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August 30, 2010

Os “direitos” de cópia invadindo a ciência


A depender de muitos organismos dominantes da internet, dentro de alguns anos deveríamos dar adeus às tradicionais imagens do pesquisador: aquele homem bondoso, trabalhador de laboratório ou enterrado em bibliotecas, contribuindo para o conhecimento humano.

Tais organismos, como o Jstor e o Springerlink, ganham dinheiro cobrando do usuário o acesso de artigos científicos. Aquela imagem do pesquisador bonzinho deveria, assim, ceder lugar a alguma outra (talvez aquela do executivo de sucesso que representa mais o primado do interesse bem pago e menos o do conhecimento altruísta)

Imagine o leitor precisando acessar 10 artigos para uma pesquisa. Os preços variam: 20, 30, 35 dólares… cada um! Gasto idiota (=submetido a interesses particulares) tanto para o bolso pessoal quanto para o emprego de verbas públicas, visto que tudo deveria ser indiscutivelmente gratuito.

Isso gera um efeito muito curioso, semelhante ao de algumas empresas burocráticas que trocaram a máquina de escrever pelo computador apenas para "dificultar" o trabalho de configurar a impressora e buscar o papel. No caso de empresas como o Springerlink, requisitar um pequeno artigo de poucas páginas implica vários e vários formulários com tempo de resposta de 10 dias úteis, contratos de cláusulas gigantescas e ameaçadoras (se pelo menos protegessem o autor…), links minimalistas e labirínticos, sem considerar o preço.

Nesse sentido, não foi por acaso a ação impetrada contra Horacio Potel. Curiosamente, multiplicadores do livre conhecimento começam, depois de 15 anos de abertura da WEB, a se tornar perigosos na visão dessa gente.

Tempos atrás apareceu um debate sobre autores que recusam conceder direitos de cópia a esses sites pagos. Se eles cobram, deveriam pagar ao autor, não é mesmo?

Não é à toa também o debate sobre o Google conceder privilégios a um único meio, o Verizon. Ou mesmo o medo de bibliotecas como a BNF diante da soberania - e fechamento - de boa parte dos conteúdos do Google Books

Por isso trabalhos semelhantes ao de Potel nunca foram tão necessários. ;)

August 1, 2010

Liberdade de expressão e democracias contemporâneas (WikiLeaks novamente)


Um dos principais preceitos das democracias contemporâneas é o da "liberdade de expressão". Recorre-se frequentemente ao exemplo das ditaduras para afirmar tal princípio: na China ou em outros lugares a internet é vigiada, não se pode dizer tudo sobre qualquer coisa, há risco de perder direitos quando se diz isso ou aquilo, e assim por diante.
 
Diz-se, em alto e bom tom, que numa sociedade democrática um indivíduo não é preso por seus dizeres (fora certos quadros jurídicos como a calúnia, etc.).
 
Nesse sentido é notável o caso de Julian Assange, fundador da Wikileaks. Pelo que se vê nos noticiários, o último furo desse site (a divulgação de 75000 documentos confidenciais) foi um soco em cheio no estômago de boa parte da política norte-americana relativa às guerras do Iraque e do Afeganistão.
 
Entre a paranóia e a realidade, a história de Assange (esse artigo é muito interessante) envolve retiros, fugas, ameaças, cuja linha de "realidade" é difícil de se interpretar. Nem tão difícil, entretanto, considerando a possibilidade de detenção também de seus colaboradores. Um foi de fato detido nos EUA, sob procedimento institucional, diga-se, "peculiar":
(…) Appelbaum, a U.S. citizen, was taken into a room, frisked and his bag was searched. Receipts from his bag were photocopied and his laptop was inspected but it’s not clear in what manner, the sources said. Officials from the Immigration and Customs Enforcement and the U.S. Army then told him he was not under arrest but was being detained, the sources said. They asked questions about Wikileaks, asked for his opinions about the wars in Iraq and Afghanistan and asked where Wikileaks founder Julian Assange is, but he declined to comment without a lawyer present, according to the sources. He was not permitted to make a phone call, they said.

