December 19, 2009

contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

-paulo leminski - sangra:cio (1980)

December 14, 2009

Parabéns a Potel!

O César Schirmer acabou de vincular a notícia: a justiça argentina decidiu a favor de Horácio Potel, pela manutenção de seus sites sobre Derrida e Heidegger!

Detalhes sobre o processo no site de Potel e textos sobre o assunto no Catatau:

Parabéns a Potel!

Monopólio transnacional, salvador do Mundo

Ler a Veja é às vezes como frequentar a marginal Tietê: aqui e ali gigantescas fachadas das maiores marcas do Brasil e do Mundo; no meio de tudo, o rio transformado em esgoto.

Analogia talvez mais verdadeira quando a Veja empreende seus "argumentos" sobre as soluções para o Mundo. Na edição desta semana, a "resposta à superpopulação":

Soja modificada geneticamente da Monsanto (ao lado) e o papa da revolução verde, Norman Borlaug: sem tecnologia de ponta, o mundo estaria passando fome

A Monsanto fica com boa parte da solução: 

Apesar de ainda despertar um sem-número de polêmicas, a engenharia genética é vista como a salvação para o futuro da comida no planeta. "Através da utilização de sementes geneticamente modificadas, busca-se aprimorar as qualidades de determinado alimento com atributos obtidos de outras espécies ou bactérias. Isso eleva os ganhos de produtividade em até 10%", afirmou a VEJA Rodrigo Santos, diretor da Monsanto. No Brasil, um exemplo é o milho YieldGard (Bt), resistente às três pragas típicas dessa lavoura: a lagarta-do-cartucho, a lagarta-da-espiga e a broca-da-cana. Para os próximos anos, a Monsanto, líder mundial do setor, planeja lançar sementes tolerantes a secas prolongadas e que produzam alimentos mais nutritivos. Também estão sendo pesquisadas variedades de cana-de-açúcar com o dobro do poder energético. 

Notemos o tom: apesar de tanto falatório a engenharia genética é a salvação, e o argumento da salvação perpassa transnacionais como a Monsanto. E mesmo com tanta polêmica, o papel do jornalismo de uma revista chamada Veja não é fazer jornalismo (analisar as polêmicas, por que elas são tão insistentes por exemplo), é dar respostas.

Agricultura familiar, produtividade e tecnologia de sementes crioulas, monopólios de transnacionais, risco dos transgênicos, dependência econômica e alimentar, nada está em questão. Quem precisa de jornalismo, se já temos as respostas?

Ainda mais se a "reportagem" da Veja curiosamente concede a diversos players implicados com as causas do problema a voz da solução (antigamente se ligava o Monopólio ao aumento dos preços - algo que talvez os economistas atualizados de Veja considerem ultrapassado).

Por sorte, embora sem visibilidade tão privilegiada, outros cumprem a função:

Confidential contracts detailing Monsanto Co.’s business practices reveal how the world’s biggest seed developer is squeezing competitors, controlling smaller seed companies and protecting its dominance over the multibillion-dollar market for genetically altered crops, an Associated Press investigation has found.

With Monsanto’s patented genes being inserted into roughly 95 percent of all soybeans and 80 percent of all corn grown in the U.S., the company also is using its wide reach to control the ability of new biotech firms to get wide distribution for their products, according to a review of several Monsanto licensing agreements and dozens of interviews with seed industry participants, agriculture and legal experts.

Declining competition in the seed business could lead to price hikes that ripple out to every family’s dinner table. That’s because the corn flakes you had for breakfast, soda you drank at lunch and beef stew you ate for dinner likely were produced from crops grown with Monsanto’s patented genes. [Continua no artigo do Associated Press, com créditos do link ao Animot e seu twitter, tradução es, pt]

December 11, 2009

Evangélicos, São Paulo, o irracionalismo e a oração da propina

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Caravaggio, A conversão de São Paulo a caminho de Damasco (1600-1601)

Alguns dias atrás Antonio Cicero publicou um texto muito interessante, sobre ressonâncias contemporâneas de São Paulo focadas ou em seu "universalismo", ou no "irracionalismo". Por vezes, conforme Cícero, adota-se o universalismo esquecendo que também Paulo tem sua dose (ou pelo menos legado) de obscurantismo irracionalista:

Um famoso hino alemão oriental dizia: “Die Partei hat immer Recht”, isto é, "o Partido sempre está certo". Tal secularização do pensamento religioso constitui o ápice do irracionalismo e acabou por produzir incalculável sofrimento. As terríveis experiências do século 20 apenas confirmam empiricamente algo que, por direito, já se sabe desde a Ilustração: nem a Igreja, nem a Bíblia, nem o Partido, nem o líder genial, nem as massas, ninguém é capaz de sempre estar certo. Nada está acima de ser criticado. Por isso, a sociedade aberta, os direitos humanos, a livre expressão do pensamento, a maximização da liberdade individual compatível com a existência da sociedade, a autonomia da arte e da ciência etc. são exigências inegociáveis da crítica, isto é, da razão.

