May 15, 2008

Filosofia vivida

(…) pude usufruir de um meio acadêmico ímpar, delineado pela relação entre o mestre e os alunos e marcado pelo respeito, pelo diálogo e pela fidelidade às próprias intenções intelectuais e pessoais. Na verdade, o que ele nos dizia nas entrelinhas era isso: abraçar a filosofia só vale a pena se você puder ser fiel a si próprio. E isso a despeito do que ocorre a partir da incorporação do ideal de profissionalização aos moldes do capitalismo americano pela universidade brasileira, incluindo a valorização quantitativa, senão massificação, da produção acadêmica e o incentivo à competitividade excessiva. Ser fiel aos próprios desejos podia parecer velharia numa época tão pragmática, uma relíquia existencialista datada… Mas essa era a preciosidade adquirida, enfrentar o desafio contra a própria corrente e o espírito do tempo (…)
 
…imensa responsabilidade de zelar por seu legado.

May 13, 2008

Humanis Corporis Fabrica de Vesalius em português

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Em 1543 Andreas de Vesalius publicou uma lição de anatomia intitulada De Humanis Corporis Fabrica. Como Copérnico, Vesalius foi considerado por muitos um "precursor" de formas científicas modernas.
 
Sobre a lição de Vesalius, existem várias edições on-line. Dentre elas, uma tradução em inglês. A Biblioteca da USP também dispõe da edição original, para acesso público.
 
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A boa novidade é a primeira versão da obra em português, produzida pela Ateliê Editorial (pesquisa de preços). Tradução de Pedro C. P. Lemos e Maria C. V. Carnevale.
 
Sobre a nova edição, Eduardo Kickhofel publicou um review, na Scientia Studia: A lição de anatomia de Andreas Vesalius e a Ciência Moderna.

May 8, 2008

Frédéric Gros, sobre novas noções de Guerra

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A Caros Amigos pulicou uma entrevista com Frédéric Gros, concedida a Gabriela Laurentiis. Reproduzimos, abaixo:

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April 28, 2008

Obras Completas de Charles Darwin on-line

 
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“…it is always advisable to perceive clearly our ignorance.”
 
*** 
Para ter uma idéia do tamanho do acervo, e da preciosidade,
Segundo a organização da Biblioteca Universitária de Cambridge, esta é a maior coleção de documentos e manuscritos de Darwin. São cerca de 20 mil itens e 90 mil imagens que por décadas foram acessados apenas por acadêmicos. Os documentos foram doados pela família de Darwin em 1942, mas a instituição os recebeu apenas após a Segunda Guerra Mundial.

April 7, 2008

Devir-Jó (do livro de Antonio Negri)

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Ilustração do Livro de Jó, por William Blake 

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February 23, 2008

Estéticas da Biopolítica

Dois motivos relacionados entre si podem explicar porque a importância do conceito de biopolítica para a compreensão dos dilemas políticos do presente tardou quase quinze anos para ser reconhecida. Em primeiro lugar, para reconhecê-lo era fundamental ultrapassar a rigidez dicotômica da distinção ideológica tradicional entre esquerda e direita, aspecto que já se encontrava presente na análise foucaultiana do caráter biopolítico não apenas do nazismo e do stalinismo, mas também das democracias liberais e de mercado. Em segundo lugar, penso que o fenômeno da biopolítica só poderia ser entendido enquanto forma globalmente disseminada de exercício cotidiano de um poder estatal que investe na multiplicação da vida por meio da aniquilação da própria vida, a partir do advento recente da política transnacional globalizada e ‘liquefeita’, segundo a terminologia de Bauman. Nesse sentido, creio que a reflexão de Deleuze sobre as transformações sociais da última década, as quais iniciaram o processo de substituição do modelo disciplinar de sociedade pelo modelo de “sociedade de controle”, articulada em redes de visibilidade absoluta e comunicação virtual imediata, constitui o paradigma a partir do qual Toni Negri e Michael Hardt puderam formular seu conceito de “Império”, no centro do qual se encontra, justamente, uma apropriação do conceito foucaultiano de biopolítica, redefinido agora em termos da biopotência da Multidão. [Continua em Sobre a Biopolítica: de Foucault ao século XXI, por André Duarte]
 
