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May 10, 2011

“Na ordem americana, o princípio da universalidade da lei foi substituído pela exigência de respeito à moral particularista, idiossincrática e assimétrica”


Belo artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo, totalmente afim a diversos textos já publicados por aqui, e também ao quadrinho de Laerte recém publicado. Trecho:

Na ordem americana, o princípio da universalidade da lei foi substituído pela exigência de respeito à moral particularista, idiossincrática e assimétrica. O direito, dizia Hegel, enquanto existência da liberdade, é uma determinação essencial na refrega contra a “boa intenção” moral. “O desenvolvimento da sociedade moderna exige a formalidade jurídica e os protestos contra esse desenvolvimento são… reminiscências do ‘estado bruto de natureza’ que revelam um apego doentio à própria particula-ridade, narcisisticamente desfrutada como moral.”

***

No mesmo contexto do artigo, ontem o programa "Milênio" (da Globo News) entrevistou Robert Fisk. O entrevistador (Mounir Safatli) leu o início de A Grande Guerra pela Civilização (onde estão contidas as três entrevistas com Bin Laden) e tentou explorar a memória de Fisk sobre acontecimentos já escritos no livro.

 Mas há algo mais, gritando nos últimos textos de Fisk, que poderia ser muito melhor aproveitado: o fato da Al Qaeda perder boa parte de sua "relevância" política depois das manifestações espontâneas e absolutamente legítimas do mundo islâmico (especialmente no Egito e na Tunísia) desde o fim do ano passado. Tais manifestações parecem o oposto e o simétrico do "ensinamento" que os EUA ofereceram com a execução de Bin Laden.

May 5, 2011

Guerra e juventude


Hoje faleceu o último veterano da I Guerra Mundial. Claude Choules serviu na marinha inglesa até os anos 50. Sobre a guerra e o perpétuo tema de aderir a ela sob o "ensinamento" de que o inimigo é sempre um monstro a matar, ele comentou que no fim das contas

Todo mundo era a mesma coisa, eles eram apenas jovens

E dias atrás um jornalista do Boston Globe comentava sobre o contexto da premiada (e chocante) foto de Chris Hondros (morto em Misrata dias atrás):

Os soldados - crianças, a maior parte - permaneciam lá, acenando para o carro parar. Eles estavam sem sono, nervosos, absolutamente terrificados, esperando se era outra bomba suicida. O carro não reduziu a velocidade e os soldados pararam de gritar e começaram a atirar.

Isso foi por apenas alguns segundos.Balas do tamanho de bolas de golfe penetraram o carro como dardos fundidos rodando até parar.

Quando os soldados correram ao carro, viram seu erro e suas pernas tremeram. "Civis!", gritaram.

Outro jovem fotojornalista, Tim Hetherington (também morto em Misrata), filmou vários jovens em seu documentário Restrepo. O nome do filme era o de um outpost do exército norte-americano, batizado com o nome de um soldado morto. Durante o filme, Hetherington entrevista vários soldados comentando sobre a guerra e suas ações. E ao mesmo tempo, o documentário mostra sem o mostrar (apenas com imagens indiretas) um ataque de helicóptero a uma vila afegã que feriu várias crianças.
 
Sobre crianças, o piloto do helicóptero do vídeo Collateral Murder comenta, logo após descobrir que uma vã de supostos insurgentes iraquianos metralhada por eles continha crianças: "É falha deles trazerem as crianças para a batalha".
 
E Steve McCurry fez há pouco uma seleção de suas fotos sobre "o lugar mais perigoso para nascer".

 

April 25, 2011

Dos motivos para combater



World Press Photo do ano de 2007, de Tim Hetherington

Hoje Giuseppe Cocco divulgou um documentário muito interessante sobre os "motivos" norte-americanos das últimas guerras: Why we Fight (Por que combatemos, 2005), da BBC.

O documentário aborda a indústria armamentista dos EUA e seu grande papel na economia daquele país. Por corolário o filme aborda o uso e renovação de seus "produtos" no "mercado consumidor".

O trailer e o documentário completo estão no youtube (todos em inglês). O Documentários de Verdade disponibilizou o filme para download com legendas.

Nesse contexto, durante a semana passada três fotojornalistas famosos foram alvejados na Líbia. Tim Hetherington (diretor do documentário Restrepo) faleceu na hora. Chris Hondros, outro fotojornalista premiado, não aguentou os ferimentos e morreu depois.


Foto de Chris Hondros, menção honorável no WPP 2004

Sobre Hondros, o Boston Globe publicou um texto tocante sobre uma tentativa do fotojornalista tentar salvar uma criança vitimada em uma das várias tragédias clicadas por ele. Em 2005 (o texto não entra em detalhes), Hondros foi premiado pelo World Press Photo por uma foto tão expressiva da guerra quanto horripilante: uma menina chamada Samar Hassan grita em uma escuridão desesperadora, com um soldado armado ao lado.

