April 30, 2008

O que é o Behaviorismo? (com vídeos de B. F. Skinner)

A referência, com mais 6 vídeos originais do próprio Skinner (!), consta lá no Avanços em História da Psicologia. Segue a definição ;) :

Behaviorismo (Comportamentalismo): Um movimento psicológico, agora extinto, construído sob a premissa de que você é o que você faz, e você faz porque você fez. Substituído pelas psicologia humanista (você é o que você sente), ciência cognitiva (você é o que você pensa), Dr. Atkins (você é o que come), e a publicidade moderna (você é o que dissermos).

Abaixo, duas fotos de B. F. Skinner,

img222/1295/skinnerky2.jpg  img222/4020/dracula3vk1.jpg

durante as pesquisas, e em uma curta passagem pelo cinema.

April 18, 2008

Estereótipos e sucesso

Photobucket - Video and Image Hosting


imagem de Indigenous Races of the Earth, de 1857 (daqui, por aqui)
 
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February 18, 2008

Da nova matança nos EUA (e de antigos assassinatos em massa)

A polícia dos Estados Unidos divulgou nesta sexta-feira a identidade do homem que abriu fogo em uma universidade do país na quinta-feira, matou cinco pessoas e feriu cerca de 15 antes de se suicidar.

O atirador foi Stephen Kaszmierczak, de 27 anos, um ex-estudante de sociologia da Universidade Northern Illinois, onde ocorreu o ataque.

"Ele era um estudante excepcional, era um estudante premiado", disse Donald Grady, chefe da polícia da universidade, que fica perto de Chicago. "Ele era admirado pelos professores, por funcionários e estudantes."

"Não tínhamos nenhuma indicação de que esse poderia ser o tipo de pessoa que pudesse realizar ações como essas."

(…) Este é o quarto tiroteio em uma escola americana ocorrido em uma semana.

Na última sexta-feira, uma mulher matou a tiros duas outras estudantes antes de cometer suicídio no Colégio Técnico da Louisiana, na cidade de Baton Rouge.

Em Memphis, Estado do Tennessee, um adolescente de 17 anos foi acusado de atirar e ferir gravemente um estudante na segunda-feira. Na terça-feira, um estudante de 15 anos foi baleado em um colégio da Califórnia.

Há dez meses, um estudante da Universidade Virginia Tech, no Estado da Virgínia, matou 32 estudantes e funcionários da instituição.

O que parece interessante, nisso tudo, é a recorrência desse tipo de crime, nos EUA.

Para explicá-lo, alguns, na linha de um ultra-conservadorismo não esclarecido - mas de voz perigosamente ampliada, nos EUA -, forçam "hipóteses" no mínimo duvidosas

Outros, buscam traçar o perfil psicológico dos matadores. No caso de Kaszmierczak, começam as interrogações sobre a vida pregressa: a separação da namorada, ou a interrupção no uso de anti-depressivos poderiam ser indícios. Mas seriam fatores preponderantes? O PsychCentral conjectura: em 2001 Kaszmierczak saiu do exército, por motivos "sem especificação"; já foi também chamado de "um indivíduo que obviamente tinha problemas".

Traços de assassinos em massa poderiam perpassar a solidão, "mas não necessariamente". Ainda, uma espécie de desejo de onipotência diante do controle da vida alheia, baixa auto-estima, desejo de reconhecimento, obsessão por um grande número de vítimas, e planejamento da matança. Boa parte teve histórico de "depressões" e "desespero" agudo, e dados sobre sensibilidade exagerada a perdas.

Curioso notar como esse tipo de assassínio parece a antiga "loucura moral" ou moral insanity, do século XIX. A moral insanity desembocou nas categorias contemporâneas de transtorno de personalidade anti-social. Mas uma de suas antigas acepções é digna de nota: sem motivo aparente, um indivíduo de repente cometia atos monstruosos; não havia notável história pregressa, e após o crime vários desses indivíduos retornavam à vida normal. Como caracterizar o crime? Seria fruto de uma vontade maligna repentina, livre e responsável, ou resultado de um mecanismo corporal súbito, que suspenderia as funções normais? Entre o ato livre, responsável e culpado, e a determinação imatura e inocente, os psiquiatras oscilavam as perspectivas.

