December 13, 2010
Viveiros de Castro na Cult
Entrevista muito interessante com o sociólogo Eduardo Viveiros de Castro. Aborda a história recente do Brasil, suas relações com Levi-Strauss e a noção de perspectivismo indígena.
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Entrevista muito interessante com o sociólogo Eduardo Viveiros de Castro. Aborda a história recente do Brasil, suas relações com Levi-Strauss e a noção de perspectivismo indígena.
Conforme Assange, há meses o site sofria ataques de hackers "não identificados", isto é, de governos afetados pelas denúncias. Mas dias atrás o próprio alocador do site, a Amazon, retirou-o do ar.
Depois disso um curioso movimento começou: a proliferação de inúmeros sites mirrors do Wikileaks. Vale conferir, acessar e, sobretudo, continuar multiplicando.
Como vale também ler essa entrevista, na qual Assange fala sobre o site, seu papel político e a importância do anonimato e neutralidade da Rede.
***
E… enquanto esse post terminava, o Idelber publicou o último informe do wikileaks.
Muito interessante a entrevista com Slavoj Zizek sobre a "era da democracia terminal". Em pauta, a crise contemporânea e a ascensão da China como possível exemplar do mundo futuro:
O senhor sustenta que foi cortada toda conexão entre democracia e capitalismo. Como isso ocorreu? E o que substituiu hoje esse laço?
Sim, na minha interpretação, isso ocorre principalmente na China, embora não só lá. Há algum tempo, o meu amigo Peter Sloterdijk me confessou que, tendo que imaginar em honra de quem se construiriam estátuas em um século, a sua resposta seria a Lee Kwan Yew, por mais de 30 anos primeiro-ministro de Singapura. Foi ele que inventou aquela prática de grande sucesso que, poeticamente, podemos chamar de "capitalismo asiático": um modelo econômico ainda mais dinâmico e produtivo do que o nosso, mas que pode abrir mão da democracia e até funciona melhor sem democracia. Deng Xiaoping visitou a Singapura quando Lee estava introduzindo as suas reformas e se convenceu de que esse modelo deveria ser aplicado na China.
A China é o surpreendente laboratório no qual se projeta o nosso futuro?
Digamos que há alguns elementos que vão nessa direção. Se um novo modelo se afirma e condiciona mundos culturalmente distantes, não se pode não avaliar sua força de penetração. Além disso, vejo aspectos desse processo também nos EUA (…). Não é, portanto, uma questão de indivíduos loucos ou autoritários: não, há algo no capitalismo contemporâneo que leva nessa direção.
(…) A famosa "globalização" ampliou problemas que tradicionalmente encontravam uma solução no âmbito dos Estados-nação. Hoje, não é mais assim. Que efeitos isso traz para a democracia?
Acredito que os mecanismos democráticos não são mais suficientes para enfrentar o tipo de conflitos que se colocam no horizonte (…). Parecem exigir um "governo de especialistas" muito decisório, que se expresse na naquilo que é preciso fazer e o coloque em ação rapidamente, sem muitas cerimônias (…). E é um fenômeno verdadeiramente novo, uma época nova, eu diria. Mas o ponto, veja bem, não é criticar a democracia em si. É preciso compreender como a democracia está se autodestruindo, e é importante destacar seu aspecto estrutural: não se trata das decisões de péssimos líderes individuais, da sua sede de poder ou afins: é o próprio sistema que não pode mais se reproduzir de modo autenticamente democrática.
A entrevista continua lá. Mas é curioso notar como Zizek critica o capitalismo (e os capitalistas) de um jeito muito semelhante a como se criticou muito certa omissão dos partidos comunistas frente ao stalinismo algum tempo atrás. Depois da morte de Stalin, surgiram diversos "escândalos": em torno da existência dos Gulags, do culto à figura de Stalin (como um regime dedicado à superação das individualidades cultua um indivíduo-mor?), do uso estatal da ciência (Lyssenko é o caso agudo, mas isso também se refletiu em Pavlov), das práticas autoritárias…
Na época, muitos (especialmente diversos partidos comunistas) tentaram concentrar as críticas no que a URSS apresentava de negativo: "nós não compartilhamos desses defeitos", "não incorreremos nos mesmos erros" eram os temas gerais. Retirando um erro aqui, fazendo uma correção ortopédica ali, os novos regimes comunistas não incorreriam nos erros do regime soviético.
Mas muitos desses críticos, chamando a atenção apenas ao que a URSS tinha de negativo, não chegavam a se perguntar como foi possível algo como o Gulag ser criado em um regime que deveria ser comunista. Isto é, o Gulag não se anexou às práticas soviéticas como uma anomalia exterior; essas práticas mesmas articularam, de algum modo, a necessidade dos Gulags. O problema efetivo não passaria então por simples correções ortopédicas, mas em levar a sério como tais práticas se tornaram possíveis.