As decisões globais dependem cada vez menos da opinião e da vontade, e cada vez mais do dever cego e inevitável dos fluxos psicoquímicos (hábitos, medos, ilusões, fanatismos) que atravessam a mente social. O lugar de formação da esfera pública se transferiu da dimensão do confronto entre opiniões ideologicamente fundadas para o magma do oceano neurotelemático, no qual as coisas se determinam fragmentariamente, imprevisivelmente, por efeito de tempestades psicomagnéticas e cada vez menos referidas a esquemas políticos definidos. Claro que há divergência de opiniões, cada um pode se expressar como quiser, mas isso já não tem nenhuma importância, pois já nada significa, não tem efeito algum. A proliferação ilimitada das fontes de informação, por sua vez, não necessariamente significa uma abertura democrática, talvez porque o efeito-sociedade não se encontra mais na esfera do discurso, mas na psicoquímica. [Continua em Mutações Contemporâneas, por Peter Pal Pelbart]
A coletânea completa chama-se "Estéticas da Biopolítica", e vale muito a pena conferir. 

December 14, 2007

Nietzsche, um louco

img527/7476/ubermenscham2.jpgO texto chama-se O Declínio de Nietzsche, do psiquiatra Vittorino Andreolli. Sigamos:  

 Um dos principais filósofos do século XIX, o alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche foi vítima de um distúrbio mental, provavelmente causado pela sífilis, que arruinou seus últimos anos de vida e cuja evolução pode ser percebida em suas obras.

A evolução da doença se divide em três fases: na primeira a infecção fica restrita aos órgãos genitais; na segunda, alastra-se pelo organismo; na terceira causa paralisia progressiva e demência. Nietzsche adoeceu em 1873, mas só se afastou da atividade docente na Universidade da Basiléia em 1879 − quando sua voz era quase inaudível para os alunos. Os sintomas da demência só vieram dez anos depois, mas os primeiros sinais de deterioração intelectual já aparecem nos seus textos de 1887.

O que se observa, a partir de A gênese da moral, é a passagem de um Nietzsche que escreve com força e determinação, de forma densa e ao mesmo tempo sintética, para “outro” que parece incapaz de afrontamentos, que se perde entre notas e apontamentos publicados postumamente e cuja organização lógica até hoje é alvo de críticas. Nessa mesma época, o filósofo alemão redige quatro panfletos pouco concisos, cheios de contradições, que parecem escritos com raiva, algo que os leitores não esperavam encontrar em volumes de filosofia.

Os quatro panfletos
O primeiro, Nietzsche contra Wagner, de 1888, chega a ofender o amigo músico. Depois de se aconselhar com seu editor, o filósofo corrige o texto, publica-o novamente com um prefácio, um epílogo e ainda um post scriptum. O segundo panfleto se chamaria Alegria de um psicólogo, mas por sugestão do editor recebeu o título O crepúsculo dos ídolos: ou a filosofia a golpes de martelo. Diz o autor nesse texto: “Não existe uma realidade supra-sensível, aquela imaginada pelos idealistas, não existe um mundo racional, não há um mundo moral, ainda que os moralistas continuem insistindo. Não existe nem mesmo o mundo das aparências. Definitivamente não existe nada”.

O anticristo é o terceiro panfleto e se limita a demolir o cristianismo. Aqui também as frases são carregadas de violência, ira e ausência de reflexão e de direção. O quarto e último panfleto é Ecce homo. O que significam os títulos desses dois textos? Uma referência a Cristo? Talvez O anticristo fosse somente um nome para indicar a figura mítica de Dionísio, que Nietzsche passou a encarnar em algumas cartas a amigos.

Outra idiossincrasia diz respeito ao emprego de expressões líricas, usadas de forma superficial em alguns textos, ao mesmo tempo que outros se aprofundavam na introspecção e na auto-reflexão. Estes elementos testemunham o declínio de uma mente brilhante, declínio este que começou exatamente no dia 5 de janeiro de 1889. Nesse dia Nietzsche teve início a enviar cartas aos amigos Jacob Burckhardt e Franz Overbeck. Ao primeiro escreveu: “Eu sou Ferdinand de Lesseps, eu sou Prado, eu sou Chambige [assassinos dos quais se ocupavam a imprensa parisiense], eu fui envolvido no lençol dos mortos duas vezes neste outono”. Overbeck recebeu uma carta com o mesmo conteúdo macabro. Em uma terceira correspondência, enviada ao músico Peter Gast, ele assina como “o crucificado”. À antiga amiga Cosima Wagner (mulher do compositor Wilhelm Richard Wagner), escreve: “Arianna, eu te amo”. Assinado: “Dionísio”.