O texto de Cicero é mais interessante ainda no contexto de alguns informes deste blog, por exemplo sobre a auto declarada "psicóloga evangélica": ela foi censurada pelo Conselho Federal de Psicologia por misturar psicologia e religião e prometer "curar" homossexuais. Não é que os advogados de tal mistura essencialmente obscurantista utilizam precisamente as passagens irracionalistas de Paulo? E ainda, as mesmas citadas por Cícero:

 Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o homem culto? Onde está o argumentador deste século? (…) 1Cor 1,19-20

e

Ninguém se iluda: se alguém dentre vós julga ser sábio aos olhos deste mundo, torne-se louco para ser sábio; pois a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus. E ainda: O Senhor conhece os raciocínios dos sábios; sabe que são vãos

Cícero cita ainda Ro 1:21-22, "Pois, tendo conhecido a Deus, não o honraram como Deus nem lhe renderam graças (…) se perderam em vãos arrazoados (…)".

Dentro do contexto discutido (ou, para alguns, monologado) naquele informe do Catatau, essas passagens são plenas de significado. Pois o curioso é o recurso a elas representar algo correlato à Lei de Godwin: "você veio com argumentos racionais, não é? Mas não é esse o meu nível; meu nível é o de uma sublime irracionalidade, e Paulo, que trouxe essa verdade irracional identificada à Verdade, o diz".

Claro que os usuários desse desargumento paulino também não se privam de empregar a Lei de Godwin. Paulo com Hitler? Incrível é a possibilidade de utilizar o "argumento" em qualquer contexto no qual se pretende calar uma discussão e - isso é o mais irônico - ficar com "a razão". Não é a razão, mas é ao mesmo tempo a razão porque é "divina". Olha ele operando aqui, por exemplo (exatamente com a passagem citada por Cícero!).

Felizmente, o argumento não é um argumento. No máximo, não passa de uma desqualificação barata. Barata, mas de grandes implicações: aquele que diz isso não o faz como na Lei de Godwin, uma desqualificação pura e simples. A Lei de Godwin é uma desqualificação do outro; o uso de Paulo, aqui, é uma desqualificação tomando a si mesmo como parâmetro de "veracidade"; não apenas um recurso para "vencer" o debate, mas de quebra uma tentativa de identificar a própria palavra (ou a ausência dela) com a universalidade. Ou mais especificamente, trata-se de uma desqualificação do outro tomando a própria visão como parâmetro universal, identificada com uma interpretação ingênua das palavras de Paulo (ou quem sabe outros, conforme as conveniências). O emprego de Paulo é no fundo apenas um subterfúgio, assumido por desinformação ou má fé.

Senão, vejamos uma regrinha básica de leitura da Bíblia, a pergunta sobre para quem Paulo escrevia, ou em que contexto. Na Carta aos Corintios, coloca-se o problema da coesão da comunidade frente às práticas gentias de um lado e o pensamento estrangeiro (notadamente as filosofias gregas) de outro. A Carta coloca o problema da unidade da comunidade. Como sabemos, esta é uma das primeiras comunidades cristãs, imersa no múltiplo mundo pagão.

Como manter-se cristão no mundo pagão? A Carta põe vários exemplos. Em primeiro lugar, não se pode ser "de Paulo" ou de qualquer outro. Todos são "de Cristo", a comunidade cristã se unifica por não haver um arauto maior do que outro (isso dividiria a comunidade), mas por uma espécie de igualdade imediata (ou pelo menos a pretenção dela) na qual todos se reconhecem como cristãos, e portanto não-pagãos.

Disso se seguem na Carta pelo menos duas vias de "argumentação" (pelo menos aqui interessantes): em primeiro lugar, uma demarcação das práticas cristãs, contrárias às pagãs; e em segundo, a unificação dessas práticas em torno do que Paulo chama de Igreja (assembléia ou ἐκκλησία), reunião de fiéis.

Talvez as citações "irracionalistas" acima se coloquem precisamente no contexto da demarcação da "comunidade cristã", em detrimento dos pagãos. Paulo reitera as diferenças a todo momento, das práticas sociais até mesmo às mais íntimas e sexuais. Diversos fiéis se envolvem com práticas doravante "moralmente negativas" ao cristão. Diante deles, Paulo tipifica cada prática, aponta o caráter negativo e o contrapõe à conduta conforme à "comunidade".

