February 21, 2008

A Iurd, os jornais, e The Economist

A repórter Elvira Lobato, da Folha, foi alvo de 50 ações judiciais dirigidas ao teor de uma de suas reportagens, sobre os 30 anos da religião inaugurada por Edir Macedo. Também receberam ações contra danos morais os jornais "Extra" (RJ), "O Globo", e "A Tarde" (BA).
 
Elvira Lobato tem um longo histórico de textos sobre a IURD, que inclusive desemboca em um livro intitulado Instinto de Repórter, da Publifolha. No artigo-alvo dos processos, e nesse novo livro, a autora lança mão de dados sobre as relações da igreja com questões políticas e econômicas, várias sob denúncia e investigação. No artigo, menciona como pastores entram ou saem de cena em função de conveniências ou denúncias.
 
Segundo outra notícia da Folha, curiosamente várias ações teriam redação semelhante, embora originadas em municípios diferentes. A enxurrada de ações foi taxada de litigância de má fé pelo ministro Celso de Mello, do STF. Outros juízes já seguem (e aqui) o juízo de Mello.
 
A Universal se defendeu, publicando uma nota com o repúdio dos fiéis às suspeitas sobre a destinação do dízimo, dentre outros assuntos. "Para os fiéis, a reportagem "insinuou" que os membros da Iurd são inidôneos e que o dízimo pago por eles é produto de crime. Disseram ainda que ouviram gozações de conhecidos".
 
A Folha Universal ainda não se pronunciou. Dispõe apenas da edição desta semana. 
 
***
 
No entremeio, o Economist publicou um artigo com o sugestivo título "Se a Redenção falhar, você ainda pode usar gratuitamente o banheiro". O título cita passagem de uma nova biografia de Edir Macedo (O Bispo: A História Revelada de Edir Macedo). Conforme o jornal gringo, a biografia seria pouco "reveladora", ao contrário do título: não esclareceria a contento a relação do Bispo com as finanças da igreja (que não por acaso mantém uma emissora de TV e um partido político), nem propriamente sua vida religiosa. Mas menciona - com boa dose de ironia - os dois fatores:
Desde a fundação em 1977, a Igreja Universal sustentou que o fiel pode ser recompensado por sacrifícios, usualmente de tipo financeiro. Pede-se aos seguidores para doar 10% do ordenado; "a igreja de resultados" irá então recompensá-los com bênçãos, na forma de curas milagrosas, ou sucesso familiar ou no trabalho. Os serviços da igreja muitas vezes giram em torno dos testemunhos de tais resultados. "Ofertas [a Deus] são investimentos", diz o Sr. Macedo.

Vender a teologia da prosperidade para os pobres atrai críticas, dos que acreditam que a Igreja Universal explora a credulidade dos desesperados. Nesse livro, Macedo defende-se robustamente. Os que ganham nada podem ainda vir aos serviços [dos templos] e desfrutar o grande salão com ar condicionado e um banheiro limpo, sem precisar pagar. Eles podem ir embora determinados a ter sucesso, e até mesmo parar de beber, de bater em suas mulheres, e inclusive entrar para a igreja. "Quem eu prejudiquei? Essa é a questão: quem eu prejudiquei?" Ele ataca a Igreja Católica por elogiar a pobreza.

O sucesso do Sr. Macedo trouxe crescente influência na vida pública brasileira. Ele tem convertido a Rede Record, comprada por 45 milhões em 1990, em um poderoso rival da Globo, a rede líder do país. Embora a Igreja Universal mantenha uma audiência fiel de sua programação religiosa, a Record cresceu sobretudo mostrando shows Americanos populares e investindo em suas próprias telenovelas. E assegurou direitos exclusivos sobre as Olimpíadas de Pequim.

O PRB, fundado em 2005, tem apenas quatro dos 513 assentos na câmara federal dos deputados. Conduz-se mais por pragmatismo que por ideologia (não é hostil ao aborto, por exemplo). Seu maior propósito parece ser a defesa dos interesses da Igreja Universal, defendendo-se de ataques de seus poderosos inimigos, incluindo a Igreja Católica e a Globo.

Sobre as relações efetivas entre a igreja, a emissora e a política, estudos ainda estão por vir. Sobre os procedimentos da igreja, o Economist conclui:

Sacrificar é divino, ele [Macedo] diz à congregação. Talvez seja, mas inventar um modelo genial de negócios é humano.

 

February 18, 2008

Lula e a Antártida

O Adriano fez uma provocação, a respeito da viagem de Lula à Antártida:

Agora só falta v. meter o pau no Lula por estar na Antártida também. d:

Ele se refere ao antigo post sobre a ida de uma comitiva parlamentar para o continente gelado. Na ocasião, a comitiva representava a Subcomissão de Aquecimento Global no Senado, e a Comissão Mista Especial sobre Mudanças Climáticas. Como bem mostrava o conhecimento geoclimático do senador Renato Casagrande (PSB-ES), a primeira pergunta é: que função teria uma equipe inteira como essa visitando a Antártida? Qualquer deliberação política sobre o aquecimento global não poderia partir de lugares mais quentes? Especialmente pelo caráter da visita: era uma comissão de parlamentares buscando "constatar politicamente" o aquecimento global na Antártida. Algo um tanto quanto desnecessário, tanto em aspectos científicos, quanto políticos. Constatar argumentos sobre mudanças geoclimáticas não requer uma viagem dos parlamentares, e a pergunta que permaneceria é se algo assim teria algum peso político relevante, ou mesmo efetivo.

