June 3, 2008

Maio de 68, segundo Negri e Cocco

 Dois motivos a mais para ler a entrevista de Negri e Cocco sobre maio de 68:
 
O estatuto das esquerdas 
A  alegria do agir em comum como mecanismo da experiência que define nossa relação ao mundo: a possibilidade de mudar continuamente essa relação, de criar sempre novas situações. Os tradicionais partidos e sindicatos de esquerda apontaram a ausência de reivindicações específicas e estigmatizaram o movimento [de 68] como não revolucionário nem reformista. A esquerda tradicional não enxergou o que havia de criativo: um movimento que não pretendia conquistar o poder, mas que o transformava. 
E o ponto de apoio efetivo das novas lutas 
A sociedade disciplinar funcionava pela relação linear entre exclusão (cujo mecanismo era o estatuto “privativo”, quer dizer, excludente da propriedade) e inclusão na relação salarial. A sociedade de controle articula-se sobre o paradoxo de uma inclusão excludente: a vida toda, todo o mundo é subsumido dentro do processo de valorização e, ao mesmo tempo, essa mobilização se faz pela modulação infinita das linhas de fragmentação social, segregação espacial e precarização do trabalho. A exclusão parece aumentar, quando na realidade todo o mundo é incluído, desde seu nascimento até sua morte. E isso pelo fato de que essa inclusão passa por infinitas modulações e não implica mais   processos de serialização e homogeneização (das massas). Todos podemos ter um telefone celular e continuar sendo favelado, trabalhador informal, camelô etc. Diante disso, é o próprio horizonte das lutas que muda, pois elas dizem respeito não mais a reivindicações (de direitos, de cidadania) internas às condições de inclusão subordinada, mas à própria produção de uma cidadania, independentemente da subordinação prévia. [texto completo

May 10, 2008

Livro de Jó, descendência e amizade

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Placa com desenho de William Blake, representando o momento em que os amigos de Jó aparecem para vê-lo (todas as placas, coloridas e monocromáticas, aqui)
 
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April 7, 2008

Devir-Jó (do livro de Antonio Negri)

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Ilustração do Livro de Jó, por William Blake 

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March 17, 2008

Egolatria, blogues, e campanhas de links

O leitor do Catatau já percebeu desde o início como este veículo é encasquetado com um certo papel destinado aos blogs: o de ignorar certas características amplas e democráticas do hipertexto, em nome de cultos à autoria e à autoridade.
 
Em suma, o problema que ocorre quando o interesse se desloca do QUÊ se diz, para QUEM diz. Resultado: as boas idéias começam a ficar na sombra, enquanto as autoridades se destacam - e isso, independente do que tenham a dizer.
 
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February 26, 2008

Bolsa Família: uma biopolítica?

Segundo Francisco de Oliveira:

É um dispositivo. Da mesma forma que as cotas, que as ações afirmativas. É também um dispositivo. É o paradoxo. É uma antipolítica na forma de uma política. Porque a desigualdade é tão abissal no Brasil que é difícil você resistir que é preciso um estatuto especial para você tratar da questão racial. Vejo a questão das cotas no mesmo registro que o Bolsa-Família. É uma biopolítica. As relações sociais não suportam mais uma política que na verdade envolva escolhas, opções e política. Seu substituto é um dispositivo foucaultiano.

Conforme Giuseppe Cocco:

 Estamos no meio de um paradoxo curioso, que poderíamos enunciar da maneira seguinte: do mesmo jeito que essa sociologia descobriu o keynesianismo e a mecânica de “fundo público” quando suas bases disciplinares já tinham sido varridas pelas lutas operárias e estudantis dos anos 1970, ela hoje apreende as novas tecnologias de poder apenas a partir do … poder e de seu determinismo.

(…) Acatando o niilismo de Agamben, Arantes e Oliveira assumem a biopolítica como algo que seria sempre o produto de dispositivos de controle, mas isso em uma perspectiva que — direta ou indiretamente — assume o Arbeit Macht Frei e sua sociedade disciplinar como um horizonte de emancipação.

Giusepe Cocco e Toni Negri:

Reduzir a desigualdade pelo Bolsa-Família não significa apenas fazer política social. Significa, também, fazer política econômica: para além do horizonte inatingível do pleno emprego keynesiano. É por isso que o "crescimento com redução da desigualdade" torna o desenvolvimento sustentável: trata-se de uma dinâmica material de mobilização produtiva, e não de um princípio abstrato.

Massificando o programa Bolsa-Família, o governo Lula está fazendo exatamente isso: criando um embrião de salário universal e, pela primeira vez, praticando aquela distribuição de renda que funciona de lastro à retórica vazia de muita gente.

