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August 4, 2011

No frio as pessoas devem usar agasalho…


… foi o tema de uma reportagem de vários minutos hoje, no Jornal Hoje.

Se o jornalismo surgiu para criar debate ao redor de assuntos de importância pública, como se define o jornalismo feito para pastorear as condutas privadas ensinadas antes do jardim de infância?

Mais curioso ainda: o que os milionários minutos do jornalismo deixam de mostrar de assunto verdadeiramente público, enquanto "explicam" que no frio as pessoas devem se agasalhar?

Pois tempo é dinheiro e tanta ênfase em certo tipo de assunto não deixa de apontar tantos outros assuntos sem ênfase… ou sem relevância?

July 23, 2011

A pastoral dos “especialistas”


A revista Forum postou um artigo sobre um curioso caso: depois dos atentados na Noruega durante esta semana, houve uma profusão de informações não confirmadas de que os responsáveis seriam "muçulmanos" ou "islâmicos" (sic). As falas em diversos veículos foram muito claras: não se tratavam de "radicais terroristas" ou "extremistas" - sejam quais forem -, mas "muçulmanos".
 
A despeito dessas informações não serem confirmadas, elas proliferaram em função de um único fator: a divulgação por um chamado "especialista em terrorismo". 
 
(more…)

July 6, 2011

A educação e seus desempenhos


Ontem o Brasil nos ofereceu, dentro do mesmo contexto, algumas notícias muito curiosas.

Em primeiro lugar, a lista das "Facul" com desempenho zero: 90 faculdades com nenhum aluno aprovado no exame da OAB. Vale prestar atenção ao modo de apresentação desses dados pelos diversos veículos de imprensa.

Como salientou muito bem um comentador, certamente a avaliação é uma questão sempre importante. Mas o caráter gritante do número de reprovações diz respeito a algo mais (por ex. a fiscalização efetiva do MEC), não raramente passado em branco e que mereceria boas discussões. E outra: não se comparou o que difere as instituições mais bem sucedidas das outras.

E em segundo lugar, Amanda Gurgel, a famosa "professora indignada", recusou um prêmio do setor empresarial. Antes de Gurgel, nenhum professor havia recebido tal prêmio, curiosamente oferecido a realizações na educação. Vale ler a resposta da professora. Curiosamente a repercussão disso na grande imprensa foi quase nula (vale imaginar como seria no caso contrário).

Finalmente, ontem houve uma grande marcha de professores no RJ. As reivindicações, o leitor já conhece há tempos - um bom índice sobre o quanto as coisas mudaram.

June 14, 2011

Sarney e o WikiLeaks tupiniquim


Hoje José Sarney declarou:

- Acho que não podemos fazer WikiLeaks (site que divulgou uma série de informações sigilosas do governo dos Estados Unidos e de outros países) da história do Brasil, da constituição de nossas fronteiras - afirmou o presidente do Senado.

Dia 5 de dezembro de 2010, este blog publicou o seguinte, ainda em pleno calor dos WikiLeaks:

Se dentro do suposto país com maior liberdade de expressão do mundo a voz de alguém pode levá-lo à morte, isso significa uma coisa: o Wikileaks incomodou de verdade.
 
Tanto que todos esperam ansiosamente até revelações sobre o Brasil. Conforme Assange, divulgá-las anteriormente atrapalharia o processo eleitoral. Um mistério e tanto.
 
Mas tudo isso é muito curioso, caso confrontemos o site gringo com nossos próprios afazeres.  Em termos investigativos, um exemplo não muito distante de um Wikileaks é o Diários Secretos, site organizado pela Gazeta do Povo (PR) no qual qualquer indivíduo pode acessar verdadeiros desmandos da Assembléia Legislativa do Paraná.
 
A RPC, vinculadora da Gazeta do Povo, ganhou o prêmio Esso 2010 pela cobertura. E em acontecimentos incríveis, dignos das narrativas mais inusitadas da literatura brasileira, a mesa diretora da Assembléia, que assinava os diários secretos, aprovou constrangedoramente uma menção de aplauso ao prêmio recebido pela RPC!
 