After about three hours, Appelbaum was given his laptop back but the agents kept his three mobile phones, sources said.(…)

Mais à frente Appelbaum menciona a necessidade de empreender certa "desobediência civil", para trazer à tona desmandos permanecidos ocultos à discussão comum. Pelo que se vê nas entrelinhas, tal tarefa não seria considerada até mesmo perigosa?
 
Casos como esse abalam certas crenças sobre a liberdade de expressão. Mais ou menos como na passagem abaixo. Nela, um filósofo comentava o caso de Toni Negri (livros), pensador italiano preso pelo teor das próprias palavras (e ao mesmo tempo, comentava sobre o valor relativo delas nas democracias):
Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando "criticam" alguém, quando "denunciam" as suas idéias, quando "condenam" o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: "demolir", "abater", "reduzir ao silêncio", "sepultar". E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico. É verdade, não vivemos em uma região em que os intelectuais são mandados ao diabo; mas, na realidade, diga-me, por acaso ouviu falar de um certo Toni Negri? Por acaso não está na prisão exatamente enquanto intelectual?
 

July 19, 2010

A internet e o debate


O Rodrigo Cassio vinculou interessante material do prof. Vladimir Safatle (livros) sobre comunicação, internet e voz pública. O material foi publicado em livro de Venicio de Lima, intitulado A Mídia nas Eleições de 2006 (livrarias). Segundo o informe, para Safatle a internet não mudou o âmbito, o alcance e o teor das discussões públicas na internet. No melhor dos casos, ela oferece uma tradução, uma transposição, uma passagem direta entre a "realidade" e a "virtualidade", as relações cotidianas e o hipertexto, não oferecendo portanto possibilidade de emancipação ou transformações sociais.
 
A idéia é interessante, e como o Cassio também o disse, é também um pouco previsível. As pessoas começam a se organizar na internet como se organizavam fora dela; portanto, não há novidade na Rede, pois ao invés dela ser um instrumento para mudar as relações "reais", ela não passa de um instrumento de repetição da "realidade".
 
E de fato, Safatle tem razão quando vemos as mais diversas discussões: sobre o aborto, as palmadas nas crianças, os diferentes regimes políticos mundo afora e afins, tem-se variações sobre um mesmo modo de discutir, que consiste em posições fragmentadas, incomunicáveis e dogmáticas. Como se diz em linguagem popular, em muitos desses casos ninguém "arreda o pé". O argumento consiste no número de argumentadores, no barulho, e não na constituição de um espaço comum de discussão entre os adversários (espaço a partir do qual existe convencimento, mudança de posições, etc.). É o famoso "fla-flu":
A internet está mais para grande espaço fragmentado de posições, onde cada território está ocupado por opiniões muito bem definidas e que não entram em contato com ideias diferentes. Manifestações dissonantes são reprimidas ou ignoradas.
De todo modo, nem tudo é assim. Se as relações "monetizantes" (para empregar um outro chavão de alguns anos atrás) invadiram a internet, isto é, se esta se torna a cada dia uma extensão das relações cotidianas e seus interesses, ainda há espaço de composição de lugares comuns, redes de interlocução não-hierarquizadas e afins.
 
Dez anos atrás, alguns debates falavam sobre levar as possibilidades "hipertextuais" para as relações cotidianas. Elogiava-se, por exemplo, a possibilidade de acessar material sem pagar (liberação de restrições de acesso por orçamento), de conhecer pessoas interessantes e inusitadas (de um modo impensável até então), de manter interlocução com grandes figuras (sem as velhas práticas de medalhões, peixes e afins), e assim por diante. Sedução pela idéia, e não simplesmente por relações mediadas ou garantidas por alguma posição privilegiada ou autoridade.
 
Dentre essas idéias está a tentativa de conquistar um espaço comum, não mediado por posições consolidadas no cotidiano. Essa possibilidade continua aberta (é sempre aberta a cada problema, a cada discussão), pois a constituição de um espaço comum independe de número, população ou barulho (ou grunhido, como dizia Saramago).

July 17, 2010

Indio - Hard Sun (Big Harvest)


 

Muita gente gostou da trilha sonora de Na Natureza Selvagem, gravada por Eddie Vedder. Dentre as músicas, "Hard Sun" é uma das mais apreciadas.