Em um viés "leminskiano catatauesco", seria interessante perguntar:

1) se a bolsa família é uma biopolítica, a "natura desvairada destes ares", nas palavras de Leminski - o modo de funcionamento tupiniquim, sempre à mercê das dominações européias, e ao mesmo tempo sempre alheio a elas - não lhe conferiria facetas especiais?

Por exemplo, a biopolítica caracteriza-se como poder sobre a vida: conjunto de práticas e saberes articulados que visam políticas populacionais. Consiste não apenas em assistência popular, mas em  planejamento, regulação, e fiscalização. Como biopolítica, os diversos mecanismos do Programa incidem nas famílias. Mas casos de ausência de fiscalização e presença de irregularidades (critica-se o programa por pessoas como a mãe da atriz Graziela Massafera ter sido beneficiária, anedota que mostraria apenas o caráter assistencial, sem elementos de planejamento e regulação populacional) denotariam um modo de funcionamento alheio ao que se vê nas práticas "européias". Outros episódios, como a Revolta da Vacina, também serviriam para mostrar efeitos de "desordem" (ou de dinâmicas bem particulares, e brasileiras) em meio a padrões importados da "ordem".

Elementos que poriam a questão: se a bolsa família é uma biopolítica, qual é o estatuto dessas práticas diante das peculiaridades brasileiras?

2) se a bolsa família não é uma biopolítica, deve ser então a própria "natura desvairada", que de algum modo torceu os esquemas eurocêntricos em direção a aspirações tupiniquins. Nesse ponto Negri e Cocco sustentam que "Lula é muitos", e a bolsa família é alheia tanto a aspirações neoliberais, quanto keynesianas.

Elemento que se desdobra em outras duas questões: (1) a do estatuto concreto do Programa, seu distanciamento de medidas meramente assistenciais, e sua legitimidade "democrática" concreta em meio a outras medidas de "radicalização democrática" (cuja legitimidade também deve ser avaliada); (2) e a da possibilidade de medidas governamentais como essa atingirem um âmbito político alheio às dinâmicas da "disciplina" e do "controle". Em suma, se as medidas do governo Lula não são biopolíticas, deve-se mostrar como se desviam das críticas da direita e da esquerda, e também como não configuram práticas tributárias da "disciplina" e do "controle".

É pano pra manga. 

February 23, 2008

Estéticas da Biopolítica

Dois motivos relacionados entre si podem explicar porque a importância do conceito de biopolítica para a compreensão dos dilemas políticos do presente tardou quase quinze anos para ser reconhecida. Em primeiro lugar, para reconhecê-lo era fundamental ultrapassar a rigidez dicotômica da distinção ideológica tradicional entre esquerda e direita, aspecto que já se encontrava presente na análise foucaultiana do caráter biopolítico não apenas do nazismo e do stalinismo, mas também das democracias liberais e de mercado. Em segundo lugar, penso que o fenômeno da biopolítica só poderia ser entendido enquanto forma globalmente disseminada de exercício cotidiano de um poder estatal que investe na multiplicação da vida por meio da aniquilação da própria vida, a partir do advento recente da política transnacional globalizada e ‘liquefeita’, segundo a terminologia de Bauman. Nesse sentido, creio que a reflexão de Deleuze sobre as transformações sociais da última década, as quais iniciaram o processo de substituição do modelo disciplinar de sociedade pelo modelo de “sociedade de controle”, articulada em redes de visibilidade absoluta e comunicação virtual imediata, constitui o paradigma a partir do qual Toni Negri e Michael Hardt puderam formular seu conceito de “Império”, no centro do qual se encontra, justamente, uma apropriação do conceito foucaultiano de biopolítica, redefinido agora em termos da biopotência da Multidão. [Continua em Sobre a Biopolítica: de Foucault ao século XXI, por André Duarte]
 
As decisões globais dependem cada vez menos da opinião e da vontade, e cada vez mais do dever cego e inevitável dos fluxos psicoquímicos (hábitos, medos, ilusões, fanatismos) que atravessam a mente social. O lugar de formação da esfera pública se transferiu da dimensão do confronto entre opiniões ideologicamente fundadas para o magma do oceano neurotelemático, no qual as coisas se determinam fragmentariamente, imprevisivelmente, por efeito de tempestades psicomagnéticas e cada vez menos referidas a esquemas políticos definidos. Claro que há divergência de opiniões, cada um pode se expressar como quiser, mas isso já não tem nenhuma importância, pois já nada significa, não tem efeito algum. A proliferação ilimitada das fontes de informação, por sua vez, não necessariamente significa uma abertura democrática, talvez porque o efeito-sociedade não se encontra mais na esfera do discurso, mas na psicoquímica. [Continua em Mutações Contemporâneas, por Peter Pal Pelbart]
A coletânea completa chama-se "Estéticas da Biopolítica", e vale muito a pena conferir. 

