December 15, 2008

Primeiros Poemas, de Eduardo Graça

Recebi os Primeiros Poemas, livro de Eduardo Graça, cuidadosamente confeccionado, com trabalhos da artista portuguesa Isabel Espinheira.

Nosso amigo Absorto reuniu diversos poemas, boa parte deles escritos no "verão de 1980 quando, na praia dos sonhos que sempre ilumina, encontrei a Guida". 

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September 18, 2008

Arquivo Kavafis/Cavafy

link

http://i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/cavafy12.jpg

Último passaporte de Kavafis, com a palavra "poeta" como ocupação

August 7, 2008

Quem está com a Razão: Sócrates ou Platão?

quanto mais me pergunto
mais aumenta a necessidade da resposta
antes de mudar de assunto
queria muito saber o que está
por trás daquela porta
se fosse uma escada de incêndio
não me preocuparia
se fosse uma porta de entrada
eu ficaria sem saída
tremendo o dedo de dúvidas
decido apertar a campainha

- thadeu wojciechowski -

July 4, 2008

O Corvo em duas versões

 

Ilustração do poema, por Gustav Doré 

O Polaco da Barreirinha publicou duas versões do poema "O Corvo": a tradução de Machado de Assis; e sua própria, com Marcos Prado, Roberto Prado e Edilson Del Grassi. Muito boa!

A imagem “http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/Rap_01.gif” contém erros e não pode ser exibida.

 

April 24, 2008

De Virgílio, a Dante (de A Divina Comédia)

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Ilustração do Canto XXIII da Divina Comédia, por Gustav Doré
 
 
“Eia! toda a fraqueza em ti se mude!
Em ócio” — disse o Mestre — “ou sobre a pluma
Prêmios ninguém conquista da virtude.

“Aquele que a existência assim consuma,
Tal vestígio de si deixa na terra,
Como o fumo no ar e na água a espuma.

“Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra!
Recobra o esforço que os perigos vence!
Impere alma no corpo em que se encerra!

“Que vais subir muito alto a mente pense;
Desse abismo não basta haver saído.
Será teu prol, se a minha voz convence”.
 

(Divina Comédia, Inferno, passagem do Canto XXIV. Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro) 
 
Sobre Dante, esse site traz a Divina Comédia completa, com referências de estudos e traduções (inclusive com o poema original).  A tradução completa de José Xavier Pinheiro consta aqui. É notável o trabalho de conservação das rimas.
 
Finalmente, Gustav Doré tem vários sites dedicados às suas gravuras, que vão da Bíblia até Dom Quixote, passando também por Dante. Especialmente o Doré Ilustrations traz as imagens em alta resolução. Vale muito a pena conferir.

February 2, 2008

Los amigos

En el tabaco, en el café, en el vino,
al borde de la noche se levantan
como esas voces que a lo lejos cantan
sin que se sepa qué, por el camino.

Livianamente hermanos del destino,
dióscuros, sombras pálidas, me espantan
las moscas de los hábitos, me aguantan
que siga a flote entre tanto remolino.

Los muertos hablan más pero al oído,
y los vivos son mano tibia y techo,
suma de lo ganado y lo perdido.

Así un día en la barca de la sombra,
de tanta ausencia abrigará mi pecho
esta antigua ternura que los nombra.

Julio Cortázar

December 18, 2007

O livro das sensações


Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não- significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.

Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.

A quem, como eu, assim, vivendo não sabe ter vida, que resta senão, como a meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino? Não sabendo o que é a vida religiosa, nem podendo sabê-lo, porque se não tem fé com a razão; não podendo ter fé na abstracção do homem, nem sabendo mesmo que fazer dela perante nós, ficava-nos, como motivo de ter alma, a contemplação estética da vida. E, assim, alheios à solenidade de todos os mundos, indiferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futilmente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo subtilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais.