Uma dessas práticas pagãs, como se sabe, é a "filosofia", ou pelo menos certas escolas ou receitas práticas de gnose ou sabedoria difundidas na época (os judeus tinham a tipificação das condutas na halaká). A multiplicidade dessas escolas e seu lugar relativamente cotidiano coloca pelo menos dois problemas aos cristãos: em primeiro lugar, as comunidades cristãs são apenas uma "opção" dentro de um universo de outras "comunidades" da época; em segundo, como a própria história dos textos sagrados mostra (penso em Caos, Cosmos e o Mundo que Virá, de Norman Cohn), em tal mundo múltiplo o risco de "contaminação" das crenças é enorme. O risco de relativizar a crença cristã ou misturá-la com outros julgamentos é tão grande quanto existem outras escolas de "pensamento" e outros modos de vida na época.

Provavelmente o irracionalismo paulino provém desse tipo de contexto. A "sabedoria humana" é "loucura" para Deus, e a sabedoria divina é "loucura" para o homem. De um lado figuraria o caráter finito do conhecimento humano e a impossibilidade dele se sustentar em si mesmo; de outro, a sabedoria infinitamente superior de Deus limitaria qualquer tentativa finita de delimitá-la. Duplo sentido: a sabedoria humana (especificamente pagã) é vã, porque humana; e por outro lado, os cristãos, advogados dessa sabedoria "infinita" porém inacessível, cairiam para alguns em descrédito (esse é um dos temas da Carta), pois quem advoga aquilo que não sabe?

Como alguém advoga aquilo que não sabe? O decorrer da Carta nos mostra a segunda opção acima: não há "Igreja", "assembléia" ou "comunidade cristã" sem pelo menos uma dupla identificação dos fiéis: identificação de estados de espírito, e também uma espécie de compartilhamento das inteligências. Em 1Cor 14, ao falar do rito da "oração em línguas estranhas", Paulo emprega duas noções importantes, os gregos nous (νους) e pneuma (πνευμα):

O mesmo acontece convosco a respeito das línguas: se não pronunciais palavras inteligíveis, como se entenderá o que dizeis? Estaríeis falando ao vento.
Existem no mundo não sei quantas espécies de linguagem, e nada carece de linguagem/sentido
Ora, se não entendo o significado de uma língua, sou como um bárbaro para aquele que fala e aquele que fala é como um bárbaro para mim.
Assim também vós: já que aspirais aos dons do Espírito, procurai tê-los em abundância, para a edificação da Igreja.
É por isto que aquele que fala em línguas deve orar para poder interpretá-las.
Se oro em línguas, o meu espírito está em oração, mas a minha inteligência nenhum fruto colhe (1Cor 14, 9-14) 

Paulo coloca a "oração em línguas" ao lado das línguas dos bárbaros. Nada carece de linguagem ou sentido, para cada falante há um sentido. Mas isso cria para o fiel uma armadilha, expressa no último versículo: um estado de espírito puro e simples do fiel não traz "fruto" algum, pois colhe-se o "fruto" quando a "espiritualidade" se une à "inteligência". E inteligência, como se percebe, não diz respeito ao puro julgamento privado, mas ao apelo às outras inteligências. O fiel que apenas "ora em línguas", ou melhor traduzindo, o fiel que busca impor práticas e interpretações privadas não traz frutos à comunidade dos fiéis, pois se assemelha ao bárbaro.

Pior ainda: quando o fiel não se atém ao julgamento alheio ele faz exatamente o contrário do que prega Paulo na Carta: em uma comunidade ameaçada pela fragmentação, tal fiel escolhe ser um Partido entre outros, ameaçando o próprio pressuposto do caráter unitário da comunidade:

"Se deres graças com teu espírito, como responderá amém à tua ação de graças aquele que ocupa um lugar particular, se não sabe o que dizes?" (1Cor 14, 16).

O "particular" acima é traduzido de diversos modos: "privado", "próprio", e até "indouto". Mas provém de uma palavra grega muito importante em várias tradições: ιδιωτου, idiotou. E aí a importância do papel eclesial ou comunitário da "assembléia" ou "igreja", relacionado à comunicação entre as inteligências, contrapõe-se em Paulo à ausência de "frutos" ou comunicação vinda dos bárbaros, quando se busca universalizar um estado de espírito idiotou, particular. A "inteligência" (νους) está para a Igreja (ἐκκλησία) assim como o estado de espírito puro e simples está para o bárbaro e o lugar despótico do ιδιωτου. E Paulo reforça:

"Mas numa assembléia (ἐκκλησία), para instruir os outros, prefiro dizer cinco palavras inteligíveis do que pronunciar dez mil misteriosas" (14,19).

Podemos retornar agora ao texto de Cícero. Ele mencionou uma série de tentativas de atualizar Paulo e esse caráter comunitário, entrevistas não mais nos cristãos frente aos pagãos, mas na inteira universalidade humana. Em tal universalidade o uso da razão e da crítica confeririam um caráter comunitário por excelência, enquanto os juízos privados alçados à universalidade resultam na "secularização do pensamento religioso" e no "ápice do irracionalismo". Provindo de pretensos fiéis ou não, este é o princípio do fascismo e do fundamentalismo, a identificação de certas inspirações privadas com verdades universais (e não importa aqui o número de adeptos, mas simplesmente seu fechamento no idiotismo), trocando a discussão comum pela simples imposição (não necessariamente coerciva).

