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July 19, 2011

Religioso, laico, tênue limite


Durante a semana passada vários soldados franceses foram mortos no Afeganistão, em plenas comemorações do 14 de julho.

Hoje o país homenageou os soldados mortos em um momento "emocionante" (sic). Durante a missa, foi muito interessante acompanhar a fala do celebrante. Ele não separava o fato da oração aos mortos se ligar à "pátria", à própria França. Na ponta da língua do padre estava, fundido com o discurso religioso, o discurso nacionalista.

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July 9, 2011

Ateísmo e ateísmo


Durante essa semana Porto Alegre foi a primeira capital brasileira a exibir outdoors "ateus".
 
Pelo visto, o "ateísmo" (ou mais rigorosamente: certo ateísmo) parece se definir pela crença, baseada às vezes em foro íntimo e por outras vezes em algum primado científico (ou nos dois), da não existência de Deus.
 
Se historicamente o ateísmo parece ter recebido em nossa cultura caráter vazio ou negativo (pois se avizinhou de valorações como as do absurdo, o erro do juízo, o vazio do não-ser,  a blasfêmia ou a manifestação de alguma entidade maligna), hoje aparentemente essa noção impõe para si mesma um estatuto positivo e uma curiosa consistência (às vezes até mesmo próxima das apologéticas de alguns sectos cristãos).
 
O ateísmo se encontra em nossa cultura entre duas outras questões maiores: em primeiro lugar, advogamos para nós mesmos uma sociedade "pluralista", na qual qualquer crença pode ser adotada e todas elas devem ser respeitadas (sob o limite da liberdade alheia, e aqui o ateísmo conforme a definição acima dá as mãos com a noção de uma sociedade plural). 
 
Mas em segundo lugar, o ateísmo coloca (ou deveria colocar, coisa que não se faz muito) o problema mesmo de nossa própria cultura. Na linha de Nietzsche, muitos enunciaram (por exemplo, desse modo) o problema de um ateísmo não reduzido a mera crença privada.
 
Nesse contexto, o modo de Fernando Pessoa abordar o problema na figura de Bernardo Soares é tão bem feito quanto bonito (vale dizer: e um tanto esquecido no meio de tanta certeza). Por exemplo:
Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados sé da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
 
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas.
 
Nós perdemos essa, e às outras também.
 
Ficámos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objecto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontrámo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.
 
Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma ideia do futuro, também não temos uma ideia de hoje, porque o hoje, para o homem de acção, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta connosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta.

Uns de nós estagnaram na conquista alvar do quotidiano, reles e baixos buscando o pão de cada dia, e querendo obtê-lo sem o trabalho sentido, sem a consciência do esforço, sem a nobreza do conseguimento.

Outros, de melhor estirpe, abstivemo-nos da coisa pública, nada querendo e nada desejando, e tentando levar até ao calvário do esquecimento a cruz de simplesmente existirmos. Impossível esforço, em que[m] não tem, como o portador da Cruz, uma origem divina na consciência.

Outros entregaram-se, atarefados por fora da alma, ao culto da confusão e do ruído, julgando viver quando se ouviam, crendo amar quando chocavam contra as exterioridades do amor. Viver doía-nos, porque sabíamos que estávamos vivos; morrer não nos aterrava porque tínhamos perdido a noção normal da morte.

Mas outros, Raça do Fim, limite espiritual da Hora Morta, nem tiveram a coragem da negação e do asilo em si próprios. O que viveram foi em negação, em descontentamento e em desconsolo. Mas vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no género de vida, entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir.

July 8, 2011

No pouco que lia



(…) Mas no pouco que lia, tantas teorias me cansava de ver, contraditórias, igualmente assentes em razões desenvolvidas, todas elas igualmente prováveis e de acordo com uma certa escolha de factos que tinha sempre o ar de ser os fatos todos (…)

Livro do Desassossego, 251

June 20, 2011

Penso, logo


Surpreendente passeata. Muita gente na Revolução (no caso, a da Espanha)

June 7, 2011

Bicicletas, carros e pedestres: o limite é 30 Km/h



Do Malvados

Não custa imaginar: um dia a prefeitura da cidade reduz os limites de velocidade do centro para 30 Km/h, com a finalidade de estimular a caminhada e o uso da bicicleta.