Retendo, da ciência, somente aquele seu preceito central, de que tudo é sujeito às leis fatais, contra as quais se não reage independentemente, porque reagir é elas terem feito que reagíssemos; e verificando como esse preceito se ajusta ao outro, mais antigo, da divina fatalidade das coisas, abdicamos do esforço como os débeis do entre timento dos atletas, e curvamo-nos sobre o livro das sensações com um grande escrúpulo de erudição sentida.

Não tomando nada a sério, nem considerando que nos fosse dada, por certa, outra realidade que não as nossas sensações, nelas nos abrigamos, e a elas exploramos como a grandes países desconhecidos. E, se nos empregamos assiduamente, não só na contemplação estética mas também na expressão dos seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituídos de vontade de querer convencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o falar alto de quem lê, feito para dar plena objectividade ao prazer subjectivo da leitura.

Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estéticas será a daquilo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem na tarde.

Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incómodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrair, sem mais nada.

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao ue fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes cegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.

29-03-1930

A incrível passagem acima abre o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, sob o heterônimo Bernardo Soares. A edição da Companhia das Letras foi organizada por Richard Zenith.

Se pudesse dizer que não é a passagem completa que chama a atenção, apontaria ao cuidado de "Soares" para com as relações entre a vida e obra, e a literatura e a vida. Curioso jogo de redobramentos. Também muito curioso jogo de "cuidados", para que a própria atividade da escrita não se confunda com seu escritor (ele mesmo algo já problemático, pois não se trata do próprio Pessoa), nem com uma mera relação de expressão pura e simples da vida (como se a obra apenas traduzisse traços dela), ou de negação total de toda expressão.

Tudo isso, no início do livro. (!!)

- Quadro acima: "Retrato do Poeta Fernando Pessoa", de José Sobral de Almada Negreiros.

November 9, 2007

Quem sabe guardar pra si

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Sempre nas noites do campo,
Onde as almas andam inquietas
E a inspiração dos poetas,
Vai muito além de um olhar.
Surge nas sombras cansadas,
Do fogo que ainda insiste,
Uma lembrança que existe,
Pelos cantos do lugar.

Quem sabe guardar pra si,
Silêncios de um fim de tarde,
Tem Quero-queros de alarde,
Pra anunciação de quem vem.
Desenha sombras pra alma,
Mesmo que a alma não queira,
Pois sabe guardar inteira,
As saudades que se tem.

- Luiz Marenco

October 2, 2007

Do tempo

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         (…)
         Dentro das filosofias
         Dos confúcios galponeiros
         Domadores, carreteiros
         Que escutei nas noites frias
         Acho que a fieira dos dias
         Não vale a pena contar       
         E chego mesmo a pensar
         Olhando o brasedo perto
         Que a vida é um crédito aberto
         Que é preciso utilizar.

         Guardar dias pro futuro
         É sempre a grande tolice
         O juro é sempre a velhice
         E de que adiante este juro
         Se ao índio mais queixo duro
         O tempo amansa no assédio
         Gastar é o melhor remédio
         No repecho e na descida
         Porque na conta da vida
         não adianta saldo médio!

         - Jayme Caetano Braun -

August 8, 2007

Sueño con Serpientes - Silvio Rodriguez

Para quem não conhece, Silvio Rodriguez é um cantor cubano. Lutou na Revolução, foi trabalhador em barco pesqueiro, e hoje é deputado. Seus temas refletem a situação da América Latina desde a segunda metade do século XX.
 
A primeira vez que ouvi a canção“Sueño con Serpientes” foi pelo conjunto Viento Sur, de Curitiba. Pertence ao primeiro disco desse grupo, que me fez conhecer, dentre outras preciosidades, Daniel Viglietti. É daquelas músicas de "tremer a espinha". Essa versão foi gravada em um documentário, em VHS. A imagem não está tão boa, mas o clima da gravação é bem legal!
 

 
Como Oxalá
"Hay hombres que luchan un día y son buenos.Hay otros que luchan un año y son mejores.Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos.Pero hay los que luchan toda la vida:ésos son los imprescindibles".

Bertolt Brecht.

Essa interpretação também é muito bonita.