O que não se sabe muito é a origem dessa música. Um cantor canadense chamado Gordon Peterson - ou "Indio" -, gravou a versão original em 1989 (disponível no youtube), em um álbum intitulado Big Harvest.

Peterson inclusive processou Vedder por alterar a letra da música, comprometendo a integridade da versão original.

De todo modo, depois de 20 anos, diz-se por aí que Big Harvest - o único disco de Indio - ainda é cultuado por bastante gente. Para conferir o disco,  basta visitar o Music you need to hear ou o link rapidshare.

June 22, 2010

Devires - A virtualidade mutante


As discussões de Passenger e Vera fazem falta (ou melhor, excesso).

Devires - a virtualidade mutante… Atrair, repelir, incitar, rechaçar, suscitar, recusar, resistir, provocar, desejar… Forças soltas, livres, selvagens - a música silenciosa que faz dançar. O amor pelo desconhecido, que une Passenger e Vera, não é o amor dela por ele, um desconhecido, nem o amor dele por ela, uma desconhecida. É o amor, a paixão pelo aberto disso que eles fabricam - o que estão vivendo e escrevendo - e que os está dobrando, duplicando, avessando. Esse devir outro, essa singularização os joga no centro de uma virtualidade mutante - eles não sabem para onde estão indo e onde/se chegarão. E não se preocupam. Vale, para eles, a viagem, o processo de ir. Tudo arriscam pela vertigem, pela fúria de experimentar, pela vontade de saber. Destroçar, morrer? Que importa isso? O que um dia importou isso, se há esse vazio denso à frente para ser penetrado, maior que o medo da morte? Se há essa outra força de produzir-se que ultrapassa o "eu", e que não é amorosa, ou política, ou estética, ou ética, mas que é tudo isso ao mesmo tempo agora?

Lúcidos e embriagados de si mesmos, eles sabem: se não quiserem ser capturados, congelados pelo tempo, presos em passados que convivem uns dentro dos outros como camadas, Passenger (o guerrilheiro) e Vera (a terrorista) terão de se jogar no futuro, inventando-o.

É Passenger quem diz:

- Vera e Passenger sofrem e compõem uma grande historia deste nosso tempo de zeros e uns, uma historia que não poderia ter sido escrita antes, uma historia nova. Não importa quantos leiam e entendam, é uma historia nova. Sofrimento e dor online. Lida por muitos, entendida por raros.

"Devires" é esta história.

June 16, 2010

A era da confissão


Nos blogs, no twitter, na TV, a confissão está em todo lugar. Ou ela é voluntária, ou fabricada e constrangida: não importa se vinda do próprio autor ou do paparazzi, ela figura como moeda de troca, imperativo, fruto do interesse de bilhões - transparência pública, transparência privada.
 
Quinze anos atrás a internet, ou pelo menos alguns debates nela presentes, despontavam sob o imperativo do anonimato, não da confissão. Segundo esses debates, o hipertexto e suas possibilidades rizomáticas oferece a ocasião de trazer para a "vida real" relações "virtuais", hipertextuais (e mesmo oferece também a necessidade de desqualificar essa divisão entre real e virtual): ter voz ativa, liberdade de denúncia ou a possibilidade de conhecer outras pessoas sem considerar aspectos hierárquicos ou autorais, estas eram as vantagens discutidas do anonimato (daí a beleza de sites como O Baile de Máscaras, hoje extinto: por trás das "máscaras" virtuais, a possibilidade de desenvolver relações autênticas com outras pessoas - a sedução pelo afeto e pela idéia, e não simplesmente por seu autor). Se o anonimato era transgressivo, de modo algum ele se reduzia à regência e ao princípio de conteúdos simplesmente passionais.
 
Curiosamente, enquanto a "vida real" transforma (ou tenta transformar) gradativamente o hipertexto em apenas texto (não importantando se esse texto emula caracteres hipertextuais), enquanto qualquer indivíduo é constrangido a se encerrar no que pode dizer, mas sobretudo no que deve, sites como o Cheat Confession aparecem.
 
