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August 20, 2008

Quando o negócio (ou a entrevista) vai mal II


Esse blogue não é do Rafael Galvão, então não dedicamos análises pormenorizadas de como certos viventes conseguem chegar aqui.

Para se ter um exemplo, hoje um organismo biológico acessou o Catatau pelas palavras "como made seu celebro vivo". Made in China? Recomendo o livro do Meandros.

Mas algumas perguntas no orácoogle são realmente sérias. Como essa: o que perguntar na entrevista trabalhista. Já dissemos isso antes: Espere aí, Sr. Entrevistador. Então você entrevistará candidatos, e não sabe o que perguntar a eles? Ainda bem que você chegou aqui.

E como certas coisas são eternas, o setor de serviço social do Catatau não cansa de divulgar o paradigmático vídeo desse tipo de situação:


Atualização: Outra pesquisa incrível: “como se comportar?“. Será que está tão difícil hoje, manter o cérebro vivo, e se comportar?

August 11, 2008

Processo de dano moral, para quem prometer e não contratar


A situação abaixo é familiar a muitos. Mudam-se apenas os elementos do contexto. Alguém não conhece caso semelhante?

Um vendedor (poderia ser um desempregado, ou qualquer outra pessoa) percebe a abertura de seleção em outra empresa. Como o salário é atrativo, ele faz a seleção, e a empresa o acolhe. Faz os testes admissionais, o exame médico, e abre uma conta bancária para receber o salário. Assina a carteira, recebe o crachá, e negocia a data de admissão.

Às vésperas do primeiro dia de trabalho, a surpresa: recebe da empresa o comunicado de que seu registro será invalidado, cancelado.

A partir disso, os exemplos variam: Se o contratado era empregado, deixou o emprego anterior para a obtenção do novo, que oferecia melhores condições. Se era desempregado, passou todo o tempo entre a contratação e a demissão sem procurar outros empregos. E esse tempo pode ser realmente longo.

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August 10, 2008

Jeitinho Brasileiro, controle social e competição


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Essas três palavras justapostas são muito interessantes. Quando não havia ainda Brasil, ou quando Pero de Magalhães Gândavo ainda reclamava dessas terras carregarem o nome do pau de tinta, e não o da Cruz que poderia se construir com ele, um certo João Ramalho perambulava por comunidades indígenas angariando mais e mais esposas. O "cunhadismo" permitia a exploração de diversas práticas indígenas, para favorecer interesses pessoais e dos portugueses.
 
De algum modo, todo esse movimento do século XVI, que mostrava desde então o Brasil não ser um fim para os doravantes "brasileiros", mas apenas meio para interesses exploratórios, culminou no que hoje se chama de "jeitinho brasileiro".
 
O "jeitinho" atravessa a sociedade. Empregado para driblar mecanismos institucionais, ou até mesmo fazê-los valer, para alguns é o remanescente de antigas dinâmicas. Mostra a beleza do malandro e a união dos conviventes - mas ao mesmo tempo, a inanição das práticas institucionais. O brasileiro encontra no "jeitinho" o que o Brasil tem de melhor, e também o que tem de pior.
 
O Jeitinho Brasileiro, controle social e competição tenta trazer esse tipo de discussão para o contexto do trabalho. Por aqui, já discutimos como a noção importada de networking não pode ser empregada no Brasil como em outros países. Existe um filtro catatauesco, chamado "jeitinho".
 
 
- Pesquisa de livros sobre cunhadismo e "jeitinho". Pesquisa também sobre a coletânea "Intérpretes do Brasil", com os principais clássicos de estudos brasileiros.

August 3, 2008

Maurizio Lazzarato, para socorrer trabalhadores temporários


Recebi do Desobediente a resenha abaixo, de um novo livro de Maurizio Lazzarato intitulado Intermittents et precaires (sedutora a tradução Intermitentes e Precários).
 
Pelo que parece, o mote do Lazzarato [livrarias] é semelhante ao de Castells [livrarias], quando este mostra que o tipo de acessibilidade do grande contingente populacional ao trabalho e consumo é sempre sazonal: diante de um número mínimo de consumidores (e trabalhadores) permanentes, haveria uma massa de consumidores (e trabalhadores) sazonais. E esse caráter "sazonal" serviria para reforçar a mesma dinâmica de trabalho e consumo: quem está fora quer entrar, e quem está dentro não quer sair. Porém, com o pequeno detalhe: não há lugar para todos.
 
