Segundo Francisco de Oliveira:
Conforme Giuseppe Cocco:É um dispositivo. Da mesma forma que as cotas, que as ações afirmativas. É também um dispositivo. É o paradoxo. É uma antipolítica na forma de uma política. Porque a desigualdade é tão abissal no Brasil que é difícil você resistir que é preciso um estatuto especial para você tratar da questão racial. Vejo a questão das cotas no mesmo registro que o Bolsa-Família. É uma biopolítica. As relações sociais não suportam mais uma política que na verdade envolva escolhas, opções e política. Seu substituto é um dispositivo foucaultiano.
Estamos no meio de um paradoxo curioso, que poderíamos enunciar da maneira seguinte: do mesmo jeito que essa sociologia descobriu o keynesianismo e a mecânica de “fundo público” quando suas bases disciplinares já tinham sido varridas pelas lutas operárias e estudantis dos anos 1970, ela hoje apreende as novas tecnologias de poder apenas a partir do … poder e de seu determinismo.
(…) Acatando o niilismo de Agamben, Arantes e Oliveira assumem a biopolítica como algo que seria sempre o produto de dispositivos de controle, mas isso em uma perspectiva que — direta ou indiretamente — assume o Arbeit Macht Frei e sua sociedade disciplinar como um horizonte de emancipação.
Reduzir a desigualdade pelo Bolsa-Família não significa apenas fazer política social. Significa, também, fazer política econômica: para além do horizonte inatingível do pleno emprego keynesiano. É por isso que o "crescimento com redução da desigualdade" torna o desenvolvimento sustentável: trata-se de uma dinâmica material de mobilização produtiva, e não de um princípio abstrato.
Massificando o programa Bolsa-Família, o governo Lula está fazendo exatamente isso: criando um embrião de salário universal e, pela primeira vez, praticando aquela distribuição de renda que funciona de lastro à retórica vazia de muita gente.
Em um viés "leminskiano catatauesco", seria interessante perguntar:
1) se a bolsa família é uma biopolítica, a "natura desvairada destes ares", nas palavras de Leminski - o modo de funcionamento tupiniquim, sempre à mercê das dominações européias, e ao mesmo tempo sempre alheio a elas - não lhe conferiria facetas especiais?
Por exemplo, a biopolítica caracteriza-se como poder sobre a vida: conjunto de práticas e saberes articulados que visam políticas populacionais. Consiste não apenas em assistência popular, mas em planejamento, regulação, e fiscalização. Como biopolítica, os diversos mecanismos do Programa incidem nas famílias. Mas casos de ausência de fiscalização e presença de irregularidades (critica-se o programa por pessoas como a mãe da atriz Graziela Massafera ter sido beneficiária, anedota que mostraria apenas o caráter assistencial, sem elementos de planejamento e regulação populacional) denotariam um modo de funcionamento alheio ao que se vê nas práticas "européias". Outros episódios, como a Revolta da Vacina, também serviriam para mostrar efeitos de "desordem" (ou de dinâmicas bem particulares, e brasileiras) em meio a padrões importados da "ordem".
Elementos que poriam a questão: se a bolsa família é uma biopolítica, qual é o estatuto dessas práticas diante das peculiaridades brasileiras?
2) se a bolsa família não é uma biopolítica, deve ser então a própria "natura desvairada", que de algum modo torceu os esquemas eurocêntricos em direção a aspirações tupiniquins. Nesse ponto Negri e Cocco sustentam que "Lula é muitos", e a bolsa família é alheia tanto a aspirações neoliberais, quanto keynesianas.
Elemento que se desdobra em outras duas questões: (1) a do estatuto concreto do Programa, seu distanciamento de medidas meramente assistenciais, e sua legitimidade "democrática" concreta em meio a outras medidas de "radicalização democrática" (cuja legitimidade também deve ser avaliada); (2) e a da possibilidade de medidas governamentais como essa atingirem um âmbito político alheio às dinâmicas da "disciplina" e do "controle". Em suma, se as medidas do governo Lula não são biopolíticas, deve-se mostrar como se desviam das críticas da direita e da esquerda, e também como não configuram práticas tributárias da "disciplina" e do "controle".
É pano pra manga.