Anos depois, historiador francês Daniel Halévy refaz o caminho de Overbeck em busca do amigo perturbado: “Overbeck parte para Turim. Encontra Nietzsche num quarto mobiliado, cantando e gritando sua glória, batendo no teclado do piano (…) Mais tarde, ao sair de casa, viram um homem que guiava uma carroça batendo no próprio cavalo; indignado, o filósofo colocou-se imediatamente entre os dois, imobilizando o homem com os braços e impedindo-o de continuar a bater no animal. Os transeuntes pararam para olhar, um agente policial interveio. Queriam retirá-lo daquela situação, mas ele se jogou no chão, parecia numa crise de delírio (…) O policial decidiu algemá-lo, mas Overbeck intercedeu. Falando em nome da Universidade da Basiléia, obteve permissão para levá-lo de volta para casa”.

Nietzsche estava completamente perturbado. Misturava canções, dirigia-se às pessoas por meio de cantigas. Um médico da Basiléia, cujo filho era grande apreciador das obras do filósofo, dedicou-se ao caso com particular atenção e o transferiu para uma clínica psiquiátrica em Jena, de onde saiu em 1897 para viver com a mãe em Naumburg. Com a morte dela, mudou-se para a casa da irmã em Weimar, onde permaneceu até a morte em 1900. Desses anos sabemos muito pouco. É possível que ele tenha chegado à forma grave de demência, mas o assunto era delicado demais para ser comentado na época.

Algumas coisas não estão muito certas nesse texto. Outras, são muito interessantes.

Coisas estranhas: o italiano refere-se a um livro chamado "A Gênese da Moral". "Gênese"? O título original da obra de Nietzsche é Zur Genealogie der Moral; e o filósofo faz questão: Genealogie, em absoluto, nada tem a ver com Ursprung (origem). Talvez seja problema de tradução.

A respeito da obra de Andreolli, pouco sabemos. Mas um dos aspectos mais interessantes constatados por leitores de Nietzsche - e também de outros filósofos contemporâneos - é algo peculiar: como assim, um filósofo louco? Nosso amigo Andreolli arrisca dizer o limite preciso: dia 5 de janeiro de 1889 Nietzsche enlouqueceu, malgrado certos "traços" de loucura entrevistos antes, em sua obra.

O que leva a desconfiar que a data não é tão precisa assim. 

Mas isso não resolve nada. Pelo contrário, apenas recoloca o problema. Se Nietzsche é um filósofo, em que medida há em sua obra algo que se chama filosofia, e não loucura? Onde começa a loucura, e onde termina o Pensamento? Ou ousaríamos dizer que a obra de Nietzsche apenas tornou-se notória - como tantas outras - como obra de um autor louco?

Um problema muito interessante, e ao mesmo tempo insolúvel. Nossa época não pára de denotar artistas loucos como artistas (ou pensadores loucos como, enfim, pensadores). E isso tudo se assemelha aos temas (mais ou menos comuns) batidos de conservar o cérebro de Einstein, ou fazer a frenologia do crânio de Descartes. Reduz-se o problema, do Pensamento em geral, ao pensamento (com "pê" minústulo) que está ali, naquela cabeça que antes permanecia viva, e agora morreu.

Como se o Pensamento em nada nos afetasse, não estivesse comprometido com a "realidade" mesma em que se implica, e não dissesse respeito àqueles que agora buscam reduzi-lo àquele crânio. Ora, se aceitamos o postulado de que o Pensamento se reduz aos organismos que o "criam", o que nos conduz a aceitar esse postulado mesmo, sem colocá-lo em questão? Foram outras cabeças pensantes, outros sujeitos empíricos, que o "criaram". Logo, no mínimo isso abre um problema…

O artigo de Vittorino Andreolli saiu no site da Mente e Cérebro deste mês. Para quem se interessar, uma boa indicação é  Nietzsche: a experiência de si como transgressão (loucura e normalidade), de Daniel Pereira Andrade. O autor pesquisa precisamente os últimos textos do filósofo alemão, e as implicações de um "filósofo louco".

- A charge acima pertence ao JP

- Outros posts sobre esse tema: Estamira e o Trocadilo, e Os loucos e a loucura na arte

December 10, 2007

Camus: 50 anos do Prêmio Nobel

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Cinquenta anos atrás, Albert Camus recebeu o Nobel de Literatura, por A Peste. Informe no Absorto.