Sobre a visita de Lula, esse blog se sentiria atraído a chamar a atenção sobre como notícias como essa são diferentes de outras, como essa (enfim, nossa categoria se chama "mídia e política", e não "política" ;) ). Pelo menos na visita dos parlamentares o tema predominante da cobertura foi a função da visita. Mas retornando ao assunto, algumas premissas da função da visita de Lula:

"É uma visita protocolar, onde ele vai conhecer e dar respaldo ao que vem sendo feito pelo Programa Antártico", afirmou o comandante Eron de Oliveira Pessanha, encarregado da Divisão de Operações do Programa Antártico Brasileiro.

Este ano também se comemora o Ano Polar Internacional e a visita do presidente, diz o comandante Pessanha, mostra à comunidade internacional o apoio do governo brasileiro à ciência e às atividades desenvolvidas na Antártida.

Apesar do apoio político representado pela visita, a base ainda depende das emendas parlamentares para conseguir receber integralmente o orçamento de R$ 12 milhões por ano para custeio mais R$ 2,5 milhões para modernização das instalações e equipamentos.

O comandante Pessanha disse que o presidente não vai ouvir nenhum pedido explícito por mais verbas, mas os responsáveis esperam que, ao ver os trabalhos de pesquisa realizados no local, o governo se convença de que precisa destinar ou pelos menos garantir os recursos atuais para o funcionamento da estação.

"Ele vai ter conhecimento do que a base precisa para ser vista como uma base modelo, como já é", afirmou.

Uma frente parlamentar criada no ano passado e liderada pelo senador Cristovam Buarque se empenha para endereçar emendas às atividades da base. A expectativa do comandante Pessanha é que a frente ganhe mais adesões e portanto mais recursos nos próximos anos.

Eu questionaria sobre se não haveria uma grande diferença entre: uma comissão parlamentar inteira (e tinha até gente do PT, para satisfazer as aspirações do Adriano, se isso tem alguma relevância) viajando para "ver politicamente" o aquecimento global; e uma comitiva presidencial em viagem solene para a comemoração dos 25 anos da base, para conferir peso político no apoio ao programa antártico brasileiro, e enfim para chamar a atenção a financiamentos futuros da base. Tanto a natureza da visita, quanto a função, mostra um peso diferente, entre as comitivas presidencial e parlamentar.

Concedendo aos dois lados do debate, eu perguntaria se o caráter protocolar - especialmente nos termos acima - não legitimaria a visita do presidente (enfim é função de presidentes realizar protocolos), muito embora perguntaria também sobre o que o filho dele faz lá junto com ele.

***

E como já problematizou uma vez o Alon, não se trata aqui meramente de mostrar críticas a Lula para tornar o diálogo de um "esquerdista" viável com o "direitista". Aliás, não faltaram a esse blog denominações de "esquerdista", como também não faltaram de "direitista". Mas felizmente a questão é outra, do caráter efetivamente público dos atos públicos. Dadas as perguntas acima, é perfeitamente legítimo comparar os frutos das duas visitas, e no mesmo movimento questionar o caráter público da presença de certas pessoas.

February 14, 2008

A difícil vida de um parlamentar

Palavras do ex-deputado federal pelo PL (atual PR) e ex-bispo da Igreja Universal Carlos Rodrigues, sobre o mensalão e a difícil vida de um parlamentar:       

“Ser parlamentar é muito ruim, meritíssimo”, disse. “Muito ruim. Você sacrifica tudo o que tem. Entra ali de manhã e sai à noite, não vê o dia passar. Se ocupa o dia inteiro. Sábado à noite, você às vezes tem que ir a um casamento, abraçar 100 pessoas que nunca viu na sua vida. De repente, você está em casa, um eleitor seu morreu, tem que botar o terno e ir ao enterro. Nove horas da noite, você está com sua família, sua esposa quer ir ao cinema, tem que atender a um pedido político. Ser parlamentar não é simples, embora a imprensa ache que é um paraíso. Não é”.

