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October 17, 2011

Jung e Pink Floyd


Em “A outra face de Dark Side of the Moon” [editora, cultura], Massao Yabushita faz uma análise junguiana de um dos mais importantes discos do Pink Floyd. Além de Jung, nomes como William Blake e Carlos Castañeda figuram no livro.

August 31, 2011

Além do Eu, Amizade e Trem da Morte


Três lançamentos interessantes (cada qual em seu assunto):

Muito Além do Nosso Eu, de Miguel Nicolelis (livro, livrarias). 

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August 24, 2011

Uma epidemia de doenças mentais e a patologização da existência


Vale ler o artigo A epidemia da doença mental, de Ellen Machado Rodrigues e Pedro Tourinho.

O artigo tenta reunir e resumir argumentos de três autores, Robert Whitaker, Irving Kirsch e Daniel Carlat, em torno do boom das psicopatologias desde o nascimento da exploração comercial dos psicofármacos. Conforme os três autores, há uma relação ainda não esclarecida entre as novas doenças mentais e a explosão populacional dos "doentes" de um lado e a indústria terapêutica de outro, cujo fundo não se encontraria simplesmente nas imprecisões ou incompletudes de uma "ciência terapêutica".

April 11, 2011

Entre a autoridade e a celebridade


Bela entrevista de Jurandir Freyre Costa (via Rodrigo Cassio). Ele parece trabalhar, dentre outras questões (alvos de seu livro O Vestígio e a Aura:  Corpo e Consumismo na Moral do Espetáculo), um fenômeno muito curioso : como o brasileiro é capaz de viver em algum lugar não esclarecido entre a sujeira da vida "real" e a "idealidade" das imagens televisivas? Poucas vezes a pergunta sobre esse "algum lugar entre" - algo específico do brasileiro - recebe atenção apropriada:
CC: Numa sociedade desigual como a brasileira, a troca da autoridade pela celebridade gera agravantes?
JFC: Acho. Uma sociedade como a nossa tem a característica de ter uma distância muito grande entre a prática das pessoas, o modo concreto de vida, e o mundo feérico da realidade espetacular. A percepção dessa distância gera, psicologicamente, um mecanismo de defesa muito importante, que é a tendência de a pessoa se contentar com a atividade de evasão, de alienação em relação a si próprio, e de encontrar, justamente no registro da fantasia, aquilo que se sabe ser impossível na realidade. Quanto mais longe a realidade social das pessoas está do mundo do entretenimento, maior será a tendência a se alienar. Quanto mais dificuldade ela vê para sair da vida dela para uma coisa melhor falo de progresso na realidade concreta dela, uma vida mais digna materialmente, socialmente, mais ela tem a tendência a se apegar à fantasia da realidade para encontrar sentido para a vida. Muita miséria, ao contrário do que a gente pensa, gera anomia, banditismo ou impotência e não revolta política organizada. (… vale ler tudo)
 

April 2, 2011

A escuridão dos livros negros


A Civilização Brasileira acabou de lançar O Livro Negro da Psicanálise (organizado por Stephenie, quer dizer, Catherine Meyer).

O livro já é relativamente antigo (este mesmo blog compartilhou alguns links sobre os debates animados ainda em 2008). E o lançamento do livro no Brasil inverte um outro debate surgido no ano passado: Michel Onfray havia publicado O Crepúsculo de um Ídolo [Le Crepuscule d’une Idole], livro que causou certo rebuliço na França, inclusive com debates acalorados entre Onfray e Jacques-Alain Miller.

No contexto do Crepúsculo, Onfray aqui e ali fez menções ao Livro Negro. Este, por sua vez, recebeu críticas de um Anti-Livro Negro [L’Anti-Livre Noir de la Psychanalyse].

A publicação do Livro Negro ocorre, no Brasil, em meio a um debate bastante dobrado e redobrado. A edição reune diversos motes críticos das outras disciplinas psicológicas contra Freud; por sua vez, tais motes receberam certa atenção de um lado pelo "anti-livro" e de outro pela nova crítica de Onfray. Resultado desses desdobramentos? Como sempre, problemas ainda na ordem da vez.