December 5, 2007

Marxismo e Bolivarismo

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Em 1858, Marx escreveu um texto chamado ‘Bolivar y Ponte‘. Segundo Marx, Bolivar havia recebido de Francisco de Miranda, em 1811, a incumbência de guardar o forte de Puerto Cabello - local estratégico - contra os espanhois. Após um pequeno motim de prisioneiros, Bolivar fugiu, favorecendo a retomada do forte pelos dominadores, e obrigando posteriormente Miranda a assinar em 1812 o Tratado de La Victoria. Após a assinatura do Tratado, Miranda foi acusado de traidor, aspecto que fez Bolivar, com outros, entregá-lo ao governo espanhol. Miranda foi preso até falecer no cárcere, alguns anos depois.  

Em 1813, Bolívar se encontrou em Cartajena com José Felix Ribas, formando com ele um exército que rumou à "primeira" independência da Venezuela. Após uma nova fuga de Bolivar - para a Jamaica -, Ribas foi fuzilado pelos espanhois. Outro acontecimento parecido foi a morte de Manuel Carlos Piar, líder da emancipação da Guiana. Ele foi morto - também segundo Marx - após um complô, resultante de sua inimizade com Luis Brion, e de declarações sobre Bolívar ser um "Napoleão das Retiradas".  

Os relatos de Marx sobre as retiradas, a pomposidade, e a pouca prudência de Bolivar permanecem até o fim do texto ("Se Bolívar houvesse avançado com resolução, só suas tropas européias teriam bastado para aniquilar os espanhóis. Porém preferiu prolongar a guerra cinco anos mais"; "A posição do inimigo [em número absolutamente inferior] pareceu tão imponente a Bolívar, que propôs a seu conselho de guerra a realização de uma nova trégua, idéia que, no entanto, seus subalternos repeliram"; "Um rápido avanço do exército vitorioso teria produzido, inevitavelmente, a rendição de Puerto Cabello, porém Bolívar perdeu seu tempo fazendo-se homenagear em Valenda e Caracas"). Tanto como menções a pretensões unificadoras e ditatoriais, que renderam os projetos de um código boliviano para o que hoje são a Colômbia, Venezuela, Bolívia e Peru, mas que foram mal sucedidos. Ainda, Marx credita grande parte do sucesso de Bolivar ao apoio dos ingleses, interessados na independência daquelas colônias espanholas. Como mencionaria em uma carta a Engels, no mesmo ano, é o "canalla más cobarde, brutal y miserable. Bolívar es el verdadero Soulouque".

Sobre a unificação mencionada por Marx, a idéia de uma "Colômbia" unida, pátria una dos povos latino-americanos, provavelmente veio de Francisco de Miranda. Menciona-se que a "Colômbia", como grande país, serviria para rechaçar definitivamente os espanhois, sem oferecer possibilidades de recompor novas forças dominadoras. Ainda, alguns sugerem que a análise de Marx conteria erros históricos (uma boa questão a ser elucidada).

Dada a referência de Marx, e o tom conferido por ele à figura do homem Bolívar, é interessante buscar saber como as inspirações "bolivarianas" se uniram a certo marxismo, no século XX. Um "marxismo bolivariano", em termos gerais, provavelmente significa uma espécie de emancipação da América Latina, em direção a elementos socialistas. Essa emancipação parece carregar outros temas gerais: o de uma nação colombiana, nos termos acima, e o de um socialismo singular, para cada localidade.

Para dar um exemplo, em 1969 Jorge Abelardo Ramos escreveu um texto chamado Bolivarismo y marxismo . Lá ele aponta que, ao contrário do que ocorreu com Stalin, a Revolução diria respeito a cada local particular, não a moldes prévios:

La nación latinoamericana, que hacia 1910 sólo vivía como un eco intelectual de las viejas batallas, comienza a ser una realidad en la Cuba socialista de medio siglo más tarde. En esta penosa y heroica marcha, el plan bolivariano sólo podrá desenvolverse bajo las banderas del socialismo. Ese socialismo posee ya una inflexión propia, una especificidad latinoamericana.

(…) Luego, con el triunfo del stalinismo, fue exportado un artículo híbrido llamado marxismo leninismo, parido por los obtusos burócratas. El descrédito intelectual de semejante ersatz ya no requiere demostración.