E as recorrentes observações sobre os assassínios de Virginia Tech, Columbine, e outras, deparam-se sempre com o fato de que a história de vida pregressa dos matadores são critérios marcantes, mas não preponderantes, para se caracterizar o ato como "patológico". Marcantes, porque os psiquiatras buscam "traços" da história pregressa, aparentemente agrupáveis; não preponderantes, entretanto, porque uma parcela significativa da população pode desenvolver os mesmos traços, sem entretanto organizar matanças.

Para complicar, percebe-se facilmente que, embora se possa afirmar sobre certa constância estatística de transtornos mentais - o DSM é empregado como parâmetro importante em vários países, inclusive no Brasil -, não encontramos matanças como essas em outros lugares.

Na forma e no conteúdo, algumas coisas não se encaixam. Ora, se não existem dados conclusivos sobre as matanças nos EUA, se a única diferença entre esses matadores e outros indivíduos freak é apenas o ato assassino, e se novas matanças sem dúvida ocorrerão, é porque o fundo delas pode não residir apenas em indivíduos raivosos que escolhem matar.

A "hipótese duvidosa" expressa acima pode dizer mais do que conta: quando um pastor republicano prega que um indivíduo mata 12 pessoas em uma escola por estar "possuído pelo demônio", pretende dizer - depurando suas fantasias - que sob aquele ato permanece uma vontade "maligna", e portanto um indivíduo já marcado por valorizações negativas; em contrapartida, quando um Cho Seung Hui se compara a Cristo e "justifica" a matança como uma reação ao modo de vida de suas vítimas (uma matança generalizada não denota uma imputação de culpa generalizada?), mostra-se um conjunto de relações que é tão recorrente quanto os outros traços das matanças. Um relatório do Departamento de Defesa norte-americano intitulado Implications for the Prevention of School Attacks in the US tem como dado conclusivo - dentre vários outros inconclusivos, vale notar - o bullying:

Finding
Many attackers felt bullied, persecuted or injured by others prior to the attack.
Explanation
Almost three-quarters of the attackers felt persecuted, bullied, threatened, attacked or injured by others prior to the incident (71percent, n=29).21
In several cases, individual attackers had experienced bullying and harassment that was long-standing and severe. In some of these cases the experience of being bullied seemed to have a significant impact on the attacker and appeared to have been a factor in his decision to mount an attack at the school.22 In one case, most of the attacker’s schoolmates described the attacker as "the kid everyone teased." In witness statements from that incident, schoolmates alleged that nearly every child in the school had at some point thrown the attacker against a locker, tripped him in the hall, held his head under water in the pool or thrown things at him. Several schoolmates had noted that the attacker seemed more annoyed by, and less tolerant of, the teasing than usual in the days preceding the attack. (p. 30)

Em outras palavras, existe uma contra-partida no histórico dos assassinos; ao mesmo tempo em que boa parte deles são considerados pessoas problemáticas, outro fator recorrente é um histórico de violência moral recebida. O bullying generalizado, e estendido nos EUA até certos círculos universitários, gera algumas características muito particulares. O que pode dizer muito mais respeito sobre relações sociais, do que apenas desordens psicológicas - estas frequentes, e delimitáveis também em outros países.

E o "algo mais" se completa com aquela informação já conhecida, do cineasta Michael Moore: algo  ambíguo também diz respeito à indústria armamentista ter um papel semelhante ao dos "traços" psicológicos: o acesso às armas é fundamental, mas não essencial para explicar as matanças. Mas como esse cineasta bem lembrou, outras culturas que também legalizam a posse de armas não enfrentam problemas semelhantes.

Conclusão? Os analistas não conseguem - "ainda", dizem alguns - prever matanças; mas o fácil acesso às armas, unido a predisposições individuais e uma cultura carregada de intolerância e violência moral peculiares, pode resultar em uma mistura nefasta. Curioso notar, em todo caso, a correlação entre esses acontecimentos, e as relações interpessoais a que estão ligados.

***

E a BBC parece não se decidir sobre quantas vítimas gerou o último atentado 

January 23, 2008

O affair sobre as bases biológicas da violência

O que é a violência? Por entre as noções sócio-históricas e biológicas, ocorre um permanente debate, desperto nos últimos dias por uma recente proposta de pesquisa. Encabeçada por Jaderson da Costa, ela pretende mapear o cérebro de 50 "menores infratores" do Rio Grande do Sul. Dentre outras considerações, pretendem pesar os elementos neurobiológicos que influem na violência, para além de determinantes individuais como a história de vida, e sociais. Contra a proposta de Costa, organizou-se um abaixo-assinado repudiando a pesquisa, alegando que ela contraria o Estatuto da Criança e do Adolescente, e reduz a questão da violência a determinados grupos sociais. Conforme Costa,
os signatários do abaixo-assinado aderiram ao movimento por desinformação ou por não compreenderem a reportagem sobre a pesquisa.