A assembléia "aplaudiu" e a mesa diretora continua lá.

 

June 12, 2011

O Brasil em brasa: Greves, Protestos…


 

Sobre os dois termos acima, greves e protestos, desde as últimas semanas ocorre no Brasil algo muito, mas muito singular.

Em primeiro lugar vimos a "blitz da Educação" da Globo, com seu (e da Veja) mais novo "especialista" de plantão, falando de boca cheia sobre como deveriam ser professores e escolas.

Mas quase ao mesmo tempo estourou o vídeo de Amanda Gurgel, a professora indignada do Rio Grande do Norte.

O Brasil viveu então algo muito curioso: o principal instrumento de difusão da "cultura" existente no país foi praticamente obrigado a apresentar, durante a mesma semana, um especialista capataz do Capital no Jornal Nacional e uma professora comunista do PSTU no Faustão (caso o leitor permita os trocadilhos).

A auto-reação não demorou muito. Na semana seguinte a Globo asseverou o tom contra os grevistas de diversos estados e funções. Para além das greves dos professores, outros setores também paralisaram. Em São Paulo houve paralisações no metrô e nos ônibus. Em diversos lugares até mesmo hospitais e médicos interromperam suas funções em protesto. E lá estavam os vigilantes jornalistas com sua cobertura padrão: grevistas causam problemas e atrapalham tudo, do trânsito à vida dos homens bons. Quando esses médicos irresponsáveis param, morre gente.

Mas inesperadamente ocorre uma nova guinada na Província de Santa Cruz (a que vulgarmente chamamos de Brasil). Bombeiros do Rio de Janeiro são presos e a categoria inteira protesta contra o ínfimo salário. No Rio de Janeiro os bombeiros recebem um salário de miséria: pouco mais de mil reais, quase o de um professor.

E todo mundo percebeu tudo de um modo singularmente ampliado: nenhuma situação dita "pública" se garante quando setores essenciais, como o dos bombeiros, são mantidos em regime de penúria.

Vimos algo que a cobertura não mostrava (ou insistia em não mostrar): se o bombeiro ganha pouco e se a tropa não possui condições mínimas de funcionamento, aí sim morre gente. Morre gente todo dia, e isso independe do trabalho de cada bombeiro ser ou não exemplar. Não é culpa do bombeiro o fato de não haver condições adequadas para o exercício da profissão de bombeiro.

Não adianta cada um "dar um jeitinho". A situação não se sustenta. E se alguns jornais se mostram sempre tão contrários aos protestos, desde alguns dias é notável certo impasse da cobertura frente ao grande apoio popular aos bombeiros.

Esse impasse logo passa. Mas se os ânimos não forem logo contidos por mídias e especialistas de plantão, falta pouco - muito pouco - para o mesmo problema dos bombeiros ser amplamente reconhecido como o dos professores, dos hospitais, da saúde, do transporte público…

June 8, 2011

Coronelismo, mídia e agronegócio


É muito curioso não termos visto vinculação alguma entre os três termos acima nas últimas semanas, especialmente em tempos de votação do Código Florestal.

Mas a pesquisadora Suzy dos Santos, da UFRJ, enxerga e argumenta sobre os vínculos não comentados. Inclusive o próprio silêncio sobre essa vinculação teria algo a dizer. 

Influência política, agronegócio e concessões de rádio e televisão seriam irmãos siameses na história brasileira. Até os comunistas-ruralistas do PC do B não fazem mais esse tipo de vinculação. Mas Suzy faz. Texto no EcoDebate.

May 27, 2011

Civilização, Democracia


 
Cadeirante apanha na Espanha durante "desocupação pacífica".

May 10, 2011

Neve Gordon no Al Jazeera


Neve Gordon, autor de Israel’s Ocupation, tem uma coluna na Al Jazeera sobre política no oriente médio.

Comentamos sobre o livro nesse outro informe. Vale consultar também seus textos na página pessoal.

