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September 5, 2011

Ágora, de Alejandro Amenabar


 

Quando assiste Ágora, filme de Alejandro Amenabar (2009, download do filme ou comprar DVD), por vezes o espectador é lançado, junto com as imagens, para o espaço. As tomadas, situadas nos dramas dos homens, de repente se afastam rapidamente da terra, mostrando então uma Alexandria cada vez mais pequenina (a despeito de sua grandeza histórica), até sumir do olhar. Junto com as imagens, os sons (o tumulto, o burburinho das intrigas), também gradativamente silenciam enquanto a "câmera" se afasta, deixando o espectador à mercê de um planeta mudo e desolador.

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July 9, 2011

Ateísmo e ateísmo


Durante essa semana Porto Alegre foi a primeira capital brasileira a exibir outdoors "ateus".
 
Pelo visto, o "ateísmo" (ou mais rigorosamente: certo ateísmo) parece se definir pela crença, baseada às vezes em foro íntimo e por outras vezes em algum primado científico (ou nos dois), da não existência de Deus.
 
Se historicamente o ateísmo parece ter recebido em nossa cultura caráter vazio ou negativo (pois se avizinhou de valorações como as do absurdo, o erro do juízo, o vazio do não-ser,  a blasfêmia ou a manifestação de alguma entidade maligna), hoje aparentemente essa noção impõe para si mesma um estatuto positivo e uma curiosa consistência (às vezes até mesmo próxima das apologéticas de alguns sectos cristãos).
 
O ateísmo se encontra em nossa cultura entre duas outras questões maiores: em primeiro lugar, advogamos para nós mesmos uma sociedade "pluralista", na qual qualquer crença pode ser adotada e todas elas devem ser respeitadas (sob o limite da liberdade alheia, e aqui o ateísmo conforme a definição acima dá as mãos com a noção de uma sociedade plural). 
 
Mas em segundo lugar, o ateísmo coloca (ou deveria colocar, coisa que não se faz muito) o problema mesmo de nossa própria cultura. Na linha de Nietzsche, muitos enunciaram (por exemplo, desse modo) o problema de um ateísmo não reduzido a mera crença privada.
 
Nesse contexto, o modo de Fernando Pessoa abordar o problema na figura de Bernardo Soares é tão bem feito quanto bonito (vale dizer: e um tanto esquecido no meio de tanta certeza). Por exemplo:
Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados sé da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
 
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas.
 
Nós perdemos essa, e às outras também.
 
Ficámos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objecto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontrámo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.
 
Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma ideia do futuro, também não temos uma ideia de hoje, porque o hoje, para o homem de acção, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta connosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta.

Uns de nós estagnaram na conquista alvar do quotidiano, reles e baixos buscando o pão de cada dia, e querendo obtê-lo sem o trabalho sentido, sem a consciência do esforço, sem a nobreza do conseguimento.

Outros, de melhor estirpe, abstivemo-nos da coisa pública, nada querendo e nada desejando, e tentando levar até ao calvário do esquecimento a cruz de simplesmente existirmos. Impossível esforço, em que[m] não tem, como o portador da Cruz, uma origem divina na consciência.

Outros entregaram-se, atarefados por fora da alma, ao culto da confusão e do ruído, julgando viver quando se ouviam, crendo amar quando chocavam contra as exterioridades do amor. Viver doía-nos, porque sabíamos que estávamos vivos; morrer não nos aterrava porque tínhamos perdido a noção normal da morte.

Mas outros, Raça do Fim, limite espiritual da Hora Morta, nem tiveram a coragem da negação e do asilo em si próprios. O que viveram foi em negação, em descontentamento e em desconsolo. Mas vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no género de vida, entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir.

May 23, 2011

Homens e Deuses


 
 
 Com muita curiosidade assisti, a partir da crítica de Bruno Cava, Des Hommes et des Dieux, filme aplaudido em Cannes no ano passado.

Em sua crítica, Cava chamou a atenção a um elemento: "são humanistas", comentava ele sobre o filme.

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May 13, 2011

Buda


April 11, 2011

O cristão e o hacker


Um padre jesuíta chamado Antonio Spadaro publicou um artigo intitulado Etica "hacker" e visione cristiana na Civiltà Cattolica, importante veículo dessa religião.

Spadaro difere em primeiro lugar "hacker" de "cracker". Ele evoca uma distinção já conhecida: o "cracker" transgride as regras em prol de seu prazer individual; já o "hacker" atuaria conforme certo teor de, diga-se, "universalidade". Enquanto o cracker se concentra no ganho pessoal por via do delito, o hacker interfere  em regras grosso modo de maneira "criativa", criando novos caminhos e alternativas mais livres para a coletividade. Assim, tais atos de criação emulariam virtuosamente a própría dimensão criativa de Deus. 

Ao invés da repetição, a busca de alternativas; ao invés do lucro, a divisão. Substitui-se a individualidade pela coletividade; o individualismo, pela colaboração.