Dentre outras coisas, o Bispo é acusado de

se envolver com o caso Waldomiro Diniz, conhecido também como Escândalo dos Bingos’. Em outubro de 2005, renunciou o cargo de deputado após se envolver com o Mensalão. No dia 4 de maio de 2006, se apresenta à Polícia Federal, para evitar prisão em flagrante, depois ser acusado de se envolver o caso das vendas fraudulentas das ambulâncias deflagrado pela própria PF na Operação Sanguessuga. Ele é acusado de corrupção passiva, fraude em licitação e formação de quadrilha.
Costumava-se dizer que, enquanto o bispo Edir Macedo era líder espiritual da IURD, o bispo Rodrigues organizava a liderança política. Vários dos editoriais do jornal da igreja, a Folha Universal, eram escritos por ele. Valdemar Figueiredo Filho analisa as relações entre política e igreja nos escritos de Rodrigues, onde consta a passagem do próprio Bispo:

Mais um traidor. Rio de Janeiro - RJ. Paulo Mello, então pastor da IURD, foi eleito vereador da cidade do Rio de Janeiro através dos votos dos membros e obreiros da Igreja Universal da zona oeste.  A Igreja e o povo pensavam que teriam mais um homem de Deus, sincero, correto, íntegro, como convém a pessoa de Deus e que defenderia as causas do povo que nele votou, povo este já tão sofrido pelas agruras da região mais distante do centro da cidade.  Pura ilusão.  Assim que tomou posse, afastou-se da bancada evangélica, traiu também o partido ao qual era filiado, aliou-se a vereador incrédulo.  Votou contra o vereador bispo Jorge Braz, tirando este da liderança que exercia.  Tudo bem, até Jesus teve o seu Judas e não seremos nós, povo de Deus, que não teremos os nossos.  Vamos em frente que o nosso Jesus é maior, o nosso Deus é justo juiz.

e

faz-se necessário "uma grande reforma espiritual na vida do povo brasileiro" (Rodrigues, 1998, p. 27), da qual pode resultar uma nova moral pública e uma nova ética na política. Para tanto, continua o referido bispo, é "papel da Igreja do Senhor Jesus Cristo: anunciar a verdade, doa a quem doer e cobrar das nossas autoridades a prática dos princípios éticos e morais do nosso povo, de acordo com a própria Carta Constitucional do país"

Curiosamente, o nome do bispo não consta nem na página da Folha Universal, nem nos sites da IURD.

February 13, 2008

Abu Ghraib, liberdades civis, e 30 anos atrás

bottero abu ghraib

O Festival de Cinema de Berlim lançou um documentário chamado "Standard operating procedures". Dirigido pelo norte-americano Errol Morris, trata dos abusos cometidos em Abu Ghraib. No mesmo contexto, Taxi to the Dark Side concorre ao Oscar 2008.     
 
Outro filme que tratou de passagem o mesmo tema é Kurtlar Vadisi, produção turca de 2003 que trata de um comando combatendo forças norte-americanas no Iraque. O filme reúne vários temas bem caros à percepção do oriente médio sobre a intervenção norte-americana.
 
Em contexto não muito distante, um dos sites-destaque do del.icio.us é o Loss of Civil Liberties Since 9/11. Reúne linhas de tempo de diversos temas:
This is the History Commons project for the loss of US civil liberties under the current administration, and before. We are currently focusing on several topics, including the expansion of executive power (the “unitary executive”), the NSA’s domestic surveillance program, the use of “national security letters” to force information from citizens, and others.
Por coincidência, lia um texto de Robert Fisk, a respeito da invasão da embaixada norte-americana no Irã em 1979, durante a revolução islâmica. Sobre as tentativas de intervenção norte-americana da época, no Irã e em outros países (após a Operação Ajax, encabeçado pelos EUA e Inglaterra para depor o primeiro ministro iraniano Mohamed Mossadeq, temia-se um novo golpe norte-americano contrário à Revolução, que alavancou a oposição a Jimmy Carter, e favoreceu ironicamente a eleição futura de Ronald Reagan, alguém segundo Fisk "menos sensível" a questões do oriente médio), consta:
 A iranian girl who had studied journalism in New York - who had experienced, as she put it, the fruits of American Democracy - demanded to know why americans were prepared to support the Shah´s regime when it had opposed individual freedom and dissent. ‘In the United States, we learned all about liberty and the freedom to say what we wanted to say. Yet America went on propping up the Shah and forcing him to squander Iran´s wealth on arms. Why did it do that? Why was America a democracy at home, and a dictator abroad?’ There was, of course, a contradiction here. The fact that President Carter, whose campaign for human rights was well known in Iran, should have continued to honour America´s political commitment to the Shah before the revolution - in however tentative a way - was regarded as Hypocrisy. (The Great War for Civilization, Ed. Harper Perennial, p. 146)

February 11, 2008

A redução da maioridade penal no Senado

Brasília - A proposta de redução da maioridade penal para 16 anos chega ao plenário do Senado pela primeira vez. A matéria é o terceiro item da pauta da Casa, que tem sessão deliberativa marcada para terça-feira (12) à tarde.

Pela proposta, adolescentes entre 16 e 18 anos poderão ser responsabilizados criminalmente em caso de crime hediondo. Para isso, será necessário um laudo técnico atestando que o adolescente tem plenas condições de entender o caráter ilícito do crime cometido.

Por ser uma proposta de emenda à Constituição, precisa ser aprovada em dois turnos no plenário antes de seguir para a Câmara dos Deputados. Para isso, são necessários os votos favoráveis de pelo menos 49 dos 81 senadores (três quintos dos parlamentares da Casa). Se esse placar não for atingido, a proposta é arquivada.

