Lembram dos processos da Igreja Universal contra a Folha, e o sarrinho do Economist sobre a instituição de Edir Macedo?
O panorama geral são os novos resultados das pesquisas sobre os textos encontrados em Nag Hammadi. Descobriram-se lá vários evangelhos Gnósticos ou com traços gnósticos. Segundo a moda recente de livros como o Código Da Vinci, esses livros revisariam tudo o que conhecemos sobre o cristianismo. Por exemplo, contra idéias "machistas" dos evangelhos tradicionais, os novos evangelhos mostrariam também a importância das mulheres.
Junto a esses modismos, uma série de acadêmicos sustentariam as novas teses. Bock pretende refutá-las. Para isso, empreende dois critérios centrais na argumentação. O histórico julga os textos conferindo uma autoridade "relativa" com base na própria antiguidade. Textos mais antigos teriam maior valor por se aproximarem dos ensinamentos mais antigos. O segundo critério seria o da coerência dos textos entre si, não apenas na forma, mas no conteúdo. Textos mais coerentes e antigos tenderiam a se aproximar mais das idéias e práticas dos "fundadores" do movimento.
Quanto à forma, textos tradicionais e ‘apócrifos’ coincidiriam em vários pontos e temas, tais como a ressurreição e a divindade de Jesus. Quanto ao conteúdo, haveriam diferenças marcantes, e mais: separadas em momentos históricos distintos. Bock situa os evangelhos tradicionais no século I, enquanto os textos de Nag Hammadi datariam do fim do século I (partes do Evangelho de Tomé) ao IV. Ainda, enquanto os textos apócrifos não teriam grandes princípios de coerência no conteúdo, uma certa coerência é encontrada em todos os textos tradicionais.
Conclusão: os textos considerados "tradicionais" são para Bock mais antigos, e mais coerentes entre si, do que os outros textos. Isso permitiria concluir que estariam mais próximos dos ensinamentos dos primeiros cristãos. Ainda, se a ortodoxia cristã foi criada apenas no século III, haviam elementos prévios que a tornaram possível; não foi apenas um gesto arbitrário de padres que "ganharam" poder.
Pontos negativos (como já comentamos): o livro tem uma série de declarações em tom de "instrução", subestimando a inteligência do leitor. Apela também às vezes a analogias bem indigestas com dinâmicas das empresas. Como chamariz editorial, comete logo na capa um pecado: Trata da "verdade por trás dos textos que não entraram na Bíblia".
Pontos positivos: o autor apresenta preliminarmente o debate acadêmico no qual vive. Cita muitos autores, percorre várias hipóteses dos estudiosos, menciona versões e traduções. Enfim, não apenas apresenta, mas também problematiza (mesmo que en passant) o que apresenta.
Recebemos dos Perrusi o "meme" da página 161. Ele é mais ou menos assim:
1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.”
O livro que estava mais próximo no momento de receber o meme é "Os Evangelhos Perdidos", de Darrell Bock; aquele que recebemos do Batista. Trata-se de um estudo introdutório dos evangelhos apócrifos. Sobre o assunto, Jacir de Freitas tem um belo site. Bock se apoiou na "moda" do Código Da Vinci, tipo de contexto que tende a não dar muita credibilidade a escritos relacionados. Mas também não quer dizer necessariamente que deva ser por isso um mal livro. No fim das contas, é sempre a leitura ‘quem’ resolve.
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