October 30, 2009

A era “pós-teórica”

Na era da informação, muitos asseguram que as "teorias" se "dissolvem".

Ontem Fabiano Angelico, do Transparencia Brasil, vinculou um interessante texto sobre como nossa época se definiria pelo abandono das "teorias" em nome de um caráter imediato e imperativo da "prática" (como se isso não fosse uma baita teoria), dado vivermos na era da informação e a teoria ser um índice de ausência de informação:

In the absence of data, you theorise. In an abundance, you just need to do the maths. And, because of all those super-efficient search engines, we share more and more data. Data dissolves ideology.

Two further books exemplify this: David MacKay’s Sustainable Energy—Without the Hot Air and Stewart Brand’s Whole Earth Discipline are rigorous responses to the challenge of climate change. Both work from data rather than theory, and offer systems of management rather than ideologies. Both are number-rich and theory-light, and urge action—now. In MacKay’s words: “We have to stop saying ‘No’ and start saying ‘Yes’.” In Brand’s: “We are as gods and have to get good at it.” [Brian Eno, The Post-Theoretical Age]

Esqueçamos a denúncia das ideologias, as tentativas de diagnóstico, as abstrações. A informação está toda ela aí, não há ocultação ou privilégio, e sim excesso. Por isso ela "dissolve a ideologia". A tarefa, portanto,  não é mais "teórica" ou "ideológica", não é mais uma tentativa de olhar através dos acontecimentos para tentar decifrar sua trama, mas sim organizá-los segundo suas regularidades. Não há mais "opacidade" e um olhar tentando transpassá-la, não há mais necessidade disso; agora, tudo seria "transparente". Não perguntemos mais como a vida deve ser ou não vivida, basta geri-la.

Isso é interessantíssimo. Pois, dentro de tantas modas de inserir a pequena palavrinha "pós" antes de quase tudo, talvez Eno encontrou uma palavra finalmente apropriada: era "pós-teórica". 

Da linguagem corporativa ao marketing e às relações cotidianas, enfim até no ensino, tudo repete o imperativo: Just do it. Just Go. Nem os movimentos "teóricos" do século XX, denunciando uma crescente tecnização do homem, foram suficientes para conter o tal imperativo (que o leitor desculpe nosso pequeno deslize teorizante nesta frase, prometemos que foi somente essa!).

Imperativo tornado tão evidente, tão óbvio, que olha ele expresso por um grande player em pleno governo George W Bush, diagnosticando - ops, quer dizer, prescrevendo - toda a nossa época, em um clássico artigo publicado no NYT em 2004:

The aide said that guys like me were "in what we call the reality-based community," which he defined as people who "believe that solutions emerge from your judicious study of discernible reality." … "That’s not the way the world really works anymore," he continued. "We’re an empire now, and when we act, we create our own reality. And while you’re studying that reality—judiciously, as you will—we’ll act again, creating other new realities, which you can study too, and that’s how things will sort out. We’re history’s actors…and you, all of you, will be left to just study what we do."

"O mundo não funciona mais assim. Somos um império agora, e quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto vocês estudam essa realidade - judiciosamente, como queiram -, agimos novamente, criando outras novas realidades, que vocês podem estudar também, e aí está como as coisas serão. Somos os atores da história… e vocês, todos vocês, apenas ficarão estudando o que nós fazemos".

October 28, 2009

O Fim do Geocities (1994-2009)

O serviço de hospedagem gratuita de sites do Yahoo, chamado Geocities, foi apagado ontem, dia 26/10/2009.
 
O que parece uma notícia banal é, na verdade, um marco na história da internet. Criado em 1994, o GeoCities foi a primeira plataforma realmente "popular" de divusão de conteúdo, bem antes dos blogues.
 
