Adiante, o espetáculo universal: um carteiro tenta inserir uma encomenda na caixa postal de uma casa; em contrapartida um cão, aos saltos, tenta sistematicamente alcançar e arrancar um pedaço da mão do carteiro. Enquanto pula, late.
É exagero dizer que um cão pula "sistematicamente". Trata-se de um desses cães simpáticos, peludos, feitos para passear e suprir a solidão de alguém contra tanta gente desinteressante ou indigna ao redor. Quanto ao carteiro, após ele conseguir inserir a carta, percebeu que eu o observava. Olhou em minha direção com um misto de surpresa, revolta e indignação, como se dando conta da situação non sense, do observador inesperado e das condições de trabalho inusitadas.
"What do you expect?" the gardener asked me near the ruins of the old royal winter palace in Jalalabad. "The Taliban came from the refugee camps. They are giving us only what they had." And it dawned on me then that the new laws of Afghanistan - so anachronistic and brutal to us, and to educated Afghans - were less an attempt at religious revival than a continuation of life in the vast dirt camps in which so many millions of Afghans had gathered on the borders of their country when the Soviets invaded 16 years before.
Variações que remontam a… 2500 anos? Durante o governo Bush, um assessor de alto escalão disse a um jornalista do NYT:
O mundo não funciona mais assim. Somos um império agora, e quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto vocês estudam essa realidade - judiciosamente, como queiram -, agimos novamente, criando outras novas realidades, que vocês podem estudar também, e aí está como as coisas serão. Somos os atores da história… e vocês, todos vocês, apenas ficarão estudando o que nós fazemos.
Já as versões tupiniquins sempre têm seu coeficiente próprio de arretância. Essa de Nelson Jobim - ainda fresquinha - superou todas as expectativas. Segundo ele, o Código Florestal não precisa tratar do futuro,
Quando assiste Ágora, filme de Alejandro Amenabar (2009, download do filme ou comprar DVD), por vezes o espectador é lançado, junto com as imagens, para o espaço. As tomadas, situadas nos dramas dos homens, de repente se afastam rapidamente da terra, mostrando então uma Alexandria cada vez mais pequenina (a despeito de sua grandeza histórica), até sumir do olhar. Junto com as imagens, os sons (o tumulto, o burburinho das intrigas), também gradativamente silenciam enquanto a "câmera" se afasta, deixando o espectador à mercê de um planeta mudo e desolador.
Depois do golpe de 1973 não pude levar muita coisa comigo: algumas roupas, fotos da família, um saquinho com barro do meu jardim e dois livros: uma velha edição de Odes, de Pablo Neruda, e o livro de capa amarela, As Veias Abertas da América Latina (Isabel Allende)
a seca de 2010 na Amazônia foi a mais drástica já registrada desde 1902, superando a de 2005, que até então era considerada a maior do século
e
pesquisadores do Inpe apresentaram os resultados de um amplo estudo sobre as inundações na Amazônia e Nordeste do Brasil, ocorridas no período de maio a julho de 2009. O fenômeno provocou mortes e deixou milhares de famílias desabrigadas. O trabalho demonstra que essas chuvas torrenciais foram as mais intensas e duradouras já registradas.
Um jovem feirante com sonhos e sem condições de vida perde os direitos, já mínimos, de vender sua feira. Sufocado e sem um mínimo de possível, toca fogo em si mesmo e desperta uma revolta geral na Tunísia. Curiosamente, revoltas múltiplas, espontâneas e descentradas se alastram também em outros países, Arábia Saudita, Egito, Líbia, Síria… e chegam na Europa via Espanha, com algumas manifestações na França e a explosão inglesa (teria ela na AL "chegado" ao Chile?).
No outro extremo dos acontecimentos, durante a semana passada o Sr. do vídeo acima explicita: algo estranho ocorre na terra da Rainha quando, dentre outras coisas, negros perdem a conta de quantas vezes foram revistados pela polícia simplesmente por serem negros, quando jovens quase sem perspectiva perdem ajuda social massiva ou quando, para salvar determinadas dinâmicas financeiras, passa-se todo o preço das perdas aos menos beneficiados por elas.
Num extremo o jovem, técnico em informática, impedido de desenvolver aspirações mínimas, ateia fogo em si mesmo quando o desamparo faz ver essas aspirações esvaziadas; no outro extremo a jornalista criminaliza um idoso que comenta sobre o cenário de marginalização do próprio neto e assume que revoltas são legítimas diante de arbitrariedades e injustiças.
Diante de tudo, ficam as perguntas do segundo vídeo: e o brasileiro, por que não se revolta? Ele também "leva geral" e sofre desmandos dos policiais, ele também é sistematicamente afastado de suas potencialidades, sofrendo também cotidianamente boa dose de arbitrariedades e injustiças. Nesse sentido, o que coloca em primeiro plano depoimentos como o da Prof. Amanda Gurgel no "Programa do Faustão", mas abafa manifestações como as dos bombeiros do Rio de Janeiro? O que nos faz ver com atenção reportagens como as do Jornal Nacional voltadas a certa tecnocracia duvidosa da educação e ao mesmo tempo ignorar governos como o de MG, que ameaçam contratar professores substitutos contra o direito de professores em regime de penúria estarem em greve?
O que sustenta nossa anestesia existencial diante de injustiças cotidianas, fazendo-nos assistir sem muito compromisso notícias como a morte anunciada da juíza de São Gonçalo? E por outro lado, que tipo de dispositivo converte imediatamente o descaso generalizado em um linchamento jurídico e coletivo implacável contra malfeitores, como no caso do parque de diversões não inspecionado do RJ? Finalmente, o que nos faz ver especialistas "analisando" situações como as da Inglaterra ou da Espanha, sem olharmos com a mesma seriedade e perspectiva de ação para as nossas próprias mazelas?
A revista Forum postou um artigo sobre um curioso caso: depois dos atentados na Noruega durante esta semana, houve uma profusão de informações não confirmadas de que os responsáveis seriam "muçulmanos" ou "islâmicos" (sic). As falas em diversos veículos foram muito claras: não se tratavam de "radicais terroristas" ou "extremistas" - sejam quais forem -, mas "muçulmanos".
A despeito dessas informações não serem confirmadas, elas proliferaram em função de um único fator: a divulgação por um chamado "especialista em terrorismo".