O evento da foto é o descrito no artigo do Boston Globe. Uma patrulha norte-americana abriu fogo contra um carro desconhecido. Nesse carro havia apenas uma família de iraquianos. Sobreviveram apenas as crianças feridas, dentre elas Samar e seu irmão Rakan. O artigo do Globe conta o envolvimento de Hondros com Rakan (também descrito ainda em janeiro por esse outro texto, que conta a história da foto premiada).

Frente a todas essas medidas e desmedidas, dias atrás apareceu também o informe de uma outra história. Na Tunísia saiu um volume intitulado "Dégage: la révolution tunisienne", com fotos e relatos da revolução deste ano. Conforme escreveu Diego Viana, o estopim foi o gesto dramático de Mohamed Bouazizi.

Meses depois do gesto de Bouazizi, alguns jornais tunisianos mencionam: "Enfim livres para testemunhar… Enfim livres para editar".

April 3, 2011

Uma “mina de diamantes” do cosmopolitismo


O Incinerrante começou a contribuir com diversos textos sobre cinema africano no Amálgama. Marcelo Ribeiro (editor do Incinerrante) tem um projeto muito interessante sobre cinema, ligado à noção de "cosmopolitismo" (o projeto inclusive lista diversos filmes maravilhosos).

No meio disso tudo, Ribeiro também indicou o Cine África. Trata-se de um blog que dispõe para o público brasileiro diversas obras do cinema africano, curiosamente tão distante de nós. Link para guardar com carinho.

A foto acima foi divulgada por Giuseppe Cocco alguns dias atrás. As recentes revoltas na África escondem um imenso iceberg.

April 2, 2011

A escuridão dos livros negros


A Civilização Brasileira acabou de lançar O Livro Negro da Psicanálise (organizado por Stephenie, quer dizer, Catherine Meyer).

O livro já é relativamente antigo (este mesmo blog compartilhou alguns links sobre os debates animados ainda em 2008). E o lançamento do livro no Brasil inverte um outro debate surgido no ano passado: Michel Onfray havia publicado O Crepúsculo de um Ídolo [Le Crepuscule d’une Idole], livro que causou certo rebuliço na França, inclusive com debates acalorados entre Onfray e Jacques-Alain Miller.

No contexto do Crepúsculo, Onfray aqui e ali fez menções ao Livro Negro. Este, por sua vez, recebeu críticas de um Anti-Livro Negro [L’Anti-Livre Noir de la Psychanalyse].

A publicação do Livro Negro ocorre, no Brasil, em meio a um debate bastante dobrado e redobrado. A edição reune diversos motes críticos das outras disciplinas psicológicas contra Freud; por sua vez, tais motes receberam certa atenção de um lado pelo "anti-livro" e de outro pela nova crítica de Onfray. Resultado desses desdobramentos? Como sempre, problemas ainda na ordem da vez.

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 E por falar em Onfray, o filósofo normando publicou há pouco outro curioso livro: O Recurso às Florestas - A Tentação de Demócrito (inclusive objeto de adaptações teatrais).

March 24, 2011

A Campanha da Fraternidade e o papel político da Igreja


A CNBB lançou em 2011 o novo slogan de sua Campanha da Fraternidade: ‘A criação geme em dores de parto‘.

Trata-se de chamar a atenção ao que o homem faz com seu mundo, mostrando a necessidade de ações para impedir o famoso aquecimento global.

(more…)

February 11, 2011

“Quanto mais eles atrasam em ir embora, mais criativa e bela é a Revolução”


Depoimento do dr. Ali El Mashar, membro da Revolução de 25 de janeiro, entrevistado na Praça da Libertação, no Cairo, descrevendo a revolução e demandando a saída imediata do poder de Hosni Mubarak. [via Ensino de Física (legendas disponíveis na opção “CC”]

February 10, 2011

Robert Fisk: A Hipocrisia do Ocidente


Alguns dias atrás um leitor deste blog comentou sobre o Egito: "onde estão os filósofos?" Robert Fisk ensaia uma resposta. A idéia é interessante, pois se em revoluções como a do Irã certos intelectuais se posicionaram durante o levante, hoje a dúvida sobre os resultados do levante os deixam com maior reserva. Mas… há como prever os resultados de um levante?

 

A Hipocrisia do Ocidente

 

Não há nada como uma revolução árabe para mostrar a hipocrisia de nossos amigos. Especialmente se essa revolução é marcada pela civilidade e pelo humanismo e é impulsionada por uma enérgica exigência para ter o tipo de democracia que desfrutamos na Europa e nos Estados Unidos. As indecisas tolices sussurradas por Obama e Clinton durante estas últimas duas semanas são apenas uma parte do problema. Da “estabilidade” à “tormenta perfeita” passamos ao presidencial “agora-significa-ontem” e “transição ordenada”, que se traduz assim: nada de violência enquanto o ex-general da força aérea Mubarak é levado a pastar para que o ex-general de inteligência Suleiman possa assumir a chefia do regime em nome dos EUA e de Israel.

