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May 7, 2011

Podem comemorar


 
Do Laerte, via post do Incautos

May 5, 2011

Guerra e juventude


Hoje faleceu o último veterano da I Guerra Mundial. Claude Choules serviu na marinha inglesa até os anos 50. Sobre a guerra e o perpétuo tema de aderir a ela sob o "ensinamento" de que o inimigo é sempre um monstro a matar, ele comentou que no fim das contas

Todo mundo era a mesma coisa, eles eram apenas jovens

E dias atrás um jornalista do Boston Globe comentava sobre o contexto da premiada (e chocante) foto de Chris Hondros (morto em Misrata dias atrás):

Os soldados - crianças, a maior parte - permaneciam lá, acenando para o carro parar. Eles estavam sem sono, nervosos, absolutamente terrificados, esperando se era outra bomba suicida. O carro não reduziu a velocidade e os soldados pararam de gritar e começaram a atirar.

Isso foi por apenas alguns segundos.Balas do tamanho de bolas de golfe penetraram o carro como dardos fundidos rodando até parar.

Quando os soldados correram ao carro, viram seu erro e suas pernas tremeram. "Civis!", gritaram.

Outro jovem fotojornalista, Tim Hetherington (também morto em Misrata), filmou vários jovens em seu documentário Restrepo. O nome do filme era o de um outpost do exército norte-americano, batizado com o nome de um soldado morto. Durante o filme, Hetherington entrevista vários soldados comentando sobre a guerra e suas ações. E ao mesmo tempo, o documentário mostra sem o mostrar (apenas com imagens indiretas) um ataque de helicóptero a uma vila afegã que feriu várias crianças.
 
Sobre crianças, o piloto do helicóptero do vídeo Collateral Murder comenta, logo após descobrir que uma vã de supostos insurgentes iraquianos metralhada por eles continha crianças: "É falha deles trazerem as crianças para a batalha".
 
E Steve McCurry fez há pouco uma seleção de suas fotos sobre "o lugar mais perigoso para nascer".

 

Robert Fisk e o ensinamento dos EUA


A reação demorou quase um dia, mas Robert Fisk começou a publicar vários textos sobre a morte de Bin Laden. Fisk entrevistou Bin Laden três vezes, e inclusive manteve uma espécie de diálogo indireto com o saudita em vários artigos (às vezes respondidos por Bin Laden por meio de terceiros). Vale acompanhar suas análises.

Trecho do artigo recém saído, sobre o que os EUA ensinam ao "mundo árabe" logo após a Tunísia e o Egito ensinarem ao mundo inteiro que é possível lutar pela liberdade:

(…) Suas [de Bin Laden] promessas de derrubar os ditadores árabes pro-americanos ou não islâmicos foram cumpridas pelo povo do Egito e Tunísia - e talvez em breve por Líbios e Sírios -, não pela Al Qaeda e sua violência.

O problema real, entretanto, é que o Ocidente, que constantemente pregou no mundo Árabe sobre legalidade e não violência serem o caminho a percorrer no Oriente Médio, ensinou uma lição diferente ao povo da região: que executar seus oponentes é perfeitamente aceitável (…)

No contexto, Obama declarou algo como isso. Outros textos traduzidos apareceram no Outras Palavras e na Carta Maior.

May 2, 2011

Osama ao mar


Mais detalhes no gibi
 
Durante a madrugada pulularam informes de que Obama, quer dizer, Osama, foi morto por "tropas especiais" dos EUA. "Perto de Islamabad", disseram uns.  Bin Laden "estava numa mansão", afirmaram outros. "Uma afronta direta à soberania do Paquistão?", perguntavam alguns. Obama, o presidente, falou ao vivo na Casa Branca, comunicando a morte e a justiça do terrorista. 
 
Disse Obama que "depois de um tiroteio, eles [soldados americanos] mataram Osama bin Laden e assumiram a custódia de seu corpo".
 
A grande operação se realizou em Abbottabad, cidade próxima a Islamabad e lugar sob controle militar paquistanês direto ou indireto (inclusive com uma academia militar próxima). Nenhum soldado norte-americano morreu, mataram Osama, assumiram "a custódia do corpo" e o levaram de helicóptero.
 
Fizeram isso para mostrar ao mundo algo semelhante às fotos de Che Guevara morto na Bolívia (elas mostram um cadáver), certo? Para ter uma severidade tão grande quanto a de Guantanamo, tomando posse do corpo, circunscrevendo-o nos mínimos detalhes técnicos como fruto da precisão bélica e científica dos EUA, certo? Ou ainda, para mostrar em imagens exaustivas e indubitáveis o trunfo do poder sobre o terrorista, certo?
 
Ou ainda, uma morte dessas, mesmo que não documentada, certamente terá alguma imagem - mesmo proibida - do momento histórico, semelhante às filmagens por celular do enforcamento de Saddam Hussein.
 