O livro aborda trabalhadores temporários de "arte" e afins. Com base na resenha, à primeira vista esse tipo de dinâmica não se restringe apenas aos "artistas". Um grande número de projetos chamados "sociais" poderiam se enquadrar no mesmo contexto, em um discurso e ato criativo que não são mais discurso por excelência, nem ato criativo por excelência. Apenas afloram enquanto tais por certos jogos de conveniências, exteriores à criação e ao discurso.
 

[fonte] Acaba de ser publicado na França, o livro Intermittents et precaires (temporários e precários), de Antonella Corsani e Maurizio Lazzarato. Ed. Amsterdam, 232 páginas. Segue uma resenha de Clarisse Fabre publicada no jornal francês Le Monde, 11-07-2008. A tradução é do Cepat.

Não se lerá neste livro nem chavões, nem fórmulas para calcular o seguro-desemprego dos artistas e dos técnicos do espetáculo. Também não se trata de uma "retomada" da luta empreendida depois da reforma de junho de 2003, entre manifestações e cancelamento de festivais. Intermittents et precaires (Temporários e precários) apresenta os resultados de uma pesquisa realizada sobre as condições de trabalho de todos esses profissionais do espetáculo que alternam períodos de emprego e de desemprego, ao longo dos projetos de que participam por conta de seus (múltiplos) empregadores.

Os autores fazem uma reflexão prospectiva sobre a noção de trabalho: como vanguarda, o movimento dos intermitentes põe em questão o binário emprego-desemprego e nos convida a reconstruir as bases da proteção social, nos dizem Antonella Corsani, pesquisadora da equipe Matisse do Centro de Economia da Sorbonne e co-fundadora da revista Multitudes, et Maurizio Lazzarato, filósofo.

Do outono de 2004 à primavera de 2005, foi realizada uma pesquisa pela equipe de pesquisadores Isys (integrante do Matisse de Paris-I e do CNRS) a pedido da Coordenação dos temporários e precários e com o apoio da Prefeitura de Île-de-France. À época, a imprensa criticou o método em razão de que os próprios temporários participavam deste estudo ao lado de economistas, sociólogos, estatísticos. Os autores defendem sua "expertise cidadã" que faz cooperar especialistas e outros. Uma metodologia que interroga as relações entre "saber, poder e ação", explicam, como o fizeram Michel Foucault ou ainda Pierre Bourdieu em sua pesquisa sobre A Miséria do Mundo [Vozes, 1997].

Feitas essas precisões, os autores traçam um quadro inquietante da intermitência. Mostram como a produção dos espetáculos, de documentários, etc., obedece cada vez mais a uma lógica de rentabilidade, num universo em que só há "casos particulares": assim, o tempo de trabalho ou é escrupulosamente contabilizado nos setores fortemente sindicalizados ou, ao contrário, é declarado ‘liberado’, deixado a cargo do "autor do projeto" de negociar o melhor cachê. Sem falar da variabilidade dos salários diários nem da estagnação das rendas, e até mesmo de sua diminuição nos últimos dez anos.

Alguns – diretores, mas também companhias de teatro que trabalham em coletividades locais – reconhecem trabalhar "sob encomenda". Como se eles respondessem à demanda de um cliente, o que obriga a revisar a noção de criação. A redução dos orçamentos e dos tempos de produção impõe às companhias a reorganização do trabalho em torno dos postos julgados indispensáveis. O artístico perde terreno diante da comunicação, em que a difusão dos espetáculos se torna crucial, num contexto muito competitivo…

Longe dos autores a idéia de que a intermitência seja coisa que se deva que combater. Pelo contrário. Digam o que disserem os sindicatos, dizem eles, o emprego estável para toda a vida não é "desejado e desejável para todos". "A intermitência, sob certas condições, é esta possibilidade para todos e cada um de preservar o domínio sobre o tempo, sobre suas intensidades (…). Uma liberdade para desenvolver projetos fora das normas da indústria cultural e do espetáculo e, enfim, last but not least, uma arma fundamental para a negociação dos salários e das condições de trabalho", destacam Antonella Corsani e Maurizio Lazzarato no último capítulo. Observando que outros profissionais intelectuais compartilham com os intermitentes práticas comuns, eles convidam a refletir sobre "um novo estatuto do trabalho e sobre novos direitos sociais". Estimulante e revigorante.

