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September 23, 2011

Curitiba, “cidade resiliente”


 
 
De acordo com o Blog Empresa Verde, fez-se uma pesquisa na gringolândia na qual se delimitou Curitiba como a segunda cidade mais resiliente do mundo. Por cidade "resiliente" entende-se "aquela empenhada em retornar a seu estado de equilíbrio ecológico após passar por intenso processo de urbanização". Segundo o blog, "pesou" muito na decisão a implementação do biarticulados e ligeirinhos, décadas atrás. 
 
Um olhar atento (ou nem tanto, convenhamos) sobre Curitiba mostra como essa decisão é surpreendentemente estranha, a começar pelo "décadas atrás".
 
Em primeiro lugar, todas as medidas predominantes nos últimos tempos (década[s]?) foram, quando muito, paliativas: a qualidade do transporte público decaiu na mesma medida em que Curitiba passou a possuir a maior frota do Brasil por habitante, dois carros para cada três pessoas. Muitas linhas retiraram cobradores e diminuiram o tamanho dos ônibus (quando não a própria frequência). E - o que é importante e decisivo - o crescimento da "malha" não acompanhou a demanda, criando um contra-efeito nocivo e nem um pouco resiliente: a migração, de quem tem condições, aos carros.
 
Vale repetir: a política de transporte de Curitiba, durante os últimos governos, tem feito sistematicamente o usuário migrar para o carro, e não deixá-lo na garagem em virtude de uma evolução do transporte. 
 
 
 
Isso sem contar as novas demarcações nas ruas, convertidas sistematicamente para um sentido único. Ou ainda a conversão de faixas de estacionamento em novas vias. Tudo converge em um nome: carro.
 
Se a pesquisa aponta a cidade mais resiliente, é estranho considerar o que Curitiba não é. Pode ter sido um dia, mas quem vive de passado é museu e as últimas prefeituras nem de longe atualizaram o que um dia foi motivo de elogio (dentro de alguns lampejos cujo olhar de qualquer historiador verá que se articulam com propósitos ainda não bem esclarecidos…).
 
Isso sem contar a largura das principais vias da cidade. Se os prefeitos das primeiras décadas do século passado não pensassem em criar vias largas…

September 21, 2011

Sobre a invenção do povo judeu


Muito interessante a resenha de André Egg do livro A Invenção do Povo Judeu, de Shlomo Sand.

O ponto forte, a considerar a resenha do André, parece ser a análise das justificações atuais de Israel para se firmar como Estado independente. Tais justificações, baseadas no mito de uma etnia escolhida e privilegiada por Deus, acabam criando nocivas relações entre Estado e religião (com o judaísmo determinando práticas institucionais que deveriam ser laicas), sem contar que criam categorias diferentes de cidadão e restringem direitos de algumas delas.

Considerando a resenha, Sand parece também querer avaliar o grau de "veracidade" de tais justificações, por exemplo analisando se os judeus antigos eram verdadeiramente um "povo" ou uma comunidade religiosa. O que não parece ser tão reforçador do argumento mais forte acima - o do próprio uso das justificações -, pois enfim cada religião tem seus mitos e justificações, mas o que é grave ou não é a maneira de cada uma empregá-los.

Um documentário muito interessante na linha do "ponto forte" acima é Road to Palestine, de Robert Fisk. Ele mostra em viva imagem, no cotidiano das ruas, as justificações do texto de Sand apresentadas por André, sobre Israel se fundar como Estado a partir de algum tipo de promessa divina a um povo escolhido.

Outros livros que seguem ou parecem seguir a mesma linha são A Grande Guerra pela Civilização (de Robert Fisk, bastante citado por aqui), The Ethnic Cleasing of Palestine (de Ilan Pappé, informe, comentários por Idelber Avelar e Daniel Lopes - e uma entrevista aqui) e Israel’s Occupation (de Neve Gordon, informe aqui).

September 19, 2011

Píndaro (dois excertos)


Elísio

Enquanto aqui é noite,
o sol fulgura vigoroso para eles
no mundo subterrâneo;
e diante da cidade,
pelos campos de rosas carmesins, o incenso
derrama a sua sombra,
e os ramos vergam-se com frutos de ouro.
Uns se divertem com cavalos ou lutando,
enquanto jogam outros, ou a lira tocam,
e entre eles a felicidade é como a árvore
que já cresceu de todo e se acha em flor.
Por essa terra amável
um doce aroma sem cessar se espalha:
nos altares dos deuses eles mesclam
arômatos de toda espécie
ao fogo que de longe brilha.