"O que eles assimilaram foi que nós estaríamos sendo reducionistas, procurando simplesmente uma base neurobiológica e desprezando qualquer outro fator", diz Costa. "Na realidade, é um projeto que visa mesmo ver bases neurobiológicas, neurológicas e genéticas, mas não descuida dos aspectos neuropsicológicos, psiquiátricos, emocionais e sociais."

Segundo o neurocientista, a reação contrária à pesquisa se deve a uma vertente acadêmica que rejeita a incorporação da neurobiologia no estudo do comportamento humano. "Existe uma corrente retrógrada, que quer manter o conhecimento como está", diz. "Mas o foro para resolver essas coisas não é esse bate-boca com abaixo-assinado. O foro é a academia, a discussão acadêmica."

Observando essas considerações iniciais, já aparece um primeiro problema: para julgar um projeto, devemos ter acesso a ele. E Costa chama atenção a duas coisas: à necessidade de um debate acadêmico, e ao imediatismo e pouco conhecimento das reações opostas. Outra questão, ainda, seria a da "corrente retrógrada", impedindo experimentos de neurociências.
 
Quanto ao debate acadêmico, nenhuma objeção. Quanto ao pouco conhecimento dos opositores, Costa chama atenção a algo muito importante, especialmente sobre o estatuto das neurociências. Isso porque, no mesmo movimento em que houve nos últimos 20 anos um boom dessas disciplinas, com mesma intensidade ocorreram reações contrárias (provavelmente, os "retrógrados", segundo ele).
 
No caso em questão, cumpre precisamente chamar a atenção aos abusos. Ocorre, de fato, um abuso de idéias. Inicialmente, dos opositores das neurociências. Mas os neurocientistas não ficam de fora. O que ocorre é um equívoco dos dois lados. Os opositores das neurociências negam a legitimidade de qualquer braço de pesquisa que avance, ou pareça avançar, para além dessa área de conhecimento. É o que ocorre, quando se organiza um abaixo-assinado sobre uma pesquisa dessas, que incide sobre "menores infratores". Um dos argumentos principais é que "fere o Estatuto da Criança e do Adolescente e fere os direitos humanos porque parte desse princípio: liga a violência a um determinado grupo social."
 
Ora, colocadas as coisas nesses termos, existe um "erro" e um "acerto" dos opositores. "Erro", pelos avanços das neurociências permitirem pesquisas que avancem sobre a noção de violência, e logo antes da proibição deveria haver um exame das premissas da pesquisa.
 
Mas o "acerto" dos opositores é chamar a atenção à categoria de entrevistados, e a ligação ao termo "violência". Ora, para se fazer uma pesquisa sobre as bases biológicas da violência, deve haver uma definição rigorosa desse termo. O argumento da pesquisa consiste na história pregressa de cada sujeito analisado:
Para isso serão avaliados também aspectos genéticos, neurológicos, psicológicos e sociais de cada pesquisado. Serão examinados dois grupos: um de internos da Fase e outro de meninos sem passado de crime, para efeito de comparação. O projeto vai olhar para questões sociais, mas o foco é mesmo o fundo biológico da questão.

"Estamos nos baseando em trabalhos que já existem mostrando que há um período crítico no início da vida e que se uma criança é maltratada entre o 8º e o 18º mês ela adquire comportamento alterado na idade adulta", diz um dos mentores do projeto, o secretário de Estado da Saúde do Rio Grande do Sul, Osmar Terra, aluno de mestrado de Costa.

(…) Para os cientistas, um ambiente de desenvolvimento inadequado pode mesmo "fabricar" um psicopata: pessoa que despreza regras de convívio social e é desprovida de sentimentos de empatia e afeto.

O papel do mapeamento cerebral por ressonância magnética na pesquisa é tentar entender a manifestação física de problemas como esse. O trabalho que inspira Costa nessa área é um artigo do grupo do neurocientista português António Damasio publicado em 1999. O estudo mostra que meninos que sofreram lesões no córtex pré frontal - região do cérebro próxima à testa - tinham sérios problemas de sociabilidade após crescer.