“Na ordem americana, o princípio da universalidade da lei foi substituído pela exigência de respeito à moral particularista, idiossincrática e assimétrica”


Belo artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo, totalmente afim a diversos textos já publicados por aqui, e também ao quadrinho de Laerte recém publicado. Trecho:

Na ordem americana, o princípio da universalidade da lei foi substituído pela exigência de respeito à moral particularista, idiossincrática e assimétrica. O direito, dizia Hegel, enquanto existência da liberdade, é uma determinação essencial na refrega contra a “boa intenção” moral. “O desenvolvimento da sociedade moderna exige a formalidade jurídica e os protestos contra esse desenvolvimento são… reminiscências do ‘estado bruto de natureza’ que revelam um apego doentio à própria particula-ridade, narcisisticamente desfrutada como moral.”

***

No mesmo contexto do artigo, ontem o programa "Milênio" (da Globo News) entrevistou Robert Fisk. O entrevistador (Mounir Safatli) leu o início de A Grande Guerra pela Civilização (onde estão contidas as três entrevistas com Bin Laden) e tentou explorar a memória de Fisk sobre acontecimentos já escritos no livro.

 Mas há algo mais, gritando nos últimos textos de Fisk, que poderia ser muito melhor aproveitado: o fato da Al Qaeda perder boa parte de sua "relevância" política depois das manifestações espontâneas e absolutamente legítimas do mundo islâmico (especialmente no Egito e na Tunísia) desde o fim do ano passado. Tais manifestações parecem o oposto e o simétrico do "ensinamento" que os EUA ofereceram com a execução de Bin Laden.

May 9, 2011

O Novo Paraná e a falta de educação


Beto Richa, governador do Paraná (PSDB), disse em seu discurso de posse:

A educação será a nossa maior prioridade.

E isso eu já pude demonstrar durante a campanha eleitoral, assumindo compromissos com os professores e indicando o nosso vice-governador e professor Flávio Arns para ocupar a Secretaria da Educação.

Só a educação liberta as pessoas e faz com que elas possam romper com a pobreza e a falta de oportunidades.

Se a educação vai bem, todas as outras áreas podem avançar na mesma proporção.

É preciso investir com a educação integral nas áreas mais carentes do nosso Estado.

É preciso valorizar o professor e todos os profissionais da educação.

É preciso melhorar a infraestrutura e as condições de trabalho.

É preciso, enfim, encontrar soluções para questões que se arrastam ao longo do tempo, como a do financiamento do transporte escolar e a da falta de salas de aula para atender adequadamente a todos os estudantes.

Durante a campanha, o agora governador fez literalmente as seguintes promessas: reajuste de 26% dos salários dos professores; concursos públicos; diminuição do número de alunos por sala e aumento do número de professores (por exemplo, professor regente e auxiliar). Sobre o reajuste dos professores, basta ver o vídeo:

Em meio a tantas promessas, quer dizer, "metas" eleitorais (segundo Richa, firmadas em cartório), vale ver a primeira sinalização concreta do governo em relação à educação:

Entre janeiro e fevereiro de 2010, o governo de Requião aplicou R$ 848,6 milhões em educação, de um total de R$ 5,4 bilhões previstos para todo o ano. No mesmo período da gestão tucana, o setor recebeu apenas R$ 791,6 mi­­­­lhões, apesar de o valor anual previsto ser maior: R$ 6,2 bilhões.

A execução orçamentária mostra que o maior corte ocorreu no ensino fundamental, para o qual foram destinados R$ 345 milhões no início de 2011 – R$ 50 milhões a menos do que em 2010.

 E

Outra área que recebeu menos recursos em 2011 foi a de ciência e tecnologia. Foram repassados R$ 10 milhões no primeiro bimestre, uma queda de 23% em relação a 2010. O impacto maior foi na área de desenvolvimento tecnológico e engenharia, que recebeu apenas R$ 7,9 milhões, contra R$ 11,1 milhões do ano passado.

Vale repetir: no discurso de posse, Richa disse "A educação será a nossa maior prioridade".

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