O autor italiano reconhece diferenças entre os dois universos, por exemplo a hierarquia institucional católica e a radical horizontalidade hacker. Mas parece tentar extrair direções do "hacker" afins a certas inspirações cristãs.

É curioso notar que, em certo sentido e em termos bem gerais, a Igreja Católica sempre teve duas grandes vertentes, relativamente não conciliadas. De um lado, séculos de fortuna dogmática acumularam todo um universo de regras (Regulae) de conduta, não poucas vezes semelhantes à halaká judaica - prescrições sobre como se comportar em determinadas situações gerais ou específicas, interdições etc.

De outro lado, outras direções (às vezes em um mesmo movimento) buscaram temas muito mais ligados à espiritualidade e muito menos à regra. O movimento trapista, por exemplo, é extravasado e desdobrado em curiosas direções sob o nome de Thomas Merton; e no Brasil salta aos olhos a coexistência de movimentos como a TFP (bastante afim à ordem estabelecida e a relações de autoridade) e a CPT (ligada aos movimentos populares e a diversas manifestações como a Romaria da Terra).

Um dos links acima situa o artigo de Spadaro como uma nova atenção da ICAR às novas tecnologias. Resta ver para quais  das "direções" acima essa atenção apontará.

March 24, 2011

A Campanha da Fraternidade e o papel político da Igreja


A CNBB lançou em 2011 o novo slogan de sua Campanha da Fraternidade: ‘A criação geme em dores de parto‘.

Trata-se de chamar a atenção ao que o homem faz com seu mundo, mostrando a necessidade de ações para impedir o famoso aquecimento global.

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December 24, 2010

Natal



Giovanni di Paolo - Nascimento de Cristo (1455)

Parece que o natal perdeu antigas sutilezas.

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October 28, 2010

O Papa, as eleições e a hipostasia do aborto e da religião


Diz-se que o Papa Bento XVI recomendou aos bispos brasileiros posicionamento político contra o aborto.

Muitos já começam a dizer por aí: Serra fez mal em regularizar o aborto, agiu contra a religião, mas Dilma foi mais longe.

Poderia-se ir um pouco mais. Embora o fato não recebeu ampla divulgação, diversas ex-alunas, indignadas, acusaram a contradição de Monica Serra: ela acusou Dilma de "matar criancinhas", mas anos atrás ela mesma declarou ter feito um aborto voluntário.

Impressiona o papel dos jornalistas nisso tudo, em retroalimentar um debate (ou melhor, um não-debate)  inapropriado. Certamente poderia-se dizer que há um papel político na questão do aborto. Mas reduzir toda a eleição a questões religiosas, isso sim é um verdadeiro sacrilégio, contra a Igreja e contra o país.

O agravante é a imprensa mais paga do país reproduzir uma postura encontrável predominantemente em uma das chapas. Se não, qual é o sentido de um jornalista não manifestar publicamente a importância de separar religião e país?

É no mínimo irônico (ou hipócrita) criticar o regime dos aiatolás no Irã e no Brasil instrumentalizar eleitoralmente a religiosidade.

Até porque essa redução mostra propósitos oportunistas e agride os princípios da livre religião. Se valorizo certos traços religiosos, isso é manifestamente instrumental: valorizo porque há mais crentes e busco o consentimento deles. Mas de quebra, essa valorização contraria os próprios compromissos públicos do jornalista - ele não deveria ser pluralista?

Curiosamente, agiu bem o padre de Canindé. Em meio à romaria de São Francisco, Serra e outros tentavam gravar programa eleitoral, interferir no ritual e na comunhão. Quase literalmente, o padre expulsou os vendilhões do templo. Quem disse que todo esse interesse pela religiosidade é religioso? ;)

October 17, 2010

A instrumentalização eleitoreira do discurso religioso


Muita gente caiu no conto da religiosidade nessas eleições. Ou pior, no conto de certos preconceitos morais de algumas religiões., esquecendo das… eleições (a César o que é de César?).

Em vários falatórios da Rede que ficarão para a história do esquecimento, pessoas defendiam, por exemplo, a tese de não votar em Dilma para preservar os propósitos sacros da "Terra de Santa Cruz" (sic!).

"Terra de Santa Cruz" é um dos nomes originários do Brasil, todo mundo sabe disso. Mas curiosamente, quem disse a idéia acima não leu livros de história. Por exemplo, no primeiro livro de história tupiniquim, História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos de Brasil, Pero de Magalhães Gândavo reprovava os europeus que chegavam aqui simplesmente com propósitos mercantis, portanto profanos. Talvez a usura ainda era pecado na época. Ao invés de "Santa Cruz", esses europeus chamavam este lugar de "Brasil", nome comercial devido ao principal material de exportação. Qual nome pegou?

Imensa ironia, caso consideremos os principais motes do governo FHC (e também de Serra): privatizações, corte de gastos,  Estado radicalmente mínimo, primado incontestável do mercado… Um liberalismo teórico e abstrato regado a condições e práticas concretas avassaladoramente desiguais. Se votar no PT significa para aqueles religiosos condenar a "Terra de Santa Cruz", qual seria então o significado de votar em Serra?

