Estamos no meio de um paradoxo curioso, que poderíamos enunciar da maneira seguinte: do mesmo jeito que essa sociologia descobriu o keynesianismo e a mecânica de “fundo público” quando suas bases disciplinares já tinham sido varridas pelas lutas operárias e estudantis dos anos 1970, ela hoje apreende as novas tecnologias de poder apenas a partir do … poder e de seu determinismo.
(…) Acatando o niilismo de Agamben, Arantes e Oliveira assumem a biopolítica como algo que seria sempre o produto de dispositivos de controle, mas isso em uma perspectiva que — direta ou indiretamente — assume o Arbeit Macht Frei e sua sociedade disciplinar como um horizonte de emancipação.
Giusepe Cocco e Toni Negri:
Reduzir a desigualdade pelo Bolsa-Família não significa apenas fazer política social. Significa, também, fazer política econômica: para além do horizonte inatingível do pleno emprego keynesiano. É por isso que o "crescimento com redução da desigualdade" torna o desenvolvimento sustentável: trata-se de uma dinâmica material de mobilização produtiva, e não de um princípio abstrato.
Massificando o programa Bolsa-Família, o governo Lula está fazendo exatamente isso: criando um embrião de salário universal e, pela primeira vez, praticando aquela distribuição de renda que funciona de lastro à retórica vazia de muita gente.
Em um viés "leminskiano catatauesco", seria interessante perguntar:
1) se a bolsa família é uma biopolítica, a "natura desvairada destes ares", nas palavras de Leminski - o modo de funcionamento tupiniquim, sempre à mercê das dominações européias, e ao mesmo tempo sempre alheio a elas - não lhe conferiria facetas especiais?
Por exemplo, a biopolítica caracteriza-se como poder sobre a vida: conjunto de práticas e saberes articulados que visam políticas populacionais. Consiste não apenas em assistência popular, mas em planejamento, regulação, e fiscalização. Como biopolítica, os diversos mecanismos do Programa incidem nas famílias. Mas casos de ausência de fiscalização e presença de irregularidades (critica-se o programa por pessoas como a mãe da atriz Graziela Massafera ter sido beneficiária, anedota que mostraria apenas o caráter assistencial, sem elementos de planejamento e regulação populacional) denotariam um modo de funcionamento alheio ao que se vê nas práticas "européias". Outros episódios, como a Revolta da Vacina, também serviriam para mostrar efeitos de "desordem" (ou de dinâmicas bem particulares, e brasileiras) em meio a padrões importados da "ordem".
Elementos que poriam a questão: se a bolsa família é uma biopolítica, qual é o estatuto dessas práticas diante das peculiaridades brasileiras?
2) se a bolsa família não é uma biopolítica, deve ser então a própria "natura desvairada", que de algum modo torceu os esquemas eurocêntricos em direção a aspirações tupiniquins. Nesse ponto Negri e Cocco sustentam que "Lula é muitos", e a bolsa família é alheia tanto a aspirações neoliberais, quanto keynesianas.
Elemento que se desdobra em outras duas questões: (1) a do estatuto concreto do Programa, seu distanciamento de medidas meramente assistenciais, e sua legitimidade "democrática" concreta em meio a outras medidas de "radicalização democrática" (cuja legitimidade também deve ser avaliada); (2) e a da possibilidade de medidas governamentais como essa atingirem um âmbito político alheio às dinâmicas da "disciplina" e do "controle". Em suma, se as medidas do governo Lula não são biopolíticas, deve-se mostrar como se desviam das críticas da direita e da esquerda, e também como não configuram práticas tributárias da "disciplina" e do "controle".
É pano pra manga.