Em um texto exemplar sobre esse tipo de discussão, Diego Viana parte do problema da comunidade no protestantismo luterano (vale ler o texto inteiro, pois Diego parte do "debate" acima e extrai, para além dele, todos os elementos desse tipo de discussão):

 O fato é que Lutero pregava a salvação pela graça e a orientação pelo recolhimento diário para leitura e exegese dos textos sagrados cristãos, no âmbito individual e, por extensão, comunitário. Salientar o comunitário como extensão do individual é de fundamental importância para não cair no erro de determinados argumentadores, sobretudo evangélicos, como o [pastor em questão]. Dentro de uma comunidade bem delimitada, a aceitação (leia-se fé) de algumas interpretações básicas das escrituras funciona como conjunto de postulados para promover a vida religiosa comunitária, calcada sobre um desenvolvimento conjunto, no interior daquela coletividade específica e delimitada, de uma compreensão global dos textos sagrados. Não é à toa que grande parte da teologia e do pensamento político alemães partem da noção de comunidade.

O que tenta fazer o intérprete leviano do sola scriptura e do sola fides é incinerar o conceito de comunidade. Mas, como algum tipo de formulação coletiva é necessária num universo não-autista como o nosso, o que acaba acontecendo é algo profundamente perigoso: a comunidade é engolida pelo conceito de indivíduo. Isso permite a qualquer fiel isolar um versículo, aplicá-lo a algo em que tem convicção, e alardear suas próprias conjecturas como sendo a palavra de Deus.

A armadilha não poderia ser mais clara. O raciocínio por trás dessa atitude considera como verdadeira a seguinte conseqüencia: se os textos sagrados manifestam a palavra de Deus, então tudo que pode ser tirado de um texto sagrado manifesta a palavra de Deus. É um evidente caso de premissa omitida. Mesmo admitindo que toda escritura manifesta a palavra de Deus, quem “tira” interpretações desses textos não é Deus. São homens, mesmo que eles se creiam inspirados pelo Espírito Santo.

O que, a princípio, poderia vir salvar essa leitura solipsista das escrituras é o sola fides. Ora, lembremos que o sola fides é um rumo para a salvação, quase um atestado de “adesão” ao sola gratia, considerado em geral o princípio fundamental do luteranismo e retomado pela maior parte das denominações protestantes. Portanto, ele não pode ser usado como princípio que valide argumentos de cunho social, isto é, coletivo. O motivo é muito simples: não há mecanismo individual nenhum para assegurar o fiel de que sua fé está bem encaminhada; a própria Bíblia possui mais de um trecho destinado a alertar o fiel para a projeção em Deus de suas próprias convicções.

Vale reler a citação acima (e as questões extraídas pelo Diego Viana no texto inteiro): Lutero ataca certo tipo de fé desvinculado da comunidade, tentando restabelecer a necessidade desse apelo comunitário. "Não há mecanismo individual nenhum para assegurar o fiel de que sua fé está bem encaminhada", retirar passagens soltas da Bíblia como se lê Torres Pastorino não atesta palavra divina alguma, apenas um artifício arbitrário do fiel. Não se recorre à "Palavra" (como se diz por aí), mas apenas a si mesmo.
 
Pior: se nesse contexto a leitura solta parte de um aglomerado de idiotias (digamos assim), tais arbitrariedades se julgam imediatamente capazes de garantir a salvação do outro e a própria, eliminando qualquer possibilidade de pergunta sobre o que se faz consigo ou com o outro.
 
Diego aponta a conclusão inevitável: isso "incinera" a fé e o princípio de comunidade. De certo modo Paulo, e depois Lutero e essas  tentativas de atualizar a "universalidade" paulina, estabelecem uma tensão: de um lado a abertura da pergunta (o "Deus invisível", a "loucura" da Cruz, etc.); de outro o apelo à comunidade ou à consciência/inteligência alheia. O rompimento dessa tensão culminaria de um lado no fanatismo e de outro no fascismo. Como se a chamada "universalidade cristã"  (ou pelo menos o legado dela) se ligasse de um lado à abertura da fé, e de outro à circunscrição dessa fé dentro de um mundo mediado pelos outros e pela razão alheia. Como se o circuito se tornasse virtuoso, vinculando a pergunta à figura do outro, ao contrário do círculo vicioso do fanático e do fascista, onde as próprias respostas se vinculam à incondicional adesão alheia.
 