Utopia, não?

Em Cherbourg, cidade situada no interior da França, não. Desde ontem vale a regra: em algumas regiões da cidade, os limites de velocidade foram reduzidos para 30 Km/h. Outros lugares da cidade continuarão com os fast and furious 50 Km/h habituais.

Tudo com o propósito deliberado de favorecer o pedestre, apaziguar o trânsito e socializar (sic).

Em outros lugares, já se chegou bem próximo do oposto: logo o pedestre precisará protocolar um pedido para solicitar a travessia da rua. Algo semelhante ao "mercado" do ciclismo, totalmente voltado à necessidade do consumidor… não contrariar as fábricas.

June 1, 2011

A revolta sem limites


 

Esse sou eu. Nesse momento eu estava realmente furioso, cheio de raiva. Eu fiquei muito impressionado com a maneira que eu saí daquela situação. Isso realmente me impressionou mais. Realmente eu pensava que tinha que falar sobre os meus valores, sobre os quais eu sempre tive a capacidade de não perder. Eu não falava em ‘esperança’ porque realmente não sei o que isso significa, mas sim de nunca perder a inteligência de tentar entender tudo apesar de todas as contradições. Veja a maneira como me trataram. Foi realmente… Em face de tudo isso, acusaram-me de deslealdade e traição. Eu saí daquilo por mim mesmo, com dignidade.  

As palavras acima (adaptadas) iniciam o documentário "A Eterna Revolta", sobre o militante italiano Antonio Negri.

Surpreende como essas palavras coincidem com um outro comentário de Negri a respeito de seu livro sobre Jó, escrito enquanto estava na prisão: em Jó, ele "buscava na análise do sofrimento uma chave para resistir". Diante de injustiças irrefreáveis, o uso da inteligência, a  constituição de um regime de persistência contra as adversidades. O interesse por Jó não era à toa…

Algum tempo atrás, Hugo Albuquerque postou o documentário, acrescentando alguns comentários. E Murilo Correia agora postou o documentário completo para download, com legenda em português (compilada por um de seus alunos). Bela contribuição sobre um belo trabalho.

May 23, 2011

Homens e Deuses


 
 
 Com muita curiosidade assisti, a partir da crítica de Bruno Cava, Des Hommes et des Dieux, filme aplaudido em Cannes no ano passado.

Em sua crítica, Cava chamou a atenção a um elemento: "são humanistas", comentava ele sobre o filme.

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May 19, 2011

África em dois cliques


 
 

May 10, 2011

“Na ordem americana, o princípio da universalidade da lei foi substituído pela exigência de respeito à moral particularista, idiossincrática e assimétrica”


Belo artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo, totalmente afim a diversos textos já publicados por aqui, e também ao quadrinho de Laerte recém publicado. Trecho:

Na ordem americana, o princípio da universalidade da lei foi substituído pela exigência de respeito à moral particularista, idiossincrática e assimétrica. O direito, dizia Hegel, enquanto existência da liberdade, é uma determinação essencial na refrega contra a “boa intenção” moral. “O desenvolvimento da sociedade moderna exige a formalidade jurídica e os protestos contra esse desenvolvimento são… reminiscências do ‘estado bruto de natureza’ que revelam um apego doentio à própria particula-ridade, narcisisticamente desfrutada como moral.”

***

No mesmo contexto do artigo, ontem o programa "Milênio" (da Globo News) entrevistou Robert Fisk. O entrevistador (Mounir Safatli) leu o início de A Grande Guerra pela Civilização (onde estão contidas as três entrevistas com Bin Laden) e tentou explorar a memória de Fisk sobre acontecimentos já escritos no livro.

 Mas há algo mais, gritando nos últimos textos de Fisk, que poderia ser muito melhor aproveitado: o fato da Al Qaeda perder boa parte de sua "relevância" política depois das manifestações espontâneas e absolutamente legítimas do mundo islâmico (especialmente no Egito e na Tunísia) desde o fim do ano passado. Tais manifestações parecem o oposto e o simétrico do "ensinamento" que os EUA ofereceram com a execução de Bin Laden.

May 6, 2011

Stanley Kubrick, fotojornalista






 
Bela exposição de fotos tiradas durante a juventude de Kubrick, quando ele fazia trabalhos de fotojornalismo.
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