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Quatro links interessantes em torno de uma instituição mais ou menos espalhada no ocidente, cuja variante russa e depois soviética foi particularmente notável.
O primeiro é o livro de Anne Applebaum, Gulag (livro, livrarias, livro no 4shared e resenha).
O segundo é a adaptação para o cinema de So weit die Füße tragen (Até onde possamos andar [Até onde os pés me levem?]), livro escrito por Joseph Martin Bauer que narra a fuga de um soldado alemão de um GULAG, percorrendo mais de 10000 Km.
O terceiro link é outro filme: "Caminho da Liberdade", também inspirado em relatos recolhidos em livro e inclusive resenhado por Anne Applebaum. Ela serviu de consultora para a direção do filme.
O quarto é a figura acima: "A liberdade de crítica é total na URSS", informe sobre a visita de Sartre ao país em 1954 (artigos anunciados no jornal disponíveis em francês e em PDF). Não se trata propriamente de um link sobre Gulags, mas sobre os debates da época após a morte de Stalin, por sua vez muito ligados, depois de 1956, a esse contexto.
São mais do que 4 links. Enfim…
Entrevista muito interessante com o sociólogo Eduardo Viveiros de Castro. Aborda a história recente do Brasil, suas relações com Levi-Strauss e a noção de perspectivismo indígena.
Sempre considero um bom livro mais inteligente que seu próprio autor. Ele pode dizer coisas que o autor ignora
(Umberto Eco, via @sergioleo, tradução livre)
Para os despertos há um mundo único e comum; entre os adormecidos, porém, cada um se dirige ao seu próprio mundo (B 89)
A Odisséia não é a epopéia das auroras por acaso. Nas muitas auroras espelham-se homens que despertam. Ulisses e Telêmaco não despertam da mesma maneira. Impelido pelo desejo de conhecer, Ulisses acorda para um mundo imenso, variado, perigoso. Para sobreviver, requerem-se dele decisões originais. A experiência não lhe assegura êxitos futuros. Situações imprevistas solicitam opções unauditas. O grande mundo, o comum de todos, desdobra-se em muitos mundos. A variedade não rompe a unidade.
Telêmaco progride na descoberta do mundo e de si mesmo, de si através do mundo. A viagem que empreende na construção de si não é menos arriscada que as aventuras do pai que tarda em retornar. Por se encontrar em posição eminente, muitas vidas estão subordinadas a resoluções dele. Outro teria sido o retorno de Ulisses, se Telêmaco não tivesse agido como agiu. Como Ulisses, Telêmaco atua no mundo comum a todos em benefício seu e da coletividade. Jovem ainda, vemo-lo despertar.
São esses os despertos? Os adormecidos procedem em vigília como se estivessem dormindo, isto é, vivem em mundos só deles à maneira do que se passa em sonho. Como adormecidos vivem os pretendentes de Penélope, alheios ao bem-estar de quem quer que seja.
No teatro de Shakespeare desfilam heróis adormecidos em mundos privados. Não é sem motivo que Macbeth perpetra o mais hediondo dos crimes à noite, encerrado dentro do seu próprio palácio. Perdida a sensatez, interesses só dele repelem honra, justiça, paz.
Ulisses e Telêmaco, batendo-se pela família e pela pátria, ainda não representam o homem desperto de Heráclito. Estão em vias de despertar. A unidade entrevista por Ulisses, expressa na presença universal dos mesmos deuses, esta é a vigília de Heráclito. Ele a define como Discurso, único e esquivo, presente e inabarcável. Sendo maior que as visões mais abrangentes, surpreende mesmo os mais lúcidos. No sistema de Heráclito não há como despertar da ignorância sem a luz do Discurso universal que propicia a passagem do particular (to idion) ao geral (to koinon).
Ulisses começa a despertar. E quem terá despertado de todo? Os olhos abrem-se quando passamos a tratar outros como iguais, quando promovemos troca de palavras, de objetos, de pessoas, de idéias. A proximidade dos que discorrem difere da presença meramente espacial, da adição numérica. Os poços enfrasam-se em encontros fortuitos, em projetos comuns. O espaço que nos é comum não nos foi dado, a cada gesto de aproximação. Há espaço comum quando a diferença não provoca indiferença.
A bela passagem faz parte do livro Heráclito e seu (dis)curso, de Donaldo Schüler.

La filosofía es una especie de ansia insatisfecha de saber en la que no cuenta la cantidad de lo que se sabe sino la minuciosidad con que se busca. Presupone la capacidad para el asombro, aunque no tanto para un asombro estupefacto, un respeto reverencial hacia la armonía existente en la naturaleza o la sociedad, cuanto para un cuestionamiento asombrado. La filosofía, definida por preguntas no susceptibles de respuesta en el marco del saber actual o del presente ordenamiento de la vida, surge en tiempos de conflicto, crítica y crisis. Cuando los modelos explicativos o vitales pugnan entre sí o cuando se expresan dudas respecto a la religión u otras instituciones donadoras de sentido, se necesita poseer la capacidad de cuestionar lo conocido y hacerlo metódicamente, pero, también, con un conocimiento concienzudo del mundo y teniendo en cuenta los propios condicionamientos. -Un sabio atraviesa la imagen medieval del mundo. Imagem: Xilografía de 1888 realizada al estilo de c. 1520.