A questão é tão visível que diz respeito à agora famosa "oração da propina", ainda fresca na memória do brasileiro. Não resume ela em  poucas linhas todo o problema abordado acima?
Pai, quero te agradecer por estarmos aqui, sabemos que nós somos falhos, somos imperfeitos, mas é o teu sangue que nos purifica. Pai, nós somos gratos pela vida do Durval ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para essa cidade. Tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele, contra nossas vidas. Nós precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham, Senhor, armas para nos ajudar essa guerra. Acima de tudo, Senhor, todas as armas que podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, todas as nossas atividades, mas o Senhor nunca falha. ..O Senhor tem pessoas para condicionar e levar o coração para onde o Senhor quer. A sentença é o Senhor que determina. O parecer, o despacho é o Senhor que faz acontecer. Nós precisamos do livramento da vida do Durval, dos seus filhos, dos seus familiares. O Senhor é a nossa Justiça.
 

December 10, 2009

Reuters - Fotos do ano 2009

Vale a pena ver todas. Seguindo a tradição, as fotos de 2008, 2007, 2006 e 2005.

Steve McCurry: Crianças brincando

 No matter how dire the situation, how dangerous the environment, children  need to play. [fonte]
Steve McCurry publicou em seu weblog uma pequena coletânea de fotos com crianças. Seu comentário é muito interessante: criança brinca (e precisa brincar) em qualquer lugar.
 
Passando para terras tupiniquins, de algum modo isso evoca os resultados de um projeto muito interessante da UFRGS, chamado Cep-Rua. Vale muito a pena consultar os dois links ;)

December 4, 2009

Livre iniciativa

Ninguém fala mais entusiasticamente de livre-empresa, de leis de mercado e "que vença o melhor" do que a pessoa que herdou tudo do pai (Millor Fernandes, via @meandros)

December 2, 2009

Google News, “mensalão do DEM” e 2010

Em tempos de "crise", memória curta e tentativas indigestas de generalizar o termo "mensalão" para outros escândalos (e não o contrário, notar que o "mensalão" foi mais um desses escândalos), acessar o Google News é um exercício muito interessante (para não dizer importante).

Por exemplo, um certo José Roberto Arruda. Ele renunciou o mandato de senador após o escândalo da violação do painel eletrônico do Senado (quando ainda era do PSDB e líder do governo FHC). Sua renúncia abriu caminho para a renúncia do próprio ACM (o coroné baiano até tentou culpar exclusivamente o comparsa). Nela, o que disse?

Não roubei. Não matei. Não desviei dinheiro público. Mas cometi um grande erro. Talvez o maior da minha vida.[fonte]

Após a renúncia, Arruda obteve nova aprovação do eleitorado, elegendo-se primeiramente deputado e depois governador. Em uma reportagem da Veja, ele se posiciona de um modo curioso: defende um certo "fisiologismo ético":

Em entrevista à revista Veja, em julho, intitulada “Ele deu a volta por cima”, Arruda disse que é “impossível governar sem fisiologismo”. Quando questionado sobre qual era é o seu limite em relação à fisiologia, ele respondeu:

– É o limite ético. É não dar mesada, não permitir corrupção endêmica, institucionalizada. Sei que existe corrupção no meu governo, mas sempre que eu descubro há punição.

Já começamos a descobrir onde foi parar a ética do fisiologismo. Mas e agora, "mensalão do DEM"? Figuras como ACM Neto tentam desmentir a expressão (será que nos próximos dias algumas emissoras não mudarão o "mensalão do DEM" para "mensalão de Arruda"?). Mas entre a renúncia de Arruda e o "mensalão" de hoje, qual o seu papel no PFL?

Tratou-se de um papel muito positivo, por sinal. Obviamente, a princípio nada além de uma simples renúncia problematizaria a posição de Arruda, certo? Notemos bem: entre a corrupção de Arruda e Arruda, a relação é de exterioridade. Tese endossada com muita ênfase por diversas lideranças que hoje discursam, com relutância, sobre sua expulsão nem tão sumária assim do partido:

Agripino avalia que o senador foi rápido no gatilho [quando renunciou] e com uma "atitude firme e corajosa, marcou positivamente seu destino e deu alívio aos seus colegas, evitando o constrangimento de ter que julgá-lo". Agripino acredita inclusive que Arruda voltará em breve para o Congresso. "Tenho sérias desconfianças que o eleitor do DF, fora do clima de emoção, vai reconduzi-lo ao Congresso no ano que vem".

"Clima de emoção": uma cortina de fumaça "emotiva" que impede o eleitor de ver a verdade. "Verdade": um Arruda livre da corrupção?

Ou então vejamos a primeira convenção nacional do PFL depois de mudar o nome. Em 2007, o partido pretendia lançar candidato para 2010. Quem estava entre os mais qualificados? Rodrigo Maia dá o tom, referindo-se também ao "fisiologismo ético":

Por ora, entre os nomes mais cotados está o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Em primeiro mandato, o ex-líder do governo Fernando Henrique Cardoso recebeu tratamento diferenciado. Ao anunciá-lo para falar aos convencionais, Rodrigo Maia classificou-o como último e principal orador do dia.