O site é um redobramento do texto virtual sobre si mesmo (e portanto não é um hipertexto): se toda manifestação só pode ser autoral e portanto de maior ou menor modo confessional, criemos um espaço para  unir a confissão e o anonimato, sem deixar o primado da individualidade autoral e passional de lado. Se a função do anonimato era o encontro, no Cheat Confession é a separação mediada pelo aprazimento privado. Trata-se do mero gozo de contar aos outros a ofensa cometida a outrem, sem colher daí consequências negativas. Se antes o anonimato envolvia apelo à figura de um outro e o cultivo de verdadeiras relações, agora o apelo é à satisfação privada, portanto um não-apelo: outros gozarão lendo milhões de confissões secretas, ironicamente tão secretas quanto multiplicadas aos milhões.
 
O site Cheat Confession nem é interessante. Interessante é a tendência mostrada por ele: imperativo de uma confissão generalizada, redução das falas ao papel visível de um locutor (mesmo o anonimato é relativo), redução das relações sociais ao âmbito privado, codificação, controle e "monetização" de todo tipo de acesso à Rede. Como se até o anonimato, agora idiotizado, encontrasse um espaço de expressão, mediado por moderadores e regras de um FAQ.
 
Curiosa tendência, bem como as discussões ainda vivas sobre as possíveis saídas.

March 16, 2010

Nos ombros de gigantes


Um grupo informal de weblogs acadêmicos gringos criou uma "liga" muito interessante: semelhante aos "memes", é um "blog carnival" intitulado "The Giant´s Shoulders".
 
Trata-se simplesmente de reunir blogues de interesse científico e filosófico com postagens de divulgação sobre história da ciência. Cada edição é hospedada em um dos blogues participantes, que divulga todas as outras contribuições (participamos das edições 1 e 2).
 
A edição 21 está no forno. E o blog-fonte faz o convite para novos anfitriões. Não seria interessante 1) criarmos algo semelhante na blogosfera tupiniquim e 2) hospedarmos novas edições do Giant Shoulders em blogues brasileiros?
 
A blogosfera tupiniquim já criou outra iniciativa correlata, com o ScienceBlogsBrasil.

March 2, 2010

Blogueira é processada por denunciar plágios


Como alguns já sabem, a editora Landmark acionou processo judicial contra a blogueira Denise Bottman, do Não Gosto de Plágio. Para quem não sabe, é importante ter ciência do caso (nascido aqui) e passar adiante, assinando também o manifesto de apoio a Bottman.

O blog de Bottman é uma importante ferramenta contra abusos do mercado editorial. Já denunciou coisas incríveis porém bem reais, como por exemplo traduções de Machado de Assis para o português (!).

No caso da Landmark, o próprio diretor da empresa angariou para si mesmo o título de tradutor e, de quebra, também de co-autor (sic) de um livro de Jane Austen (!). A tradução em questão repete em detalhes os mesmos erros ou problemas de outra tradução já publicada em 1996.

January 8, 2010

Duas passagens sobre o Hipertexto


A primeira, do Rodrigo Cassio, põe muito bem o problema das relações entre autonomia e WEB:

 Questionar o capitalismo tardio adotando as próprias estratégias de sociabilidade pelas quais ele se absolutiza em nossa experiência é algo que precisa ser posto em xeque, o tempo todo.

A segunda, do Hermenauta, faz isso igualmente (ver o vídeo!):

O ser humano em questão colocou seu “momento de fraqueza” no YouTube, para ser visto pelo público mais amplo possível. Além disso ela é maior de idade.

Mas eu até concordo contigo que tirar um sarro da menina apenas pelo fun of it é pouco sábio. O que me incomoda, no fundo, é a incrível falta de profundidade de pessoas que teoricamente teriam tudo para não ser assim. E isso não é apenas tiração de sarro, é um convite a uma meditação sobre que tipo de sociedade estamos criando, quando a própria menina que nos diz que quer dar a volta por cima transforma seu pretenso momento de iluminação em apenas mais um produto para consumo audiovisual. Nesse buraco negro, as telinhas se transformam em um horizonte de eventos do qual nem a maior das boas intenções consegue escapar.

December 14, 2009

Parabéns a Potel!


O César Schirmer acabou de vincular a notícia: a justiça argentina decidiu a favor de Horácio Potel, pela manutenção de seus sites sobre Derrida e Heidegger!

Detalhes sobre o processo no site de Potel e textos sobre o assunto no Catatau:

Parabéns a Potel!

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