"A aquisição de convenções sociais complexas e de regras morais se estabelece precocemente", diz Costa. "Essas lesões podem resultar mais tarde numa síndrome parecida com a psicopatia." O cientista quer saber se, independentemente de lesões, meninos cronicamente violentos tenham atividade reduzida em alguma região do córtex pré frontal, área cerebral ligada a tarefas mentais que envolvem juízo moral. "Não queremos que isso sirva como roupa sob medida para explicar todos os casos, mas pode explicar boa parte", diz.

A relação cérebro x padrão comportamental em uma pesquisa como essa toca em uma questão fundamental, a da relação entre as ditas atividades mentais superiores (como a linguagem, a consciência e a moralidade) e inferiores. Por exemplo, fome e saciação podem ser delimitadas no hipotálamo. Teoricamente, dados certo termos, um neurocientista poderia afirmar que determinados problemas relacionados ao apetite se concentram em lesões, ou em atividades anormais dessas áreas. Entretanto, nos situamos aqui em um tipo de atividade menos complexa, ou no que um behaviorista, por exemplo, chamaria de reforçador primário. Ora, o leque das reações e padrões possíveis de um indivíduo no quesito "fome" é muito menos complexo do que em um comportamento complexo como a emoção, que envolveria tanto os ditos reforçadores "primários", quando "secundários" (sociais). Existe uma diferença de complexidade entre possíveis comportamentos de "violência", por exemplo, e comportamentos de "fome". Reações de fome são diretamente corporais, enquanto um mesmo ato violento pode implicar diferentes resultados quando relacionado a uma briga ocasional, uma guerra, ou um esporte. Em suma, como diria Sartre, uma mesma leitura do cérebro poderia encontrar um padrão similar, em um bom ator e em um psicopata.  

Outra questão é a associação apressada entre os termos criminoso, "menor infrator", e psicopata. Como afirmaram os opositores da pesquisa, utilizar 50 "menores" detentos de um lado, e um grupo controle de outro, expõe uma categoria social que talvez seja indevidamente ligada à sociopatia. Existe de fato uma correlação notável entre doenças mentais e pobreza, especialmente no Brasil. Mas, para comprovar um fundo biológico, a pesquisa detém-se em uma categoria social ("menor infrator"). O que gera dois problemas: um ético, e outro conceitual.

De todo modo, o neurocientista tem também um ‘erro’ e um ‘acerto’. O ‘erro’ é precisamente a pressa em extravasar o campo das neurociências, em direção às atividades sociais. Um dos principais motivos da pesquisa, conforme Costa, é o da saúde pública: "Algo que sempre foi negligenciado foi o entendimento da violência como aspecto de saúde pública". É claro que isso envolve duas questões, uma moral e outra de normatividade. Como já dizia Georges Canguilhem, sempre foi estranho esse interesse imediato dos analistas do cérebro apressadamente se intrometerem em questões como as do emprego e do crime. Como se os resultados últimos de um interesse científico já viessem a ditá-los, logo de saída. Aspecto que permanece sobranceiro sobre uma pesquisa que quer a si mesma o estatuto de desinteressada. Foi assim que a frenologia, por exemplo, desenvolveu-se tanto, no século XIX. Mesmo sendo uma pseudociência, já pregava circunvoluções do cerebrais para os psicopatas.

O "acerto" da pesquisa é uma aposta, e portanto, não é um acerto absoluto: será que a teoria da lesão cerebral sobreviveria ("O estudo mostra que meninos que sofreram lesões no córtex pré frontal - região do cérebro próxima à testa - tinham sérios problemas de sociabilidade após crescer"), a ponto de pressupor que comportamentos complexos como os morais seriam diretamente relacionados a respostas emocionais, e os dois a fatores preponderantes do cérebro? Sempre existe a aposta de mapear substratos cerebrais para um comportamento complexo, numa tentativa de multiplicar os resultados das teorias do cérebro como um "sistema funcional", características do século XX. E a teoria da lesão protegeria os neurocientistas do contra-argumento acima, de Sartre. Pois se não houver lesão, é difícil explicar, por exemplo, como um mesmo padrão cerebral geraria um ator, um "menor infrator", ou um político brasileiro, por exemplo.