O projeto é de autoria do então senador e hoje governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM) e se chegar à Câmara, encontrará outras 20 propostas de emenda à Constituição tratando do mesmo assunto. Na Câmara, a mais antiga PEC que trata da redução da maioridade penal, tramita na Casa desde 1993, ou seja, há 15 anos. Até hoje não foi votada por falta de entendimento.

Cheira à velha história: tudo se passa como se não houvesse distância entre o sujeito de direito e os indivíduos e práticas concretas, no Brasil; como se um debate maior sobre responsabilidade e desenvolvimento do adolescente não devesse ser feito; como se as prisões servissem como um lugar de reabilitação dos prisioneiros; como se o crime fosse apenas questão de responsabilidade individual em uma sociedade em que os indivíduos são essencialmente iguais; como se não houvesse aquela divisão entre "adolescente" (menino de classe média) e "menor" (por si mesmo, infrator).

Muito interessante, o Brasil visto pelo senador Arruda. 

January 31, 2008

O Brasil, as estatísticas, e a Amazônia

Nos últimos 10 ou 20 anos, o Brasil descobriu o universo das estatísticas. Não como ciência, mas como forma cultural, discurso do senso comum.
 
Dois exemplos notáveis desse uso são as entrevistas cotidianas, e os dados do futebol. O repórter consulta o vendedor, perto do natal, e ouve: "Neste ano as vendas subiram 20%". No jogo de futebol, "o time A já enfrentou 20 vezes o time B, com 12 vitórias do time A, 3 empates, e 5 derrotas. Isso equivale a tanto por cento disso, tanto daquilo…"
 
Curioso notar que boa parte desse discurso convincente não se apóia em dados efetivos. O vendedor apenas intuitivamente projeta os "20%". Já as estatísticas de futebol servem para pouco, ou para nada: cobrem anos de contextos, times, técnicos e jogadores diferentes. Ora, não são apenas os padrões dos elementos que mudam. Muda o contexto que os rege, sua disposição, e sua própria natureza.
 
Isso tudo sem falar nas médias. As divulgações sobre salário, por exemplo, concentram-se em médias nacionais. Não consideram portanto cenários e estratificações totalmente diferentes para cada região, implicadas em salários grosseiramente distoantes. E vice-versa, onde deveriam ser divulgadas médias ou porcentagens, o repórter ou divulgador recorre ao dado bruto: o vidrinho de cola comprado em período escolar tem 4 gramas a menos. Como se todos soubessem o que 4 gramas representam no vidrinho de cola, e diante do gasto total.
 
Um exemplo mais maudoso são as estatísticas de aprovação e alfabetização de alunos. Milhares de escolas simplesmente não reprovam alunos, em séries do ensino fundamental. Não é raro encontrar casos de alunos que estão no quinto ou sexto ano, e são analfabetos funcionais, quando não são totalmente analfabetos. Nas faculdades, eles já começam a aparecer, especialmente nos cursos que não requerem cálculo. Muitos alunos simplesmente não conseguem interpretar um texto.
 
Tudo isso, junto a um caso recente: alguns jornais estrangeiros acusaram de mentiroso o dado brasileiro de que o desmatamento na Amazônia diminuiu nos últimos 3 anos.
 
Nesse último caso, o estardalhaço foi causado por dados via satélite, divulgados pelo INPE. Segundo o ministro Sergio Rezende, o próprio INPE divulgou também os dados de que nos últimos anos o desmatamento diminuiu.
 
Curioso notar que esse tipo de procedimento indica algo trivial: o desmatamento mostra-se sempre retroativamente, pois falta fiscalização rigorosa. Um primeiro fator que reforça isso são as querelas sobre se os dados do INPE são verdadeiros. O segundo fator é outra querela: sobre se o verdadeiro responsável é o agronegócio. Marina Silva diz que sim; Lula evita culpar diretamente os produtores de gado e soja, no Mato Grosso:
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira que, por enquanto, não é possível atribuir as causas do desmatamento ao plantio de soja nem à produção de gado na Amazônia. Lula fez o comentário durante almoço no Itamaraty em homenagem ao presidente do Timor Leste, José Ramos-Horta.

Segundo interlocutores, Lula demonstrou preocupação com o tema, mas indicou que é necessário ter cautela. "Não dá para ficar culpando a soja nem a pecuária [por causa do aumento do desmatamento na região Amazônica]. Tem de se avaliar", teria dito Lula, de acordo com alguns dos presentes ao almoço.

Na semana em que o governo anunciou o aumento da derrubada de árvores na região da Amazônia, os ministros Marina Silva (Meio Ambiente) e Reinhold Stephanes (Agricultura) divergiram publicamente sobre as eventuais causas do desmatamento.