***

 E por falar em Onfray, o filósofo normando publicou há pouco outro curioso livro: O Recurso às Florestas - A Tentação de Demócrito (inclusive objeto de adaptações teatrais).

January 7, 2011

Uma pastoral aplicada a psicopatas


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Fabio Belo publicou um pequeno artigo ("Conceitos Perigosos", em .pdf) sobre uma tarefa cuja realização está na ordem da vez.
 
Sobre essa tarefa, esse pequeno link mostra sua necessidade: hoje diversas práticas, ou mesmo disciplinas com estatuto "científico", agregam um número gigantesco de adeptos - "técnicos", "especialistas" - e não obstante são completos engodos.
 
Engodo: práticas cotidianas auto-proclamadas de "científicas" (ou o que o valha) julgam embasar sua "cientificidade" em cima de conceitos ou pontos de partida duvidosos (para dizer o mínimo). Disciplinas "científicas"  se formulam inteiramente a partir de noções jurídicas, modas sazonais ou mesmo certas palavras de linguajar cotidiano que "emplacaram". E pior: tais "ciências" conseguem agregar pessoal suficiente para exercer politicamente (nas relações institucionais, cotidianas) uma influência inversamente proporcional à sobrevivência dessas noções em um debate, digamos, epistemológico.
 
Belo critica especificamente um livro: "Mentes Perigosas". A autora pretende expor um panorama com estatuto relativamente científico ou de expertise sobre os "psicopatas". Mas o tom do livro é surpreendente, como se pode ver na citação recortada por Belo:
Quanto tiver que decidir em quem confiar, tenha em mente que a combinação consistente de ações maldosas com freqüentes jogos cênicos por sua piedade praticamente equivale a uma placa de aviso luminosa plantada na testa de uma pessoa sem consciência. Pessoas cujos comportamentos reúnam essas duas características não são necessariamente assassinas em série ou nem mesmo violentas. No entanto, não são indivíduos com quem você deva ter amizade, relacionamentos afetivos, dividir segredos, confiar seus bens, seus negócios, seus filhos e nem sequer oferecer abrigo!
Em outras palavras: o livro "científico" emprega uma linguagem não muito diferente da que encontraríamos em revistas de cotidiano ou factóide, como a Runners ou uma Capricho. Com uma diferença essencial, entretanto: enquanto as revistas tratam de receitas cotidianas ou prescrições ("dicas") sobre o bem-viver (beleza, esporte etc.), o livro emprega as mesmas receitas e prescrições (e preconceitos) no que diz respeito a psicopatas!
 
Belo o mostra: no livro os psicopatas se identificam, em maior ou menor grau, com certa noção cotidiana de "mal" (quantos histriônicos ou esquizotípicos não correriam o risco de se tornarem "psicopatas" depois da citação acima?). É incrível o inexistente salto entre o factóide e a "ciência" (perigo evidente: tal salto não ocorrer em práticas de saúde).
 
Certamente o tema "psicopatia" carrega sua própria seriedade e eventualmente nos deparamos com indivíduos que se enquadrariam em algum transtorno de personalidade relacionado. O que é diferente da etiqueta cotidiana, indistinta do preconceito: "o psicopata".
 
"O psicopata" (em sentido ordinário) é um indivíduo perverso mais ou menos identificado ao "mal". Algo bem diferente do que uma categoria médica mostra, ou pelo menos pretende mostrar. A julgar a crescente medicalização de qualquer relação cotidiana (salta um médico fora cada vez que se liga a televisão), é curioso esse movimento contrário. Factóide, preconceito cotidiano, noções ingênuas prescrevendo condutas dos indivíduos, com valor de ciência.