Antes do nascimento de ferramentas como o Google, o Geocities organizava seus conteúdos em "cidades", com longos endereços temáticos, divididos em sub-temas e aí no número de cada site (ex.: http://www.geocities.com/TheTropics/Cabana/8434/superind.html - antigo endereço do fabuloso quadrinho "Supermanietzsche")
 
Primeiramente autônomo, o endereço foi incorporado ao Yahoo!. Mas a incorporação não trouxe ampliações ao serviço, praticamente inalterado enquanto evoluia o resto da Rede. O Geocities permaneceu com os mesmos recursos dos anos 90 enquanto surgiam os blogues, as plataformas dinâmicas, as comunidades virtuais e os endereços curtos.
 
Perdeu usuários. E mesmo as pequenas alterações (primeiramente o endereço encurtado para o nome de usuário; depois um frame de publicidade no lado direito da tela, e uma plataforma limitada de blogs) não acompanharam a Rede.
 
O Geocities é importante porque nessa plataforma vimos pela primeira vez um fenômeno relativamente corriqueiro hoje em dia: pessoas comuns despontando como difusoras de informação e do que a informação pode ocasionar. Indivíduos comuns com privilégios relativos e temporários diante da "grande mídia".
 
Com uma diferença: a novidade dessa mídia, nos anos 90, conferia a essas pessoas um estatuto estranho, não evidente, dificilmente enquadrável. Não foram poucos os textos de jornal ou revista se reportando a esses tipos de site com certo ar de desconfiança, reprovação ou reserva, ao mesmo tempo em que se admitia haver ali um fato novo e informações efetivas e pertinentes.
 
Tal "estranheza", na época, era de muitos modos festejada. Criou-se literatura em novos formatos, e muito se explorou sobre as possibilidades do hipertexto e suas relações com a "realidade". Essa passagem do hipertexto à realidade - e não da realidade ao hipertexto, preocupação de todo movimento posterior até hoje - trazia importantes questões, sobre possíveis contribuições da Rede para a emancipação das pessoas.
 
Como dizia a autora do informarte.net, abria-se a possibilidade de verdadeiros bailes de máscaras, com tudo o que um "baile de máscaras" significa: um grande encontro aberto, onde os indivíduos deixam mediações autoritárias ou personalizantes de lado para construir algo em comum.
 
No auge do Geocities, despontava esse tipo de questão.

September 15, 2009

Camponeses e Impérios Alimentares

http://img32.imageshack.us/img32/3277/arton3856048f.jpg Divulgamos abaixo o informe de um livro interessante: Camponeses e Impérios Alimentares: lutas por autonomia e sustentabilidade na era da globalização, de Jan Douwe Van der Ploeg (pesquisa de preços e link na Cultura). Trata-se de um estudo feito em três países, industrializados e não industrializados, sobre as relações entre agronegócio e agricultores.

Na verdade, o estudo parece ter consequências maiores, dada sua duração (30 anos!), e o debate contemporâneo sobre transgênicos, agronegócio, combustíveis alternativos, movimentos sociais e soberania alimentar.

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August 9, 2009

Nagasaki e a guerra absoluta

 
Hoje completam 64 anos do lançamento de "Fat Boy" sobre a cidade de Nagasaki. A respeito das bombas, muitos comentaram sobre a ocasião inaugurar novas relações entre os homens, para além de novos modos de fazer guerra. Três citações de Antonio Negri e Michael Hardt sobre o assunto:
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May 7, 2009

Arquivos de Potel, recursos sobre Heidegger, Derrida, e outros

 

http://i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/heidegger002.jpg
 
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March 18, 2009

Música, sensação


Quando ouço uma música que me toca e que estava atrelada a você ou a um lugar, noto que não é a sua pessoa que me atinge com a música e não é o lugar que volta à tona com a canção. A música me faz ter é uma sensação…, uma sensação que passou por você ou que passou pelo lugar, mas que não é nem você, nem o lugar. Não é mais, portanto, uma questão de recordar o passado, mas sentir tudo no agora, neste instante. A música e a sensação têm vida própria. E essa sensação me acompanha em meio a essa canção que me invade. O que ficou, o que é presente, é a sensação que me embrulha os sentidos por meio dessa canção. Por isso a sensação não é você, nem é o lugar. O lugar não está mais lá. Você não mais existe. Não anseio mais repetir você ou o lugar. O que busco é o que encontrei na sensação que emergiu do encontro do lugar, de você e da canção.
Dos devires do Prof. Eduardo Simonini, nessa infinita highway.