Para Marina, o aumento do plantio de soja e da produção de gado em áreas preservadas contribuiu para o desmatamento. Já Stephanes discordou da colega, informando que o plantio e a produção seguiam regras que eram obedecidas.

e

Marina Silva apontou como prováveis causas do aumento do desmatamento a pressão por aumento da produção de soja e carne, commodities cujos preços subiram. Os satélites indicam que o desmatamento se concentrou em regiões produtoras de soja –o Nordeste mato-grossense, onde o governador do Estado, Blairo Maggi, tem uma fazenda– e de gado –o Sudeste do Pará.

"A pecuária e a soja são atividades típicas desses Estados; a realidade econômica indica que essas atividades pressionam o desmatamento", observou a ministra. "Esperamos conseguir conter o desmatamento mesmo com o aumento do preço das commodities."

Veríssimo, do Imazon, se diz preocupado com o que acontecerá a partir de abril, quando a Amazônia seca e o desmatamento esquenta para valer. "A decisão de desmatar devido ao aumento das commodities já está tomada. Como o governo vai reverter isso?"

Ele afirma que o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento do governo ainda não incorporou as restrições de crédito aos produtores rurais que desmatam ilegalmente. Sem isso, avalia, será difícil evitar um desastre em 2008.

"Sem controle da produção, não teremos solução para o desmatamento", investiu Gilberto Câmara, diretor do Inpe, ao defender o rastreamento da origem da soja e do gado na Amazônia. Este deve ser o tema mais polêmico da reunião de hoje no Planalto: como conciliar o aumento da produção agropecuária e o avanço da fronteira agrícola com a queda do desmatamento.

Os municípios responsáveis pelo desmatamento já foram mapeados. E  declarações como a de Adalberto Veríssimo reforçam como os dados, sempre retrospectivos, indicam falta de fiscalização. Ou melhor, é curioso que a presença de grandes áreas de desmatamento, somadas a fiscais do IBAMA e municípios da nação muito bem delimitados, resulte em uma carência total de dados, apenas passíveis de descoberta via satélite. Somemos a isso o boom da soja e do Agronegócio no norte do Mato Grosso e sul do Pará nos últimos anos, junto ao nascimento de vários municípios de colonos sulistas durante os últimos 30 anos e…

January 29, 2008

Requião e a mídia paranaense

O Blogoleone publicou dois posts sobre o silêncio do governador Roberto Requião, após determinação judicial que impediu seus costumeiros programas na TV Paraná Educativa. Sobre isso, Paulo Henrique Amorim entrevistou Requião dia 21/1.

Da entrevista, destaco uma passagem:

Roberto Requião – Agora, você veja, o negócio é a Globo mesmo, Paulo.

Paulo Henrique Amorim – Por quê?

Roberto Requião – Porque todas as vezes que ele publicaram uma mentira, eu botei a mentira deles e desmenti com uma reportagem, filmes e fatos. E pus no ar na Educativa. Eles estão furiosos. Eles mentiram durante a campanha eleitoral sobre o porto de Paranaguá, sobre filas no porto, mas com filmes de oito anos atrás, do Governo que me antecedeu. Daí eu mostrei que era mentira. E sistematicamente isso tem acontecido.

Paulo Henrique Amorim – Então o senhor acha que, por elipse, o Judiciário está trabalhando para a Globo, é isso?

Roberto Requião – Não, o que eu acho é que está dando guarida aos processos da rede. E a partir do momento, o Ministério Público, quando eu mostrei o salário deles. Eles estão inconformados do povo saber quanto eles ganham… É muito ruim isso. Não é ruim para mim, Paulo. É ruim para o país.

(…) Paulo Henrique Amorim – Portanto, o senhor não pode ir para o ar fazer aquele programa que o senhor fazia?

Roberto Requião – Eu posso fazer, só que eu não posso falar no programa. Eu não posso criticar a Globo, fui expressamente proibido de criticar a imprensa e a imprensa que eu critico aqui é a Globo, por causa da desinformação, não posso criticar o Judiciário, não posso falar das instituições. Ou seja, é tão maluca a coisa que como o Governo do Estado, o Executivo é uma instituição, eu não posso criticar nem o meu Governo. Não é uma instituição da República?

Paulo Henrique Amorim – É verdade. O senhor foi amordaçado?

Roberto Requião – Amordaçado. Sou um governador sem voz. Daí eles dizem: ‘não, pode falar na iniciativa privada’. A iniciativa privada não me dá espaço. Eu há oito anos no Paraná não dou uma entrevista ao vivo numa televisão.

Requião não é flor que se cheire. É um sujeito deveras estranho. Para isso, pululam notícias sobre cenas bem estranhas do governador, como uma ocasião em que ele pergunta a uma mulher se ela traiu ou trairia o marido, ou várias outras em que seu senso de humor se comprovou bem duvidoso.

Portanto, uma coisa é o Requião privado, e outra o governador Requião, homem público. De fato, em cenas como a da mulher que trairia o marido, o governador dá com os burros n´água. Especialmente quando não se é quisto por parte da sociedade, medir as palavras pode ser uma boa tática, pelo menos para seus interesses. Concluindo, o governador Requião, homem público, às vezes comete verdadeiras gafes, com juízos - e que juízos! - privados, enquanto exerce função pública.  