Teve coragem de cortar gastos e tenho certeza de que chegará a 2010 como o governador mais bem avaliado do país , disse o presidente dos democratas. Seis banners espalhados pelo Senado (local da convenção) diziam que Arruda é democrata .

O governador levou muita gente ao encontro do partido. Toda vez que seu nome era citado pelos oradores, os presentes o aplaudiam. Gritos de Arruda presidente ecoavam em vários momentos.

Ou

Ninguém vai querer disputar em 2010 se não construirmos uma base. E nomes, temos o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda… [fonte]

De 2007 para cá, o cenário talvez mudou mais do que o PFL esperava. O partido negociava com o PSDB a aliança, na qual o vice seria pefelista. Mas com o "mensalão do DEM", o PSDB do DF se retirou do governo e portanto da base de defesa de Arruda. Há quem diga que isso pode inclusive atrapalhar a aliança em 2010. A reação do PFL,  nas palavras do mesmo Rodrigo Maia que há pouco enfatizava as virtudes de Arruda, foi curiosíssima:

Na avaliação dos dirigentes do DEM, a decisão tucana serviu para aumentar o desgaste político do partido, que ficou isolado na administração do escândalo. Foi o suficiente para que o presidente da sigla, deputado Rodrigo Maia (RJ), atacasse o PSDB, fazendo referências às denúncias contra a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, que precisou usar sua força política regional para evitar o sucesso de uma CPI contra seu governo.

"Respeito a decisão de qualquer partido. Mas nós do DEM somos o único partido que está investigando as denúncias contra um filiado. O PSDB poderia ter investigado a governadora Yeda Crusius, mas não fez. Nós faremos investigação", criticou.

Maia foi mais além e se irritou com a possibilidade de o partido supostamente perder a vaga de vice numa chapa presidencial encabeçada pelos tucanos por conta do escândalo. "Se for levar em conta escândalos para definir vaga em chapa, talvez o PSDB nem pudesse lançar candidatura presidencial", atacou.

Como ler tais declarações? Elas são incríveis! Talvez elas são tão mais incríveis enquanto servem de recurso retórico e estratégico dos políticos, espécies de compromissos afirmados em posições não definitivas, quando tudo está ainda suspenso e os fins das negociações não são evidentes. Se o PSDB se distancia, as declarações se agravam; caso se aproxime, a "ordem" se restabelece.

O presidente do próprio PFL declara indiretamente que no caso de Crusius nem está tanto assim em questão problemas efetivos de seu governo, mas sim o apoio político que impediu até uma CPI. Se no RS o PFL ajudou, no Distrito Federal o PSDB não correspondeu. Entre a política e a verdade a ligação não é direta. E se levássemos isso tudo ao limite? "Se for levar em conta escândalos para definir vaga em chapa, talvez o PSDB nem pudesse lançar candidatura presidencial"!

Dada a posição do orador, quem somos nós para duvidar?

November 30, 2009

Pagamentos, imprensa e “mensalão”

Para que serve a "justiça"? Para manter a ordem, dirão alguns. Outros poderiam dizer com mais rigor: para regular as desordens. Mas ordem e justiça não se equivalem, todo mundo sabe disso. A ponto de vermos curiosas declarações de defesa como essa:

"Pelas notícias que eu tenho é material apócrifo, sem assinatura e indicação de autoria (…) Lamento que uma vez mais material confidencial seja entregue à imprensa antes mesmo que os advogados constituídos nos autos tenham ciência dele."

Tal frase é da defesa de uma grande empreiteira, após a suspeita pública e relativamente difundida de seu envolvimento até mesmo com pagamento de mesada a políticos (tal empresa presta favores privados a FHC desde o governo e financiou o filme de Lula, aspectos que de algum modo mostram sua importância evidente). Notícia de primeira grandeza: a mesma empresa financiou as últimas campanhas de um grande número de prefeitos e governadores (o leitor já viu se a empresa financiou o seu?). E para deixar mais interessante, a mesma empresa também venceu licitações para empreendimentos de primeira grandeza.

Pode-se dizer que a defesa tem razão, como efetivamente tem alguma: em uma sociedade de direito, é complicado distribuir publicamente suspeitas sem antes haver um parecer formal, certo? Complicado é, diante de tanto material "apócrifo", adotar esta mesma tese sabendo que

1) em outras situações, como a do "mensalão", o caráter de suspeita rapidamente se converteu em denúncia formal, investigação e culpa; e essa culpa espalhada pelo socius, por sua vez, rapidamente se tornou algo como um marco regulador de qualquer outro caso semelhante.

2) O caso em questão, por exemplo: alguém duvida que no caso de ampliação de sua visibilidade ele não receberá o nome de algum tipo de "mensalão", "mensalinho" e afins? Prática já consolidada, tanto para casos posteriores ao "mensalão" propriamente dito, quanto retrospectivamente, como no "mensalão" mineiro.