July 4, 2008

Piso de 950 reais por professor


Da ABN:

O piso de R$ 950 é uma antiga revindicação da categoria. O valor deverá ser pago para professores com carga horária de 40 horas semanais.  Pela proposta, o piso salarial nacional será implantado em todo o país, de forma gradual, até 2010.

De acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), existem mais de 5 mil pisos salariais diferentes para a categoria, variando entre R$ 315 e R$ 1.400. Está prevista no projeto a complementação da União para os entes federados que não atingirem o valor de piso nacional. 

Caso tomemos em conta as estatísticas da Catho, tem-se (dispondo o dado mais próximo do salário líquido):

Vendedor:

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Recepcionista:

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Segurança ("vigilante patrimonial"):

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March 26, 2008

O mundo segundo a Monsanto - livro e documentário


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Diz-se muito que as produções transgênicas são resistentes às pragas. Como se fossem plantas melhoradas, que conservam todas as características, exceto a atratividade a insetos e bactérias.
 
Mas é outra a função das mutações transgênicas: elas servem não para a planta resistir às pragas, mas ao veneno.
 
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February 28, 2008

Esse bando de “oreia seca”


 Hoje eu andava pela rua, em marcha acelerada, quando percebi que logo atrás outra pessoa rapidamente se aproximava. Notei que era outro transeunte qualquer. Mas ele apertou o passo, chegou perto, e logo começou a falar:
 
- Fui fazer uma seleção na Frigolícia (empresa frigorífica) e já mostrei para eles quem eu sou. A gente precisa, né?
 
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January 18, 2008

Habilidades individuais e diferenças salariais


Pesquisa nova sobre trabalho e diferenças individuais:  

Habilidades individuais como iniciativa, talento e motivação, mais que escolaridade, idade ou gênero, são um importante fator que influi na diferença entre salários dentro de uma mesma região, setor econômico ou ocupação. Essa é uma das conclusões da tese de doutorado defendida pelo economista Ricardo Freguglia na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP. O estudo também apontou as vantagens e desvantagens salariais da migração dentro do Brasil ao se contar com o fator das habilidades. 

A pesquisa apontou que, mesmo que cada região possa oferecer diferenças na oferta de trabalho e salário, as habilidades individuais continuam preponderantes.

O que parece curioso é simplesmente a pesquisa conservar um tema bastante comum e difundido: o de que o problema do desemprego se relaciona principalmente ao papel individual. Bons profissionais recebem melhores empregos e salários.

Ora, todo mundo conhece esse tema do bom profissional. A pesquisa apenas o corrobora. Mas o que não se vê muito em outras pesquisas é como o quesito "habilidade individual" se relaciona com um outro, muito visível e frequente: o "QI" ("quem indica"), o "peixe", o "pistolão", as indicações, e outros tipos de práticas acabam relativizando o papel da habilidade.

Em suma, o jeitinho impõe um filtro: bons profissionais nem sempre conseguem salários melhores. O papel pessoal permanece, nas indicações e naquilo que julgam erroneamente chamar em terras tupiniquins de networking (e networking deveria ser diferenciado de "indicação"). Mas nem sempre é a habilidade quem responde pelo ganho de um emprego, ou de melhores salários.

December 4, 2007

A arte da felicidade no trabalho


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Pego o ônibus e vejo uma senhora lendo um livro chamado A Arte da Felicidade no Trabalho. O capítulo que ela lia se chamava algo parecido com "Como transformar a insatisfação em felicidade".

Primeira coisa a imaginar: será que estão seguindo aquela moda das empresas, e já pegaram algum filósofo antigo para desfigurá-lo em receitas organizacionais? A Arte de Viver, de Epiteto, é vendida nas prateleiras de "auto-estima". Se fosse algo assim, eu já perguntaria como o autor ou o apresentador da obra zombariam da inteligência do leitor, confundindo noções como otium, labor e tripalium (algo hoje um tanto quanto esquecido).

Mas enfim, a obra é do Dalai Lama, junto com um psiquiatra chamado Howard Cutler. Em um dos informes do livro, consta:

Se alguém no Mundo parece ter descoberto o segredo de levar uma vida feliz, é o Dalai Lama. Ele enfrentou desafios e dificuldades difíceis para a maioria de nós imaginar, sendo forçado, com milhares de outros tibetanos, a fugir de sua terra natal depois da brutal invasão das forças chinesas, e a viver a maior parte dos últimos quarenta anos em exílio.