1) Sobre Marcus Aurelius, a Life, de Frank McLynn:
(…) Between the hyper-intellectual abstractions of university philosophers and the calculating, materialistic schemes of self-help gurus, lies another philosophy. This is the philosophy of the ancients, of Marcus Aurelius. It is a practice that intends to help individuals answer life’s great metaphysical questions in both material and spiritual terms: What is my place is the world, the cosmos? What is the purpose of existence? How do I live a good life? What is happiness and how do I achieve it? (…)
2) Sobre CommonWealth, de Toni Negri e Michael Hardt:
Com efeito, todo o último livro da trilogia pode ser lido como uma sinfonia, pautada pela repetição de motivos rítmicos e melódicos, ao redor do tema do amor revolucionário. Isto é, do comum. Commonwealth consiste assim num tratado de democracia radical, numa reedição contemporânea da Política arquetípica, dividida em seis partes densamente discursivas, entremeadas por seis ensaios mais leves e de imaginação livre (De Corpore, De Homine e De Singularitate, cada qual subdividido em dois capítulos). A orquestração retorna muitas vezes às mesmas cadeias argumentativas, porém sobre territórios discursivos diferentes, que vão da ontologia à antropologia, da filosofia da história à geopolítica, da ética à economia política. Logo, corta em diagonal os campos do conhecimento, em total transdisciplinariedade.
Novo livro de Amauri Ferreira:
Introdução à filosofia de NietzschePor: Amauri FerreiraEditora: Yellow Cat Books. 128 págs.Lançamento: 2010Sobre o livro: Segundo Nietzsche, como o mundo é vontade de potência, sem origem e finalidade, o sentido e o valor criados por nós mesmos nos conecta ao absoluto, ao eterno retorno da vontade de potência. O eterno retorno do “sem sentido” da existência nos coage a criar sentido e valor. Ou criamos ou, então, perecemos. Se o artista vivesse num mundo acabado, sua existência seria inútil, pois não teria o que criar. O homem que se supera demonstra que a multiplicidade de forças que coexistem nele se expressa de muitas maneiras, rompendo com as noções de “ser”, “identidade” ou “eu”. O seu “Eu quero” combate, de modo permanente, o “Tu deves”. Contra qualquer censura moral, ele continua adiante naquilo que deseja para elevar o que já quer ao máximo que pode. Esse seu bem, por expressar a sua singularidade de sentir, de conhecer, de avaliar, de viver, é sempre algo que não se confunde com o “bem” comum da moral.
Para saber mais e adquirir, vale visitar seu excelente blog.
Recorte do quadro Dispute of Queen Cristina Vasa and René Descartes, de Nils Forsberg/Pierre-Louis Dumesnil (formato grande)
Paulo Leminski conjectura no Catatau que o filósofo francês René Descartes poderia ter vindo ao Brasil a serviço de Mauricio de Nassau, ao invés de escolher a Suécia. Mas como se sabe, a história foi bem diferente: mudando-se para aquelas terras frias, Descartes morreria logo depois de pneumonia e complicações ligadas ao frio.
Conforme um alemão chamado Theodor Ebert, isso também é apenas história. Baseado em pesquisa documental, Ebert chegou a uma curiosa tese: Descartes não teria morrido de frio, mas sim envenenado por uma hóstia embebida de arsênico! O assassino seria um padre chamado François Viogué, motivado por questões politico-religiosas.
Para Ebert, em correspondência com o Vaticano o padre Viogué anunciaria uma possível conversão da rainha Cristina ao catolicismo. Nesse universo de "possibilidades" o filósofo francês poderia dificultar a conversão, pois seu pensamento não era totalmente conforme o catolicismo e poderia despertar questionamentos.
A rainha de fato se converteu quatro anos após o "assassinato", ocorrido segundo Ebert em 2 de fevereiro de 1650. Descartes morreria nove dias mais tarde, após sofrer sintomas como sangue na urina, vertigens e dores de barriga (a auto-prescrição de um vomitório não impediu o agravamento da intoxicação).
Se a morte ocorreu mesmo por arsênico, o filósofo não foi o primeiro a encarar um fim trágico devido a questões políticas. Preza a tradição que Sócrates morreu envenenado por Cicuta, acusado de corrupção de jovens e cultos extravagantes. Cem anos depois de Descartes outro filósofo também morreu intoxicado, não propriamente por questões políticas - trata-se de Julien Offray de La Mettrie, que literalmente não resistiu a uma refeição de pâté aux truffes e caiu após longa febre e delírios. [via Le Figaro e Guardian]