Muita gente caiu no conto da religiosidade nessas eleições. Ou pior, no conto de certos preconceitos morais de algumas religiões., esquecendo das… eleições (a César o que é de César?).
Em vários falatórios da Rede que ficarão para a história do esquecimento, pessoas defendiam, por exemplo, a tese de não votar em Dilma para preservar os propósitos sacros da "Terra de Santa Cruz" (sic!).
"Terra de Santa Cruz" é um dos nomes originários do Brasil, todo mundo sabe disso. Mas curiosamente, quem disse a idéia acima não leu livros de história. Por exemplo, no primeiro livro de história tupiniquim, História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos de Brasil, Pero de Magalhães Gândavo reprovava os europeus que chegavam aqui simplesmente com propósitos mercantis, portanto profanos. Talvez a usura ainda era pecado na época. Ao invés de "Santa Cruz", esses europeus chamavam este lugar de "Brasil", nome comercial devido ao principal material de exportação. Qual nome pegou?
Imensa ironia, caso consideremos os principais motes do governo FHC (e também de Serra): privatizações, corte de gastos, Estado radicalmente mínimo, primado incontestável do mercado… Um liberalismo teórico e abstrato regado a condições e práticas concretas avassaladoramente desiguais. Se votar no PT significa para aqueles religiosos condenar a "Terra de Santa Cruz", qual seria então o significado de votar em Serra?
Ou senão, veio a questão do aborto. Dilma, "a favor de matar criancinhas", segundo Monica Serra. A temível mulher de duas caras, conforme a revista Veja. A mulher mentirosa, a favor do aborto um dia mas contra ele ao sabor das circunstâncias, tudo para pedir voto. Vídeos ainda disponíveis no Youtube não desmentiriam nada disso.
Basta ver o debate da Band e os vídeos para constatar que não era bem assim. Dilma sempre se posicionou contra o aborto, mas a favor de sua descriminalização sob uma série de circunstâncias precisas: a existência massiva de abortos ilegais e ao mesmo tempo a desigualdade abissal entre abortos feitos por pobres e ricos. A pobretona corre risco de morte ou de cadeia; a rica vai depois para o spa, se quiser - mas sem maiores consequências.
E Serra? Para o religioso crente de que o aborto é inadmissível, ele bem regulamentou as práticas de aborto no Brasil… Até estourar a notícia de que Mônica Serra, a mesma que acusava Dilma de defender a matança de "criancinhas", também abortou.
Pintou-se portanto uma candidata do PT nociva em todos os sentidos à religiosidade. Por exemplo, para o cristão que não gosta de Edir Macedo, ora bolas, ele "apoia" Dilma! Na verdade, nada no vídeo diz sobre seu apoio ou não. Mas - sublime lógica - se defende o aborto, logo é pró-Dilma, certo?
E invertamos os termos: para quem gosta de Edir Macedo, Dilma já saiu até em cerimônia de candomblé. Num país conhecido pela tolerância e a convivência - até mesmo sincrética - das religiões, as estratégias de campanha do PSDB investem no que o homem tem de pior: seu ódio, bastando escolher o tema (Diego Viana escreveu um belo texto sobre como infelizmente o debate brasileiro se reduz aos fígados).
Ok, isso deve demonstrar então que Serra é o verdadeiro arauto do cristianismo, certo? Cruzado moderno, bem distribuiu santinhos iguais aos acima, sem economizar pronunciamentos do Santo Nome.
Hoje o Jornal Nacional mostrou o mesmo Serra em Canindé, no interior do Ceará, participando da maior romaria do Brasil dedicada a São Francisco. Elogioso como sempre, o jornal investiu nas falas do candidato sobre agricultura familiar e um 13º salário para o Bolsa Família.
O jornal só esqueceu de comentar sobre o padre. Em tal romaria dedicada a tal santo, o padre reprovou certos presentes (quem será?) publicamente pelo uso político da religião: "Acusam a candidata do PT em nome da igreja. Não é verdade", disse o frade. Tasso Jereissati interviu contra o padre acusando-o de petista. Logo após armou-se grande confusão.
O padre? saiu da Igreja protegido por seguranças.