February 27, 2009

Deleuze, Guattari, e o exército israelense

http://i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/p1784_weizman.jpg

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September 3, 2008

Henri Laborit

Quando não se pode mais lutar contra o vento e o mar para prosseguir seu caminho, há dois passos que pode ainda tomar um veleiro: a ousadia (a proa seguindo contra e o mastro abaixado) o submete à derivação do vento e do mar, e a fuga diante da tempestade aproveitando as ondas sobre a popa, utilizando um mínimo de vela. A fuga permanece, longe das costas, como a única maneira de salvar a embarcação e a tripulação. Permite também descobrir margens desconhecidas que emergirão ao horizonte das calmas reencontradas. Margens desconhecidas que ignorarão sempre os que tem a possibilidade aparente de poder seguir a rota dos cargueiros e dos petroleiros, o caminho sem imprevistos imposto pelas companias de transporte marítimo.
Henri Laborit (Éloge de la Fuite)

August 3, 2008

Maurizio Lazzarato, para socorrer trabalhadores temporários

Recebi do Desobediente a resenha abaixo, de um novo livro de Maurizio Lazzarato intitulado Intermittents et precaires (sedutora a tradução Intermitentes e Precários).
 
Pelo que parece, o mote do Lazzarato [livrarias] é semelhante ao de Castells [livrarias], quando este mostra que o tipo de acessibilidade do grande contingente populacional ao trabalho e consumo é sempre sazonal: diante de um número mínimo de consumidores (e trabalhadores) permanentes, haveria uma massa de consumidores (e trabalhadores) sazonais. E esse caráter "sazonal" serviria para reforçar a mesma dinâmica de trabalho e consumo: quem está fora quer entrar, e quem está dentro não quer sair. Porém, com o pequeno detalhe: não há lugar para todos.
 
O livro aborda trabalhadores temporários de "arte" e afins. Com base na resenha, à primeira vista esse tipo de dinâmica não se restringe apenas aos "artistas". Um grande número de projetos chamados "sociais" poderiam se enquadrar no mesmo contexto, em um discurso e ato criativo que não são mais discurso por excelência, nem ato criativo por excelência. Apenas afloram enquanto tais por certos jogos de conveniências, exteriores à criação e ao discurso.
 

[fonte] Acaba de ser publicado na França, o livro Intermittents et precaires (temporários e precários), de Antonella Corsani e Maurizio Lazzarato. Ed. Amsterdam, 232 páginas. Segue uma resenha de Clarisse Fabre publicada no jornal francês Le Monde, 11-07-2008. A tradução é do Cepat.

Não se lerá neste livro nem chavões, nem fórmulas para calcular o seguro-desemprego dos artistas e dos técnicos do espetáculo. Também não se trata de uma "retomada" da luta empreendida depois da reforma de junho de 2003, entre manifestações e cancelamento de festivais. Intermittents et precaires (Temporários e precários) apresenta os resultados de uma pesquisa realizada sobre as condições de trabalho de todos esses profissionais do espetáculo que alternam períodos de emprego e de desemprego, ao longo dos projetos de que participam por conta de seus (múltiplos) empregadores.

Os autores fazem uma reflexão prospectiva sobre a noção de trabalho: como vanguarda, o movimento dos intermitentes põe em questão o binário emprego-desemprego e nos convida a reconstruir as bases da proteção social, nos dizem Antonella Corsani, pesquisadora da equipe Matisse do Centro de Economia da Sorbonne e co-fundadora da revista Multitudes, et Maurizio Lazzarato, filósofo.