Mas essa aposta do neurocientista não mostra por outro lado pesquisadores "retrógrados" (os opositores, ou pelo menos os bons opositores das neurociências). Mostra precisamente os limites da pesquisa. E por "limites", devem-se colocar tanto os éticos (resolvidos, nesse caso, por metodologias que contornem os problemas acima), quanto os conceituais. Nos conceituais deve residir o interesse do debate.

December 14, 2007

Nietzsche, um louco

img527/7476/ubermenscham2.jpgO texto chama-se O Declínio de Nietzsche, do psiquiatra Vittorino Andreolli. Sigamos:  

 Um dos principais filósofos do século XIX, o alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche foi vítima de um distúrbio mental, provavelmente causado pela sífilis, que arruinou seus últimos anos de vida e cuja evolução pode ser percebida em suas obras.

A evolução da doença se divide em três fases: na primeira a infecção fica restrita aos órgãos genitais; na segunda, alastra-se pelo organismo; na terceira causa paralisia progressiva e demência. Nietzsche adoeceu em 1873, mas só se afastou da atividade docente na Universidade da Basiléia em 1879 − quando sua voz era quase inaudível para os alunos. Os sintomas da demência só vieram dez anos depois, mas os primeiros sinais de deterioração intelectual já aparecem nos seus textos de 1887.

O que se observa, a partir de A gênese da moral, é a passagem de um Nietzsche que escreve com força e determinação, de forma densa e ao mesmo tempo sintética, para “outro” que parece incapaz de afrontamentos, que se perde entre notas e apontamentos publicados postumamente e cuja organização lógica até hoje é alvo de críticas. Nessa mesma época, o filósofo alemão redige quatro panfletos pouco concisos, cheios de contradições, que parecem escritos com raiva, algo que os leitores não esperavam encontrar em volumes de filosofia.

Os quatro panfletos
O primeiro, Nietzsche contra Wagner, de 1888, chega a ofender o amigo músico. Depois de se aconselhar com seu editor, o filósofo corrige o texto, publica-o novamente com um prefácio, um epílogo e ainda um post scriptum. O segundo panfleto se chamaria Alegria de um psicólogo, mas por sugestão do editor recebeu o título O crepúsculo dos ídolos: ou a filosofia a golpes de martelo. Diz o autor nesse texto: “Não existe uma realidade supra-sensível, aquela imaginada pelos idealistas, não existe um mundo racional, não há um mundo moral, ainda que os moralistas continuem insistindo. Não existe nem mesmo o mundo das aparências. Definitivamente não existe nada”.

O anticristo é o terceiro panfleto e se limita a demolir o cristianismo. Aqui também as frases são carregadas de violência, ira e ausência de reflexão e de direção. O quarto e último panfleto é Ecce homo. O que significam os títulos desses dois textos? Uma referência a Cristo? Talvez O anticristo fosse somente um nome para indicar a figura mítica de Dionísio, que Nietzsche passou a encarnar em algumas cartas a amigos.

Outra idiossincrasia diz respeito ao emprego de expressões líricas, usadas de forma superficial em alguns textos, ao mesmo tempo que outros se aprofundavam na introspecção e na auto-reflexão. Estes elementos testemunham o declínio de uma mente brilhante, declínio este que começou exatamente no dia 5 de janeiro de 1889. Nesse dia Nietzsche teve início a enviar cartas aos amigos Jacob Burckhardt e Franz Overbeck. Ao primeiro escreveu: “Eu sou Ferdinand de Lesseps, eu sou Prado, eu sou Chambige [assassinos dos quais se ocupavam a imprensa parisiense], eu fui envolvido no lençol dos mortos duas vezes neste outono”. Overbeck recebeu uma carta com o mesmo conteúdo macabro. Em uma terceira correspondência, enviada ao músico Peter Gast, ele assina como “o crucificado”. À antiga amiga Cosima Wagner (mulher do compositor Wilhelm Richard Wagner), escreve: “Arianna, eu te amo”. Assinado: “Dionísio”.

Anos depois, historiador francês Daniel Halévy refaz o caminho de Overbeck em busca do amigo perturbado: “Overbeck parte para Turim. Encontra Nietzsche num quarto mobiliado, cantando e gritando sua glória, batendo no teclado do piano (…) Mais tarde, ao sair de casa, viram um homem que guiava uma carroça batendo no próprio cavalo; indignado, o filósofo colocou-se imediatamente entre os dois, imobilizando o homem com os braços e impedindo-o de continuar a bater no animal. Os transeuntes pararam para olhar, um agente policial interveio. Queriam retirá-lo daquela situação, mas ele se jogou no chão, parecia numa crise de delírio (…) O policial decidiu algemá-lo, mas Overbeck intercedeu. Falando em nome da Universidade da Basiléia, obteve permissão para levá-lo de volta para casa”.