3) O que faz os itens 1 e 2 deporem também contra a cobertura midiática: em alguns momentos a imprensa parece imprensa, colhe informações, busca o rigor, tenta deixar de lado atalhos retóricos, para fechar qualquer brecha com dados; mas em outros momentos e sem motivo aparente os mesmos organismos midiáticos escolhem os atalhos retóricos e as desqualificações. 

4) Um grande agravante do estabelecimento da "justiça" e da investigação da imprensa é a morosidade dos trâmites legais. O caso em questão se refere aos anos 90 (para não mencionar seus efeitos hoje). Se admitimos uma situação ideal na qual a imprensa cumpre seu papel, a velocidade de apuração jurídica coloca obstáculos sérios ao exercício da imprensa. Citações como a acima rapidamente poderiam se confundir com atestados de impunidade.

Às vezes uma denúncia material é seguida com rigor até sua apuração detalhada; outras vezes uma ilação conjectural e de fonte duvidosa se transforma em denúncia com "D" maiúsculo. 

Sem contar essa generalização do "mensalão". Como se aquele, carimbado por Roberto Jefferson, servisse de paradigma originário para qualquer outro caso visto como semelhante - uma espécie de corpo estranho contingente, não coextensivo a um incorruptível Brasil. 

Se o carimbo serve de paradigma originário, as denúncias atuais ganham o mesmo nome, mas curiosamente não os mesmos ânimos.

Qual é o problema? Enquanto a imprensa - ou a justiça - não respondem, a semana passada nos deixou dois exemplares (ou pelo menos "fortes indícios" ou algo que o valha) do que agora se costumou chamar de "mensalão": tanto uma grande empreiteira investigada há vários meses, quanto o governador do Distrito Federal, são alvo de investigações sobre pagamentos indevidos a políticos.

Se a imprensa ou a justiça não possuem respostas (ou boas perguntas respondidas), não faltam versões aos contemplados. Como essa, de uma chapa recém eleita (também financiada pela empresa em questão):

Imagino que muitos desses contribuintes de campanha sejam idealistas que vêem na liderança do candidato a perspectiva de dias melhores.

 

November 28, 2009

Viajando na maionese

A semana foi agitada. Por último, mas em primeiro lugar, o ataque de César Benjamin - ou mais precisamente da Folha de São Paulo -, acusando o presidente de sodomita e estuprador:

Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: “Você esteve preso, não é Cesinha?” “Estive.” “Quanto tempo?” “Alguns anos…”, desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: “Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta”.

Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de “menino do MEP”, em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do “menino”, que frustrara a investida com cotoveladas e socos.

Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o “menino do MEP” nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram.

O "outro publicitário brasileiro" mencionado acima - Silvio Tendler - escreveu suas próprias impressões, desmentindo Benjamin:

Você estava lá? Você, o Lula, o César Benjamin, o publicitário Paulo de Tarso e o tal marqueteiro dos Estados Unidos?

Na verdade eu não me lembro é do César Benjamin lá no almoço (…) e, sim, o publicitário que ele diz não lembrar era eu. E ele, se estava lá, sabe e se lembra que era eu; não tinha mais três publicitários na campanha, portanto ele sabe que era eu quem estava lá…mas eu não sei se ele estava, não me lembro, de verdade, se ele tava na sala. Ele agora diz não se lembrar do “publicitário” porque sabe que eu não iria corroborar essa maluquice, até porque eu vi, testemunhei, a quantidade de erros, de bobagens que ele cometeu durante a campanha… (…)

Ok, esses detalhes à parte, você estava à mesa do almoço no dia da tal conversa do Lula?

Eu estava lá, sentado à mesa. Eu sou o publicitário “anônimo” que estava lá. O Lula, um cara que foi brincalhão durante toda a campanha, mesmo quando já tava tudo perdido. Eu até pensava “esse cara passa a noite pensando em como sacanear os outros”, porque todo dia tinha uma piada, um brincadeira, uma vítima de gozação… nesse dia o Lula queria chocar o tal marqueteiro americano… (…)

E o que aconteceu?

…e aí, nesse dia, o Lula, claramente num clima de brincadeira, tava a fim de sacanear, de chocar o americano com essa história dele “seco” na prisão, todos na mesa, nós todos, sabíamos que aquilo era uma brincadeira, era gozação, sacanagem, e imaginando como seria se fosse traduzido pro cara…

Você tem, teve então a certeza de que era uma brincadeira? Não teve e não tem nenhuma dúvida?