February 14, 2008

Os arborígenes e o perdão

aborigine, arborigines

imagem daqui 

Palavras do primeiro-ministro australiano Kevin Rudd, sobre a obrigatória inserção cultural dos arborígenes nos padrões brancos, durante o século XX:

Às mães e aos pais, aos irmãos e às irmãs, pela ruptura de famílias e comunidades, pedimos perdão. Pela indignidade e pela degradação assim infligida a um povo orgulhoso e a uma cultura orgulhosa, pedimos perdão

A BBC publicou relatos de Arborígenes destituídos de suas identidades culturais. Como o de Ruby Hunter:    
 They told my grandmother that they were going to be taking us to the circus. (…)

We never ended up in a circus - we ended up in a police station. I remember the bars.

From there, another car picked us up and drove us. We never got back to our grandmother.

When I first met my foster people, the lady took me to their house and said, ‘This will be your house, and the people in this house you can call mum, dad, auntie or uncle’.

E dada a aculturação, alguns encontram modos curiosos de "contar suas próprias histórias".
 

February 10, 2008

TAZ - Zona Autônoma Temporária

Finalmente li inteiro TAZ - Temporary Autonomous Zone, ou Zona Autônoma Temporária, ou quem sabe, também Zona Temporária de Autonomia (também em livro impresso), de Hakim Bey.  

HB é uma figura inusitada do "pensamento contemporâneo". Reune várias inspirações de outros autores (como Deleuze e Guattari), com uma grande dose de humor, e ainda registros históricos esquecidos, ou considerados secundários. 

O interessante na mistura toda é o resultado: Bey não forma um pensamento "sério", nem escrachado. Seus conceitos forjados se desviam das abstrações, mas também de certas facilidades descolês, engagés e afins. O pensamento Bey é uma espécie de proposta de ativismo constante para o bem-viver - um culto constante aos "levantes", ao invés da busca a uma revolução sempre recuada.

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January 28, 2008

Las luchas de los sin papeles

Las luchas de los sin papeles y la extensión de la ciudadanía. Perspectivas críticas desde Europa y Estados Unidos

de Liliana Suárez-Navaz, Raquel Maciá Pareja, Ángela Moreno García (eds.)

Colección:movimiento 10

Tema: sin papeles, migración, luchas fronteras

Las movilizaciones de los sin papeles presentan un reto sin parangón al sistema político-jurídico que sostiene nuestra democracia. Sus reivindicaciones apelan a los más básicos principios de los derechos humanos, entre otros, el derecho a tener derechos, tal y como mantuvo la filósofa Hannah Arendt. A través del estudio de estas movilizaciones en Francia, Suiza, Suecia, Estados Unidos y España, este libro muestra cómo las luchas de los sin papeles evidencian la doble moral del sistema político, al mismo tiempo que son consecuencia de una contradicción estructural entre el universalismo de los derechos humanos y el universalismo del mercado laboral neoliberal. Tratando así de añadir una modesta aportación al esfuerzo común de denuncia de estas contradicciones, este volumen quiere aprender de las acciones de los más excluidos del sistema, los sin papeles, a la vez producto y agentes de transformación de nuestras sociedades.
Número de páginas: 252

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en la lucha de classes
todas las armas son buenas
pedras,
         noches,
                    poemas
- Paulo Leminski -

September 26, 2007

Carros, “egoísmo”, e bicicletas

Da ocasião do falecimento do filósofo André Gorz, o O Estrangeiro publicou um texto intitulado A ideologia social do carro a motor. Vários trechos interessantes, como o que segue:
A massificação do automóvel efetua um triunfo absoluto do ideologia burguesa no nível da vida diária. Dá e sustenta em todos a ilusão de que cada indivíduo pode procurar o seu próprio benefício às custas de todos os demais. Leva ao egoísmo cruel e agressivo do motorista que em todos os momentos está figurativamente matando os "outros", que aparecem meramente como obstáculos físicos à sua velocidade. Este egoísmo competidor e agressivo marca a chegada do comportamento universal burguês, e tem existido desde que dirigir tornou-se lugar comum. ("você nunca terá o socialismo com aquele tipo de pessoas", um amigo alemão ocidental me disse, triste ao ver o espetáculo do tráfego de Paris).
O leitor "direitista" pode ter a interpretação que quiser, especialmente sobre o termo "burguês". Aliás, o próprio Gorz se sente bem à vontade utilizando esse termo e assumindo uma posição alheia tanto à "direita" quanto à "esquerda". Uma coisa, contudo, não se pode negar: a convivência pública, o ir e vir, pautando-se pela individualidade e pelo egoísmo. "Egoísmo" não se refere ao sentido passional, mas a projetar privilégios privados na esfera pública. Daí basta sairmos de casa para vermos "egoísmos" para todo lado. Andar de bicicleta, nisso tudo, é por vezes uma aventura bem interessante.