Denso negror expelem no outro lado
os lentos rios da sombria noite

***

(excerto da 3ª Pítica)

 Melhor é desejar do céu
coisas que assentem a um espiríto mortal,
sabendo o que se encontra a nossos pés,
e qual a sorte para que nascemos.

Ó minh’alma, não aspires
a uma existência de imortal,
mas goza plenamente
tudo o que esteja ao teu alcance.

Traduções de Péricles E.S. Ramos, no excelente blog "Primeiros Escritos"

September 16, 2011

A cidadania dos cães


Photobucket

Adiante, o espetáculo universal: um carteiro tenta inserir uma encomenda na caixa postal de uma casa; em contrapartida um cão, aos saltos, tenta sistematicamente alcançar e arrancar um pedaço da mão do carteiro. Enquanto pula, late.

É exagero dizer que um cão pula "sistematicamente". Trata-se de um desses cães simpáticos, peludos,  feitos para passear e suprir a solidão de alguém contra tanta gente desinteressante ou indigna ao redor. Quanto ao carteiro, após ele conseguir inserir a carta, percebeu que eu o observava. Olhou em minha direção com um misto de surpresa, revolta e indignação, como se dando conta da situação non sense, do observador inesperado e das condições de trabalho inusitadas.

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September 14, 2011

Sobre quem constrói o mundo e suas visões


"A visão de mundo mais perigosa é a visão de mundo daqueles que nunca viram o mundo". Alexander von Humboldt (14.9.1769–1859)

Postado por andrevallias

"É coisa de quem sai pouco do próprio bairro"

, afirmou Sylvia Colombo na FSP, sobre o infeliz lançamento do "Guia do Politicamente Incorreto da América Latina"

"What do you expect?" the gardener asked me near the ruins of the old royal winter palace in Jalalabad. "The Taliban came from the refugee camps. They are giving us only what they had." And it dawned on me then that the new laws of Afghanistan - so anachronistic and brutal to us, and to educated Afghans - were less an attempt at religious revival than a continuation of life in the vast dirt camps in which so many millions of Afghans had gathered on the borders of their country when the Soviets invaded 16 years before. 

Essa é de Robert Fisk, em A Grande Guerra pela Civilização/Great War for Civilization (passagem ampliada).

Variações que remontam a… 2500 anos? Durante o governo Bush, um assessor de alto escalão disse a um jornalista do NYT: 

O mundo não funciona mais assim. Somos um império agora, e quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto vocês estudam essa realidade - judiciosamente, como queiram -, agimos novamente, criando outras novas realidades, que vocês podem estudar também, e aí está como as coisas serão. Somos os atores da história… e vocês, todos vocês, apenas ficarão estudando o que nós fazemos. 

Já as versões tupiniquins sempre têm seu coeficiente próprio de arretância. Essa de Nelson Jobim - ainda fresquinha - superou todas as expectativas. Segundo ele, o Código Florestal não precisa tratar do futuro,

"pois estaremos todos mortos" 

Atkinson Grimshaw


 
Porque há tempos não postávamos nenhum pintor

September 6, 2011

“Você é a prova viva de que no Brasil político e rico sempre escapam da justiça?”


"Às vezes sim"

- Jaqueline Roriz -

Como se esse tipo de prática nada devesse a casos como o do Alceu.

September 5, 2011

Ágora, de Alejandro Amenabar


 

Quando assiste Ágora, filme de Alejandro Amenabar (2009, download do filme ou comprar DVD), por vezes o espectador é lançado, junto com as imagens, para o espaço. As tomadas, situadas nos dramas dos homens, de repente se afastam rapidamente da terra, mostrando então uma Alexandria cada vez mais pequenina (a despeito de sua grandeza histórica), até sumir do olhar. Junto com as imagens, os sons (o tumulto, o burburinho das intrigas), também gradativamente silenciam enquanto a "câmera" se afasta, deixando o espectador à mercê de um planeta mudo e desolador.

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September 4, 2011

Fundamentos do Politicamente Incorreto


 do Laerte
 

September 3, 2011

Eduardo Galeano, 71 anos


     Depois do golpe de 1973 não pude levar muita coisa comigo: algumas roupas, fotos da família, um saquinho com barro do meu jardim e dois livros: uma velha edição de Odes, de Pablo Neruda, e o livro de capa amarela, As Veias Abertas da América Latina (Isabel Allende)

Belo artigo de Milton Ribeiro sobre o aniversário de 71 anos de Eduardo Galeano.

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