Do outono de 2004 à primavera de 2005, foi realizada uma pesquisa pela equipe de pesquisadores Isys (integrante do Matisse de Paris-I e do CNRS) a pedido da Coordenação dos temporários e precários e com o apoio da Prefeitura de Île-de-France. À época, a imprensa criticou o método em razão de que os próprios temporários participavam deste estudo ao lado de economistas, sociólogos, estatísticos. Os autores defendem sua "expertise cidadã" que faz cooperar especialistas e outros. Uma metodologia que interroga as relações entre "saber, poder e ação", explicam, como o fizeram Michel Foucault ou ainda Pierre Bourdieu em sua pesquisa sobre A Miséria do Mundo [Vozes, 1997].

Feitas essas precisões, os autores traçam um quadro inquietante da intermitência. Mostram como a produção dos espetáculos, de documentários, etc., obedece cada vez mais a uma lógica de rentabilidade, num universo em que só há "casos particulares": assim, o tempo de trabalho ou é escrupulosamente contabilizado nos setores fortemente sindicalizados ou, ao contrário, é declarado ‘liberado’, deixado a cargo do "autor do projeto" de negociar o melhor cachê. Sem falar da variabilidade dos salários diários nem da estagnação das rendas, e até mesmo de sua diminuição nos últimos dez anos.

Alguns – diretores, mas também companhias de teatro que trabalham em coletividades locais – reconhecem trabalhar "sob encomenda". Como se eles respondessem à demanda de um cliente, o que obriga a revisar a noção de criação. A redução dos orçamentos e dos tempos de produção impõe às companhias a reorganização do trabalho em torno dos postos julgados indispensáveis. O artístico perde terreno diante da comunicação, em que a difusão dos espetáculos se torna crucial, num contexto muito competitivo…

Longe dos autores a idéia de que a intermitência seja coisa que se deva que combater. Pelo contrário. Digam o que disserem os sindicatos, dizem eles, o emprego estável para toda a vida não é "desejado e desejável para todos". "A intermitência, sob certas condições, é esta possibilidade para todos e cada um de preservar o domínio sobre o tempo, sobre suas intensidades (…). Uma liberdade para desenvolver projetos fora das normas da indústria cultural e do espetáculo e, enfim, last but not least, uma arma fundamental para a negociação dos salários e das condições de trabalho", destacam Antonella Corsani e Maurizio Lazzarato no último capítulo. Observando que outros profissionais intelectuais compartilham com os intermitentes práticas comuns, eles convidam a refletir sobre "um novo estatuto do trabalho e sobre novos direitos sociais". Estimulante e revigorante.

June 3, 2008

Maio de 68, segundo Negri e Cocco

 Dois motivos a mais para ler a entrevista de Negri e Cocco sobre maio de 68:
 
O estatuto das esquerdas 
A  alegria do agir em comum como mecanismo da experiência que define nossa relação ao mundo: a possibilidade de mudar continuamente essa relação, de criar sempre novas situações. Os tradicionais partidos e sindicatos de esquerda apontaram a ausência de reivindicações específicas e estigmatizaram o movimento [de 68] como não revolucionário nem reformista. A esquerda tradicional não enxergou o que havia de criativo: um movimento que não pretendia conquistar o poder, mas que o transformava. 
E o ponto de apoio efetivo das novas lutas 
A sociedade disciplinar funcionava pela relação linear entre exclusão (cujo mecanismo era o estatuto “privativo”, quer dizer, excludente da propriedade) e inclusão na relação salarial. A sociedade de controle articula-se sobre o paradoxo de uma inclusão excludente: a vida toda, todo o mundo é subsumido dentro do processo de valorização e, ao mesmo tempo, essa mobilização se faz pela modulação infinita das linhas de fragmentação social, segregação espacial e precarização do trabalho. A exclusão parece aumentar, quando na realidade todo o mundo é incluído, desde seu nascimento até sua morte. E isso pelo fato de que essa inclusão passa por infinitas modulações e não implica mais   processos de serialização e homogeneização (das massas). Todos podemos ter um telefone celular e continuar sendo favelado, trabalhador informal, camelô etc. Diante disso, é o próprio horizonte das lutas que muda, pois elas dizem respeito não mais a reivindicações (de direitos, de cidadania) internas às condições de inclusão subordinada, mas à própria produção de uma cidadania, independentemente da subordinação prévia. [texto completo