Nenhuma. Era claro, óbvio que era uma brincadeira, mais uma piada, mais uma gozação do Lula, nenhuma dúvida. E além disso a história, a cena toda não teve de forma alguma esse ar, essa dramaticidade que o César enfiou nesse texto melodramático. É incrível essa história… todos sabíamos que aquilo era uma brincadeira, como tantas outras feitas durante a campanha…

As tais “conversas de homem”…

Nem era esse clima “conversa de homem”, era brincadeira, pura gozação, nenhuma responsabilidade, nunca, nunca com esse tom de “confissão” que o Benjamin fez parecer que teve. E você acha que se isso fosse, soasse verdadeiro, todos nós não ficaríamos chocados? Todos ali da esquerda, com amigos presos, ex-presos e tudo mais, você acha que nós ouviríamos aquilo com tom de verdade, se assim fosse ou parecesse, e não reagiríamos, não ficaríamos chocados?

Na sua opinião, que conhece os personagens dessa história, o que aconteceu?

O César Benjamin guardou ressentimentos por 15 anos para agora despejar todo esse rancor. Ele pirou com o sucesso do Lula. Ele transformou uma piada num drama, vai ganhar o troféu “Loura do ano”.

O Paulo de Tarso estava lá?

Estava. E estava o americano… pensa só uma coisa: você acha que o Lula, logo o Lula, tão pouco esperto como ele é, em meio a uma campanha presidencial, vai chegar na frente de um gringo que ele mal conhecia, um gringo que vai voltar pro país dele e contar tudo o que viu, você acha que o Lula vai chegar pra um gringo que nunca viu, na frente de testemunhas, e vai contar que tentou estuprar alguém? É, foi óbvio, evidente, que aquilo era gozação, piada, brincadeira, sem nada desse drama todo do Benjamin de agora… rimos e ninguém deu a menor importância àquilo…

Você, um cineasta, um documentarista que viveu a cena, relembrando-a quadro a quadro, o que verdadeiramente pensa, o que diria hoje?

O Lula adorava provocar… era óbvio para todos que ouvimos a história, às gargalhadas, que aquilo era uma das muitas brincadeiras do Lula, nada mais que isso, uma brincadeira. Todos os dias o Lula sacaneava alguém, contava piadas, inventava histórias. A vítima naquele dia era o marqueteiro americano. O Lula inventou aquela história, uma brincadeira, para chocar o cara… como é possível que alguém tenha levado aquilo a sério?

Um dos presos com Lula, hoje presidente do PSTU (Zé Maria), também desmente:

Lula foi detido pela polícia política no dia 19 de abril de 1980 e libertado no dia 20 de maio. Nesses 31 dias chegou a dividir a cela com até 18 pessoas. Um de seus companheiros mais jovens, com 23 anos, era o atual presidente do PSTU, José Maria de Almeida - na época militante da Convergência Socialista. Ontem, após ler o artigo, ele comentou: "Tenho motivos para atacar o Lula. O seu governo é uma tragédia para a classe trabalhadora. Mas isso que está escrito não aconteceu. O Benjamim viajou na maionese. Não me lembro sequer de que havia alguém do MEP preso conosco."

E o mesmo para outro preso, Enilson Simões de Moura:

O vice-presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Enilson Simões de Moura, o Alemão, também estava na cela. Após classificar o comentário de Benjamin como “absurdo”, comentou: “O que eu lembro é que, brincando com uma bola de basquete, Lula acertou sem querer a cara do rapaz do MEP”. Não lembrou, no entanto, nome do rapaz.

A segunda crítica vem de O Globo, em um surpreendente recurso retórico da capa: Lula estimula consumo e produtos começam a faltar:

 

Dada a visível linha editorial da Globo (o privilégio pelo mote de "cortar gastos" ao invés do favorecimento ao consumo interno), as reaçoes foram imediatas (resta ver agora as associações entre Lula e Stálin). Isso, como pastichou PHA e vinculou a própria Globo, "Especialistas ouvidos pelo GLOBO já se mostram preocupados com as desonerações".

A terceira crítica ao governo foi referente a Honduras, pelas posições discordantes entre Brasil e EUA. O Jornal Nacional encarnou o parecer da Veja, sobre o "imperialismo megalonanico". Duplo recurso retórico: de um lado identifica uma espécie de "veracidade" maior no peso da posição norte-americana, deslocando a discussão sobre a legitimidade da deposição para o simples assentimento ao que os EUA decidiram; de outro lado, desqualifica qualquer posição autônoma brasileira. Isso, sem colocar em debate as consequências da posição brasileira na política externa, resumindo tudo a uma espécie de dependência implícita e sem recursos. Simples desqualificação do "adversário", nítida até na edição: os críticos, e não os defensores, dão os juízos conclusivos. E se o recurso é ao "especialista", não se consultaram especialistas com argumentos afins à posição brasileira.

O que surpreende não são as críticas ao governo Lula, mas o princípio retórico delas. É óbvio, trivial que um governo pode e deve ser criticado (e nesse sentido, durante a semana Rodrigo Cassio vinculou uma boa entrevista com Jacques Rancière). Mas não com alusões ad hominem, simples desqualificações travestidas de argumento, generalizações equivocadas e afins, não é mesmo?