Nietzsche estava completamente perturbado. Misturava canções, dirigia-se às pessoas por meio de cantigas. Um médico da Basiléia, cujo filho era grande apreciador das obras do filósofo, dedicou-se ao caso com particular atenção e o transferiu para uma clínica psiquiátrica em Jena, de onde saiu em 1897 para viver com a mãe em Naumburg. Com a morte dela, mudou-se para a casa da irmã em Weimar, onde permaneceu até a morte em 1900. Desses anos sabemos muito pouco. É possível que ele tenha chegado à forma grave de demência, mas o assunto era delicado demais para ser comentado na época.

Algumas coisas não estão muito certas nesse texto. Outras, são muito interessantes.

Coisas estranhas: o italiano refere-se a um livro chamado "A Gênese da Moral". "Gênese"? O título original da obra de Nietzsche é Zur Genealogie der Moral; e o filósofo faz questão: Genealogie, em absoluto, nada tem a ver com Ursprung (origem). Talvez seja problema de tradução.

A respeito da obra de Andreolli, pouco sabemos. Mas um dos aspectos mais interessantes constatados por leitores de Nietzsche - e também de outros filósofos contemporâneos - é algo peculiar: como assim, um filósofo louco? Nosso amigo Andreolli arrisca dizer o limite preciso: dia 5 de janeiro de 1889 Nietzsche enlouqueceu, malgrado certos "traços" de loucura entrevistos antes, em sua obra.

O que leva a desconfiar que a data não é tão precisa assim. 

Mas isso não resolve nada. Pelo contrário, apenas recoloca o problema. Se Nietzsche é um filósofo, em que medida há em sua obra algo que se chama filosofia, e não loucura? Onde começa a loucura, e onde termina o Pensamento? Ou ousaríamos dizer que a obra de Nietzsche apenas tornou-se notória - como tantas outras - como obra de um autor louco?

Um problema muito interessante, e ao mesmo tempo insolúvel. Nossa época não pára de denotar artistas loucos como artistas (ou pensadores loucos como, enfim, pensadores). E isso tudo se assemelha aos temas (mais ou menos comuns) batidos de conservar o cérebro de Einstein, ou fazer a frenologia do crânio de Descartes. Reduz-se o problema, do Pensamento em geral, ao pensamento (com "pê" minústulo) que está ali, naquela cabeça que antes permanecia viva, e agora morreu.

Como se o Pensamento em nada nos afetasse, não estivesse comprometido com a "realidade" mesma em que se implica, e não dissesse respeito àqueles que agora buscam reduzi-lo àquele crânio. Ora, se aceitamos o postulado de que o Pensamento se reduz aos organismos que o "criam", o que nos conduz a aceitar esse postulado mesmo, sem colocá-lo em questão? Foram outras cabeças pensantes, outros sujeitos empíricos, que o "criaram". Logo, no mínimo isso abre um problema…

O artigo de Vittorino Andreolli saiu no site da Mente e Cérebro deste mês. Para quem se interessar, uma boa indicação é  Nietzsche: a experiência de si como transgressão (loucura e normalidade), de Daniel Pereira Andrade. O autor pesquisa precisamente os últimos textos do filósofo alemão, e as implicações de um "filósofo louco".

- A charge acima pertence ao JP

- Outros posts sobre esse tema: Estamira e o Trocadilo, e Os loucos e a loucura na arte

December 7, 2007

A Psicologia no balaio de gatos

 A Abraceh surgiu para promover ética, paz, cidadania e defesa dos direitos, porque os ativistas do movimento pró-homossexualismo estavam intimidando a Igreja e os missionários. A Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia, criado numa aliança com esses ativistas, pretende negar e derrubar todas as teorias psicológicas que abordam a homossexualidade como um comportamento a ser tratado e visa desestimular iniciativas de apoio aos que desejam a mudança da sua orientação homossexual.

 O trecho acima é de uma entrevista realizada em junho, com uma psicóloga chamada Rozangela Justino. Ela criou um movimento, junto com igrejas evangélicas, que busca "curar" a homossexualidade, com base em "teorias psicológicas" (aliás: quais?) que supostamente denotariam essa condição como um "transtorno egodistônico" (veja só, Artur!).  
 