A Fox News já disse a seus telespectadores nos EUA que a Irmandade Muçulmana – um dos grupos islâmicos mais “suaves” no Oriente Médio – está por trás dos valentes homens e mulheres que se animaram a resistir à polícia de segurança do Estado, enquanto a massa de “intelectuais” franceses silencia: as aspas são essenciais para nomes como Bernard-Henri Levy que se converteu, segundo o Le Monde, na “inteligência do silêncio”.

E todos sabemos a razão. Alain Finkelstein fala de sua “admiração” pelos democratas, mas também da necessidade de “vigilância” – e este é um ponto baixo em qualquer “filósofo” – “porque hoje todos sabemos sobretudo que não sabemos qual será o resultado”. Esta citação quase rumsfeldiana é dourada pelas próprias palavras ridículas de Lévy: “é essencial levar em conta a complexidade da situação”. Curiosamente, isso é exatamente o que os israelenses dizem quando algum ocidental insensato sugere que Israel deveria deixar de roubar terra árabe na Cisjordânia para suas colônias.

Na verdade, a própria reação de Tel Aviv aos importantes eventos no Egito – que este pode não ser o momento adequado para a democracia no Egito (permitindo assim manter o título de “a única democracia no Oriente Médio”) – tem sido tão inverossímil quanto contraproducente. Israel estará muito mais seguro rodeado por verdadeiras democracias do que por ditadores e reis autocráticos. Para seu enorme crédito, o historiador francês Daniel Lindenberg disse a verdade esta semana. “Devemos admitir a realidade: muitos intelectuais acreditam, no fundo, que o povo árabe é congenitamente atrasado”.

Não há nada de novo nisto. Aplica-se a nossos sentimentos recônditos sobre todo o mundo muçulmano. A chanceler Angela Merkel, da Alemanha, anuncia que o multiculturalismo não funciona, e um pretendente à família real da Baviera me disse, não faz muito tempo, que há turcos demais na Alemanha porque “não querem fazer parte da sociedade alemã”. No entanto, quando a Turquia – o mais perto da mistura perfeita de islamismo e democracia que se pode encontrar hoje no Oriente Médio – pede para ingressar na União Europeia e compartilhar nossa civilização ocidental, buscamos desesperadamente qualquer remédio, não importa quão racista seja, para evitar que isso aconteça.

Em outras palavras, queremos que sejam como nós, desde que fiquem de lado, a uma distância segura. E assim, quando provam que querem ser como nós, mas não querem invadir a Europa, fazemos o que podemos para instalar outro general treinado nos EUA para que os governe. Assim como Paul Wolfowitz reagiu à negativa do Parlamento turco em permitir que as tropas dos EUA invadissem o Iraque desde o Sul da Turquia perguntando se “os generais não tem nada a dizer sobre isso”, agora somos obrigados a ouvir o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, destacar a “moderação” do exército egípcio, aparentemente não se dando conta de que o povo do Egito, que está propondo a democracia, é que deveria ser elogiado por sua moderação e não violência e não um monte de brigadeiros.

De modo que, quando os árabes querem dignidade e respeito, quando gritam por seu próprio futuro que Obama assinalou em seu famoso – agora suponho que infame – discurso no Cairo, nos lhes faltamos com o respeito. Ao invés de dar as boas vindas às suas exigências democráticas, os tratamos como se fossem um desastre.

De The Independent da Inglaterra, especial para Páginal12. Tradução: Celita Doyhambéhère. Tradução para a Carta Maior: Katarina Peixoto. (via RS Urgente)

 

February 1, 2011

Os índios não contactados


 
A foto acima, com créditos da FUNAI, foi divulgada pelo Uncontacted Tribes, ONG que busca defender os direitos de tribos indígenas isoladas. Em outras fotos do link, há algumas imagens do cotidiano desses índios.
 
Conforme o UT, esses índios são cada vez mais afastados de suas localidades devido à exploração madeireira. As imagens serviriam para mostrar a situação dos índios e sensibilizar as autoridades. 
 
O que parece interessante nisso tudo é a economia das sensibilidades. A imagem de um índio oferece sensibilização. Diante dela, certamente a imagem de madeireiros na mata ou de políticos omissos é menos interessante. Mas não imporia fiscalização?

December 14, 2010

Livro: História Geral da África


 



Link para download gratuito do livro: História Geral da África, em 8 volumes. Uma referência e tanto!

Fotos: Stuart Franklin: The Dogon

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