(…) Bastará recordar que en cada oportunidad en que el staíinismo divisaba una revolución nacional en el horizonte, se incorporaba rápidamente al bloque de las fuerzas oligárquicas que la enfrentaban. Esto ocurrió en Brasil, en Argentina, en Cuba, en toda América latina. Sólo advertían que una revolución vivía cuando ésta había triunfado; si no habían logrado impedir su victoria, se plegaban a ella para estrangularía desde el poder. Tal es la crónica del stalinismo en Cuba, con su oscura legión de Escalantes y escaladores. Cuando la revolución estaba bajo la dirección nacionalista, como en el caso de Perón, el stalinismo se unía estrechamente, antes, durante y después de su gobierno, con las fuerzas más negras de la reacción.

La propia expresión del marxismo leninismo reflejaba en la esfera semántica el sello de una política ajena. Pues toda la grandeza de Lenin como político habla residido justamente en su admirable aptitud para interpretar a su país tal como era; por el contrario, la "rusificación" de la Internacional comunista después de su muerte invirtió el método leninista. Una caricatura trágica de ese método transformó fórmulas que habían resultado óptimas para la lucha política en el imperio zarista en la clave de todas las derrotas del último medio siglo.

Vê-se o tom: enquanto a revolução de 1917 levaria em conta o regime czarista, e as características locais da Rússia, o advento do stalinismo engessaria o processo revolucionário, criando um molde "marxista-leninista", ou apenas estendendo os braços da URSS para outros países. Em contraposição à exportação desses modelos híbridos, o marxismo-bolivarista diria respeito às singularidades latino-americanas. Menos do que o "homem" Bolívar, ver-se-ia nessa "idéia bolivariana" uma correspondência com as inspirações originais da revolução socialista.

Atentar-se à idéia da "singularidade" venezuelana parece ser a idéia central do regime de Hugo Chavez (embora tenhamos o cuidado prévio de não associar imediatamente Abelardo Ramos com o presidente venezuelano, mesmo que o tema indique certa proximidade). Nesse sentido, ele une dois termos: "revolução bolivariana", e "socialismo do século XXI".

Curioso notar que, conforme seus defensores, o primeiro termo indica algo mais, diante do quadro exposto acima (um "marxismo", que é "bolivarista"). A Revolução Bolivariana

puede ser definida como un proceso de transformación caracterizado por cuatro macrodinámicas: 1. la revolución antiimperialista; 2. la revolución democrática-burguesa; 3. la contrarrevolución neoliberal; 4. la pretensión de llegar a una sociedad socialista del siglo XXI.

Cada una de esas dinámicas es un frente de guerra en el cual la Revolución puede triunfar o ser derrotado. La dinámica antiimperialista es antagónica a la Doctrina Monroe y los intereses imperialistas de la Unión Europea. La dinámica democrática-burguesa es antagónica a la dinámica neoliberal, porque significa: a) la construcción de un Estado de Derecho y, b) el desarrollo de las Fuerzas Productivas. Ambas necesidades chocan con fuertes y arraigados intereses. (…)

De la misma manera, el desarrollo diversificador de las fuerzas productivas afecta poderosos intereses monopólicos nacionales y transnacionales. Pese a las mistificaciones, el llamado “desarrollo endógeno” del bolivarianismo no es nada nuevo ni representa ningún misterio teórico. Fue inventado por los ingleses hace 200 años y copiado, por su éxito, por los alemanes, japoneses, tigres asiáticos y ahora China. Resaltando diferentes facetas, se le ha llamado desarrollismo, cepalismo, sustitución de importaciones, economía social de mercado, socialismo espiritual (Arévalo) o keynesianismo. Se trata de una economía de mercado, orientada y dinamizada por el Estado corporativo en el pasado, y actualmente por un Estado más democrático.

En el Tercer Mundo contemporáneo, esta es la única vía de desarrollo económico posible para un proyecto popular. Es el mal menor frente al neoliberalismo. Con el desarrollismo democrático regional hay posibilidad de escapar al subdesarrollo. Con el neoliberalismo, el destino es África. Una tercera vía no existe. Para el socialismo no hay condiciones objetivas en este momento. Hay que desarrollarlas en consonancia con el desarrollismo democrática. Esto es lo que trata de hacer Hugo Chávez y está en lo correcto.