Ou senão, veio a questão do aborto. Dilma, "a favor de matar  criancinhas", segundo Monica Serra. A temível mulher de duas caras, conforme a revista Veja. A mulher mentirosa, a favor do aborto um dia mas contra ele ao sabor das circunstâncias, tudo para pedir voto. Vídeos ainda disponíveis no Youtube não desmentiriam nada disso.

Basta ver o debate da Band e os vídeos para constatar que não era bem assim. Dilma sempre se posicionou contra o aborto, mas a favor de sua descriminalização sob uma série de circunstâncias precisas: a existência massiva de abortos ilegais e ao mesmo tempo a desigualdade abissal entre abortos feitos por pobres e ricos. A pobretona corre risco de morte ou de cadeia; a rica vai depois para o spa, se quiser - mas sem maiores consequências.

E Serra? Para o religioso crente de que o aborto é inadmissível, ele bem regulamentou as práticas de aborto no Brasil… Até estourar a notícia de que Mônica Serra, a mesma que acusava Dilma de defender a matança de "criancinhas", também abortou.

Pintou-se portanto uma candidata do PT nociva em todos os sentidos à religiosidade. Por exemplo, para o cristão que não gosta de Edir Macedo, ora bolas, ele "apoia" Dilma! Na verdade, nada no vídeo diz sobre seu apoio ou não. Mas - sublime lógica - se defende o aborto, logo é pró-Dilma, certo?

E invertamos os termos: para quem gosta de Edir Macedo, Dilma já saiu até em cerimônia de candomblé. Num país conhecido pela tolerância e a convivência - até mesmo sincrética - das religiões, as estratégias de campanha do PSDB investem no que o homem tem de pior: seu ódio, bastando escolher o tema (Diego Viana escreveu um belo texto sobre como infelizmente o debate brasileiro se reduz aos fígados).

Ok, isso deve demonstrar então que Serra é o verdadeiro arauto do cristianismo, certo? Cruzado moderno, bem distribuiu santinhos iguais aos acima, sem economizar pronunciamentos do Santo Nome.

Hoje o Jornal Nacional mostrou o mesmo Serra em Canindé, no interior do Ceará, participando da maior romaria do Brasil dedicada a São Francisco. Elogioso como sempre, o jornal investiu nas falas do candidato sobre agricultura familiar e um 13º salário para o Bolsa Família.

O jornal só esqueceu de comentar sobre o padre. Em tal romaria dedicada a tal santo, o padre reprovou  certos presentes (quem será?) publicamente pelo uso político da religião: "Acusam a candidata do PT em nome da igreja. Não é verdade", disse o frade. Tasso Jereissati interviu contra o padre acusando-o de petista. Logo após armou-se grande confusão.

O padre? saiu da Igreja protegido por seguranças.

April 2, 2010

A outra face


Photobucket
 
Neste exato momento, na capa do site History.com (um canal de TV a cabo norte-americano), ao lado de uma reportagem sobre refeições em jogo de baseball o leitor encontra outra, sobre a face de Jesus Cristo.
 
Mais especificamente, a reportagem é sobre uma simulação em 3D a partir do famoso Santo Sudário. Se cobriram Jesus de fato com esse sudário, sua face se assemelha muito à representação acima.
 
Uma discussão dessas possui importância evidente, pois até hoje os pesquisadores (da teologia à arqueologia) tentam separar a tradição de um lado e o Cristo "histórico" de outro. Nesse caso, a curiosidade pela figura histórica se condiciona pela autenticidade ou não do sudário.
 
Por outro lado, na tradição e na história ainda permanece aberto o problema dos ensinamentos efetivos de Jesus, para além de 2000 anos de acréscimos, omissões e adaptações. É correto o modo como judeus, cristãos e muçulmanos o encaram? E dentro da tradição cristã, alguma vertente seria mais fiel?
 
Em todo caso, uma crença parece unificar todas: a de que Jesus ressuscitou. Ela moveu as primeiras comunidades e a proliferação cristã, em terras estrangeiras e no Império Romano. De algum modo, é um dos temas mais caros ao Ocidente.
 
Mas é curioso notar que se o chamado "cristão" adota essa crença, talvez não admita que ela se refere em tese a um fato considerado histórico, efetivo, real: dois mil anos atrás um sábio morreu e ressuscitou de fato.
 
Isso muda tudo, pois se de um lado há uma crença, essa crença deve ser obrigatoriamente a crença em um fato extraordinário. A crença no fato condiciona tudo o mais, e sobre isso até o Novo Testamento relata a mudança de comportamento dos apóstolos, da prisão à ressurreição.
 
Portanto, se o fato da crença e a imagem acima forem autênticos, verdadeiros, encaramos a imagem de alguém que morreu e ressuscitou. Como dizem alguns autores, isso não deixa de causar perplexidade, e não importa se tratamos de céticos ou fiéis.
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