Ou outra: lembrando-se das provas "irrefutáveis" uma vez apresentadas por Colin Powell sobre as "armas de destruição em massa", para afastar o fantasma da mentira, governo e exército dos EUA não declarariam apenas  comprovações de exames e multiplicariam as provas visuais da morte, de forma a não deixar qualquer margem de dúvida nem ao mais cético. O governo aprenderia que se a imagem de satélite ou o exame de DNA são precisos, deve-se afastar a impressão de que até um presidente é capaz de mentir, correto?
 
Errado. Numa surpreendente reviravolta, contam que a preocupação pelo corpo se resumia no fim das contas a retirar amostras e dar-lhe um funeral islâmico apropriado, jogando-o logo depois ao mar.
 
Morto ou não, deve aparecer alguma informação mais detalhada do que a imagem do gibi acima. Pois como diz o Dr. House, o noticiário tem dessas coisas: notícia dada, sempre a atração do dia seguinte será um panda dando à luz trigêmeos.
 
***
 
E Robert Fisk se manifestou ainda hoje. O Outras Palavras publicou uma entrevista (traduzida). Visto que ele é o famoso "homem que entrevistou três vezes Bin Laden",  certamente ainda terá muito a dizer. Aliás, não por acaso recomendamos mais de uma vez a leitura de A Grande Guerra pela Civilização. O Independent acabou de publicar um trecho do livro. E outro.
 
 
 
 
 

April 21, 2011

Um triste dia para o fotojornalismo



Foto de Chris Hondros
 
Este blog preparava um post sobre Restrepo, documentário feito em 2007 por Tim Hetherington (sobre um posto avançado do exército dos EUA no Afeganistão), quando apareceu a seguinte notícia: Hetherington morreu hoje depois de uma  explosão de RPG  em Misrata, Líbia.
 
O ataque também alvejou outros célebres fotojornalistas: Chris Hondros, Michael Christopher Brown e Guy Martin.
 
Durante a confecção do documentário de 2007, Hetherington ficava seguidamente exposto a situações "reais" de guerra no outpost norte-americano. Se de um lado o documentário apresenta  certa "afetividade" dos soldados dos EUA, ele não deixa também de escancarar o valor nulo da voz dos dos afegãos e a total falta de comunicação efetiva entre os soldados e o povo local, especialmente contextualizada dentro das políticas de "aproximação" entre exército invasor e sociedade ocupada.
 
Em meio à presença sempre evocada do ausente soldado Restrepo e da intimidade dos soldados, o filme também mostra, como numa espécie de sombra projetada, a presença dos afegãos locais, afetados por intervenções avassaladoras.
 
Voltando às revoltas na África: no Egito, diversos fotojornalistas tiveram as câmeras tomadas por manifestantes, especialmente no início dos protestos. A despeito desses episódios, na Líbia muito do progresso dos rebeldes anti-Kadhafi apenas se tornou público pelo fotojornalismo (inclusive com câmeras não convencionais, como iphones).
 

April 15, 2011

Praia Giron e o homem que veio do espaço


 

Fidel Castro começou a publicar no CubaDebate  textos com sua perspectiva sobre a vitória cubana contra a invasão da Baía dos Porcos, 50 anos atrás.

Na ocasião, no dia seguinte ao discurso proferido por Castro sobre o caráter "socialista" da revolução (no dia 16 de abril de 1961), mais de 1200 cubanos exilados e apoiadores de Fulgêncio Batista, sustentados pela CIA, desembarcaram na Praia Girón. 

Contra o difundido tema do não envolvimento aberto e institucional dos EUA no ocorrido, Castro comenta algumas vezes sobre bombardeios sofridos.

Conforme o cubano, tais acontecimentos envolveram posteriormente diversos fatores decisivos, como a consolidação da aliança cubana com a URSS (que já se desenhava desde a revolução, com o embargo parcial de Eisenhower em 1960 e o subsídio soviético sobre ítens que os EUA restringiram a importação) e a crise dos mísseis em 1962.

 

Curiosamente, naqueles dias o mundo inteiro estava de olho em outro acontecimento: Yuri Gagarin recém voltou do espaço. No dia 21 de abril, ele é a capa da Life (a mesma edição dedica um artigo a  Adolf Eichman).

Cuba aparece apenas uma vez mencionada na revista, em um artigo de opinião sobre Gagarin, testemunha de nosso mundo sob uma "nova e única perspectiva".

Castro ganhará uma capa da Life apenas no mês de junho (ao lado de outros textos como o de uma certa segregação racial sofrida no transporte público), depois de um curioso editorial ("Precisamos vencer a Guerra Fria") e numa nova série: "Crise na América Latina".

A revista mesma sugere três formas de derrubar Castro: intervenção diplomática, intervenção direta ou sabotagem/intervenção paramilitar.