Daí a determinação judicial. Afirma-se ali que houve "uso indevido da TV EDUCATIVA DO PARANÁ, para sua promoção pessoal e agressão aos desafetos do Agravado Roberto Requião".

O governador apresentava com frequência um programa demorado, reunindo personalidades da política paranaense. Cada programa durava horas, exibindo dados e mais dados das contas e política, citando notas e reportagens de jornal, convidando aliados do governo para falar. As "denúncias" contra o governo eram constantes. E a cada denúncia, lá estava o governador, à noite, com essa pesada maquinaria, que reunia ao mesmo tempo justificação, prestação de contas, e uma metralhadora giratória contra os inimigos do governo.

Curioso como um programa tão anti-popular como o de Requião resultou em uma condenação judicial. Seria muito interessante um jornalista analisar como um programa tão pesado como esse, de palestras monótonas, servia como instrumento de debate - ou combate - contra as dinâmicas reportagens de alguns jornais impressos e televisivos. Tratava-se de uma maquinaria lenta, impopular e pesada, mas que procurava a exaustão das questões, contra um jornalismo dinâmico, abreviado e difundido em todo o Estado. Cada menção breve do jornal de meio-dia recebia uma resposta demorada e exaustiva, à noite. Quanto à forma, não se pode negar que esse tipo de debate é interessantíssimo, já que envolve dois meios de debate público, um da dinâmica e brevidade dos jornalistas, e outro com falas ao microfone e copos d´água em palestras demoradas.

Para além da forma, entretanto, existe o conteúdo, e aí deveríamos perguntar sobre as relações entre o público e o privado nessas falas demoradas do governador. Em termos de discussão pública, não se pode negar que essa maquinaria pesada é uma espécie de novidade, e que de alguma forma acabou ensejando debate.

Daí haver um duplo tom, nos programas de Requião: o primeiro tom é o público, do papel público de um programa em uma TV pública que visa a prestação de contas de um governador, a partir de denúncias públicas, e segundo a visão política do próprio governador. Em termos jornalísticos, não se pode negar que um programa como esse é prato cheio tanto para inimigos, quanto para aliados. As posições do governador estão todas ali, expressas, prontas para serem avaliadas. E falando em Requião, elas são manifestamente políticas. Não é à toa que se "denunciou" muitas vezes a carga ideológica da programação da TV Educativa em seu governo. Entretanto, é curioso notar que ela é deliberadamente ideológica, manifesta-se dessa forma e busca ainda fins ideológicos. Requião é um remanescente do desenvolvimentismo com inimigos neoliberais, e faz questão de mostrar-se assim. Não é à toa que incomoda seus adversários ao mostrar-se e sustentar-se de tal modo, especialmente em uma TV estatal.

Outro tom é o privado, e aí com o Requião incisivo e lutador existe o tom agressivo, mais do que eloquente. Aqui o papel público do governador deliberadamente ideólogo se confunde com contra-denúncias e agressões em tom privado. Revela-se aqui outro mecanismo interessante: várias denúncias contra o governador foram falsas, como a das filas do porto de Paranaguá, que buscavam conferir tom positivo aos portos privados, enquanto os públicos - como o de Paranaguá - gerariam apenas filas e transtornos. Denúncias pretensamente desinteressadas, como essas, receberam respostas enfáticas e agressivas do governador. A cobertura "desinteressada" contra a resposta "apaixonada". Daí, em momentos de maior ou menor acerto provável, Requião ter dado a deixa para interpretações de cunho personalista.

Com tudo isso, permanece a questão: a determinação judicial que proibe as falas do governador Requião é correta? Quando atinge o tom privado, sim - Requião oferece sempre boa munição aos adversários. Mas ainda restaria encarar que a determinação não foi contra o tom privado, mas sobre fins privados que o governador obteria com a programação. Quanto aos fins, é bem claro que Requião utiliza as palestras para fins públicos e políticos, em prol de seu governo e idéias. Mas seriam estes fins privados em si mesmos, em termos de ganho pessoal privado? É pouco provável, pelo menos até que se comprove que isso efetivamente ocorre. Outro belo prato para os jornalistas, que poderia retirar a impressão de que Requião foi calado por uma espécie de medida "preventiva".

January 28, 2008

Os parlamentares na Antártida

A comitiva com 13 parlamentares brasileiros que está retida na Antártida por causa do mau tempo deve decolar amanhã (28) da base chilena para a cidade de Punta Arenas, no sul do Chile. A informação foi repassada por telefone pelo senador Renato Casagrande (PSB-ES) à Agência Brasil.

Segundo o senador, a missão deve chegar a Brasília na terça-feira (29). “Estamos aguardando que o tempo melhore”, disse Casagrande. “A previsão que passaram para a gente é que, amanhã pela manhã, o Hércules [avião da Força Aérea Brasileira] terá condições de decolar da base.”

De acordo com o parlamentar, a comitiva, que chegou à Antártida na quarta-feira (23), deixaria base chilena ontem (26). No entanto, o tempo fechou e não houve teto para o avião decolar. Apesar disso, o senador afirma que não há nevasca. De acordo com ele, a temperatura é de zero grau absoluto, com sensação térmica de 5 graus negativos.