Aqui o quadro começa a complicar. O "socialismo" prescrito por Chavez se inicia por uma economia desenvolvimentista, chamada pelos venezuelanos de "desenvolvimento endógeno". Caso consideremos o peso dessa noção, veremos como se orientam várias práticas venezuelanas, que seguem desde um estatismo com facetas radicais e rigorosas, até a questão da proximidade com economias ditas marginais (Irã, por exemplo).

Caso transportemos essas noções para o debate econômico do século XX, veremos que Chavez é uma espécie de "dinossauro" do desenvolvimentismo: diante da "inevitabilidade" do neoliberalismo - um tema bem comum nos anos 80 e 90 -, permanecem alguns adeptos de antigos projetos, relacionados à condição de subdesenvolvimento conferida à América Latina. Dado o subdesenvolvimento, caberia ao Estado regular a economia, para criar padrões mínimos de cidadania à população. O fim desse desenvolvimento era visto, de acordo com cada corrente, como o advento de condições mínimas para um liberalismo efetivo, ou para um regime socialista.

Um outro socialista argentino chamado Claudio Katz repõe os termos, considerando socialismo, bolivarismo, e a figura de Hugo Chavez:

 Em vários sectores das classes dominantes tem vindo a despontar um movimento de opinião neo-desenvolvimentista em desfavor da ortodoxia neoliberal, depois de um período traumático de concorrência extra-regional, desnacionalização do aparelho produtivo e perda de competitividade internacional.

A viragem em curso é "neo" e não plenamente desenvolvimentista porque preserva a restrição monetária, o ajuste fiscal, a prioridade às exportações e a concentração do rendimento. Apenas defende o incremento dos subsídios estatais à indústria para reverter as consequências do livre-câmbio extremo. A vulnerabilidade financeira da região e a ligação a um padrão de crescimento muito dependente dos preços das matérias-primas induzem ao ensaio desta mudança. Contudo este movimento de opinião tem vindo a afectar todos os dogmas económicos que dominaram na década passada e abre espaços para contrapor alternativas socialistas ao modelo neo-desenvolvimentista.

(…) Um outro rumo define uma sequência de passos diferente. Vaticina que a construção do socialismo será precedida por um longo período prévio capitalista. Propõe-se desenvolver esta fase com políticas proteccionistas, de modo a melhorar a capacidade competitiva da zona. Por isso olha com simpatia o actual movimento neo-desenvolvimentista, impulsiona o MERCOSUL e dá o seu aval à expansão de uma classe empresarial regional. Apela à constituição de uma frente entre os movimentos sociais e os governos de centro-esquerda (Bloco Regional de Poder Popular) e imagina o socialismo como um estádio posterior à nova fase do capitalismo regulado.

(…) O ponto de partida desta transição socialista opõe-se por completo à gestação de um modelo neo-desenvolvimentista. As duas perspectivas são radicalmente contrárias e não podem conciliar-se, nem desenvolver-se de forma simultânea. A concorrência pelo lucro impede a paulatina formação de ilhéus colectivistas no interior do capitalismo, dado que a concorrência distorce a médio prazo todas as modalidades cooperativas de tais empreendimentos.

Como se vê, Katz é contrário ao "socialismo" de Hugo Chavez. Não parece ser o único socialista descontente. Mas descrevendo esses argumentos, ele menciona o nome de Heinz Dieterich, criador do termo "Socialismo do Século XXI", e apoiador do presidente venezuelano. De que maneira esse "neo-desenvolvimentismo" surgiria, e cederia lugar a um novo socialismo?

P. ¿La economía del socialismo del siglo XXI es, entonces, un trueque?
Dieterich: No, esto es tan erróneo como la afirmación de que nadie sabe como construir el socialismo del siglo XXI. El problema de la injusticia económica no reside en el dinero. No tiene que ver con que una economía sea monetarizada o si funciona con el intercambio en especie (por permuta). En la relación explotativa entre el esclavo y el amo, una vez amortizado el pago inicial, no interviene el dinero, y es una de las más brutales que conoce la historia.

Injusticia existe, cuando se intercambia un producto “A” por un producto “B”, y sus valores —el tiempo laboral necesario para producir cada uno de ellos— no son iguales; es decir, cuando no se cambian equivalentes. Si se monetariza ese intercambio de valores desiguales (esfuerzos laborales desiguales), es decir, si se expresa en forma monetaria o natural, es secundario.