Dois motivos relacionados entre si podem explicar porque a importância do conceito de biopolítica para a compreensão dos dilemas políticos do presente tardou quase quinze anos para ser reconhecida. Em primeiro lugar, para reconhecê-lo era fundamental ultrapassar a rigidez dicotômica da distinção ideológica tradicional entre esquerda e direita, aspecto que já se encontrava presente na análise foucaultiana do caráter biopolítico não apenas do nazismo e do stalinismo, mas também das democracias liberais e de mercado. Em segundo lugar, penso que o fenômeno da biopolítica só poderia ser entendido enquanto forma globalmente disseminada de exercício cotidiano de um poder estatal que investe na multiplicação da vida por meio da aniquilação da própria vida, a partir do advento recente da política transnacional globalizada e ‘liquefeita’, segundo a terminologia de Bauman. Nesse sentido, creio que a reflexão de Deleuze sobre as transformações sociais da última década, as quais iniciaram o processo de substituição do modelo disciplinar de sociedade pelo modelo de “sociedade de controle”, articulada em redes de visibilidade absoluta e comunicação virtual imediata, constitui o paradigma a partir do qual Toni Negri e Michael Hardt puderam formular seu conceito de “Império”, no centro do qual se encontra, justamente, uma apropriação do conceito foucaultiano de biopolítica, redefinido agora em termos da biopotência da Multidão. [Continua em Sobre a Biopolítica: de Foucault ao século XXI, por André Duarte]
As decisões globais dependem cada vez menos da opinião e da vontade, e cada vez mais do dever cego e inevitável dos fluxos psicoquímicos (hábitos, medos, ilusões, fanatismos) que atravessam a mente social. O lugar de formação da esfera pública se transferiu da dimensão do confronto entre opiniões ideologicamente fundadas para o magma do oceano neurotelemático, no qual as coisas se determinam fragmentariamente, imprevisivelmente, por efeito de tempestades psicomagnéticas e cada vez menos referidas a esquemas políticos definidos. Claro que há divergência de opiniões, cada um pode se expressar como quiser, mas isso já não tem nenhuma importância, pois já nada significa, não tem efeito algum. A proliferação ilimitada das fontes de informação, por sua vez, não necessariamente significa uma abertura democrática, talvez porque o efeito-sociedade não se encontra mais na esfera do discurso, mas na psicoquímica. [Continua em Mutações Contemporâneas, por Peter Pal Pelbart]
Palavras do primeiro-ministro australiano Kevin Rudd, sobre a obrigatória inserção cultural dos arborígenes nos padrões brancos, durante o século XX:
Às mães e aos pais, aos irmãos e às irmãs, pela ruptura de famílias e comunidades, pedimos perdão. Pela indignidade e pela degradação assim infligida a um povo orgulhoso e a uma cultura orgulhosa, pedimos perdão
They told my grandmother that they were going to be taking us to the circus. (…)We never ended up in a circus - we ended up in a police station. I remember the bars.
From there, another car picked us up and drove us. We never got back to our grandmother.
When I first met my foster people, the lady took me to their house and said, ‘This will be your house, and the people in this house you can call mum, dad, auntie or uncle’.
Finalmente li inteiro TAZ - Temporary Autonomous Zone, ou Zona Autônoma Temporária, ou quem sabe, também Zona Temporária de Autonomia (também em livro impresso), de Hakim Bey.
HB é uma figura inusitada do "pensamento contemporâneo". Reune várias inspirações de outros autores (como Deleuze e Guattari), com uma grande dose de humor, e ainda registros históricos esquecidos, ou considerados secundários.
O interessante na mistura toda é o resultado: Bey não forma um pensamento "sério", nem escrachado. Seus conceitos forjados se desviam das abstrações, mas também de certas facilidades descolês, engagés e afins. O pensamento Bey é uma espécie de proposta de ativismo constante para o bem-viver - um culto constante aos "levantes", ao invés da busca a uma revolução sempre recuada.
Leia mais
Las luchas de los sin papeles y la extensión de la ciudadanía. Perspectivas críticas desde Europa y Estados Unidos
de Liliana Suárez-Navaz, Raquel Maciá Pareja, Ángela Moreno García (eds.)
Colección:movimiento 10
Tema: sin papeles, migración, luchas fronteras
en la lucha de classes
todas las armas son buenas
pedras,
noches,
poemas
- Paulo Leminski -
A massificação do automóvel efetua um triunfo absoluto do ideologia burguesa no nível da vida diária. Dá e sustenta em todos a ilusão de que cada indivíduo pode procurar o seu próprio benefício às custas de todos os demais. Leva ao egoísmo cruel e agressivo do motorista que em todos os momentos está figurativamente matando os "outros", que aparecem meramente como obstáculos físicos à sua velocidade. Este egoísmo competidor e agressivo marca a chegada do comportamento universal burguês, e tem existido desde que dirigir tornou-se lugar comum. ("você nunca terá o socialismo com aquele tipo de pessoas", um amigo alemão ocidental me disse, triste ao ver o espetáculo do tráfego de Paris).
Olha só como eu gostaria que fosse o nível das discussões atuais sobre blogs, especialmente após o debate entre blogueiros e o Estadão]
Leia maisHipertexto e Complexidade
Por Marcelo BolshawSemiótica de Rede
Há no novíssimo folclore de ‘causos’ e estórias duvidosas da internet, uma que define bem o espírito do Hipertexto. Conta-se que há no Massachusetts Institute of Technology - MIT um concurso anual entre os alunos-hackers em que o primeiro lugar é conferido a quem estabelecer as mudanças mais significativas em sistemas informacionais e que o grande vencedor até os nossos dias foi alguém que colocou o quadro de avisos da escola em frente a sala do diretor. Com esse ‘hipertexto’, o aluno estabeleceu um maior nível de interatividade entre a direção e a escola, mais eficaz e democrático do que todos recursos tecnológicos utilizados (sites, chats, listas, etc) até o momento.
Assim, o hipertexto seria, independente de seu conteúdo temático ou suporte físico, uma forma de mudar a forma das pessoas interagirem, entre si e diante da autoridade. Ele ‘cria’ novos universos e ‘enterra’ velhos paradigmas.