Zizek parece fazer, a quem considera os "desvios" do capitalismo apenas como desvios ajustáveis, perguntas semelhantes. Do lado de cá da Cortina de Ferro e até hoje, sempre o ligamos ao "mundo livre". Mas esse vínculo há muito também balançava (por exemplo nos golpes de Estado patrocinados pelos EUA e o apoio a diversas ditaduras depois do pós-guerra), de modo enviesado, mas estourando hoje em questões como a tortura, a vigilância generalizada e as mudanças na produção e na concorrência internacional. Seriam esses fatores "desvios" do capitalismo? Zizek sugere que não.
Entrevista com Sergio Amadeu:
O Plano Nacional de Banda Larga no fundo é o reconhecimento de que a Anatel não conseguiu que a empresas operadoras, simplesmente por medidas regulatórias, expandissem a banda larga. Até porque a banda larga, ao contrário da telefonia fixa, não tem metas de universalização. Então as operadoras cobram o que querem e não são obrigadas a cobrir todo o território. Já o reconhecimento de que elas não estão dando conta dessa necessidade urgente do nosso país, fez com que o governo retomasse a Telebrás pra criar uma competição justa e importante com essas operadoras. E elas vão ter baixar preço, vão ter que ampliar sua malha. [entrevista completa]
A entrevista é muito interessante, especialmente considerando a ameaça de projetos de lei como o de Eduardo Azeredo.
Além do mais, Amadeu põe em questão um dos objetivos básicos da privatização das telefônicas: a idéia de que traria competição e maior acessibilidade. Ao invés de competição, as privatizações geraram um grande oligopólio, inibidor de iniciativas menores. O Plano da Banda Larga criará consumidores e estimulará a competição.
Amadeu também comenta sobre a neutralidade da internet e a importância da Rede não ser simplesmente regida pelo Mercado, mas constituir um espaço aberto e "comum".
Sempre considero um bom livro mais inteligente que seu próprio autor. Ele pode dizer coisas que o autor ignora
(Umberto Eco, via @sergioleo, tradução livre)
A depender de muitos organismos dominantes da internet, dentro de alguns anos deveríamos dar adeus às tradicionais imagens do pesquisador: aquele homem bondoso, trabalhador de laboratório ou enterrado em bibliotecas, contribuindo para o conhecimento humano.
Tais organismos, como o Jstor e o Springerlink, ganham dinheiro cobrando do usuário o acesso de artigos científicos. Aquela imagem do pesquisador bonzinho deveria, assim, ceder lugar a alguma outra (talvez aquela do executivo de sucesso que representa mais o primado do interesse bem pago e menos o do conhecimento altruísta)
Imagine o leitor precisando acessar 10 artigos para uma pesquisa. Os preços variam: 20, 30, 35 dólares… cada um! Gasto idiota (=submetido a interesses particulares) tanto para o bolso pessoal quanto para o emprego de verbas públicas, visto que tudo deveria ser indiscutivelmente gratuito.
Isso gera um efeito muito curioso, semelhante ao de algumas empresas burocráticas que trocaram a máquina de escrever pelo computador apenas para "dificultar" o trabalho de configurar a impressora e buscar o papel. No caso de empresas como o Springerlink, requisitar um pequeno artigo de poucas páginas implica vários e vários formulários com tempo de resposta de 10 dias úteis, contratos de cláusulas gigantescas e ameaçadoras (se pelo menos protegessem o autor…), links minimalistas e labirínticos, sem considerar o preço.
Nesse sentido, não foi por acaso a ação impetrada contra Horacio Potel. Curiosamente, multiplicadores do livre conhecimento começam, depois de 15 anos de abertura da WEB, a se tornar perigosos na visão dessa gente.
Tempos atrás apareceu um debate sobre autores que recusam conceder direitos de cópia a esses sites pagos. Se eles cobram, deveriam pagar ao autor, não é mesmo?
Não é à toa também o debate sobre o Google conceder privilégios a um único meio, o Verizon. Ou mesmo o medo de bibliotecas como a BNF diante da soberania - e fechamento - de boa parte dos conteúdos do Google Books.
Por isso trabalhos semelhantes ao de Potel nunca foram tão necessários.
Greeting the “Arctic Highlanders” (Inughuit) in Greenland (detail), from John Ross, A Voyage of Discovery, 1819.
O César Schirmer divulgou uma reportagem muito interessante, sobre a pesquisa de um antropólogo para documentar uma cultura com pouco tempo de vida: dentro de 10 ou 15 anos, os últimos esquimós Inughuit abandonarão o Ártico por problemas decorrentes às mudanças climáticas.
No outro lado do mundo, dias atrás o fotógrafo amador Jan Reurink chamou discretamente a atenção sobre o desaparecimento dos nômades no Tibet. O governo chinês se interessa em gradativamente assentar esses nômades, fazendo avançar o papel do Estado e todas as medidas populacionais a ele inerentes (saneamento, educação, saúde, moradia, exploração econômica dos recursos, etc.).