P. ¿Cuál sería, entonces, el paso decisivo del Presidente?
Dieterich: No es la estatización generalizada de la propiedad privada, porque no resuelve el problema cibernético del mercado. No lo hizo en el pasado y no lo haría hoy. El socialismo hoy día es esencialmente un problema de complejidad informática. De ahí, que el paso trascendental consiste en establecer una contabilidad socialista (valor) al lado de la contabilidad capitalista (precio), en el Estado, en PdVSA-CVG, y en las cooperativas, a fin de construir un circuito económico productivo y de circulación paralelo al de la economía de mercado capitalista. La economía de las entidades estales y sociales puede desplazarse paso a paso hacia la economía de valor y ganándole terreno al circuito de reproducción capitalista, hasta desplazarlo en el futuro. Dado que las escalas de valorización por precios, valores y también volúmenes, son comensurables, no hay rupturas en los intercambios económicos que podrían causarle un problema político al gobierno. En todo esto juegan un papel importante el Estado y las mayorías, pero ambas están hoy día mayoritariamente con el proyecto del Presidente.

Generar este circuito paralelo de la economía de valor sería relativamente fácil, porque los valores existen en forma subyacente en la actual contabilidad capitalista. De tal manera, que con el desarrollo de un software respectivo sería muy fácil establecer este circuito económico socialista al lado del capitalista. Sin este paso a la economía de equivalencia, no hay posibilidad de tener una economía socialista.

Começa-se a delinear o caráter "desenvolvimentista", que cederá lugar ao "socialista". Em primeiro lugar, como demonstra uma "anomalia" chavista de defender a propriedade privada, seu "socialismo" não parece se definir pela necessidade da propriedade coletiva "estatal" dos meios de produção. Em outras palavras, a propriedade coletiva não parece uma operação inevitável ou etapa necessária, mas uma espécie de meio instrumental para que se avance ao segundo passo: transformar relações de "preço" em relações de "valor", por meio de cooperativas e outros mecanismos populares e paralelos.

A função é interessante, no mesmo movimento em que parece impossível: pretende desvirtualizar a economia, ressubstancializá-la aniquilando a virtualidade do preço, em nome do trabalho efetivo, do suor, do "valor". Para isso, Dieterich tem o argumento (embora a boa questão implica responder: é duradouro?), que é a articulação Estado x Petróleo x Cooperativas: regulação estatal, economia popular, e o como base sustentadora, o ouro negro ("De ahí, que el paso trascendental consiste en establecer una contabilidad socialista (valor) al lado de la contabilidad capitalista (precio), en el Estado, en PdVSA-CVG, y en las cooperativas, a fin de construir un circuito económico productivo y de circulación paralelo al de la economía de mercado capitalista"). Os três elementos serviriam como uma espécie de circuito ("software"), inserido dentro das relações capitalistas, mas que as deslocariam do "preço" ao "valor". O que sugere, em tese, que o consumo de grandes volumes por poucos cederia lugar ao consumo de muitos. Em suma, o próprio "peso" do novo circuito planificaria as relações.

Conforme a citação acima, resta ainda mencionar a relação trabalho x produção. Deslocar o "preço" ao "valor" implica em des-relativizar a produção ("Injusticia existe, cuando se intercambia un producto “A” por un producto “B”, y sus valores - el tiempo laboral necesario para producir cada uno de ellos - no son iguales"). O elemento que parece apoiar esse argumento é o governo das "maiorias": uma grande federação de cooperativas, articulada com um circuito "socializador", serviria como peso para nivelar a produção ("preço") em relação ao trabalho ("valor"). A esse respeito, con su permiso, outra longa citação:

Entender el carácter socialista o capitalista de las formas de propiedad económica es un elemento clave para la sobrevivencia de la Revolución. Lamentablemente, el debate no ha logrado clarificar esa compleja temática, hecho por el cual muchos revolucionarios piensan que las cooperativas, la cogestión obrera y las empresas de producción social significan que Venezuela ya ha entrado en una fase del socialismo del siglo XXI. Esta opinión es equivocada.

Las tres formas principales de propiedad de la economía de mercado son: a) la sociedad anónima de capital variable, característica de las grandes corporaciones, b) la empresa de propiedad familiar y, c) las cooperativas. Las primeras dos son, en términos de la sociología de la organización, unidades militares, es decir, verticales. La única forma democrática es la cooperativa. Por lo mismo, es la más afín a la democracia económica del futuro, pero, al mismo tiempo, la más difícil de organizar. Sin embargo, su problema mayor reside en el hecho, de que tiene que operar bajo la lógica del macrosistema mercantil, cuyos parámetros de calidad, precio, tiempos de entrega, etcétera, son obligatorios para su desempeño, salvo que los subsidios del Estado le den grados de libertad que las empresas mercantiles no tienen.