Relator da Subcomissão de Aquecimento Global no Senado, Casagrande viajou para a Antártida a convite da Marinha. Na comitiva também estão 12 deputados da Comissão Mista Especial sobre Mudanças Climáticas, pesquisadores brasileiros, representantes do Ministério de Ciência e Tecnologia. A missão é coordenada pela Marinha, com apoio da Força Aérea Brasileira (FAB).

Os deputados retidos na base chilena são: Colbert Martins (PMDB-BA), Edmilson Valentin (PCdoB-RJ), Fábio Ramalho (PV-MG), Fernando Chucre (PSDB-SP), Jorge Maluly (DEM-SP), Luciano Pizzato (DEM-PR), Maria Helena (PSB-RR), Moreira Mendes (PPS-RO), Paulo Teixeira (PT-SP), Ricardo Tripoli (PSDB-SP), Vinícius Carvalho (PTdoB-RJ) e Wellington Coimbra (PMDB-ES).

Parlamentares na Antártida? Subcomissão de Aquecimento Global no Senado? Comissão Mista Especial sobre Mudanças Climáticas?

E principalemente: zero grau absoluto, com sensação térmica de 5 graus negativos????

January 21, 2008

As pipas do Afeganistão

http://farm1.static.flickr.com/35/67771015_b69b49aff3.jpg
pipas em um fim de tarde em Kabul, por tuxed0mack

Lia o livro de Robert Fisk quando uma passagem saltou aos olhos. Trata-se de um detalhe da cobertura desse jornalista durante a invasão russa, nos idos de 1980:

 Kabul had an almost bored air of normality that winter as it sat in its icy basin in the mountains, its wood smoke drifting up into the pale blue sky. The first thing all of us noticed in the sky was an army of kites - large box kites, triangular and rectangular kites and small paper affairs, painted in blues and reds and often illustrated with a large and friendly human eye. No one seemed to know why the Afghans were so obsessed with kites, although there was a poetic quality to the way in which the children - doll-like creatures with narrow Chinese features, swanddled in coats and embroidered capes - watched their kites hanging in the frozen air, those great paper eyes with their long eyelashes floating towards the mountains (p. 72, ed. Harper Perennial)

Provavelmente chamou a atenção devido ao sucesso enorme daquele outro livro, chamado "O Caçador de Pipas". Estava curioso para saber o que despertou tanto o interesse das pessoas sobre esse romance, considerando aquele velho aviso de Sêneca ("Nas coisas humanas não se procede com acerto tentando agradar à maioria, pois a multidão é a prova do que é pior"). 

Sobre a versão em filme, o Chico criticou severamente: tudo muito arredondado, temas e personagens gerais e estereotipados. Fórmula daquelas que agrada precisamente a quem busca entretenimento, e só.

Questão compartilhada pelo Leandro, em sua severa e convincente crítica ao próprio livro. Inclusive, ele mesmo já previa as filmagens!

Pensando um pouco sobre o que Robert Fisk fala sobre o Afeganistão, conforme esse jornalista haveria uma certa cumplicidade entre temas bem gerais- amplamente divulgados -, e a própria condição daquele país. Temas gerais de cobertura teriam uma relaçao tal com os acontecimentos "reais" que serviriam para ocultá-los, criando um tipo de situação para cada interessado. Em suma, tudo o que é deveras complexo acaba recaindo em dualidades e moldes simples. Resultado: ações efetivas para mudanças efetivas acabam comprometidas.

Nos anos 80 eram os russos que vieram "libertar" o país, a contra-gosto da população local. O presidente Babrak Karmal mantinha práticas contraditórias: levado ao poder pelos russos, às vezes ensaiava palavras de protesto contra eles, não muito convincentes; chamava os insurgentes de "terroristas", no mesmo movimento em que buscava apoio de grupos islâmicos "radicais". Do lado da imprensa, o próprio Fisk já se viu em apuros, recebendo telegramas com pedidos de matérias de jornalistas londrinos que agiam como se tudo não passasse de mais um enredo hollywoodiano; restava enfrentar com esses telegramas perguntas da polícia secreta afegã. Enfim - e para complicar -, aqueles que Reagan depois chamaria de "Freedom Fighters" eram os mesmos mujahedins - "guerreiros sagrados" -, chamados também de "terroristas" por quem interessasse chamá-los assim.

Enfim, esses temas bem gerais ocultariam problemas complexos, bem como pesos e medidas não declarados. Como não dizer que a própria divulgação das informações, pautada em mocinhos e bandidos ou bem e mal, não seria diretamente comprometida com os efeitos reais da destruição de um povo e país? Ora, um jornalismo rigoroso na apuração dos ditos "fatos" poderia gerar outros efeitos, especialmente nessa avalanche de visões que são tudo, menos desinteressadas.

O que recai na questão do Kite Runner: temas grosseiros e personagens estereotipados serviriam a quê? 