Sobre isso tudo, e implicações, o Catatau escreveu um texto. Antigo, mas não inatual.
 
Curiosamente, o texto não foi respondido por quem parece mais interessado em defender essas "teorias".

Mas o problema não é bem esse. Se desse lado a psicologia se mistura com a crença dos evangélicos, lá está ela com os físicos quânticos, aconselhadores metafísicos, pastores psicanalistas arrebanhadores de milhões… Sem contar as terapias alternativas, as de vidas passadas, ou as terapias on-line tabajara. Há quem diga que recentemente se desvela também o mercado de personal friends, "grande" filão para psicólogos.

Tudo isso quando a psicologia já não é, de saída, uma arma de satanás, como querem alguns estudantes - futuramente, também psicólogos.

E não mencionamos ainda os concursos que pagam melhor os coveiros.  

O que acontece com a psicologia?

November 20, 2007

Eugenia, biologia, história, e cultura do ódio

 O História Viva publicou um interessante texto (Eugenia, a biologia como farsa) sobre o nascimento da eugenia e seu atrelamento a discursos científicos do século XIX. Especial atenção ao nascimento das várias modalidades de darwinismo social, e a curiosa articulação da nova biologia com medidas institucionais e jurídicas. O artigo menciona até mesmo projetos brasileiros como o de Renato Kehl, no início do século XX.
Em meio ao clima de crença inabalável na ciência, o naturalista inglês Charles Darwin publica em 1859 o livro fundador do evolucionismo: A origem das espécies. As descobertas de Darwin mostravam que no mundo animal, na permanente luta pela vida, só os mais bem adaptados sobrevivem e os mais bem “equipados” biologicamente têm maiores chances de se perpetuar na natureza. As teses de Darwin logo são transportadas para outros campos do conhecimento em uma tentativa de explicar o comportamento humano em sociedade. Surge assim o darwinismo social, que apresenta os burgueses como os mais capazes, os mais fortes, os mais inteligentes e os mais ricos.

O cenário estava armado para que o primo de Darwin, o pesquisador britânico Francis Galton, se apropriasse das descobertas do naturalista para desenvolver uma nova ciência. Seu objetivo: o aperfeiçoamento da espécie humana por meio de casamentos entre os “bem dotados biologicamente” e o desenvolvimento de programas educacionais para a reprodução consciente de casais saudáveis. Seu nome: eugenia.

A autora é Pietra Diwan, que publicou Raça pura: uma história da eugenia no Brasil e no mundo
 
A propósito: vale a pena ver o documentário A Cultura do Ódio, disponível no Youtube. O mais cômico - se não fosse trágico - são os skinheads ou carecas paulistas, e suas idéias gestadas no vaso, ou encontradas no lixo. Um deles sintetiza: "Heil Hitler e acabou, não tem idéia". Não é que já se suspeitava? ;)
 
A propósito do propósito: vale a pena conferir o informe sobre Leni Riefenstahl, os carecas, e o nazismo.
 
Sobre racismo e cotas raciais, interessante rever esse texto.
 

November 4, 2007

A briga dos neurônios com a consciência

Um pequeno texto cheio de imagens da Mente e Cérebro me fez lembrar de um debate já bem antigo. Reproduzo algumas imagens abaixo:

 img503/4462/rotationsanake01xp9.jpg

A chamada do artigo diz: "Ao “enganar” neurônios especializados em detectar estímulos que se deslocam, certas imagens nos fazem perceber movimento onde ele não existe".

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November 3, 2007

Pastor, e Doutor em Psicanálise

Navegando, encontro a propaganda abaixo:

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Espere aí: doutor em psicanálise? Numa escola de pastores? Estaria Deus interessado em formar seus mensageiros nas teorias do autor de O Futuro de uma Ilusão? Ou melhor, acabaram criando uma religião de psicanalistas, para além de algumas informais que existem por aí?

Nem um nem outro. O que se criou foi mesmo um Doutorado em Psicanálise, e para pastores. Para os mais ciosos de identificação, existe até carteirinha:

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October 12, 2007

Uma demonstração científica da vida futura

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Encontrei por acaso o A Scientific Demonstration of The Future Life, de Thomson Jay Hudson, publicado em 1896 (a edição do link é de 1895).

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