link: webcamus
Via Absorto, encontrei o webcamus, sobre o escritor argelino. O site é muito bom. Traz, além de passagens do próprio punho de Camus, resumos, estudos e comentários sobre suas obras. Abaixo, livre tradução de uma parte do prefácio à edição estadunidense de "O Estrangeiro":
"Resumi O Estrangeiro, já faz bastante tempo, com uma frase que reconheço ser bastante paradoxal: Em nossa sociedade, todo homem que não chora no enterro de sua mãe corre o risco de ser condenado à morte. Pretendo dizer apenas que o herói do livro é condenado porque ele não joga o jogo. Nesse sentido, ele é estrangeiro à sociedade onde vive; ele erra, à margem, nos subúrbios da vida privada, solitária, sensual. E por isso os leitores são tentados de considera-lo como um arruinado. Ter-se-á contudo uma idéia mais exata do personagem, em todo caso mais conforme às intenções de seu autor, caso se pergunte de que modo Meursault não joga o jogo. A resposta é simples, ele recusa mentir. Mentir não é somente dizer o que não é. É também, sobretudo, dizer mais do que é; e, no que concerne ao coração humano, dizer mais do que se sente. É o que fazemos todos, todos os dias, para simplificar a vida. Meursault, contrariamente às aparências, não quer mais simplificar a vida. Ele diz o que é, recusa mascarar seus sentimentos e imediatamente a sociedade se sente ameaçada. Pedem por exemplo para ele dizer que se arrepende de seu crime, segundo a fórmula consagrada. Ele responde experimentar a esse respeito mais enfado do que arrependimento verdadeiro. E esse tom o condena.
Meursault, para mim, não é portanto um arruinado, mas um homem pobre e nu, amante do sol que não deixa sombra. Longe de ser privado de toda sensibilidade, uma paixão profunda, porque tenaz, o anima, a paixão do absoluto e da verdade. Trata-se de uma verdade ainda negativa, a verdade de ser e de sentir, mas sem a qual nenhuma conquista sobre si jamais será possível.
Não seria errôneo, portanto, ler em O Estrangeiro a história de um homem que, sem nenhuma atitude heróica, aceita morrer pela verdade."
Essa passagem complementa um dos primeiros "posts" do Catatau (sem a tradução).
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A propósito de verdadeiras (e não "livres") traduções, vale acompanhar a produção de A Loucura do Dia, de Maurice Blanchot, no Espectral. Vale muito acompanhar também as traduções feitas em O Sopro.