November 23, 2010

Gravuras de hospitais psiquiátricos soviéticos


Não parecem tão distantes dos hospitais ocidentais da época. Resta saber o que significa cada gravura. (via @benett_)

November 8, 2010

O mal menor


 
 
Ivan Pavlov, o conhecido fisiologista russo e ganhador do prêmio Nobel de Medicina em 1904, tinha uma relação controvertida com a terra mãe.
 
Durante o czarismo suas pesquisas não eram definitivamente financiadas. Após a Revolução Russa e especialmente durante os anos 20, ele recebeu muito financiamento.
 
Mas o pesquisador chamava ironicamente o regime da URSS de "experimento social", enquanto aplicava experimentos de toda sorte em seus cães. Mais de uma vez ele comentou sobre as reações do cão na aplicação de ácido sobre a língua, minuciosamente descrevendo seus efeitos corrosivos e analisando funcionalmente o acontecimento. Naqueles tempos, fazer do homem um objeto à mercê de interesses sociais talvez ainda era assunto para o riso ou desagrado dos cientistas (ou pelo menos de alguns de seus melhores), enquanto não se tinha maiores restrições relativas aos direitos dos animais.
 
O governo dedicava grandes financiamentos a Pavlov; em contrapartida, diversos de seus pronunciamentos eram diametralmente contestadores.
 
Conforme uma história conhecida, durante a Revolução Russa ele reprovou o atraso de um aluno, justificado pelo banho de sangue que o obrigou a fazer um caminho maior até o laboratório. Pavlov, que chegara no horário (igual a todos os dias), repreendeu o aluno e pediu para que ele não se atrasasse na próxima Revolução!
 
Ou então, quando no fim dos anos 20 as instituições começaram a contratar apenas professores socialistas, o cientista, já notório há longo tempo, criticou publicamente Stalin, declarando ter vergonha de ser russo.
 
Com o passar do tempo, a atitude do pesquisador para com o Regime mudou. Não se tornou absolutamente elogiosa, mas estranhamente condescendente. O nazismo despontava no horizonte, e com ele a sombra de mais uma guerra. Enfraquecida, a URSS poderia passar de seu estatismo stalinista para um regime fascista em moldes hitlerianos… sem contar a guerra.
 
Dos males, dizem alguns comentadores, Pavlov escolheu no fim da vida - estamos nos anos 30, ele faleceu em 1936 - o menor. Talvez pensasse numa probabilidade maior de mudança sem a ameaça do hitlerismo, mesmo não gostando de Stalin.
 
Sua obra continuou notoriamente cultivada pelos russos. Certamente sob deturpações, pois ao mesmo tempo que os stalinistas cultivavam certa ortodoxia, contrariavam o mestre fechando qualquer debate dentro de propósitos não mais científicos, mas partidários. Semelhante ao que ocorreu no caso Lyssenko, muitos estudiosos não pavlovianos cairam em descrença, descrédito ou mesmo desprezo.
 
 
O estranho primado do pavlovismo estaria com os dias contados, especialmente depois da morte de Stalin em 1953. Não sem antes, em 1950, uma grande Conferência Científica homenagear Pavlov e condenar pesquisadores heterodoxos. Conferência dedicada a Stalin.
 
Nesses mesmos anos, entre anúncios de eletrodomésticos para housewives e TV’s para assistir futebol americano, revistas como a Life  divulgavam o "medonho" regime stalinista e seus "800 milhões de cães". Nos dois lados da Cortina de Ferro pesquisadores se cotucavam, movidos por inspirações muitas vezes mais políticas do que científicas. Pavlov já estava morto. Mas não o mesmo tipo de interferência que sempre impediu boas pesquisas.

May 2, 2010

Loucura de um, loucura de todos


O jornalista norte-americano Ethan Watters publicou um livro que parece muito interessante: Crazy Like Us: The Globalization of the American Psyche" (Loucos Como Nós: A Globalização da Psique Americana).
 