Los tres tipos de empresa son como barcos en el mar, cada uno con diferente forma. Pero, independientemente de su forma, tienen que someterse a los movimientos del medio en que se mueve, para no hundirse. Si la cooperativa quiere liberarse de la tiranía del mar —la lógica de la economía de mercado— tiene que cambiarse hacia otro sistema de la realidad, es decir, la economía de equivalencias. Mientras siga navegando en la economía de mercado no es, ni puede ser socialista. (…)

Una economía es socialista, cuando opera sobre el valor, realiza intercambios de equivalencias y planea democráticamente los principales parámetros de la economía, tanto en la macroeconomía, por ejemplo, la tasa de inversión y el presupuesto nacional, como en la microeconomía, particularmente en cuanto a la tasa de plusvalía (plusvalor/capital variable), es decir, la intensidad de la explotación del trabajo.

Para poder construir una economía socialista tienen que haberse cumplido tres requisitos objetivos: 1. la disponibilidad de una matemática de matrices, por ejemplo, las tablas de input-output de Leontieff; 2. la digitalización completa de la economía y, 3. una avanzada red informática entre las principales entidades económicas.

Estas condiciones existen en su conjunto solo desde hace un lustro, hecho que explica, porque ni la URSS, ni la RDA lograron nunca construir una economía socialista, en el sentido de la economía política. La URSS, por ejemplo, tenía en los años ochenta apenas la capacidad para procesar alrededor de 2000 productos en valores (time inputs), cuando tenía más de 10 millones. No había condiciones objetivas para una economía socialista. Trágicamente, la humanidad se encontraba todavía en una especie de protosocialismo o socialismo utópico. (…)

Lenin definió en 1922 las tareas de la Revolución rusa como “poder soviético y electrificación”, es decir, la construcción del Estado socialista y el desarrollo de las fuerzas productivas. En Venezuela, en 2005, las tareas son seis:

1. Construcción de un Estado de derecho eficiente; 2. Desarrollo de las Fuerzas Productivas; 3. Construcción del Poder popular; 4. Avanzar la teoría de la transformación desarrollista y socialista; 5. Construcción del Bloque Regional de Poder y, 6. Desarrollo de la vanguardia y de los cuadros medios.

Después del fallido ataque al Cuartel Moncada, Fidel Castro recibió en la cárcel una carta con información sobre los empeños políticos que los revolucionarios libres estaban realizando en la isla. Fidel reorientó el esfuerzo, sugiriendo que todos los recursos y cuadros se dedicasen a la reproducción y distribución de su ensayo, “La historia me absolverá”. La razón de esa instrucción era evidente: convertir el Proyecto Histórico de los revolucionarios en fuerza material de transformación, por vía de las masas.

Esta es la situación actual en Venezuela. Solo el estudio y la discusión sistemática nacional y científica sobre el Socialismo del Siglo XXI y su fase de transición pueden generar la vanguardia y los cuadros medios, sin los cuales el Bolivarianismo no podrá triunfar en las cuatro dinámicas que le dan su fisonomía particular: su fisonomía particular que es, al mismo tiempo, sinónimo de sus campos de batalla.

Definitivamente, Dieterich conhece muito mais sobre a idéia que formulou, do que esse post catatauesco (e apenas curioso). Para isso, o próprio autor dispõe seu El Socialismo del Siglo XXI on line. Outros textos, indicados em seu Wiki.

O que parece interessante, nisso tudo, são as voltas: de um Marx avesso a Bolívar, a um marxismo bolivarista, que seria fiel ao próprio marxismo original. Ainda, outra boa questão é a viabilidade desse desvio do "preço" ao "valor". Sem contar sobre como toda essa carga doutrinária deve ou não se relacionar, hoje, com as práticas concretas da Venezuela.

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- A própria Bolívia credita seu nome ao "Libertador". Vários arquivos digitais mostram referências primárias e secundárias sobre ele.

- Historia de la revolución Bolivariana. Pequeña crónica 1940 - 2004

November 11, 2007

90 anos da Revolução Russa

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