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Vale ler o artigo A epidemia da doença mental, de Ellen Machado Rodrigues e Pedro Tourinho.
O artigo tenta reunir e resumir argumentos de três autores, Robert Whitaker, Irving Kirsch e Daniel Carlat, em torno do boom das psicopatologias desde o nascimento da exploração comercial dos psicofármacos. Conforme os três autores, há uma relação ainda não esclarecida entre as novas doenças mentais e a explosão populacional dos "doentes" de um lado e a indústria terapêutica de outro, cujo fundo não se encontraria simplesmente nas imprecisões ou incompletudes de uma "ciência terapêutica".
CC: Numa sociedade desigual como a brasileira, a troca da autoridade pela celebridade gera agravantes?JFC: Acho. Uma sociedade como a nossa tem a característica de ter uma distância muito grande entre a prática das pessoas, o modo concreto de vida, e o mundo feérico da realidade espetacular. A percepção dessa distância gera, psicologicamente, um mecanismo de defesa muito importante, que é a tendência de a pessoa se contentar com a atividade de evasão, de alienação em relação a si próprio, e de encontrar, justamente no registro da fantasia, aquilo que se sabe ser impossível na realidade. Quanto mais longe a realidade social das pessoas está do mundo do entretenimento, maior será a tendência a se alienar. Quanto mais dificuldade ela vê para sair da vida dela para uma coisa melhor falo de progresso na realidade concreta dela, uma vida mais digna materialmente, socialmente, mais ela tem a tendência a se apegar à fantasia da realidade para encontrar sentido para a vida. Muita miséria, ao contrário do que a gente pensa, gera anomia, banditismo ou impotência e não revolta política organizada. (… vale ler tudo)
A Civilização Brasileira acabou de lançar O Livro Negro da Psicanálise (organizado por Stephenie, quer dizer, Catherine Meyer).
O livro já é relativamente antigo (este mesmo blog compartilhou alguns links sobre os debates animados ainda em 2008). E o lançamento do livro no Brasil inverte um outro debate surgido no ano passado: Michel Onfray havia publicado O Crepúsculo de um Ídolo [Le Crepuscule d’une Idole], livro que causou certo rebuliço na França, inclusive com debates acalorados entre Onfray e Jacques-Alain Miller.
No contexto do Crepúsculo, Onfray aqui e ali fez menções ao Livro Negro. Este, por sua vez, recebeu críticas de um Anti-Livro Negro [L’Anti-Livre Noir de la Psychanalyse].
A publicação do Livro Negro ocorre, no Brasil, em meio a um debate bastante dobrado e redobrado. A edição reune diversos motes críticos das outras disciplinas psicológicas contra Freud; por sua vez, tais motes receberam certa atenção de um lado pelo "anti-livro" e de outro pela nova crítica de Onfray. Resultado desses desdobramentos? Como sempre, problemas ainda na ordem da vez.
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E por falar em Onfray, o filósofo normando publicou há pouco outro curioso livro: O Recurso às Florestas - A Tentação de Demócrito (inclusive objeto de adaptações teatrais).
Quanto tiver que decidir em quem confiar, tenha em mente que a combinação consistente de ações maldosas com freqüentes jogos cênicos por sua piedade praticamente equivale a uma placa de aviso luminosa plantada na testa de uma pessoa sem consciência. Pessoas cujos comportamentos reúnam essas duas características não são necessariamente assassinas em série ou nem mesmo violentas. No entanto, não são indivíduos com quem você deva ter amizade, relacionamentos afetivos, dividir segredos, confiar seus bens, seus negócios, seus filhos e nem sequer oferecer abrigo!
Certo dia em um mundo muito fictício, um Psicólogo Evangélico (E) e um Parapsicólogo (P), depois de muita pressão política de seus sectos, foram escolhidos para a Comissão Científica de algum fictício CRP (Conselho Regional de Psicologia). O outro membro era um comportamentalista (C).
Na primeira reunião, em meio à série de pautas estava a questão da velha terminologia da histeria e sua possível ou impossível atualidade. Diante dos comentários de um caso de histeria clássica, o comportamentalista começou:
C: De fato esse termo teve uma utilidade muito grande no passado, inteiramente operacional na época de Freud, mas…
E (interrompendo): Obviamente como comportamentalista você há de convir que Freud estava errado, não é mesmo?
C: Não propriamente errado, mas diante da evolução do behaviorismo, das neurociências, das ciências cognitivas e dos avanços da psicossomát…
E (interrompendo novamente): Sim, existe toda a questão comportamental!
C: Em termos gerais com certeza, e…
E (interrompendo de novo): A questão de que o comportamento no caso em questão é demoníaco.
P e C: Comportamento demoníaco?
E: Claro que sim, vocês têm alguma dúvida?
P: Ora, isso no ekssiste! Tudo é uma criação da psiquê humana
E: Psiquê humana influenciada pelo dem…
P: A psiquê humana tem capacidades infinictas! E é uma pena que a psicologia nunca viu isso. Sem contar essa visão de "demônios" dos religiossos… Freud estava errado sim, porque não viu o infinito poder do inconsciente. Vokcês sabiam que podemos comprovar eksperimentalmente poderes paranormais?
E e C: Experimentalmente?
P: Sim, diversos eksperimentos apontam altos índices ekstatísticos de significância, por exemplo em eksperimentos de telepatia, clarividência e pre-cognição. Inclusive alguns experimentos de psicocinésia possuem ressultados estatísticos muito convincentes.
E: Isso não é nada, também comprovamos experimentalmente a existência de demônios.
P e C: Como assim?
E: Em nossa igreja são inúmeros os testemunhos.
P: Ok, mas são testemunhos falhos, pois a ciência parapsicológica explica a inexistência de demônios
C: Gente, não é preciso ir com um pouco mais de cautel…?
E: Isso porque vocês nunca viram um exorcismo. Nossos pastores já realizaram vários. Mas é natural vocês duvidarem. Nós unimos a psicologia de Deus com a psicologia do homem. A psicologia do homem é limitada e falha como o homem. Paulo mesmo já dizia que "Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?". A sabedoria humana é limitada e parcial - sem a psicologia de Deus, revelada por nós, não é nada.
P: Isso no ekssiste! Pode-se acreditar em Deus, mas é tudo uma questão dos poderes ekstraordinários do Inconsciente!
E: Olha aí ó, sua dúvida apenas corrobora sua limitação.
P: Limitação? Veja os resultados ekstatísticos, a energia psíquica, o ectoplasma e o poder do Inconsci…
E: Novamente, a psicologia do homem é ignorante e limitada, se não garantida por nossa igreja
P: E você acha que nossa parapsicologia, que explica muito bem sua falsa crença, é limitada?
Os ânimos esquentam e P e E começam a discutir até os berros. Quando tudo foge do controle, C sai da sala e retorna com dois copos d´água, enquanto os secretários apartam a briga. Depois os ânimos se acalmam e o Comportamentalista pergunta:
- Vai uma balinha aí?
(Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência
)