docente. Certo dia, em conselho de classe, explicitei aos colegas professores o fato de como era difícil ministrar, em um curso de humanas, textos pequenos, de dez páginas, mas completamente cabíveis aos assuntos em questão. 

A resposta, vinda do professor de didática, foi impressionante: "Você considera difícil ministrar textos de dez páginas, e  alguns alunos ainda lêem? Eu recomendo apenas três, e já acham pesado demais!"

"Pesado demais", diga-se, era argumento suficiente para que um professor não ministrasse textos a um aluno de ensino superior. Obviamente, dado que se trata de um ensino dito "superior", supõe-se que, como um aluno de exatas conhece matemática básica e aprende e desenvolve operações complexas durante todo o curso, um aluno de humanas conhece língua portuguesa e interpretação - em tese, lerá durante todo o curso.

Não se ergue um edifício - real ou feito de argumentos e conceitos - sem uma formação prévia.

Ler, entretanto, não era uma exigência rigorosa no curso em questão. O que leva à consideração: como os alunos assimilam informações complexas em um curso de humanas? Certamente um professor pode trabalhar muito nas poucas horas de aula, mas apenas elas bastam? Por melhor que seja o professor - e o datashow e o retroprojetor -, as aulas sozinhas não chegam muito longe, sem recurso a nenhum material, especialmente o texto.

Ainda mais quando se trata de informações complexas - não se supõe com tanta seriedade que um curso de humanas é "complexo" por enfocar o "homem"? Olhando ao redor, é flagrante tal "complexidade" conviver com tanta moleza intelectual.

Ora, as disciplinas "humanas" são tão complexas quanto todas as outras, e é no mínimo estranho tanta seriedade conviver com pouca leitura. Se um curso de humanas não precisa de informações complexas e um "cientista humano" inevitavelmente lida com pessoas, precisaríamos perguntar sobre que tipo de ação faz o cientista humano quando age sobre as outras pessoas, visto que a ação não parte de textos, portanto de nenhum conjunto de conjecturas complexas sobre o "complexo" homem. Finalmente, é assustadora a informação de que os alunos não aprendem por falta de leitura. O que fazem, esses cientistas humanos que não estudam ciências humanas?

***

Seguiriam eles certas tragetórias políticas? ;)

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March 24, 2010

“Induzido” ao erro


O ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) e autor do termo "mensalão" publicou um artigo na Folha, intitulado "São ideológicos, por isso corrompem".
 
Seria apenas mais um artigo de palavras em sequencia, não fosse o detalhe: tais palavras já foram enunciadas por outro, e esse outro é o tal Olavo de Carvalho.
 
Ou melhor: o próprio Jefferson acabou admitindo, em seu blog, que assinou e publicou (após "correções") um artigo escrito por outro, no caso  "um colaborador petebista". Quando soube do verdadeiro autor, disse, "sinceramente, que o texto dele, na íntegra, ainda é melhor do que o meu, com todas as correções que fiz e aditei".
 
Ah bom! Se o tal Olavo não se manifestasse o texto continuaria, sem problema algum, um autêntico escrito de Roberto Jefferson.
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