Segundo informe e entrevista publicados na FSP/UNIAD (entrevista reproduzida abaixo), o livro sustenta que tanto as perspectivas diagnósticas, quanto o tratamento das doenças mentais conforme padrões norte-americanos, afetaram antigas práticas e até mesmo olhares sobre as "doenças mentais" existentes em outros países.
 
Só por essa idéia o livro já vale uma boa discussão. Não encontraríamos, soldadas a esse alastramento das noções norte-americanas,  diversas premissas da biologia e das neurociências?
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March 13, 2010

Enquanto isso, na reunião…


 

Certo dia em um mundo muito fictício, um Psicólogo Evangélico (E) e um Parapsicólogo (P), depois de muita pressão política de seus sectos, foram escolhidos para a Comissão Científica de algum fictício CRP (Conselho Regional de Psicologia). O outro membro era um comportamentalista (C).

Na primeira reunião, em meio à série de pautas estava a questão da velha terminologia da histeria e sua possível ou impossível atualidade. Diante dos comentários de um caso de histeria clássica, o comportamentalista começou:

C: De fato esse termo teve uma utilidade muito grande no passado, inteiramente operacional na época de Freud, mas…

E (interrompendo): Obviamente como comportamentalista você há de convir que Freud estava errado, não é mesmo?

C: Não propriamente errado, mas diante da evolução do behaviorismo, das neurociências, das ciências cognitivas e dos avanços da psicossomát…

E (interrompendo novamente): Sim, existe toda a questão comportamental!

C: Em termos gerais com certeza, e…

E (interrompendo de novo): A questão de que o comportamento no caso em questão é demoníaco.

P e C: Comportamento demoníaco?

E: Claro que sim, vocês têm alguma dúvida?

P: Ora, isso no ekssiste! Tudo é uma criação da psiquê humana

E: Psiquê humana influenciada pelo dem…

P: A psiquê humana tem capacidades infinictas! E é uma pena que a psicologia nunca viu isso. Sem contar essa visão de "demônios" dos religiossos… Freud estava errado sim, porque não viu o infinito poder do inconsciente. Vokcês sabiam que podemos comprovar eksperimentalmente poderes paranormais?

E e C: Experimentalmente?

P: Sim, diversos eksperimentos apontam altos índices ekstatísticos de significância, por exemplo em eksperimentos de telepatia, clarividência e pre-cognição. Inclusive alguns experimentos de psicocinésia possuem ressultados estatísticos muito convincentes.

E: Isso não é nada, também comprovamos experimentalmente a existência de demônios.

P e C: Como assim?

E: Em nossa igreja são inúmeros os testemunhos.

P: Ok, mas são testemunhos falhos, pois a ciência parapsicológica explica a inexistência de demônios

C: Gente, não é preciso ir com um pouco mais de cautel…?

E: Isso porque vocês nunca viram um exorcismo. Nossos pastores já realizaram vários. Mas é natural vocês duvidarem. Nós unimos a psicologia de Deus com a psicologia do homem. A psicologia do homem é limitada e falha como o homem. Paulo mesmo já dizia que "Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?". A sabedoria humana é limitada e parcial - sem a psicologia de Deus, revelada por nós, não é nada.

P: Isso no ekssiste! Pode-se acreditar em Deus, mas é tudo uma questão dos poderes ekstraordinários do Inconsciente! 

E: Olha aí ó, sua dúvida apenas corrobora sua limitação.

P: Limitação? Veja os resultados ekstatísticos, a energia psíquica, o ectoplasma e o poder do Inconsci…

E: Novamente, a psicologia do homem é ignorante e limitada, se não garantida por nossa igreja

P: E você acha que nossa parapsicologia, que explica muito bem sua falsa crença, é limitada?

Os ânimos esquentam e P e E começam a discutir até os berros. Quando tudo foge do controle, C sai da sala e retorna com dois copos d´água, enquanto os secretários apartam a briga. Depois os ânimos se acalmam e o Comportamentalista pergunta:

- Vai uma balinha aí?

(Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência ;) )

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