April 11, 2011

Entre a autoridade e a celebridade


Bela entrevista de Jurandir Freyre Costa (via Rodrigo Cassio). Ele parece trabalhar, dentre outras questões (alvos de seu livro O Vestígio e a Aura:  Corpo e Consumismo na Moral do Espetáculo), um fenômeno muito curioso : como o brasileiro é capaz de viver em algum lugar não esclarecido entre a sujeira da vida "real" e a "idealidade" das imagens televisivas? Poucas vezes a pergunta sobre esse "algum lugar entre" - algo específico do brasileiro - recebe atenção apropriada:
CC: Numa sociedade desigual como a brasileira, a troca da autoridade pela celebridade gera agravantes?
JFC: Acho. Uma sociedade como a nossa tem a característica de ter uma distância muito grande entre a prática das pessoas, o modo concreto de vida, e o mundo feérico da realidade espetacular. A percepção dessa distância gera, psicologicamente, um mecanismo de defesa muito importante, que é a tendência de a pessoa se contentar com a atividade de evasão, de alienação em relação a si próprio, e de encontrar, justamente no registro da fantasia, aquilo que se sabe ser impossível na realidade. Quanto mais longe a realidade social das pessoas está do mundo do entretenimento, maior será a tendência a se alienar. Quanto mais dificuldade ela vê para sair da vida dela para uma coisa melhor falo de progresso na realidade concreta dela, uma vida mais digna materialmente, socialmente, mais ela tem a tendência a se apegar à fantasia da realidade para encontrar sentido para a vida. Muita miséria, ao contrário do que a gente pensa, gera anomia, banditismo ou impotência e não revolta política organizada. (… vale ler tudo)
 

April 8, 2011

Blogar é perigoso


Quem acessa o conteúdo do blog paranaense de Esmael Morais, sabe que o blog se posiciona contra as políticas do governador Beto Richa (PSDB), do Paraná.

Semelhante a vários outros veículos (inclusive este), o blog do Esmael não concorda com diversos posicionamentos de Richa. Mas não se trata apenas de discordar. Morais se posiciona, tenta argumentar, mistura jornalismo e "blogagem" vinculando tanto liames quanto argumentos a respeito de suas discordâncias.

Advogados de Beto Richa já censuraram judicialmente o blog de Esmael. A última vez foi durante as eleições. Mas agora, além de intervir judicialmente no Brasil, eles também acionaram o próprio host (site de hospedagem) de Morais, o Just Host (situado nos EUA). O argumento no Just Host foi o de que Morais faz uma "campanha de ódio" contra Richa.

O caso evoca outro mais antigo, de José Sarney contra Alcinea Cavalcante. Alcinea lançou em seu blog (do Amapá) uma campanha intitulada "Xô Sarney!". Recebeu diversos processos. Retiraram o blog do ar.  Contrariamente às expectativas de Sarney, o atentado à liberdade de expressão repercutiu muito, inclusive internacionalmente (e com prêmios de jornalismo pela coragem de Alcinea).

Embora sob outros conteúdos e temas, parece ocorrer no blog do Esmael algo não muito distante: políticos regionais censuram blogs com pauta local e contrária a seus interesses. 

Basta imaginar Lula censurando Diogo Naimardi por seu livro "Lula é minha anta" supor alguma "campanha de ódio". Ou o "apedeuta" censurando o blog de Reivaldo Azemedo pelos anos de tratamento "cordial". Quais seriam os efeitos?

Com a diferença de que Morais não utiliza nem grunhidos, nem palavras de baixo calão. E outra: se as críticas recebem resposta dessa forma, é curiosa a própria forma de resposta. Como governador do Paraná, Richa poderia responder Morais em outro plano, por exemplo no debate de idéias e no esclarecimento público.

April 5, 2011

Um ano de assassinato colateral



O vídeo acima foi divulgado pelo WikiLeaks há exatamente um ano (cobertura completa aqui). Trata-se do assassinato "colateral" de jornalistas (dentre outros imputados então como "insurgentes", crianças por exemplo) em 2007, por soldados em um helicóptero Apache.

Bradley Manning, soldado responsabilizado pela divulgação, foi preso e recebe tratamento desumano.

Dentre as vítimas está Namir Noor Eldeen, fotojornalista.

Esse foi um dos primeiros grandes vazamentos divulgados pelo WikiLeaks.

April 4, 2011

Wikileaks, Brasil, Imprensa e liberdade religiosa


 É espantoso o teor do documento vazado (extrato abaixo) sobre as relações entre a embaixada norte-americana e parte da imprensa brasileira. Objetivo: cultivar uma linha de não recriminação contra "difamação de religião", especialmente contra muçulmanos. E vale realçar: a fonte do documento é a embaixada dos EUA.
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