Mesmo sob essa trágica situação, ele não apenas atuou como o líder espiritual de seu povo e um incansável advogado dos direitos humanos, como manteve uma serenidade, uma alegria, e mesmo um senso de humor que, dadas as circunstâncias pessoais, parece não menos que um milagre.

Como psiquiatra, Cutler se interessou pelos modos do Dalai Lama, compondo então o livro. O que nos faz retornar à função de livros como esse, e da situação da senhora que lia no ônibus.

Obviamente, o livro serve como um exemplo, um horizonte de atuação e relação para consigo em condições adversas, uma receita para bem viver. Mas entre o Dalai Lama e a senhora que lia no ônibus, existe uma diferença crucial: a de que a relação inteira entre o projeto de vida do líder tibetano de um lado, e suas dificuldades de outro, é essencialmente exterior. Quero ver minha próxima, essa senhora sentada e abatida, viver a vida inteira com um baixo salário e condições de trabalho irrealizadoras, e ainda manter um modo de vida perpetuamente feliz devido a essas próprias condições. As próprias condições impedem que seu modo de vida seja separado das circunstâncias que a afastam de si mesma. Essas condições fazem-na irrealizar a própria vida, a ponto de comprar um livro do Dalai Lama.

O caso do Dalai Lama é diferente: ele não deixa de ser ele mesmo, quando sai do Tibet. Na Índia, vive uma vida de monge, em um templo budista, sob uma rotina monástica, com rituais monásticos diários, que implicam diretamente as maneiras desse monge levar sua vida. Comparar o Dalai Lama com a leitora ao meu lado , isto é, colocá-los em um mesmo plano de comparação, significaria fazer com que o líder tibetano deixe de ser monge, comece a viver a contra-gosto uma rotina totalmente alheia ao monastério, e ainda assim se desafie a ser monge apenas em pensamento. Isso, sabendo que a própria rotina impediria o monge de pensar a todo momento que é um monge. Em suma, um modo de vida irreal, sob condições bem reais que afastam a possibilidade desse próprio modo de vida.

Existe o argumento de que uma vida mental pode ser dissociada da vida do corpo, material. Um apertador de parafusos pode atingir o nirvana. Mas imaginemos também que tipo de resultados efetivos uma vida assim produz. Ou também o uso de tais idéias no cortador de cana estafado… O objetivo da arte da felicidade era cultivar modos de vida felizes ou apenas pensamentos de felicidade?

September 29, 2007

Terra, escravidão e blogs


Escravidão existe no Brasil? Em um país como esse, em que a informalidade reina em maior ou menor nível até sobre as instituições, aí está um lugar onde a escravidão continua possível, e provável. 

O blogueiro Leonardo Sakamoto foi ameaçado de ser processado pela senadora Katia Abreu (PFL DEM-TO) a respeito de algumas insinuações de que ela apoiaria grandes proprietários de terra, e de quebra, indiretamente algumas práticas de escravidão.

Em uma entrevista com a senadora Abreu, destaco a passagem:

Nunca vi trabalho escravo no Brasil. Tem de diferenciar o que é irregularidade trabalhista e trabalho degradante, coisas erradas, da escravidão.”

Ora, o que isso quer dizer? Para além da opinião da senadora, há a evidência discursiva:  existe sim uma grande confusão entre irregularidade trabalhista e trabalho degradante. Isso para não falar da escravidão. Se a confusão já provém do nível formal "irregularidade trabalhista", o que não dizer dos trabalhos informais?

Deixando a questão acima provisoriamente em suspenso, a discussão atual é: a bancada ruralista do senado afirma ter encontrado "irregularidades" na fiscalização do trabalho escravo. A Comissão Pastoral da Terra, em contrapartida, acusa que tal procedimento do senado busca obstruir a atuação da fiscalização móvel, precisamente pelas ligações de senadores a grandes "empreendimentos" de agronegócio. O affair Sakamoto encontra seu sentido nesse contexto atual, como se vê em sua resposta.

Retornando à questão, as definições devem ser feitas: trabalhar de modo que cada vez mais o "funcionário" seja mais dependente do trabalho, recebendo menos do que gasta, e devendo cada vez mais aos "empregadores", isso é irregularidade trabalhista e trabalho degradante. Mas não deixa de ser trabalho escravo

Para quem quer tirar a dúvida, a CPT publica todo ano um relatório sobre escravidão e violência no campo, no Brasil. Obstruir a fiscalização móvel pelo argumento de que estaria cometendo excessos precisamente por denunciar, isso soa bem estranho.

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