January 16, 2008

Robert Fisk e o jornalismo imparcial

O trecho abaixo pertence a uma entrevista que Robert Fisk concedeu em 2005, a respeito do lançamento de The Great War for Civilization. Dentre os assuntos, destaco a passagem (traduzida/traída):  

Podur: Você fala sobre o próprio jornalismo, em seu livro. O que você pensa sobre palavras como objetividade, imparcialidade, balanço e neutralidade, em jornalismo?

Fisk: Ver através dos jornais diários nos EUA e a cobertura do Oriente Médio é lamentável e incompreensível. Introduz-se semântica para ocultar controvérias, a maior parte controvérsia sobre quem apoia Israel. Colônias tornam-se "vizinhanças", "ocupado" torna-se "disputado", um muro torna-se magicamente uma "cerca" - quero dizer, presumo que até minha casa não seja feita de cercas.

Por anos o jornalismo tem sido preso, metido, confinado em uma camisa de força de regras feitas nos anos 40, nas escolas de jornalismo dos Estados Unidos. Essas escolas costumavam treinar repórteres para jornais locais. E se você está tratando de uma disputa sobre uma estrada, propriedade pública ou privada para um aeroporto, é essencial dar aos que protestam tempo igual ao de quem quer abrir um novo aeroporto. Em um julgamento, é essencial dar tempo igual à defesa e à acusação.
 
Se você trata com jornalismo local desse tipo - um julgamento público, um caso legal, uma disputa sobre um novo hospital - ambos os lados têm direito porque não se trata de uma questão moral. É uma questão moral na medida em que a comunidade merece um bom hospital, e proprietários privados merecem privacidade sem ter que se preocupar com projetos do governo; mas não ocorre aqui uma grande, acalorada e apaixonada questão moral sobre a vida humana, retirar uma vida, ou a guerra.
 
Nas circunstâncias acima é correto deixar claro que todos são igualmente representados. Mas em assuntos estrangeiros, em uma parte do mundo imersa em injustiça, onde milhares são rasgados e destroçados por armas todos os anos, você entra em um novo tipo de mundo. Um mundo no qual os estandartes de neutralidade utilizados em um julgamento de cidade pequena caem por terra, por não serem mais relevantes.
 
Quando você vê crianças, vítimas empilhadas em um local de massacre, não é ocasião de dar tempo igual aos assassinos. Se você cobrisse a venda de escravos no século XIX, você não daria 50% ao capitão do navio de escravos; você manteria foco nos escravos que morreram, e nos sobreviventes. Se você estivesse presente na libertação de um campo de extermínio na Alemanha Nazista, não buscaria dar à SS 50 por cento dos comentários.
 
Quando eu estava próximo de um atentado a bomba em uma pizzaria na Jerusalém israelita em 2001, onde 20 pessoas morreram, mais da metade crianças, não dei metade do tempo ao Hamas. Em 1982, em Sabra e Shatila, escrevi sobre as vítimas, os mortos que eu fisicamente subi por cima, e os sobreviventes. Não dei 50 por cento à Falalange Libanesa Cristã, milícia que realizou o massacre próximo do exército israelense, que assistiu os assassinos e não fez nada.

No reino de estado de guerra, que representa a falência total do espírito humano, você é moralmente vinculado como jornalista para mostrar compaixão eloquente às vítimas, não ter medo de nomear os assassinos, e é permitido demonstrar revolta. A garçonete que nos serve café, o motorista de táxi que me trouxe aqui, possuem sentimentos sobre atrocidades. Porque nós não deveríamos ter? 
Vale a pena ler a entrevista inteira. Mas esse trecho enuncia uma boa questão: não são diversas coberturas uma espécie de projeção ingênua de modelos parciais, feitos apenas para um determinado tipo de situação? No dizer de Fisk, querelas sobre uma disputa judicial ou dois lados de um protesto em país de primeiro mundo possuem atores e cenário totalmente diferentes de conflitos armados em países desiguais. Dinâmicas diferentes requerem coberturas diferentes.
 
A posição de Fisk, nisso tudo, é peculiar (e um assunto à parte). Mas, alheia aos compromissos dele, a questão enunciada é muito boa: não estenderiam certos jornalistas julgamentos locais a âmbito universal? Em determinadas coberturas não estariam em jogo toda uma série de visões sobre o mundo não declaradas, colocadas  sem crítica pelo "filtro" do jornalista, que são suas próprias palavras? Uma das respostas possíveis para evitar esse compromisso "egoísta" (uma projeção local valendo como regra universal), o próprio Fisk fornece: todo jornalista deveria "carregar consigo um livro de história".
 
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- Agradecimentos a Artur, Adriano, Alcinéa, Cássio, Felipe, Leandro e Marcela pelos votos de feliz ano novo. Um ótimo ano, repleto de boas interlocuções, para nós todos!
- Este blog enfrenta alguns problemas de acesso (de ausência de força e presença de distância maior ;) ), daí algumas lacunas.
- Dedicaremos vários dos posts seguintes a Robert Fisk, especialmente seu A Grande Guerra pela Civilização.