De um lado, as mudanças climáticas dificultam a existência de antigos ritos e culturas peculiares. De outro, o avanço sócio-econômico desaloja (ou melhor: aloja, e isso é o mais interessante) culturas irredutíveis.
Uma frase de Albert Einstein tornada clichê diz: "A imaginação é mais importante do que o conhecimento". De fato, a imaginação já se tornou até mesmo moeda, capital. As empresas hoje a utilizam, sugando o gás de seus funcionários, no que diz respeito a "capital intelectual", "capital humano" e outros termos. Não tratam mais de "recursos humanos", mas de "pessoas geridas".
E fora das empresas, como anda nossa imaginação? Durante a última Copa do Mundo, um repórter da Globo visitou um santuário ambiental na África do Sul destinado a pinguins. A descrição do repórter foi muito curiosa (parafraseio): estes pinguins andam, aqueles correm; uns parecem utilizar o penteado mais radical, enquanto outros caminham na pedra; enfim, aqueles protegem os filhotes, e aqueles outros nadam, e assim por diante.
Após viajar várias horas de avião, reunir funcionários com altos salários, deslocar-se para uma matéria, filmar e editar, o que constata nosso repórter? Que os pinguins "andam" mais ou menos rápido, na pedra ou na praia.
Se esse fato é isolado, o resto da programação desmente. Ou mesmo, não há algo parecido com isso, por exemplo, ao visitarmos os museus ou vermos as grandes massas de turistas? De algum modo, como dizia Peter Lamborn Wilson, o turista às vezes faz mais mal a um lugar visitando-o do que permanecendo em casa. Ele se encontra com o jornalista da Globo quando abre a boca ou lança seus vídeos no Youtube: "vê esse lugar milenar, acessível a poucos e custoso para um brasileiro comum chegar? Olha essas escadas, elas vão até o alto; veja essas pedras, provavelmente demorou trazerem até aqui. Antiga essa estátua, né? De quem ela é mesmo? Deve ser da antiga crença deles".
Certamente, um turista ou uma empresa privada como a Globo podem fazer o que bem entendem com seu dinheiro. Podem filmar terabytes e visitar todos os lugares do mundo. Podem contratar guias e fazer analogias antropomórficas, como se entre nós e aqueles pinguins a diferença fosse igual a zero (se bem que isso poderia dar a pensar). Mas se resumiriam os pinguins a andar de tal ou qual forma? E a escada, resumiria tudo o que é no fato de ser "de pedra" e "ir até o alto"?
Aquele pedaço de pedra é apenas um artefato tosco e feio, se não pensarmos em quem o moldou, ou como era aqui antes de ser isso tudo, ou de que forma isso aqui se tornou o que é. O simples pedaço de pedra é a prova concreta de tudo o que ignoramos, do quanto não sabemos e somos pequenos. Podemos sair dali e perguntar onde fica o próximo McDonalds, como fez agorinha o turista coreano. Não me é tudo isso indiferente ao fato de eu estar ali? (curiosa indiferença, essa minha presença)
De algum modo, as edições fotográficas de Sergey Larenkov nos mostram toda essa ignorância e desconhecimento que ousamos não sustentar diante de qualquer experiência. A edição certamente faz parte de todos esses estilos plug and play, tão presentes em nosso mundo. Larenkov simplesmente foi até o mesmo ângulo, tirou outra foto, mesclou a nova e a antiga. Mas seu jogo é muito interessante: aqui mesmo, onde passam essas pessoas, onde tudo é indiferente, isso tudo é repleto de significado. Podemos permanecer indiferentes a ele, mas é inegável que, muitas vezes, tudo isso pode até dizer respeito ao que somos e à nossa indiferença.
(…) Appelbaum, a U.S. citizen, was taken into a room, frisked and his bag was searched. Receipts from his bag were photocopied and his laptop was inspected but it’s not clear in what manner, the sources said. Officials from the Immigration and Customs Enforcement and the U.S. Army then told him he was not under arrest but was being detained, the sources said. They asked questions about Wikileaks, asked for his opinions about the wars in Iraq and Afghanistan and asked where Wikileaks founder Julian Assange is, but he declined to comment without a lawyer present, according to the sources. He was not permitted to make a phone call, they said.After about three hours, Appelbaum was given his laptop back but the agents kept his three mobile phones, sources said.(…)
Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando "criticam" alguém, quando "denunciam" as suas idéias, quando "condenam" o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: "demolir", "abater", "reduzir ao silêncio", "sepultar". E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico. É verdade, não vivemos em uma região em que os intelectuais são mandados ao diabo; mas, na realidade, diga-me, por acaso ouviu falar de um certo Toni Negri? Por acaso não está na prisão exatamente enquanto intelectual?
A internet está mais para grande espaço fragmentado de posições, onde cada território está ocupado por opiniões muito bem definidas e que não entram em contato com ideias diferentes. Manifestações dissonantes são reprimidas ou ignoradas.